Ruth Rocha e seus 85 anos nos meus 41

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Por cima, primeira versão, autograda por ela em uma entrevista. Atrás, o Marcelo, Marmelo, Martelo com novo projeto gráfico e ilustras de Mariana Massarani
Por cima, primeira versão, autograda por ela em uma entrevista. Atrás, o Marcelo, Marmelo, Martelo com novo projeto gráfico e ilustras de Mariana Massarani

É falar em livro infantil para falar em Ruth Rocha. Também pudera: são dezenas e dezenas de livros e, em 2017, 50 anos de carreira. Marcelo, Marmelo, Martelo, sue livro mais conhecido, passou de 1 milhão de exemplares vendidos. Mas Ruth não finca sua importância somente como autora e artista: seu poder de mediação é fundamental desde os tempos em que indicava livros a alunos em uma escola de São Paulo, até a coordenação das histórias editadas na revista Recreio que, em plena ditadura militar no Brasil, abriu um leque de possibilidades de conversas com as crianças, movimentou o mercado editorial com o lançamento de escritores e ilustradores e está na História como parte do “boom” da literatura infantil nos anos 70.

Muita coisa passou: o tal Marcelo de Adalberto Cornavaca ficou na memória (e na minha estante, com o autógrafo acima) e ganhou os traços fundamentais de Mariana Massarani. Hoje Ruth tem toda a sua obra reunida em uma única editora, a Moderna, e outros livros foram reprojetados graficamente. E ela não para de criar. http://www.salamandra.com.br/novidades/noticias/ruth-rocha-comemora-85-anos.htm

 

Hoje, 2 de março, ela completa seus 85 anos de idade. Mas falaremos dela a vida toda. Todas as nossas vidas foram influenciadas por ela de alguma forma.

Ela também faz parte da minha vida pessoal, no caso não só nas leituras e memórias de infância: mas a nova vida que construí a partir de 2005, quando entrei na revista Crescer (onde fiquei 8 anos). Foi de uma conversa com a Ruth que soltei meu jeito de escrever reportagens e, mesmo não sabendo à época, um primeiro passo para me tornar a pesquisadora apaixonada que sou hoje.

Por isso fiz aqui um mix das conversas que tive com ela. Com todo meu respeito, sempre.

Aqui vão 3 entrevistas, duas para a parte impressa e um vídeo na casa dela.

Ruth Rocha desenhada por Ziraldo para um livro
Ruth Rocha desenhada por Ziraldo para um livro

Meu primeiro encontro com ela foi para uma entrevista para ser publicada em julho de 2005, em virtude do dia do escritor, comemorado dia 26. A ideia era entrevistar também Ziraldo. Mas não foi possível reuni-los em um único dia, mas foi divertido colocá-los juntos na edição, que é isso que mostro a vocês aqui.

 

Meu texto começa assim:

 

Escola adora festa. A idéia era fazer uma homenagem às avós. Todo mundo estava lá: pais, mães, colegas, professores, outras crianças, e aí chegou a vez de Miguel falar. Cada neto tinha de dizer coisas bonitas sobre a avó, como “ah, ela faz doces maravilhosos”, “ah, ela me deu uma boneca linda”. Só que Miguel, na hora H, disse:

 

— Ah, não quero falar, não.

 

— Como não? – perguntou a professora.

 

— Não, não quero.

 

Ouve-se, então, uma voz, vindo da platéia:

 

— Não quer falar, não precisa falar. Dispensa o menino disso, coitado!

 

Assim é a vovó Ruth Rocha, que, no fundo, no fundo, também achava toda aquela história de homenagem meio chata. Não com cabeça de avó, claro, que acha lindo qualquer coisa que o neto faz. Mas com cabeça de criança, de criança que adora fazer só o que gosta. E ela adora pensar como criança, igualzinho um amigão dela, o Ziraldo, que gosta mais ainda é de desenhar, desenhar muito, e publicar tudo em livros para serem lidos por muita gente.

 

História contada assim parece até que é sobre a vida da gente. Pois é com essa sensibilidade que Ruth Rocha e Ziraldo hoje são lembrados por milhões de leitores em todo o Brasil. Eles acabam de lançar um livro juntos pela primeira vez (Um Cantinho só pra Mim, Editora Melhoramentos), de uma série lançada para comemorar os 25 anos do Menino Maluquinho. Em entrevistas separadas, CRESCER conversou com os dois para tentar descobrir se eles escrevem para crianças porque não deixaram morrer a criança que existe neles… “Que nada!”, reagiram eles.

 

Dia 25 de julho é o Dia do Escritor. Quem nos lembrou isso foi a própria Ruth Rocha, em seu Almanaque Ruth Rocha (Editora Ática): “Este dia é muito importante para mim. Não só porque eu sou uma escritora, mas porque me tornei uma escritora por causa dos livros que eu li”. Mas fomos nós que lembramos a data a Ziraldo. “Dia 25 é Dia do Escritor? Que maravilha! Vamos fazer a maior festa!” Ambos na casa dos 70 — a paulista Ruth nasceu em 1931 e o mineiro Ziraldo em 1932 —, eles riem como crianças quando o assunto é fazer literatura infantil. Divirta-se com eles.

 

CRESCER: Ruth, que livros foram esses que você leu?

 

Ruth: Minha mãe era louca por livro. Meu pai era médico, tinha cultura e tudo, mas minha mãe amava qualquer livro. Ela lia quando éramos pequenas, depois comprava para nós lermos. O primeiro livro que ela me deu foi O Garimpeiro do Rio das Garças, que é um livro do Monteiro Lobato inteiramente esquecido, uma graça. Com uns 12 anos, comecei a ler romances. Um professor, uma vez, pediu um trabalho sobre o livro A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós. Eu, espertinha, fiz o trabalho sem ler o livro, só com as coisas que ele tinha contado na aula. Tirei a nota mais alta da classe, fiquei muito envergonhada, e fui ler o livro depois. Desde então, descobri a literatura. Depois conheci os modernistas e até hoje adoro Mário de Andrade e Manuel Bandeira. O modernismo me deu muito de como escrevo. Uma vez disseram que eu escrevia frases curtas por influência da TV… coisa nenhuma!

 

CRESCER:Você fez sociologia por causa da leitura?

 

Ruth: Fui para essa área por ter lido Casa Grande Senzala, de Gilberto Freyre. Na escola de Sociologia fui aluna de Sérgio Buarque de Holanda, que era sensacional. Mas a profissão era muito difícil, em um tempo em que sociólogo era comunista, baderneiro. Casei, queria trabalhar e arrumei um emprego no Colégio Rio Branco, de ajudante de biblioteca. Quando o diretor viu minha amizade com as crianças, me convidou para ser orientadora educacional. Por essa experiência, fui convidada por uma amiga, a Sônia Robatto, para ser orientadora pedagógica na revista Recreio, da Editora Abril. Desde 1967, eu já escrevia uns artigos sobre educação para a revista Claudia. Nessa época eu tinha feito também a pós-graduação em orientação educacional.

 

CRESCER: Foi aí que você começou a escrever literatura infantil?

 

Ruth: A Sônia pedia um texto que fosse sobre o dia-a-dia da criança. E fiz um conto. Todo mundo gostou e não parei mais. As pessoas que escreviam para criança viviam em uma sombra imensa que impedia que se fizesse algo original, que era o Lobato. Mas tinha muita gente boa. Nós fomos nos conhecendo e publicando, como Ana Maria Machado, Sílvia Ortoff e ilustradores fantásticos, como o Ziraldo. Mas o Ziraldo já era “o” Ziraldo…

 

CRESCER: E, como você, ele já estava perto dos 40 anos quando começou a escrever para criança…

 

Ruth: O Ziraldo sempre fez muita coisa, ele sempre foi muito disponível, fazia tudo o que pediam. E até hoje faz! Só que eu paro para pensar: o Ziraldo está louco? Puxa vida, se eu tenho 74 anos, ele tem 73! Não dá mais para fazer tanta coisa! Ele primeiro faz, depois pensa e aí reclama Ai, tô cansado” (risos). Eu já tinha 38 anos quando escrevi meu primeiro conto. Fico pensando que passei minha vida toda me preparando para isso, com as minhas leituras, e que a orientação educacional me deu a régua e o compasso. Só percebi que eu era escritora em 1976, quando publiquei 13 livros, todos de uma vez. Vieram as resenhas, as críticas, aí pensei: “Gente, sou escritora!”

 

Ziraldo: Nos anos 60, fiz a Turma do Pererê, minha paixão, história em quadrinhos. Aí veio o golpe e tivemos que parar. Aí veio o Flicts, mas, em tempo de AI-5, tivemos de deixar Flicts de lado e fazer política: o trabalho no Pasquim, as charges … Aí, a ditadura foi acabando e, em 1980, criei o Menino Maluquinho e não parei!

 

CRESCER:Você acha que o Menino veio na hora certa?

 

Ziraldo: Acho sim! E não faria um livro desses antes. É um livro que você escreve depois de ter vivido tudo, causas e conseqüências.

 

CRESCER: O que o adulto precisa ter para escrever para criança?

 

Ziraldo: Temé que gostar do que faz. Fazer livro para criança é muito divertido. Com a criança a gente pode brincar quanto quiser. Escrever para criança é muito importante. Quem não lê quando criança não lê quando adulto! E o escritor infantil dura mais tempo. Muda o público e ele continua lá. Como, por exemplo, Monteiro Lobato, porque pai e mãe querem que os filhos leiam os livros que eles leram!

 

Ruth: Escrevo como adulto e não como criança. Sou uma pessoa que tenho uma ligação, uma sensibilidade com as pessoas, para o que elas pensam. Sou cúmplice da criança. Ela é um ser indefeso, me solidarizo, sinto o que ela está sentindo.

 

CRESCER:Você inventava histórias para sua filha, Mariana, ou inventa para os seus netos?

 

Ruth: Mais com a Mariana. Ela não queria história que existe. Eu lia a Gata Borralheira, mas ela dizia assim: “Eu quero a história dessa mesa”.

 

CRESCER: O que seus netos pensam de ter a Ruth como avó?

 

Ruth: Ah, eles nem pensam nisso. Na escola, as pessoas às vezes comentam, mas eles não me levam muito a sério. Eu também não me levo muito a sério!

 

CRESCER: Do que você brincava?

 

Ruth: Eu gostava de boneca, de fazer boneca de papel, fazia vestidos, recortava homem e mulher de revista, montava as famílias. Adorava ficar na rua, brincava de roda, de pegador, de bola, amarelinha, andar de bicicleta e até papagaio empinei.

 

Ziraldo: Naquela época, não tinha muito brinquedo, brincava na rua, de bandido e mocinho, de procurar tesouro. Adorava passar susto nos outros. A gente pegava gravatas do meu pai, enchia de areia e colocava no fim da linha de trem para parecer que era uma cobra. E aí todo mundo dava aquele pulo! E a gente morria de rir! Também soltava pipa, jogava bolinha de gude.

 

CRESCER: Era melhor ser criança naquela época?

 

Ruth: A criança de hoje tem uma oportunidade que antes não se tinha. Eu tive, mas os outros não: conversar com os pais. Hoje ela pode falar, ser ouvida, colocar suas opiniões. E isso é uma maravilha.

 

Ziraldo: Olha, não tem essa coisa de “ah, naquele tempo que era bom”… Que nada! Eu queria era ser menino agora! Ter televisão, computador, videogame! Ah, imagine se eu fosse menino hoje, quanto eu iria aproveitar!

 

A segunda entrevista foi para a minha coluna Ler Para Crescer, em virtude do relançamento do Almanaque da Ruth Rocha, em 2011, uma delícia necessária a qualquer infância, com histórias e curiosidades ótima de conhecer.

 

CRESCER: Está feliz em relançar algo tão especial para a senhora?

Ruth Rocha: Estou muito feliz porque ele é muito especial mesmo. Toda a minha vida eu quis lançar um almanaque. Independentemente de eu ser escritora, eu adorava o Almanaque Tico-Tico, achava a coisa mais divertida. E foi muito divertido fazer. Deu um trabalho! (risos)

 

C: Tem muita coisa mesmo, não?

RR: Tem mesmo! Adorei que a nova editora que estou agora quis relançá-lo.

 

C: Há algo novo de texto? 
RR: Não, só de ilustração, uma segunda edição mesmo.

 

C: Até porque, nada que está ali envelhece não?

RR: Eu pensei se teria de fazer algo diferente, mas achei uma pena esse sumir, fiquei com medo de que fosse esquecido. Acho que as crianças vão nascendo…

 

C: São novos leitores… 
RR: Sim, não tinha cabimento esquecer do que estava lá.

 

C: O que você acha que as crianças mais ganham com esse Almanaque? 
RR: Eu quis fazer porque é divertido. E como tem muito conhecimento e que conhecimento é algo que também diverte, e quando olhamos para ele de uma maneira alegre e sem preconceito, melhor ainda. Fácil, simples e divertido.

 

C: Como você criou o livro?

RR: Eu reuni material por anos. Desde que eu trabalhei na revista Recreio já fazia as edições com atividades, então juntei por muitos anos e continuei juntando, mesmo depois que saí. Mas precisava tempo para escolher tudo.

 

C: E os outros relançamentos?

RR: Já relançamos uns 80 livros! Para revisar, acompanhar, acho que nunca trabalhei tanto na minha vida! (risos). Sempre gostei muito de trabalhar, é uma coisa que não me incomoda.

 

C: Faz bem para a alma…

RR: Faz bem demais, ainda mais eu que já estou velha. E uma pessoa mais velha precisa disso.

 

C: E está dando tempo de pensar em novas histórias?

RR: Há algumas antigas que estão na gaveta que estou pensando em editar. E estou reeditando. Tenho um livro que era para ser uma coleção chamada Meninas do Brasil, com bonecas vestidas em vários estilos, roupas de várias épocas. Não fez tanto sucesso econômico, vinha uma caixa com a boneca e o livro. Faz uns 10 anos. Eram bonecas de fases no Brasil. Fazia junto com a Anna Flora, uma amiga minha, e tinha uma chamada Leila, uma paródia a Leila Diniz, falando da época em que as mulheres procuravam seus direitos. Era na época da ditadura mesmo. Esta eu tenho uma até hoje. E estamos para relançar essas histórias, mas sem a boneca.

 

C: Então tem muita coisa para acontecer!

RR: Muita! Vai sair uma nova edição do Marcelo!

 

C: Que bom! Quando?

RR: Este ano ainda, com a Mariana Massarani! Você a conhece?

 

C: Sim!

RR: Ela é uma graça, se divertiu tanto! Ela faz com alegria, um amor.

 

Outro incrível encontro foi registrado em vídeo, em 2009. Uma conversa na casa dela, para uma série de entrevistas que produzíamos na época. Fica aqui ela com vocês:

 

 

 

 

 

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