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PODCAST 2: EXISTE MEDIAÇÃO DE LIVROS IDEAL?

O que é necessário pensar na hora de fazer uma mediação de livros?

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Não estou falando somente da hora da sala de aula. Da formação. Não estou falando apenas de mediações em instituições culturais, experiências coletivas de mediação de livros.

Estou falando também daquele momento em casa, na hora de dormir, na hora qualquer. Tem hora certa para apresentar um livro?

Neste segundo podcast, o programa de rádio que estou fazendo pela A Casa Tombada, conversei com Stela Maris Fazzio Battaglia, doutora na área de linguagem, especialista e pesquisadora da literatura infantojuvenil, experiente e atuante na formação de mediadores de livros e uma das professoras da pós-graduação O LIVRO PARA A INFÂNCIA: TEXTOS, IMAGENS E MATERIALIDADES, que tenho a felicidade de co-coordenar (com o arte-educador e pesquisador Giuliano Tierno) n’ A Casa Tombada, espaço no bairro de Perdizes, em São Paulo. (saiba mais aqui, inscrições até DIA 13 DE JULHO para a turma de agosto de 2016!). Este podcast nasceu da vontade de que as conversas ultrapassem os encontros em sala de aula!

Entre tantas boas coisas desta conversa, Stela disse que “a ideia de mediação ideal, como resultado da minha experiência, ela se ancora em que o mediador está absolutamente imbuído do que ele está fazendo; conhece para quem está fazendo e a obra que está mediando. É ideal por estas condições e não por uma fórmula”.

Ouça tudo aqui:

 

PODCAST: PÓS-GRADUAÇÃO O LIVRO PARA A INFÂNCIA

Por volta do ano de 2009, fui convidada por um grupo de pais de uma escola na cidade de Santos, SP, para fazer uma fala sobre o meu trabalho de curadoria de livros infantis na revista Crescer (ed. Globo). A revista havia se firmado como referência na área e era época da Lista dos 30 Melhores Livros Infantis do Ano da Crescer, que coordenei por 8 anos. (veja aqui a última). Quando estava montando a palestra – nunca havia feito isso antes! – precisava de um nome e um que primeiro veio à mente foi: LIVRO INFANTIL NÃO É LIVRINHO. Esta questão do uso do diminutivo atinge em cheio o universo do que é produzido para a infância e, por mais que alguém ache “bonitinho”, há muito preconceito por aí. Escolinha, pecinha, musiquinha, historinha… tomem cuidado. Há livros infantis, claro, que não passam de pouco caso com as crianças.

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Esta é a minha mala de livros onde carrego o material para as minhas aulas sobre literatura infantil, prática que iniciei em 2014. Tem aí o meu livro, Carmela Caramela, que fiz com o escritor, ilustrador (e um de nossos grandes autores) André Neves, pela Cortez Editora (olha ele ali amarelão).

Ao lado dele, há RIQUÍSSIMOS exemplares e exemplos da GRANDE literatura produzida pela infância. E é dela, sobre ela, como chegar a ela, como produzi-la e como exaltá-la que chegamos ao desejo de criar o curso de pós-graduação O LIVRO PARA A INFÂNCIA: TEXTOS, IMAGENS E MATERIALIDADES, da qual sou uma das coordenadoras. O curso é um acontecimento vindo de um sonho, de uma esperança. É com esperança que o pesquisador da oralidade e arte-educador Giuliano Tierno e a pesquisadora também e poeta Angela Castelo Branco criaram A Casa Tombada: Lugar de Arte, Cultura e Educação, no bairro de Perdizes, em São Paulo. Já habitavam por ali a pós-graduação A Arte de Contar Histórias e, agora, nós, apaixonados pela literatura dedicada à infância, também moramos lá. Para ambos os cursos A Casa Tombada está com inscrições abertas até dia 13 de julho!!! Vejam aqui como se inscrever!! (eu dou aulas em ambos os cursos, ao lado da minha mala laranja, rs).

Mas de que infância estamos falando? Que mercado é esse que foi formado no Brasil na última década? O que transformou a produção de livros infantis por aqui? Como ainda herdamos – e muitas vezes não conseguimos nos desligar – uma influência pedagogizante nas produções de livro e nas mediações de leitura? O que isso influencia na formação do leitor? E onde erramos quando pensamos que a criança é leitora em potencial e não uma leitora JÁ, nesse instante?

Não dá, né, para chamar esta potente literatura de “livrinho”, dá?

Estas perguntas – e outras tantas que surgem em todas as aulas e que se multiplicarão – são o fundamento deste curso e, para esta conversa se tornar mais próxima, iniciamos uma série de podcasts, em que eu entrevisto convidados que já estão entrelaçados conosco nesta empreitada.

O primeiro é uma conversa entre Giuliano e eu, veja aqui:

Mas seguiremos com os outros professores da pós – os autores, pesquisadores, especialistas e apaixonados pelo tema Susana Ventura, Odilon Moraes, Aline Abreu, Luiza Christov, Letícia Liesenfeld, Camila Feltre, Silvia Oberg, Stela Maris Fazio Battaglia, além de Giuliano, Angela – e convidados de fora! Aguardem!

Por enquanto, uma palhinha do que tem acontecido por lá.

Nos acompanhem! A hora é essa!

“LITERATURA DE BERÇO” PROMOVE AMBIENTE LITERÁRIO PARA ADULTOS E BEBÊS

ENTREVISTA: CÁSSIA MARIA BITTENS

Para onde vai a leitura quando uma família está próxima de ganhar um bebê? Há muito o que se aprender, resgatar, refletir… e, claro, às vezes há coisas demais. Tantas que o nosso tempo fica confuso e, quando vemos, nos desligamos do que somos para nos entregarmos inteiramente à grande novidade. A psicóloga Cássia Maria Bittens passou por isso e viu que a leitura literária foi afastada de seu dia a a dia e pensou: será que isso não acontece com outras mães também? E é aí que nasce o Literatura de Berço, encontros que acontecem em São Paulo com o intuito de resgatar a conversa sobre literatura entre adultos envolvidos na dedicação a um bebê e que, ao mesmo tempo, acaba criando um ambiente literário para que os pequenos já se sintam “em casa”.

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Assisti a um dos encontros e uma coisa me impressionou: as famílias eram diferentes entre si. Em tempos de tantas rusgas e julgamentos, é lindo ver que um projeto reúna várias “tribos”.

Conversamos um pouco para apresentar aqui no Esconderijos do Tempo o projeto, como se realizam os encontros e por que é preciso que a gente compartilhe esta iniciativa. O próximo encontro será com a querida Lúcia Hiratsuka (veja uma entrevista com ela aqui).

ESCONDERIJOS DO TEMPO: Para começar, me fale um pouco sobre você, sua experiência que une maternidade e leitura, etc.

CÁSSIA MARIA BITTENS: Meus pais e avós são grandes leitores, cada um à sua maneira, mas sempre se beneficiando da leitura. Mais que leitores, meus dois avôs foram grandes contadores de causos. Recentemente minha mãe relatou que sente saudades das rodas de contação que meu avô organizava uma vez por mês na fazenda na qual ele trabalhava. Cresci rodeada de alguns livros, não muitos, mas clássicos como a Coleção do Monteiro Lobato e outros mais antigos que meu pai leu quando criança como, por exemplo, Robinson Crusoé e a A volta ao Mundo em 80 dias. Eu sempre li, em algumas fases da vida mais e outras menos, mas sempre tenho um livro me esperando…

Quando fiquei grávida, a minha leitura preferida era sobre a gestação e o desenvolvimento intrauterino do bebê. Com a chegada da Zoé, no meio de tanta leitura específica e direcionada à maternidade, sentia falta de ter um momento só meu e a leitura “informal” prazerosa trouxe este resgate. Daí, eu quis dividir essa experiência com outras mães!

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ESCONDERIJOS: Por que e como nasceu a ideia do Literatura de Berço? Quando deu esse “click” de que era urgente fazer algo?

CÁSSIA: Tornar-se mãe, para mim, é uma experiência individual, portanto, solitária que amplia a nossa existência e relação com a própria vida e também com o outro. O Literatura de Berço surge nesta solidão e desejo de retomar o hábito da leitura como fruição.

Em julho de 2013, criei a oportunidade para o “Mamaço” em celebração a Semana Mundial de Aleitamento Materno ser na Casa das Rosas Espaço Haroldo de Campos e Poesia e Literatura (que é o único centro de poesia público do país). No dia do encontro, já em agosto, participando daquele movimento com tantas mães felizes envolvidas no jardim da Casa das Rosas , pensei “por que não colocar estas mães dentro da Casa unidas pela literatura e leitura?”. E em outubro do mesmo ano tivemos o primeiro Literatura de Berço.

Na época foi um ato intuitivo, partindo da minha própria necessidade. Quase não havia atividades para mães e bebês se divertirem, darem uma pausa para relação (mesmo estando juntos). Hoje afirmo que este é o diferencial do Literatura de Berço e posso explicar dos benefícios emocionais que os encontros propiciam para a díade mãe-bebê. Ler (por prazer) entra na relação como um dos auxiliares da individuação da nova mãe e do bebê, separando os dois mundos mentais, facilitando a compreensão no novo papel “mãe” e consequentemente reforçando o olhar para o bebê como um outro ser.

Outro ponto que devo ressaltar é que não existe bebê leitor sem pais leitores. Eu acredito e transmito a ideia da  importância da leitura para o bebê nos aspectos cognitivos e educacionais desde a gestação, porém se este não for um ato espontâneo, o resultado das estatísticas das Sociedades de Pediatria Americana e Brasileira amplamente divulgado e que temos lido, não será alcançado. Nos encontros me esforço para seduzir os pais a lerem por vontade e não por obrigação.

ESCONDERIJOS: Como você cria os encontros – algo mudou na trajetória?

CÁSSIA: Muita coisa mudou! Desde a idade-limite dos bebês até o tipo de texto apresentado.

Após dois anos de experiência, cheguei num formato que teve boa aceitação. Em quase todos os encontros temos: 1. Abertura, que eu falo da importância da leitura, o que ler para o bebê e apresento o tema/obra e o convidado. 2. Apresentação do tema/obra para a mãe. 3. Atividade relacionada ao tema para os bebês que não necessariamente a leitura. 4. “Chá da tarde” para as mães trocarem figurinhas. A duração é de duas horas e atualmente a idade limite é bebês com no máximo 15 meses e no total de 10 a 15 famílias participantes.

Muitas mães relatam que o contato entre os bebês é benéfico por si só, deixo alguns livros de pano e textura espalhados pela sala e só.

Como você percebeu, o encontro acaba sendo para a família, tendo uma preocupação com a mãe e outra com o bebê mas sempre tentando incluir a leitura para os dois.

Quando conseguir patrocínio para ampliar o projeto, poderei contemplar os 1000 dias do bebê com mais 2 públicos : gestantes e mães com bebês andantes.

Os projetos estão prontos, só falta verba mesmo, pois a demanda existe.

ESCONDERIJOS: Como é a abordagem real da literatura? :eva autores, leva especialistas, lê com a turma de mães e bebês, faz algum apoio como textos no Facebook ou de alguma outra forma…

CÁSSIA: O LDB aborda a literatura de 3 formas: 1. Convido “palestrantes”, normalmente mães, que falam de autores renomados da Língua Portuguesa 2. Convido escritores para falarem da sua obra. 3. Festa Temáticas que além da festa em si, conto a origem da festa e indico bibliografia.

Acho difícil as mães se organizarem para lerem com antecedência um texto então, na divulgação da programação é esclarecido o tema e as mães tem a ideia do que será mas não sabem o que lerão.

Os convidados “palestrantes” são orientados a falarem um pouco sobre a vida do autor e normalmente selecionamos poemas, crônicas ou contos curtos para conseguirmos ler do início ao fim. É um petisco sobre a obra do autor para deixar com vontade de querer conhecer mais no futuro. Um relato bonito que eu tenho de uma mãe foi sobre Machado de Assis, ao final ela disse “Nossa eu só conhecia o Machado de Assis do vestibular, não sabia desse outro lado”.

Já os convidados escritores, selecionam o que acham mais relevante da sua obra.

Em 2015 tivemos o primeiro arraial para bebês, o “Arraial Literatura de Berço”. Foi um sucesso! Além de contar sobre a origem da Festa, tivemos comidas típicas, Sanfona ao vivo, brincadeiras adaptadas aos bebês (pescaria com imãs, jogo de argolas com garrafas grandes e bastidores…) e uma quadrilha. Em junho, será o Segundo Arraial e o 2º Arraial já tem data, hora e local: 29/6 , às 14h30 na Casa da Cultura Carlos e Diva Pinho.

A maioria dos bebês que frequentam o LDB estão em casa com suas mães em tempo integral e acredito que o contato com os outros bebês é um estímulo mais eficiente para o seu desenvolvimento, então na maior parte do encontro, os bebês que já engatinham circulam pela sala, “brincam uns com os outros” e podem manusear os livros de pano e textura que estão espalhados pela sala. Os bebês menores, as mães normalmente oferecem os livros para eles brincarem.

Eu tento criar o ambiente mais acolhedor e descontraído possível, sempre pensando na naturalidade que é ler e se conversar sobre literatura e leitura.

ESCONDERIJOS: Você se torna uma referência para os pais sobre leitura?

CÁSSIA: 2016 tem sido um ano de estudo formal sobre o tema, inclusive acabei de vir da 17ª Semana do bebê de Canela, Rio Grande do Sul, onde apresentei o LDB e troquei experiências enriquecedoras. Preencher o puerpério também com Literatura e Leitura é algo novo e ainda pouco explorado.

ESCONDERIJOS: Quais são as principais dúvidas dos pais sobre a leitura literária desde o berço? Ou as conversas vão também além disso?

CÁSSIA: Todos os pais (inclusive eu) temos o desejo de querer o melhor para os nossos filhos e parece que ser inteligente é uma coisa muito boa pois nós queremos filhos inteligentes! Temos a crença que quanto mais ler mais inteligente o bebê ficará, gerando um consumismo não sustentável e até desnecessário.

A primeira parte do encontro é dedicada a estas dúvidas que normalmente são: o que, qual a frequência e quantidade para ler ao bebê.

Daí vem a parte de desconstrução deste modelo de ler apenas pela aprendizagem e não pelo prazer. Se olharmos a curva do crescimento e as aquisições de um bebê dos 0 aos 2 anos, podemos notar o quanto o bebê é um poço de vivências e isso deve estar em primeiro lugar!

ESCONDERIJOS: E para saber mais e acompanhar as atividades, participando ou apoiando o projeto?

CÁSSIA: O Literatura de Berço está com um site novo, com as informações mais organizadas, convido todos os leitutores do Esconderijos do Tempo a passarem por lá!

Nosso facebook é www.fb.com/ldberco

Em junho, novamente estaremos com a querida Lucia Hiratsuka e o seu novo livro “As cores dos pássaros” na Casa das Rosas, em, São Paulo, dia 08/06 das 14h30 às 16h30. Inscrições pelo telefone (11) 3285-6986

E como já disse acima, o 2º Arraial Literatura de Berço dia 29/6 às 14h30 na Casa da Cultura Carlos e Diva Pinho. As inscrições pelo telefone (11) 3862-1925.

12 LIVROS ILUSTRADOS EM QUE TEXTO E IMAGEM SE COMPLETAM PARA A NARRATIVA

 

CALDECOTT-AFROG

“O trabalho de Caldecott anuncia o início do livro ilustrado moderno. Ele criou uma ingênua justaposição de palavra e imagem, um contraponto que jamais havia ocorrido até então. As palavras são deixadas de lado – mas as imagens transmitem a ideia. Imagens são deixadas de lado – mas as palavras transmitem as ideias.” A frase é do norte-americano Maurice Sendak (1928-2012) sobre o papel do inglês Randolph Caldecott (1846-1886) na história mundial do livro ilustrado. “Livro ilustrado” ou “livro-álbum” ou “picture book”. O termo em inglês sinaliza muito mais do que “um livro com ilustrações”. E essa é uma das mais ricas discussões da pesquisa no que chamamos de “literatura infantil”.

O que Sendak nos joga a pensar aqui é o marco que Caldecott nos deixa. “Foi uma transformação radical da relação entre os textos verbais e visuais que prevaleciam até então. Em histórias como A Frog Would A-wooing Go (1883) e Lasses and Lads (1884) surge um subtexto pictórico que expande a narrativa transmitida pela palavra escrita, em vez de apenas duplicá-la ou decorá-la”, contam os autores Martin Salisbury Morag Styles em Livro Infantil Ilustrado – A Arte da Narrativa Visual (Ed. Rosari). “Em contraste com o livro ilustrado comum, onde as figuras apenas enriquecem, decoram e ampliam o significado do texto, no livro infantil ilustrado moderno as imagens e as palavras possuem a mesma importância narrativa.”

Entre as tantas discussões dentro da literatura infantil e das concepções que a fazem cruzar com a história do livro ilustrado e até mesmo do considerado “livro de artista”, existe um ponto que tem me interessado muito. “Se você começar a ver o objeto pela ótica do livro ilustrado, vê uma manifestação artístico-literária, onde os elementos que se conjugam para constituir isso são desenho palavra e objeto. Então, se você falar que isso é sinônimo de literatura infantil, pode valer por um lado; mas, por outro, exclui de certa maneira muito da literatura infantil que não tem relação com a imagem e nem como objeto: que é literatura. E quando você chama de ‘livro ilustrado’ ao invés de ‘literatura infantil’, não é que a gente está negando que existe a criança, mas que existe uma coisa a ser discutida que é a relaçao de imagem palavra e objeto, que vai se chamar ‘literatura’, é uma literatura onde imagem e objeto também são chamados de ‘literatura’. Tantos aspectos do objeto quanto os plásticos estão junto com a discussão literária. Transforma a discussão do objeto em discussão literária, transformam a discussão da imagem em discussão literária”, diz Odilon Moraes, autor de dezenas de livros infantis no Brasil como escritor e ilustrador, e um dos mais importantes pesquisadores do livro ilustrado por aqui. Odilon é meu grande mestre nessa, digamos, “área” do estudo do livro e esta fala aconteceu em uma palestra no Ateliê Binah, em São Paulo, no início deste ano.

Com ele, no entanto, estou aprendendo mais ainda sobre o assunto, especificamente nas últimas semanas durante sua disciplina A Relação Texto e Imagem, no curso de pós-graduação lato sensu O Livro Para a Infância: Textos, Imagens e Materialidades, n’ A Casa Tombada (polo da Faculdade das Conchas), do qual sou coordenadora e que está com inscrições abertas, veja aqui. Encontro a encontro estamos sendo apresentados a incríveis livros e convidados a entrar na discussão que tantos teóricos pelo mundo já mergulharam e, para nosso espanto até, ainda não há definições prontas. O livro ilustrado – como possibilidades narrativas possíveis em palavra, imagem e projeto gráfico (objeto) – está ainda em plena fase de exploração.

Senti necessidade desta introdução aqui antes de listar com vocês alguns livros que me encantam – eu e milhões de pessoas, claro! – por instigar o leitor a estar aberto a captar a história pelos três sentidos. Livros em que a imagem já está desde a concepção e mexem com a nossa relação de tempo e espaço que o objeto nos sugere desde a criação do códice. Não vou falar muito sobre eles, pois aqui vai mais que tudo um convite: que vocês o procurem ou o releiam e descubram que a relação texto e imagem dentro de um objeto pensado para isso é a própria condição de narrativa. Em alguns, o livro inteiro tem necessidade do texto ou da imagem para narrar a história; em outros, determinadas imagens nos fazem captar a concepção do que o texto conta e, em outros ainda, palavras e imagens se contradizem de propósito, para dar sentido à narrativa. (E estes não os melhores, são preciosidades no meio a tantas.)

 

ONDEVIVEMMONSTROSCAPAONDE VIVEM OS MONSTROS, de Maurice Sendak, Ed. Cosac Naify

Um dos grandes clássicos mundiais, o livro foi lançado em 1963 e marca a nossa história por ousar tanto na concepção geral do livro, como no tema e tom abordados. É um livro que ao mesmo tempo causa espanto pela qualidade literária, quanto rejeição ao pensamento pedagogizante impregnado na literatura infantil. Ele conta a história de Max, um menino que, após uma briga com a mãe, dá de cara com sua própria raiva por meio de uma viagem até um lugar onde monstros terríveis moram. O garoto permanece na viagem, é eleito o rei dos montros e o mais monstruoso de todos, até que sente uma vontade inadiável de voltar para casa. Sendak, olhando para si mesmo, toca em um ponto muitas vezes ignorado por nós: a criança tem raiva e outros sentimentos fortes e são todos legítimos, ao mesmo tempo em que espera o acolhimento do adulto. Só que faz isso usando as três possibilidades de narrativa: o texto com a localização e nomeação de personagens e lugares; a imagem com a dubiedade do conceito de feio e “fofo”, misturando traços assustadores com certa meiguice, e o projeto gráfico que nos intensifica a entrada e saída de Max deste estado de raiva irrefutável usando o tamanho das imagens nas páginas, bem como o uso ou não das palavras.

 

ESTECHAPEUNAOCAPAESTE CHAPÉU NÃO É MEU, de Jon Klassen, Ed. Martins Fontes

Este é um dos livros mais interessantes e precisos quando podemos falar do casamento “perfeito” entre texto e ilustração. Isso porque se escolhermos ler somente o texto ou exibir somente as imagens, não será possível entender a história. Tudo começa quando vemos um peixinho e um pequeno chapéu na cabeça. Narrado em primeira pessoa, sabemos, pelo texto, que aquele chapéu, por mais certinho que esteja nele, não é dele e, sim, de um peixe grande. Pelo texto, entendemos que o peixe se sente digno de usar o chapéu e que também não está preocupado com o que o verdadeiro dono vá fazer a respeito. Mas, pelas imagens, o leitor descobre – e se angustia! – que não seria bem assim. Esse jogo de contraponto entre texto e imagem faz a narrativa caminhar da graça à morbidez de um jeito que repetir a leitura nunca vai ser demais. Lançado pela primeira vez em 2012 e aqui em 2013.

 

OPASSEIOROSINHACAPAO PASSEIO DE ROSINHA, de Pat Hutchins, Ed. Global

Mais de quarenta anos antes do Este Chapéu Não É Meu, em 1971, este livro é outr clássico do chamado “picture book”. O texto é uma narrativa singela e até mesmo um tanto tola (com uso de diminutivos e tudo) de uma galinha que dá um passeio pela fazenda onde mora. Se pegarmos somente o texto, entendiamos com a falta de emoção. Mas se observarmos as ilustrações, a história acontece: a ingênua galinha está sendo perseguida por uma raposa que se acha mais astuta do que realmente é. Ao leitor, resta aquela reação de crianças prestes a verem o palhaço de circo entrar em uma enrascada “cuidaaaaaaaaado”.

 

Daniel Pereira

VIZINHO, VIZINHA, de Roger Mello, Graça Lima e Mariana Massarani, Ed. Companhia das Letrinhas

É mais comum vermos nas publicações que uma página ao lado da outra corresponda a um tempo cronológico, ou seja: a primeira ação acontece na página da esquerda, depois vai para a direita… há variações mas, nesse livro, lançado em 2002, a dupla de páginas é um espaço e o tempo só acontece no virar. Ou, poderíamos dizer que, “ao mesmo tempo” vemos nas duplas de páginas três ações acontecendo. O livro está nos apresentando um andar de um prédio, e sempre narrando o que acontece no apartamento 101, o que acontece no apartamento da frente, o 102, e o que se passa no hall entre eles. Não bastasse isso, o projeto gráfico nos presenteia com três tipos de ilustração diferente: 101 é de Mariana, o corredor é de Roger e o 102 é feito pela Graça. Isso dá uma dimensão incrível do poder do objeto e de três linguagens entrelaçadas para narrar uma história adorável de dois vizinhos que estão envoltos em seu cotidiano, sim, mas de corações aquecidos para trocarem suas solidões.

 

NAOVOUDORMIRNÃO VOU DORMIR, de Christiane Gribel e Orlando, Ed. Global

Ah, a hora de dormir… fardo diário das crianças e pais, luta muitas vezes que parece interminável. Esse tom dramático está na primeira imagem da menina mal-humorada que carrega seu urso como quem vai para um final terrível. Cumpre toda a rotina noturna com tédio e, em tom de desprezo, diz: “não vou dormir”. O texto continua com ela nos contando que “vai ficar bem acordada aqui na cama. Não estou com sono nenhum”. Ela continua em sua posição até que o leitor passa a enxergar sob a perspectiva da menina um quarto cheio de coisas. Mas, em determinado momento, algo acontece: o “frame” começa a dar pequenas fechadas, como aquelas pescadas que damos de sono, e a menina se entrega. O livro é de 2007.

 

FIQUELONGESHIRLEYFIQUE LONGE DA ÁGUA, SHIRLEY, de John Burningham, Ed. Cosac Naify

O livro de 1977 é um também um clássico da história do livro ilustrado e surpreende a cada nova leitura. O leitor inicia desavisado, pensando que vai acompanhar ali um simples passeio de uma família à praia. Mas a partir da primeira dupla de páginas vamos notando que o autor dividiu o livro em duas partes: uma, a “realidade”, com o cenário esperado da praia e os pais sentados em suas cadeiras dando recado à criança; do outro, Shirley completamente desconectada do cotidiano olhando o mar como uma aventura sem limites. A narrativa acontece calma, com frases-chavão dos adultos contrapondo com a criatividade da mente infantil. É a dobra da página que separa dos dois mundos e a história acontece nos mostrando quem nem tudo é (só) desconexão nas relações humanas.

 

PERSONAGEMENCALHADOO PERSONAGEM ENCALHADO, de Angela Lago, Ed. RHJ

Um tanto difícil de encontrar à venda (muitas vezes sob encomenda), este é apenas um dos livros em que a autora mineira nos prova o domínio e fascínio que tem como objeto como forma de criar uma história. Neste livro de 2006, a primeira aparição do personagem é saindo de dentro da dobra, em uma dupla de páginas com um subtexto que toma todo o espaço. Ainda com parte do corpo da personagem escondida, vemos na segunda dupla a narrativa em primeira pessoa: “Fui cair num livro assim…” até um “Quero sair dessa história!” e ele tenta mesmo. Na verdade, Angela nos expõe o dilema dos rumos da escrita de uma história, nos dando a deleite uma imagem literal de um personagem encalhado, ao mesmo tempo que o subtexto desenhado nos aprofunda na questão intrínseca a qualquer criador de narrativas. São possibilidades? Loucuras? Quem é ‘doido varrido’ (termo usado por ela), o leitor ou o autor?

 

menina_amarrotadaA MENINA AMARROTADA, de Aline Abreu, Ed. Jujuba

Da capa, já vemos um convite ao projeto gráfico: o livro é para ser lido na horizontal. Os desenhos a lápis na guarda-capa nos convidam a um clima de campo, bucólico. Mas uma ventania vêm logo em seguida e nos indaga: será que vai derrubar tudo? Sem a apresentação usual do nome do livro, a história continua (sim, ela já havia começado!): “a menina morava do lado de lá. Do lado de lá era assim: às vezes fazia chuva, às vezes fazia sol. Fazia até tempestade tinha vez. Fazia dia frio. Caíam folhas quando batia vento seco. Era bom.” E, assim, na parte de cima do livro vemos ilustrações que nos dão um movimento de afeto e ação de uma menina e o pai. Unindo texto e imagem, vemos que há uma ruptura, um afastamento e é aí que a menina se “amarrota” e vive um sentimento novo, que ela tem que aprender a lidar. E para o leitor fica o convite de dar um final.

 

OLIVIASEGREDOCAPAOLÍVIA E O GRANDE SEGREDO, de Tor Freeman, Ed. Brinque-Book.

Mal sabem os leitores, mas… a história começa com uma ilustração, antes mesmo da apresentação oficial do livro. Na página de créditos, Malu, a coelha, já está correndo rumo à amiga Olívia, a quem irá revelar um grande segredo. Neste ritmo da esquerda para a direita, a gente vê os personagens interagirem movidos a fazer ou não a tal revelação. Pequenos detalhes só entendidos bem depois do final, vão guardando a brincadeira do livro, até que o final chega, aparentemente sem grandes danos ao tal segredo. O leitor se vê frustrado, mas uma página é puxada pela Olívia, a dententora da verdade, e é somente ali que a história acaba. O livro foi lançado no Reino Unido e aqui no ano de 2012.

 

COMILANCACAPACOMILANÇA, de Fernando Vilela, Ed. DCL

Este livro do premiado autor paulistano tem uma narrativa aparentemente simples, atrai demais as crianças menores, mas causa impacto no tema e na forma. Bem, a tal comilança acontece entre os animais – nada mais é do que um certo jeito de falar de cadeia alimentar, questão mais do que natural, mas um tanto assustadora. Ele começa mostrando uma minhoca do tipo fofinha, dizendo: “Num dia de sol, Dona Minhoca saiu para passear. Ela estava com muita fome e procurava uma plantinha para almoçar. Mas… peraí! Minhoca, tome cuidado! De quem é esse bico chegando ao seu lado?” e é aí que vemos a constante do livro: o bicho a chegar sempre aparece antes da narrativa, com parte de seu corpo aparecendo na página ao lado, variando a forma, mas sempre preservando o suspense. Mas será que a história termina em comilança geral? E é imagem final que nos mostra que sossego não é prerrogativa de vida selvagem…

 

arte_LaEAqui_f.inddLÁ E AQUI, de Carolina Moreyra e Odilon Moraes, Ed. Pequena Zahar

Um dos grandes livros de 2015, Lá e Aqui narra poeticamente em texto, imagem e objeto a separação dos pais sob a perspectiva de uma criança. O tom do texto, que iniciou a história, é docemente acompanhada por delicadas ilustrações em aquarela, que estão colocadas em um projeto gráfico nos remetendo a uma terceria experiência de leitura. Se já nos emocionamos com “os peixinhos foram morar nos olhos úmidos de minha mãe”, para nos dar a emoção do choro da mãe, as ilustrações que colocadas em seguida nos expõe uma “chuva” que “afogou” a casa, há ainda uma percepção de etapas desta história, divididas em um projeto que nos leva a notar a diferença na vida da família quando ela está junta, depois em conflito e, em seguida, diferente ou transformada.

 

ELOISAEOSBICHOSCAPAELOÍSA E OS BICHOS, de Jairo Buitargo e Rafael Yockteng, Ed. Pulo do Gato

À primeira dupla, a narração em primeira pessoa começa representada por um ursinho de pelúcia de um lado e uma frase forte de outro: “Eu não sou daqui”. A segunda, o susto: uma cidade nova, uma menina e um pai em um lugar desconhecido e assustador. Mas o assustador não está no texto. Está na imagem, com um cenário urbano comum mas repleto de insetos de vários tipos preenchendo o lugar. Na escola, ela se sentia “um bicho estranho” “a mais baixinha” e sofria com os atrasos do pai na hora da saída da escola. No texto, as angústias comuns de uma criança em cidade nova, só com o pai. Nas imagens, a representação desta angústia que, com o passar do tempo muda, literalmente, de figura. O livro foi lançado em 2009 na Colômbia e em 2013 aqui.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

AOS OLHOS DO MAR

 

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Os livros para crianças e jovens escritor com uma pitada de autobiografia são vários. Os exemplos de serem literais ou intencionais além da conta também acontecem aos montes. Por isso, quando me deparo com um encontro de metáfora e poesia para contar uma história que, assumida pelo autor ou não, sentimos a tal pitada autobiográfica, costumo me entregar ao encantamento.

Este é Aos Olhos do Mar, textos de Cristiane Tavares e ilustrações de Chris Mazzotta, lançado pela MOV Palavras.

Nele, conta-se a história de duas aldeias separadas pelo mar. De um lado, muitas crianças que viviam sem a companhia de um adulto. De outro, adultos ocupados em seus afazeres, digamos, de adultos. Do lado de cá, um menino com um desejo e muita imaginação. Do lado de lá, uma mulher “sentia saudade do que nunca tivera:

Pegada de criança na areia,

Cheiro de criança na pele,

Cor de menino nos olhos.”

Um dia, uma tempestade agitou mar, areias, crianças e adultos: houve um encontro, um inesperado encontro que já era desejo em segredo. Recuperar-se de um furor destes não é fácil, sabemos. Há que se construir tanto a partir de um forte encontro, não?

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Envolvido na beleza das palavras, o leitor é levado pela história de jangada em jangada, de viagem a viagem, ora marola, ora onda forte. Os desenhos me deram a impressão de estar diante de um caderno de ilustrador, daqueles que o artista vai criando dia a dia, conforme a emoção bate, conforme o formato pede, intensificando a cor aqui, a textura ali, jogando-nos em várias perspectivas desta história de amor. O tema da adoção vem embalado no ritmo que se espera: altos e baixos de um eterno tecer de vida, como, aliás, é em todo amor. A escritora Cristiane Tavares conta, no final, que fez o livro em homenagem ao filho Nicolas. Quando, distantes, nós leitores aceitamos o convite ao livro, embarcamos no sonho de lá e de cá, como se estivéssemos todos navegando juntos.

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Aos Olhos do Mar (Ed. MOV Palavras)

Textos de Cristiane Tavares e ilustrações de Chris Mazzotta

2015

100 ANOS DE ROALD DAHL – A FESTA POR UMA FÃ ESPECIAL

 

Nos contos de fadas, as bruxas sempre usam umas capas e uns chapéus pretos ridículos, e voam em cabos de vassouras.

Mas esta história não é um conto de fadas. Esta é uma história de BRUXAS DE VERDADE.

Há uma coisa muito importante que vocês precisam saber sobre BRUXAS DE VERDADE. Prestem muita atenção, e nunca se esqueçam do seguinte:

BRUXAS DE VERDADE usam roupas comuns, e parecem mulheres comuns. Elas moram em casas como as nossas e trabalham em PROFISSÕES COMUNS.

Por isso é tão difícil pegá-las.

BRUXA DE VERDADE odeia criança, com um ódio fulminante e furioso, muito mais fulminante e furioso do que vocês podem imaginar.

 

Esta é a abertura de As Bruxas (Ed. Martins Fontes), livro do inglês Roald Dahl, lançado em 1988 e que aqui chegou em 1992. Os começos de livros dele são sempre geniais. Iniciei este post por este livro porque é o preferido de uma fã especial: a pedagoga Denise Guilherme. Por que ela é uma fã especial? Porque, na posição de “pedagoga”, Denise é uma assumida apaixonada pela literatura infantojuvenil. Porque, na posição de “professora” há anos conquista leitores e potenciais leitores de Roald Dahl com suas mediações para encantar, para convidar, para sugerir o encontro à fantasia, mas aquela fantasia que nos leva com asas de imaginação e nos finca com pés de enxergar nosso próprio mundo.

Roald Dahl, para mim, é isso: uma viagem, um nonsense, um impossível, um inverossímil que tem absolutamente tudo a ver com meu cotidiano. Foi assim no meu primeiro encontro com a obra, lá na versão dos 1970 para os cinemas do livro A Fantástica Fábrica de Chocolate, em que Gene Wilder fazia o maluco e inesquecível Willy Wonka. Aquela aventura toda não era algo que poderia realmente acontecer… mas aquelas crianças… Ah, eu conhecia aquelas crianças!

Roald Dahl nasceu no País de Gales e passou a infância na Inglaterra, após a morte do pai. Aos 18 anos, foi para a África a trabalho, pela Shell, mas aos 23 participou da Segunda Guerra Mundial, como piloto da Real Força Aérea, por onde se envolveu em um grave acidente aéreo que o deixa cego por semanas. Sua primeira publicação é de 1942, justamente falando do acidente. No ano seguinte, lançou o primeiro livro infantojuvenil, Os Gremlins. Depois segue-se uma sucessão de histórias tão envolventes quanto politicamente incorretas que conquistam os ingleses e o mundo todo.

Dia 13 de setembro de 2016 Roald Dahl faria 100 anos e a Inglaterra está promovendo um ano inteiro de eventos com exposições, teatro, atividades diversas para as crianças e até uma nova adaptação aos cinemas. Denise Guilherme, criadora do site A Taba – com indicações, consultorias, informaçõe se venda de livros infantojuvenis – foi até lá conferir o início deste ano especial e conta aqui os seus porquês e o que encontrou por lá! Um bate-papo inesquecível, possível, vivo!

ESCONDERIJOS: O site A Taba tem 2 anos, certo? Mas tudo começou antes com o projeto Leitura em Rede… Dá para contar um pouco desta história?

DENISE: A Taba – Leitura em Rede surgiu a partir da minha experiência de 12 anos como professora e formadora de professores e mediadores de leitura. Trabalhei em alguns projetos de formação de leitores e mediadores de leitura, viajando por diferentes municípios brasileiros e vi a necessidade de aproximar os bons livros dos leitores. Muitos lugares não possuem livrarias e nem bibliotecas. E quando têm, os usuários pouco conhecem sobre o acervo.

Pensando nisso, surgiu a ideia de compartilhar todo o conhecimento meu e de um grupo de especialistas sobre livros e leitura e divulgar – em meio a tantas obras disponíveis – aquelas que achamos que podem contribuir para a formação de mais e melhores leitores. Para iniciar nosso trabalho, em 2012,  reunimos alguns especialistas em literatura infantil, apresentando nossa proposta e convidando-os para integrar o conselho curador da hoje A Taba. Dentre as principais atribuições, estão participar de reuniões para estudo, análise e seleção de livros de literatura infantil e juvenil; discutir critérios de seleção das obras analisadas; produzir resenhas dos livros selecionados e oferecer recomendações para compor o acervo da livraria.

Fizemos um grande levantamento com bases em premiações e listas de melhores livros, cotejamos os dados, dedicando especial atenção aquelas obras que apareciam em mais de uma lista. Paralelamente, criamos as nossas próprias recomendações, com base em nosso conhecimento e experiência. Até o momento (fevereiro de 2016), foram lidos, selecionados e resenhados cerca de 1650 títulos.

Concomitantemente a este processo, idealizou-se a criação de um ambiente virtual para compartilhar todas as resenhas e demais conteúdos discutidos ao longo desse trabalho. Nossa intenção era disponibilizá-lo em um espaço virtual especializados em literatura infantil e juvenil, e o site entrou no ar em janeiro de 2014. Para garantir a manutenção de nosso serviço de curadoria, dispomos de uma livraria para a venda todos os títulos que selecionamos e resenhamos, além de oferecermos um serviço de assinatura de livros: o Clube de Leitores A Taba. E toda a venda revertida com a venda de livros serve para manutenção de nosso site.

ESCONDERIJOS: E com base em todo o seu trabalho e sua paixão por este universo, você foi cobrir o início das comemorações do centenário de Roald Dahl. Como foi?

DENISE: Eu fui pela Taba. Minha intenção era cobrir o evento, acompanhando o maior número de atividades possível do Imagine Fest – festival anual do Southbank Centre (maior centro de artes do Reino Unido) que, nesse ano, homenageou os 100 anos de nascimento de Roald Dahl.

Como uma programação tão intensa, isso foi um verdadeiro desafio.

O principal objetivo foi conhecer e divulgar a obra do autor aqui no Brasil, por meio desse evento, além de participar da maior parte das atividades do festival, pude observar o modo como o evento foi realizado e a qualidade das propostas e intervenções realizadas pelos organizadores.

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ESCONDERIJOS: O que você viu? Havia crianças brasileiras? Chegou a interagir com as crianças inglesas?

DENISE: Nossa!! Foi uma verdadeira aventura de imersão na vida e na obra do autor. A semana que fui, de 13 a 20 de fevereiro, é um período de férias escolares que eles chamam lá de half term. Por isso, todos os eventos estavam lotados!

Eu chegava cedo, passava o dia todo lá e voltava no fim da tarde.

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Comecei a minha programação assistindo à leitura de Os Minpins, acompanhada por uma animação ao vivo e a música de Sibelius realizada por Orquestra Sinfônica da Escola de Londres, com narração ao vivo de ator, escritor e diretor Richard Ayoade – um comediante bastante conhecido por lá. Foi incrível a forma como eles harmonizaram as músicas à narrativa e também o modo como o ator conduziu a leitura. O auditório – que é a casa da Sinfônica de Londres – estava lotado de pais e crianças de todas as idades.

No dia seguinte, acompanhei um espetáculo interativo, no qual as crianças eram conduzidas por atores para ajudar a resgatar algumas histórias de Roald Dahl que haviam desaparecido. Por meio de perguntas e objetos que remetiam aos seus livros, as crianças – cerca de 15 entre 6 e 9 anos – participavam ativamente da proposta. Foi possível perceber o quanto alguns deles conheciam profundamente os livros, pois sabiam detalhes das histórias e facilmente reconheciam as pistas apontadas pelos autores. Nesse grupo, havia uma criança brasileira que, por ser a mais velha do grupo, disse ter achado o desafio muito fácil.

01_Giant_Storytelling_Bed_photo credit Filipa Esteves

Na quarta-feira foi o dia de ouvir a contação de histórias na cama gigante. Nesse evento, as crianças sentavam em uma cama gigante – que remetia à cama dos avós de Charlie, do livro A Fantástica Fábrica de Chocolate – para ouvir histórias de Roald Dahl, contadas por uma narradora oral muito boa.

foto de Victor Frankowski. ImagineChildrenPressDay
foto de Victor Frankowski. ImagineChildrenPressDay

As crianças deitaram na cama, cantaram e interagiram o tempo todo. Até a minha bebê Maria ficou atenta a toda a atividade.

A narradora contou uma versão de Roald Dahl para a história de Chapeuzinho Vermelho, que não foi editada no Brasil e que deixaria muitos adultos de cabelo em pé, já que a protagonista é quem dá um fim ao lobo (risos).

9.1 Wondercrump (credit Victor Frankowski)

Na quinta-feira vi uma instalação que é o centro de toda a programação do festival: O Mundo Wondercrump de Roald Dahl.  A experiência leva os visitantes numa viagem mágica através de sete mundos diferentes que exploram a vida de Roald Dahl e do mundo de seus livros emblemáticos.

6 Wondercrump (Credit Victor Frankowski)

Com material de arquivo exclusivo do Dahl Museum Roald e Story Centre, incluindo manuscritos originais, cartas pessoais, desenhos, fotografias e objetos queridos, a experiência oferece uma perspectiva única sobre a inspiração por trás de alguns dos melhores personagens e histórias amados de Roald Dahl. Foi impressionante observar como mesmo as crianças muito pequenas conheciam as obras do autor!

Para guiar os visitantes através do espaço há uma narração lúdica de autoria do poeta e escritor Laura Dockrill (que provoca boas risadas nas crianças), narrada pelo ator Peter Serafinowicz.

Os monitores que acompanham essa experiência são muito bem treinados e conhecem profundamente a obra do autor. Segundo um deles, todos os participantes passaram por um treinamento intensivo para apoiar o evento. Essa instalação foi inaugurada em 10 de fevereiro e vai ficar aberta até 3 de julho deste ano, quando será levada para o Wales Millennium Centre.

Na sexta-feira, fui até a aldeia de Great Missenden, onde Roald Dahl viveu e escreveu durante 36 anos. Lá visitei o Museu e Centro Histórico dedicado à vida de obra do autor. O espaço tem três galerias interativas divertidas e cheias de fatos.

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Os visitantes podem ver o interior original de seu escritório – o  Hut: lugar mágico onde eles escreveu suas histórias,  que foi removido – integralmente – da casa do autor e levado ao museu. Também fui ao cemitério onde seu corpo está enterrado, em uma colina, no alto da aldeia, prestar minha homenagem a um dos escritores que mais marcou minha trajetória como leitora.

No sábado, assisti ao grande espetáculo inspirado em no livro BGA: O Bom Gigante Amigo.

Nesse dia, todos os músicos da Orquestra Filarmônica de Londres entraram de pijamas e interagiram com a atriz Hattie Naylor, que leu uma versão resumida da história, acompanhada por músicas clássicas conhecidas, que se encaixavam perfeitamente no enredo. Nesse dia, a esposa de Roald Dahl estava presente no concerto, mas entrou e saiu discretamente, acompanhada pelos organizadores do evento.

Durante todos os dias, por todo o espaço do SouthBank havia inúmeras atividades, workshops, apresentações etc. Em uma delas, era possível escrever algum sonho da gente e colocá-lo em um pote para compor a coleção de BGA. Os sonhos desciam por uma máquina e eram recolhidos pelas próprias crianças que os liam e colocavam nas prateleiras que julgavam adequadas.

Na verdade, essa era proposta, mas o que aconteceu foi mesmo uma grande confusão: todos queriam pegar os sonhos e colocá-los ao mesmo tempo nas prateleiras. Se BGA estivesse lá, teria ficado bem nervoso! (risos)

No palco central, houve a leitura em voz alta de Matilda e apresentação de trechos do musical – que faz muito sucesso por lá.

Também exibiram os filmes A fantástica fábrica de chocolate (a primeira versão) e Convenção das Bruxas (baseado em As Bruxas).

Havia cadeiras e fones de ouvido para que as crianças ouvissem alguns livros narrados por atores famosos –  como Kate Winslet lendo Matilda, por exemplo.

Também havia oficinas para fazer orelhas como a de BGA e foi engraçado ver um monte de crianças passeando com as orelhas pelos diferentes espaços.

Houve muita coisa que não consegui acompanhar porque tive que respeitar também o tempo e o ritmo da Maria Morena – minha companheira de viagem. Mas, mesmo se tivesse ido sozinha, teria sido difícil acompanhar tudo porque havia muita coisa acontecendo ao mesmo tempo.

 

ESCONDERIJOS: Que experiência incrível! Em meio a tudo isso, Denise, qual a sua história com Roald Dahl? De infância? De pedagoga? Qual a importância dele para um olhar de qualidade para a LIJ?

DENISE: Quando criança, sempre fui apaixonada pelas adaptações de sua obra para o cinema. E foi graças à biblioteca da escola onde fiz o antigo magistério que encontrei os livros do autor pela primeira vez. Li Matilda, depois As Bruxas, A Fantástica Fábrica de Chocolate e daí, não parei mais.

Acredito que Roald Dahl tem uma grande importância para LIJ porque, como todo bom escritor, ele não subestima a inteligência do leitor. Seus livros são cheios de ironia e possuem um humor refinado que não é facilmente percebido por todos. A forma como se utiliza da linguagem para criar um diálogo e cumplicidade com o leitor, sempre me fascinou!

Suas histórias misturam situações reais e fantasia de um modo incrível que nos fazem pensar “e se fosse possível?”. E acho que essa é, talvez, uma das características da boa literatura: abrir espaço para que, por meio da palavra, seja possível imaginar e construir não somente o que já é, mas o que ainda pode ser. O que virá.

Além disso, acho-o bastante ousado para o seu tempo porque seus livros não poupam as crianças dos temas difíceis e são muito críticos com as atitudes dos adultos. Todos os seus protagonistas passam por situações adversas e enfrentam adultos bastante opressores. Mas, parecem encontrar em si mesmos as condições para superar os seus desafios, sem abrir mão das coisas que lhes são caras.

ESCONDERIJOS: Tem um livro preferido dele? Por quê?

DENISE: Amo todos, mas tenho um carinho especial por As Bruxas. Li-o em voz alta para meus alunos em várias turmas diferentes e sempre foi um deleite. Em uma delas, inclusive, minha mãe foi vestida como uma bruxa para a escola (de luva, sapato de bico, língua azul, peruca) e se passou por estagiária, oferecendo doces para as crianças quando saí da sala. Foi incrível como as crianças ficaram curiosas para saber se ela realmente era uma bruxa e, apesar de quase todos comerem o chocolate que ela ofereceu, um aluno não aceitou. Me diverti demais enquanto lia o texto e os observava de olho em minha mãe.

Durante o recreio, procuraram a professora da outra sala para dizer que havia algo muito estranho acontecendo na sala. Depois de um tempo, revelei que era uma brincadeira e todos deram muitas risadas, embora alguns ainda tenham ficado desconfiados.

Foi o livro favorito da sala por todo o ano. Essas crianças hoje têm 18 anos e sempre me contam como esse evento os marcou e como foi também a porta de entrada para as outras obras do autor.

 

ESCONDERIJOS: Já viveu algum embrulho com histórias dele, diante desta patrulha do politicamente correto?

DENISE: Nunca. Mesmo na situação que narrei, nenhum pai se opôs à ideia (todos foram comunicados antes). Creio que seria uma perda lamentável deixarmos de apreciar a qualidade da literatura escrita por Roald Dahl em nome de um falso moralismo ou de uma concepção de infância que vê as crianças como seres ausentes de senso crítico e que não possuem condições para um diálogo sobre a complexidade da experiência humana.

De um modo geral, acho que os jovens leitores vêem em Dahl um cúmplice, uma espécie de voz autorizada para dizer coisas que, muitas vezes elas pensam, mas não podem falar. Afinal, quem nunca pensou em mandar pelos ares uma Sra Taurino (a famigerada diretora de escola do livro Matilda) ou mesmo em fazer um remédio maravilhoso para dar um jeito em algum parente chato (referência ao livro O Remédio Maravilhoso de Jorge)? (risos)

 

ESCONDERIJOS: Você disse que se envolveu com o autor com as adaptações de cinema. Então são elas um convite para mais leituras?

DENISE: De um modo geral, gosto de todas as adaptações das obras dele para o cinema. Talvez a que menos me agrade seja a de James e o pêssego gigante. Mas, isso tem mais relação com meu gosto pessoal do que com a qualidade da adaptação.

Acho que uma boa adaptação para o cinema pode, sim, servir de convite para mais leituras. Pelo menos, comigo foi assim. Além disso, em todas as adaptações da obra dele têm pequenas variações em relação aos livros e acho isso bem interessante. Porque convida a ver o que é diferente, o que é igual, como poderia ter sido…

 

ESCONDERIJOS: Pensando no que você viu ou sabe da relação do autor com os ingleses… Qual a diferença com o Brasil? Digo: a programação do centenário é imensa e incrível… Por que não temos algo do tipo aqui? Teríamos? Teremos? Isso é algo que faz falta?

DENISE: Ah, Cris! Isso foi no que mais pensei durante todo o evento! Que incrível poder celebrar um trabalho lindo de uma maneira tão profissional e significativa. Tudo. Exatamente tudo foi pensado para que as crianças pudessem interagir com o autor os livros, as histórias e os personagens, mas sem baratear. Não era pura recreação e entretenimento. Era aprendizado o tempo todo. Troca. Diálogo. Ampliação de sentidos.

Outra coisa que me chamou muito a atenção foi ver como as crianças conheciam a obra dele! Sabiam sobre seus livros e, durante a exposição, suas intervenções e interações tinham qualidade, sabe?

Fiquei pensando quantos autores brasileiros mereciam uma homenagem como essa! Como somos carentes de eventos que não espetacularizem ou sacralizem os livros, mas que os tornem acessíveis, lúdicos…

Para você ter uma ideia, havia apenas uma mesa com alguns livros dele sendo vendidos e alguns souvenirs do museu. Só. Não tinha boné do evento, camiseta, botom, nada!!! Ou seja, não era uma feira de livros com foco puramente comercial. Era uma celebração!

E se a gente pudesse fazer isso com Tatiana Belinky, Lobato, Marina Colasanti, Ana Maria Machado, Eva Furnari, Odilon Moraes, Fernando Vilela, Roger Mello…

 

ESCONDERIJOS: Para a Denise, pessoalmente, o que ficou desta experiência?

DENISE: Como mãe, foi uma ousadia sair com um bebê de 9 meses numa aventura como essa. Como mulher e mãe, foi muito importante dar esse salto. Aliás, o evento foi muito amigável para bebês.

Para a Denise, leitora e fã do autor, foi um verdadeiro presente poder me aproximar da vida e da obra dele de uma maneira tão intensa. Como curadora da Taba, foi importante ver o quanto é possível divulgar literatura de qualidade sem abrir mão do lúdico, da fantasia, envolvendo as crianças e os adultos de uma maneira divertida e inteligente.

Ou seja, um evento como esse tem muita relação com o que acreditamos. Com aquilo que pensamos sobre o trabalho de divulgar literatura de qualidade, de aproximar os livros dos leitores.

 

Mais informações sobre a A Taba, basta clicar no site da ataba.com.br, como lincado acima.

 

Trailer do filme O Bom Gigante Amigo, parceria da Disney com o diretor Steven Spielberg, previsto para setembro:

Mais informações sobre as comemorações dos 100 anos de Roald Dahl na Inglaterra, acesse aqui, tem agenda o ano todo! No mesmo site, tudo sobre este autor imprescindível.

 

 

Caderno Veloz e as surpresas de Ricardo Azevedo

O poeta, o artista é aquele que se espanta com o mundo. Eva Furnari, grande autora da nossa literatura infantojuvenil, diz que são os artistas que percebem quando o mundo (a sociedade) está no extremo de um pêndulo no que se refere a formas de pensar ou de agir, ou seja: são eles que se dão conta de que nós estamos precisando prestar atenção em algo, buscar o equilíbrio das sempre tantas intensidades humanas.

Ricardo Azevedo, não por acaso um grande amigo de Eva, talvez tenha concretizado em um só livro este pensamento do lugar do artista. Para mim, está tudo ali em Caderno Veloz de Anotações, Poemas e Desenhos, lançado pela Editora Melhoramentos. Ele mesmo faz um posfácio esclarecedor: “A ideia de um espaço livre e pessoal capaz de guardar comentários, observações, imaginações, especulações, sonhos, sensações e sentimentos pegos no ar ou sugeridos pelos acontecimentos e vivências do dia a dia, traduz bastante bem, creio, a proposta geral do livro.”

O que vemos é, segundo ele, trabalho fruto de anos de rabiscos em desenho e palavra escrita. Algumas vezes textos e imagens iniciadas a partir de outros livros, que foram se guardando nas gavetas físicas e imaginárias de Ricardo.

Mas quando falamos de anotações e poemas, são maravilhas como:

 

Alguma coisa está errada

Tenho tudo nas mãos

E até agora nada

 

Ou
Porque morreremos construímos

endereços

amores

dívidas

dúvidas

erros

trabalhos

tropeços

acertos

amizades

filhos

esperanças

futuros

medos

experiências

sonhos

nosso jardim.

 

Já quando nos deparamos com as imagens, percebemos que Ricardo está, inclusive, quebrando regras do que se convenciona como livro ilustrado. Os desenhos não são relacionados aos textos, são textos-poemas-imagens, autônomos, como estes:

Caderno Veloz, Ricardo Azevedo
Caderno Veloz, Ricardo Azevedo

ou

CADERNOVELOZ2

Trata-se, sim, de um livro ilustrado em poemas e imagens. Você folheia e ora o trabalho é palavra, ora o trabalho é desenho.

Ricardo, um dos mais importantes pesquisadores da nossa cultura popular (autor de Armazém do Folclore, Meu Livro do Folclore, O Sábio ao Contrário, o Livro dos Pontos de Vista, dentre dezenas! mais sobre ele em ricardoazevedo.com.br) e sua relação com a literatura infantojuvenil, divide conosco o artista completo que é. A justificativa? Ele mesmo publica: “Não sei se a vida faria sentido se ela não fosse, de alguma forma, espantosa.”

Precisa mais?

Precisamos sempre.

 

Mais um, para finalizar:

 

Como me sinto por fora

Procuro dentro um caminho

 

Como não vejo saída

Abro a porta para a vida

 

Como não sei pra onde ir

Deixo meu barco seguir

 

Como não sei a verdade

Dela não tenho saudade

 

E quando sinto tristeza

Invento alguma certeza

 

E quando perco o sentido

(isso não é proibido)

 

Não toco fogo na praça

Pois sei que logo isso passa.

 

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Caderno Veloz – de anotações, poemas e desenhos (Ed. Melhoramentos)

De Ricardo Azevedo

2015

 

 

Ruth Rocha e seus 85 anos nos meus 41

Por cima, primeira versão, autograda por ela em uma entrevista. Atrás, o Marcelo, Marmelo, Martelo com novo projeto gráfico e ilustras de Mariana Massarani
Por cima, primeira versão, autograda por ela em uma entrevista. Atrás, o Marcelo, Marmelo, Martelo com novo projeto gráfico e ilustras de Mariana Massarani

É falar em livro infantil para falar em Ruth Rocha. Também pudera: são dezenas e dezenas de livros e, em 2017, 50 anos de carreira. Marcelo, Marmelo, Martelo, sue livro mais conhecido, passou de 1 milhão de exemplares vendidos. Mas Ruth não finca sua importância somente como autora e artista: seu poder de mediação é fundamental desde os tempos em que indicava livros a alunos em uma escola de São Paulo, até a coordenação das histórias editadas na revista Recreio que, em plena ditadura militar no Brasil, abriu um leque de possibilidades de conversas com as crianças, movimentou o mercado editorial com o lançamento de escritores e ilustradores e está na História como parte do “boom” da literatura infantil nos anos 70.

Muita coisa passou: o tal Marcelo de Adalberto Cornavaca ficou na memória (e na minha estante, com o autógrafo acima) e ganhou os traços fundamentais de Mariana Massarani. Hoje Ruth tem toda a sua obra reunida em uma única editora, a Moderna, e outros livros foram reprojetados graficamente. E ela não para de criar. http://www.salamandra.com.br/novidades/noticias/ruth-rocha-comemora-85-anos.htm

 

Hoje, 2 de março, ela completa seus 85 anos de idade. Mas falaremos dela a vida toda. Todas as nossas vidas foram influenciadas por ela de alguma forma.

Ela também faz parte da minha vida pessoal, no caso não só nas leituras e memórias de infância: mas a nova vida que construí a partir de 2005, quando entrei na revista Crescer (onde fiquei 8 anos). Foi de uma conversa com a Ruth que soltei meu jeito de escrever reportagens e, mesmo não sabendo à época, um primeiro passo para me tornar a pesquisadora apaixonada que sou hoje.

Por isso fiz aqui um mix das conversas que tive com ela. Com todo meu respeito, sempre.

Aqui vão 3 entrevistas, duas para a parte impressa e um vídeo na casa dela.

Ruth Rocha desenhada por Ziraldo para um livro
Ruth Rocha desenhada por Ziraldo para um livro

Meu primeiro encontro com ela foi para uma entrevista para ser publicada em julho de 2005, em virtude do dia do escritor, comemorado dia 26. A ideia era entrevistar também Ziraldo. Mas não foi possível reuni-los em um único dia, mas foi divertido colocá-los juntos na edição, que é isso que mostro a vocês aqui.

 

Meu texto começa assim:

 

Escola adora festa. A idéia era fazer uma homenagem às avós. Todo mundo estava lá: pais, mães, colegas, professores, outras crianças, e aí chegou a vez de Miguel falar. Cada neto tinha de dizer coisas bonitas sobre a avó, como “ah, ela faz doces maravilhosos”, “ah, ela me deu uma boneca linda”. Só que Miguel, na hora H, disse:

 

— Ah, não quero falar, não.

 

— Como não? – perguntou a professora.

 

— Não, não quero.

 

Ouve-se, então, uma voz, vindo da platéia:

 

— Não quer falar, não precisa falar. Dispensa o menino disso, coitado!

 

Assim é a vovó Ruth Rocha, que, no fundo, no fundo, também achava toda aquela história de homenagem meio chata. Não com cabeça de avó, claro, que acha lindo qualquer coisa que o neto faz. Mas com cabeça de criança, de criança que adora fazer só o que gosta. E ela adora pensar como criança, igualzinho um amigão dela, o Ziraldo, que gosta mais ainda é de desenhar, desenhar muito, e publicar tudo em livros para serem lidos por muita gente.

 

História contada assim parece até que é sobre a vida da gente. Pois é com essa sensibilidade que Ruth Rocha e Ziraldo hoje são lembrados por milhões de leitores em todo o Brasil. Eles acabam de lançar um livro juntos pela primeira vez (Um Cantinho só pra Mim, Editora Melhoramentos), de uma série lançada para comemorar os 25 anos do Menino Maluquinho. Em entrevistas separadas, CRESCER conversou com os dois para tentar descobrir se eles escrevem para crianças porque não deixaram morrer a criança que existe neles… “Que nada!”, reagiram eles.

 

Dia 25 de julho é o Dia do Escritor. Quem nos lembrou isso foi a própria Ruth Rocha, em seu Almanaque Ruth Rocha (Editora Ática): “Este dia é muito importante para mim. Não só porque eu sou uma escritora, mas porque me tornei uma escritora por causa dos livros que eu li”. Mas fomos nós que lembramos a data a Ziraldo. “Dia 25 é Dia do Escritor? Que maravilha! Vamos fazer a maior festa!” Ambos na casa dos 70 — a paulista Ruth nasceu em 1931 e o mineiro Ziraldo em 1932 —, eles riem como crianças quando o assunto é fazer literatura infantil. Divirta-se com eles.

 

CRESCER: Ruth, que livros foram esses que você leu?

 

Ruth: Minha mãe era louca por livro. Meu pai era médico, tinha cultura e tudo, mas minha mãe amava qualquer livro. Ela lia quando éramos pequenas, depois comprava para nós lermos. O primeiro livro que ela me deu foi O Garimpeiro do Rio das Garças, que é um livro do Monteiro Lobato inteiramente esquecido, uma graça. Com uns 12 anos, comecei a ler romances. Um professor, uma vez, pediu um trabalho sobre o livro A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós. Eu, espertinha, fiz o trabalho sem ler o livro, só com as coisas que ele tinha contado na aula. Tirei a nota mais alta da classe, fiquei muito envergonhada, e fui ler o livro depois. Desde então, descobri a literatura. Depois conheci os modernistas e até hoje adoro Mário de Andrade e Manuel Bandeira. O modernismo me deu muito de como escrevo. Uma vez disseram que eu escrevia frases curtas por influência da TV… coisa nenhuma!

 

CRESCER:Você fez sociologia por causa da leitura?

 

Ruth: Fui para essa área por ter lido Casa Grande Senzala, de Gilberto Freyre. Na escola de Sociologia fui aluna de Sérgio Buarque de Holanda, que era sensacional. Mas a profissão era muito difícil, em um tempo em que sociólogo era comunista, baderneiro. Casei, queria trabalhar e arrumei um emprego no Colégio Rio Branco, de ajudante de biblioteca. Quando o diretor viu minha amizade com as crianças, me convidou para ser orientadora educacional. Por essa experiência, fui convidada por uma amiga, a Sônia Robatto, para ser orientadora pedagógica na revista Recreio, da Editora Abril. Desde 1967, eu já escrevia uns artigos sobre educação para a revista Claudia. Nessa época eu tinha feito também a pós-graduação em orientação educacional.

 

CRESCER: Foi aí que você começou a escrever literatura infantil?

 

Ruth: A Sônia pedia um texto que fosse sobre o dia-a-dia da criança. E fiz um conto. Todo mundo gostou e não parei mais. As pessoas que escreviam para criança viviam em uma sombra imensa que impedia que se fizesse algo original, que era o Lobato. Mas tinha muita gente boa. Nós fomos nos conhecendo e publicando, como Ana Maria Machado, Sílvia Ortoff e ilustradores fantásticos, como o Ziraldo. Mas o Ziraldo já era “o” Ziraldo…

 

CRESCER: E, como você, ele já estava perto dos 40 anos quando começou a escrever para criança…

 

Ruth: O Ziraldo sempre fez muita coisa, ele sempre foi muito disponível, fazia tudo o que pediam. E até hoje faz! Só que eu paro para pensar: o Ziraldo está louco? Puxa vida, se eu tenho 74 anos, ele tem 73! Não dá mais para fazer tanta coisa! Ele primeiro faz, depois pensa e aí reclama Ai, tô cansado” (risos). Eu já tinha 38 anos quando escrevi meu primeiro conto. Fico pensando que passei minha vida toda me preparando para isso, com as minhas leituras, e que a orientação educacional me deu a régua e o compasso. Só percebi que eu era escritora em 1976, quando publiquei 13 livros, todos de uma vez. Vieram as resenhas, as críticas, aí pensei: “Gente, sou escritora!”

 

Ziraldo: Nos anos 60, fiz a Turma do Pererê, minha paixão, história em quadrinhos. Aí veio o golpe e tivemos que parar. Aí veio o Flicts, mas, em tempo de AI-5, tivemos de deixar Flicts de lado e fazer política: o trabalho no Pasquim, as charges … Aí, a ditadura foi acabando e, em 1980, criei o Menino Maluquinho e não parei!

 

CRESCER:Você acha que o Menino veio na hora certa?

 

Ziraldo: Acho sim! E não faria um livro desses antes. É um livro que você escreve depois de ter vivido tudo, causas e conseqüências.

 

CRESCER: O que o adulto precisa ter para escrever para criança?

 

Ziraldo: Temé que gostar do que faz. Fazer livro para criança é muito divertido. Com a criança a gente pode brincar quanto quiser. Escrever para criança é muito importante. Quem não lê quando criança não lê quando adulto! E o escritor infantil dura mais tempo. Muda o público e ele continua lá. Como, por exemplo, Monteiro Lobato, porque pai e mãe querem que os filhos leiam os livros que eles leram!

 

Ruth: Escrevo como adulto e não como criança. Sou uma pessoa que tenho uma ligação, uma sensibilidade com as pessoas, para o que elas pensam. Sou cúmplice da criança. Ela é um ser indefeso, me solidarizo, sinto o que ela está sentindo.

 

CRESCER:Você inventava histórias para sua filha, Mariana, ou inventa para os seus netos?

 

Ruth: Mais com a Mariana. Ela não queria história que existe. Eu lia a Gata Borralheira, mas ela dizia assim: “Eu quero a história dessa mesa”.

 

CRESCER: O que seus netos pensam de ter a Ruth como avó?

 

Ruth: Ah, eles nem pensam nisso. Na escola, as pessoas às vezes comentam, mas eles não me levam muito a sério. Eu também não me levo muito a sério!

 

CRESCER: Do que você brincava?

 

Ruth: Eu gostava de boneca, de fazer boneca de papel, fazia vestidos, recortava homem e mulher de revista, montava as famílias. Adorava ficar na rua, brincava de roda, de pegador, de bola, amarelinha, andar de bicicleta e até papagaio empinei.

 

Ziraldo: Naquela época, não tinha muito brinquedo, brincava na rua, de bandido e mocinho, de procurar tesouro. Adorava passar susto nos outros. A gente pegava gravatas do meu pai, enchia de areia e colocava no fim da linha de trem para parecer que era uma cobra. E aí todo mundo dava aquele pulo! E a gente morria de rir! Também soltava pipa, jogava bolinha de gude.

 

CRESCER: Era melhor ser criança naquela época?

 

Ruth: A criança de hoje tem uma oportunidade que antes não se tinha. Eu tive, mas os outros não: conversar com os pais. Hoje ela pode falar, ser ouvida, colocar suas opiniões. E isso é uma maravilha.

 

Ziraldo: Olha, não tem essa coisa de “ah, naquele tempo que era bom”… Que nada! Eu queria era ser menino agora! Ter televisão, computador, videogame! Ah, imagine se eu fosse menino hoje, quanto eu iria aproveitar!

 

A segunda entrevista foi para a minha coluna Ler Para Crescer, em virtude do relançamento do Almanaque da Ruth Rocha, em 2011, uma delícia necessária a qualquer infância, com histórias e curiosidades ótima de conhecer.

 

CRESCER: Está feliz em relançar algo tão especial para a senhora?

Ruth Rocha: Estou muito feliz porque ele é muito especial mesmo. Toda a minha vida eu quis lançar um almanaque. Independentemente de eu ser escritora, eu adorava o Almanaque Tico-Tico, achava a coisa mais divertida. E foi muito divertido fazer. Deu um trabalho! (risos)

 

C: Tem muita coisa mesmo, não?

RR: Tem mesmo! Adorei que a nova editora que estou agora quis relançá-lo.

 

C: Há algo novo de texto? 
RR: Não, só de ilustração, uma segunda edição mesmo.

 

C: Até porque, nada que está ali envelhece não?

RR: Eu pensei se teria de fazer algo diferente, mas achei uma pena esse sumir, fiquei com medo de que fosse esquecido. Acho que as crianças vão nascendo…

 

C: São novos leitores… 
RR: Sim, não tinha cabimento esquecer do que estava lá.

 

C: O que você acha que as crianças mais ganham com esse Almanaque? 
RR: Eu quis fazer porque é divertido. E como tem muito conhecimento e que conhecimento é algo que também diverte, e quando olhamos para ele de uma maneira alegre e sem preconceito, melhor ainda. Fácil, simples e divertido.

 

C: Como você criou o livro?

RR: Eu reuni material por anos. Desde que eu trabalhei na revista Recreio já fazia as edições com atividades, então juntei por muitos anos e continuei juntando, mesmo depois que saí. Mas precisava tempo para escolher tudo.

 

C: E os outros relançamentos?

RR: Já relançamos uns 80 livros! Para revisar, acompanhar, acho que nunca trabalhei tanto na minha vida! (risos). Sempre gostei muito de trabalhar, é uma coisa que não me incomoda.

 

C: Faz bem para a alma…

RR: Faz bem demais, ainda mais eu que já estou velha. E uma pessoa mais velha precisa disso.

 

C: E está dando tempo de pensar em novas histórias?

RR: Há algumas antigas que estão na gaveta que estou pensando em editar. E estou reeditando. Tenho um livro que era para ser uma coleção chamada Meninas do Brasil, com bonecas vestidas em vários estilos, roupas de várias épocas. Não fez tanto sucesso econômico, vinha uma caixa com a boneca e o livro. Faz uns 10 anos. Eram bonecas de fases no Brasil. Fazia junto com a Anna Flora, uma amiga minha, e tinha uma chamada Leila, uma paródia a Leila Diniz, falando da época em que as mulheres procuravam seus direitos. Era na época da ditadura mesmo. Esta eu tenho uma até hoje. E estamos para relançar essas histórias, mas sem a boneca.

 

C: Então tem muita coisa para acontecer!

RR: Muita! Vai sair uma nova edição do Marcelo!

 

C: Que bom! Quando?

RR: Este ano ainda, com a Mariana Massarani! Você a conhece?

 

C: Sim!

RR: Ela é uma graça, se divertiu tanto! Ela faz com alegria, um amor.

 

Outro incrível encontro foi registrado em vídeo, em 2009. Uma conversa na casa dela, para uma série de entrevistas que produzíamos na época. Fica aqui ela com vocês:

 

 

 

 

 

O Grande Amigo

Esta não é uma história de amizade.

Como assim?

Não exatamente como pode nos causar o interesse no título. Começa assim:

Rodrigo não era exatamente um tipo bonito por natureza. Mas também não era feio. Tinha um nariz de batata, o rosto quadrado e os lábio bem-feitos. Os cabelos eram castanhos e levemente encaracolados, era baixinho e tímido. E põe tímido nisso. Seus pais e sua irmã colocaram nele o apelido de Bicho do Mato, porque toda vez que alguém desconhecido aparecia de repente ele se escondia e ia direto para o quarto.

 

Pensei: “hummm, será que isso soa preconceituoso? Será que esse abre de texto vai causar indignação por citar padrões de beleza discutíveis?”.

Pois é. Era isso.

Assim é O Grande Amigo, novo livro da escritora e artista plástica e professora da USP Kátia Canton, lançado pela editora Panda Books.

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O que vemos na página à direita é um desenho de um menino. Mas ele está de costas. Ideia do autor do traço, o premiado ilustrador Renato Moriconi.

Ao abrir a próxima dupla de páginas, nos deparamos com mais duas pessoas que, no texto, nos damos conta de serem os pais de Rodrigo.

GRANDEAMIGOPAIS

Também estão desenhados de costas.

Rodrigo queria muito um amigo. Também tinha o desejo de que seus pais prestassem mais atenção nele.

É quando nos damos conta de que Moriconi leu o texto de Katia como uma sucessão de retratos. Todos de costas. Todos em uma sucessão de não olhares para Rodrigo.

O menino segue a cartilha/manual de sobrevivência do tímido: tenta se aproximar de um menino na praia, arrisca algumas palavras com a menina que gostava da escola, entra no campo para uma partida de futebol com os meninos da classe. Mas as receitas não funcionam.

Até que um dia, ele desiste de tudo isso. E descobre algo surpreendente: um verdadeiro amigo ali bem na sua frente. E nos é revelado, então, o porquê da cor da capa e a escolha de um projeto gráfico simples (no sentido de formato e recursos de materiais extras, por exemplo) em que o desenho comunica uma mistura emocionante de graça, gritos, suspiros e satisfação. Em tempo de belezas diversas, preconceitos revistos e combatidos e lutas que parecem eternas, talvez seja importante pensarmos que isso tudo acontece junto, não?

No final do livro, Katia Canton conta que se inspirou na biografia do pintor holandês Rembrandt para a história de Rodrigo. O artista fez mais de 100 autorretratos e, para ele, não era só uma forma de registrar suas mudanças físicas, mas também as emocionais. É uma especialidade da autora costurar ficção e realidade para livros infantis, como já em Brincadeiras (Editora Martins Fontes), com pinturas de Alfredo Volpi, um dos meus preferidos.

GRANDEAMIGOCAPA

O Grande Amigo (Ed. Panda Books)

Textos de Katia Canton e ilustrações de Renato Moriconi

2016

LEIA TAMBÉM:

Renato Moriconi e o Troféu Monteiro Lobato

Katia Canton e suas fabriquetas de arte

Tudo Muda, de Anthony Browne

 

Olhem a capa:

TUDOMUDACAPAP

 

Qual primeira coisa que eu pensei: puxa, como será o nome do livro e a capa original? Este “D” espelhado já causou esse estranhamento gostoso e, claro, fez o convite. A capa e nome originais são estes:

TUDOMUDAORIGINAL

Mas do que se trata Tudo Muda, este livro do escritor e ilustrador inglês Anthony Browne, o quinto lançado aqui pela editora Pequena Zahar? O traço realista já está entregue mas tem algo intrigante… uma chaleira-gato? O leitor viraria, então, as páginas com pressa para ver a primeira da história:

 

Na manhã de quinta-feira, às dez e quinze, Gregório notou algo estranho na chaleira.

 

As outras coisas na cozinha estavam como deveriam estar, até que ele viu na pantufa também havia algo estranho. A pia? O que é isso na pia?

 

Naquela manhã, seu pai tinha ido buscar sua mãe. Antes de sair ele tinha dito que as coisas iam mudar.

 

Foi isso que ele quis dizer?

 

Olha, posso ser até condenada por isso, mas nenhum livro de Browne me impactou tanto quanto este. Claro que Gorila e Vozes no Parque são de perder o fôlego.

Sim.

Mas esta construção da história, da imagem, das expectativas diante da espera da mãe… com uma pequena companhia que vai mudar tudo. Tudo muda com a chegada de um irmão. Talvez este seja um tema saboroso para mim.

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A beleza do tom das frases e sequências com as ilustrações surrealistas que acompanham a tentativa angustiante de entender a frase tão enigmática do pai.

Quantos enigmas não lançamos à imaginação das crianças todos os dias?

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Não à toa, Browne é um dos vencedores do Prêmio Hans Christian Andersen, o nobel para os autores de literatura infantil. Profundidade e leveza no mesmo trabalho é para poucos.

Lágrimas e sorrisos no final, também.

 

Tudo Muda (Ed. Pequena Zahar)

De Anthony Browne

tradução de Clarice Duque Estrada

2015