Cata vento, cata histórias

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Este post é um retorno! Havia um tempão eu não conseguia vir aqui escrever. Para esta espécie de recomeço, um livro importantíssimo deste 2023 e um texto aqui resenhado em conjunto com Ananda Luz, grande pesquisadora das áreas do livro, infâncias, e as questões étnico-raciais envolvidas – e minha grande parceira na coordenação da pós O Livro Para a Infância n’ A Casa Tombada! 

 

2023 termina com esta beleza chegando às nossas mãos: O Catavento, primeira parceria de Heloisa Pires Lima e Josias Marinho, vem nos encantar em todas as infâncias possíveis

por Ananda Luz e Cristiane Rogerio

“Quando passei pelas Ilhas do Caribe (e são várias) aprendi sobre alguns antigos habitantes de lá, vindo de um lugar chamado África. Tinham eles a argúcia de ficarem invisíveis para uma gente cruel que tentava escravizá-los. Mais hábeis, os invisíveis também criaram línguas só decifráveis entre eles. Uma delas, o sopro numa extraordinária concha do mar dali. O som levava longe anúncios, notícias e combinados camuflando a comunicação para os de fora. Então os cimarrons, como eram chamados, sobreviveram por muito tempo deixando descendentes, até os dias de hoje. No Brasil, os quilombolas possuem vivências parecidas com as deles, ou com as dos cumbes, dos palenques, comunidades vindas de muitas Áfricas, cujo tempo tratou de espalhar pelas Américas.”

Será que ventou algo neste início de leitura por aí? Este texto é da Heloisa Pires Lima, escritora do livro O Catavento, última novidade da Editora Passarinho de 2023! Ele vem como uma brisa destinado a ser lido pelos mediadores de leitura, aqueles que podem soprar esta história para outras leitoras e leitores. É a primeira parceria dela, que publica histórias na nossa literatura para infância há 25 anos, com o autor de imagens Josias Marinho. 

 

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Todo mundo catando ventooo… Cataventos… tudo porque a menina bela lá do quilombo quis catar o vento que antes catava tudo… tudinho que pela frente encontrava. Até chegar no quilombo, ou seria cumbe, ou seria palenque, ou seria cimarron… Depende se é de lá ou acolá, mas todas essas palavras que são parte do vento no livro nomeiam a coletividade que se fez resistência cultural e social à escravidão. Cimarron foi usado no Caribe para nomear aquelas pessoas que aguerridamente resistiam e se organizavam para combater as violências da colonização e acolher outras pessoas. Na mesma carta para educadores que usamos como abre-alas, Heloisa, escritora porto-alegrense, destaca “Recontar façanhas desse porte redimensiona o modo do futuro perceber o passado. Veja que por muito tempo a noção “quilombo” foi associada à ideia de fuga. Porém, quem foge, não enfrenta. E a existência histórica dos quilombos é colossal em enfrentamentos. E não é pouco restaurar a liberdade e reaver territorialidades identitárias. Então, a primeira vez que a palavra quilombo for ouvida por nossas crianças, ainda na primeira infância, que ela entre altiva em seus imaginários.” 

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Eram eles vento: invisíveis aos olhos dos opressores, mas sopro fino ou vendaval que era a forma de se comunicar. De chegar em mais e mais pessoas para “revirar a história”. Vento, ventania, vendaval e os autores nos convidam a dançar. É uma leitura para se fazer com o corpo inteiro. Mesmo se for sozinho, a vontade é de ler livre, ora em voz alta, ora baixinho, deixando as palavras se relacionarem com as ilustrações belíssimas de Josias que envolve nossos corpos como fio de vento que vai de uma página à outra, do amanhecer ao anoitecer. Até o corpo adormecer.  

 

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O livro, com projeto gráfico assinado por Adriana Campos é este convite constante para brincar com o vento. No formato retangular, o livro é um percurso, comprido e da cor do azul do céu ensolarado, e que vai conduzindo quem abre suas páginas a seguir o caminho da ventania. Até as letras – as fontes do livro – continuam a provocar: elas se afastam entre si, ficam maiores e menores e ocupam as páginas de diversas maneiras. O movimento das ilustrações se dá no balanço da saia no varal, no guarda-chuva voando pela cidade e até cata a gota d’água da cachoeira. Cata tudo. No final da edição, que tem capa dura e bordas arredondadas, Heloisa apresenta a história por trás do livro, inclusive o fazer da Adriana, que é “inventadeira do tamanho das letras e desenhos, entre tipos de papéis, ajustando tudo como quem faz poesia”. Para completar, na página da ficha catalográfica, há a indicação para assistir ao vídeo de Hideo Kumayama e Johnny Henrique Ferreira no canal do Youtube da editora, para aprender a fazer um origami de catavento muito especial. 

Em todos os aspectos, o tempo todo a obra se reafirma como para todas as idades. Abre conversas importantes sobre identidade, provocações sempre presentes nas obras de Heloisa, desde Histórias da Preta (com Laurabeatriz, pela Cia das Letrinhas), como em outro da mesma editora Passarinho, dedicado ao neto, O Rei Que Assobiava (em parceria com Flávia Carvalho). Josias que nasceu no território quilombola Real Forte Príncipe da Beira, em Rondônia,  traz ilustrações carregadas de memórias vividas às margens do Rio Guaporé, como podemos ver no livro O Príncipe da Beira (Editora Mazza). Suas ilustrações são ventos que  comunicam de forma singular um pouco de si e um muito de nossas histórias. Este livro que se materializa no coletivo é boniteza assinada por Heloisa que do Sul se encontra com Josias no Norte do Brasil. Só mesmo o vento para nos dar esse presente. 

O Catavento, de Heloisa Pires Lima e Josias Marinho

Editora Passarinho

2023

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