Um entardecer em si com Odilon Moraes

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Obra nova do artista sai pela Maralto Edições com tempo longo de maturação do autor e uma reflexão sobre o amadurecimento de um personagem e de nossos pensamentos sobre o que é um “livro ilustrado”

 

por Cristiane Rogerio

Suspiro. Como será que eu começo o texto sobre este livro, me pergunto. O Odilon fez um livro sobre um velho chinês. A inspiração é… ele mesmo. Quando passou dos 40 começou a se imaginar mais para frente, olhando para trás. Haveria perdas? Saudades? Estaria satisfeito com o que?

Agora sou eu pensando o Odilon pensando para um livro. E me vem à memória uma visita que fiz a ele uma vez. Era uma manhã fria e cedo: embico meu carro na entrada da casa dele e ele vem abrir o portão, dois cachorros o seguem, ele de casaco e cachecol, e eu estou mais uma vez rumo a seu ateliê. A figura de um sábio – aquela dos imaginários – que faz o convite para a visita, que está sempre pronto para escutar e que ama – ama, ama, ama – contar histórias. Hoje essa memória misturada ao novo livro que Odilon Moraes acaba de lançar me remete a outro livro que amo, uma outra figura-Odilon: “O Velho Louco Por Desenho” (Companhia das Letrinhas), de François Place, sobre um senhor excêntrico e fascinante chamado Hokusai, que vem com gosto de ficção, mas é história da arte, fazendo uma biorreferência (existe esta palavra?) ao criador do mangá. 

Odilon é um dos meus professores sobre o tempo. É o meu amigo com o qual eu falo mais vezes sobre o fato do livro criar tempos, páginas a páginas viradas. É também uma das pessoas que mais vibro com “descobertas” que dão um tom a mais às nossas linhas do tempo dos livros ilustrados. Estes aqui foram lançados antes ou depois daquele? O que mesmo acontecia aquela época? Tal linguagem tinha nome? Isso tudo no mesmo século dezenove, jura? Naquela época já tinham experimentado este formato? 

É também quem me acompanha no meu tempo de pesquisadora, de leitora, de colecionadora de livros e de histórias sobre os livros, autorias, parcerias. E é também quem eu gosto demais de acompanhar – e tentar compreender um tempo que é só dele: seja o de responder as mensagens de whatsapp, seja de lançar “este e não aquele outro livro” que estávamos esperando. Um artista no seu tempo. 

Em setembro de 2020, conversávamos sobre o cronograma de aula da turma 7 da pós O Livro Para a Infância (A Casa Tombada), da qual Odilon faz parte deste a turma 1 mas que esta tinha o “quê” de novidade: a primeira 100% online. Ele estava ansioso pois achava que o módulo começaria no dia seguinte, mas tínhamos ainda algumas semanas para o início. Engano resolvido, ele escreve:

“Deixa eu te mostrar um pouquinho do que estou fazendo.” E me envia um desenho. Um não, três. Uma composição diferente e na minha ignorância soltei:

“Japonês? O que é?”

“Esse se chama O Entardecer de Lin Cheng. Criei um personagem chinês que conta sua própria história. Estava na gaveta porque era um livro ilustrado com uma perspectiva muito adulta. Não achava que alguém pudesse publicar. Então a Cris (Matheus) da Positivo me liga do nada (chamado de Deus, rs) e pergunta se eu teria um livro ilustrado para adulto. Respondi de pronto: Sim! O Lin Cheng. E assim pude tirá-lo da gaveta e vestir uma voz oriental. Eu acho ele divertido. Mas a Carolina (Moreyra, companheira de Odilon de vida e de escritas) achou triste.”

“Chinês, claro. Ai a Cris! E ela vai cuidar muito!! Odilon que passo estupendo!”

“Já pensou se pega o livro ilustrado para adulto também?”

“Uau, isso me deixou mais curiosa.”

“Sempre acreditei nisso. Parece que a Cris também.”

“Nossa, a gente vai poder falar disso (“finalmente”, era o que eu pensava junto).”

“Tô à disposição e acho uma ótima discussão. Na própria EJA (Educação de Jovens e Adultos) podia ser revolucionário. Não com esse governo, né? Mas supondo que o pensamento sobre isso evolua. Não ia ser legal? O próprio Lin Cheng é a história sobre a mudança de olhar o mundo de alguém que envelhece. É esse personagem Lin Cheng o tempo todo – e por isso que o livro é de um lado pro outro, depois te mostro, como ele via quando jovem, como ele via quando velho, e eles estão meio se encontrando até que no final… (ops, esta parte não vou contar, pessoal do Esconderijos!). É um livro de quem já vê a vida a partir da velhice, ou pelo menos tem essa experiência possível. Uma criança não vai entender. É um tema profundo com poucas palavras, para alguém que está envelhecendo.”

“Mas as crianças podem se sensibilizar. Lindíssimo.” 

E eu ainda não havia pegado o livro nas mãos.

No final de 2023, a Maralto Edições anunciou o lançamento “do livro do chinês do Odilon”. Editora Maralto? Sim, a Maralto é um selo editorial da Companhia Brasileira de Educação e Sistemas de Ensino, da qual compõe a editora Positivo. Quem cuida dele é a mesma Cristiane Matheus que, na coordenação editorial dos projetos que já “nasce” com 150 títulos no catálogo em 2022 – e continua. É curioso que, à época da minha conversa com Odilon ele tenha falado da EJA, pois as escolas são o grande foco da nova editora. Mas, por outro lado, sempre livros que cheguem às livrarias e às vendas diversas, valorizando uma ideia de que o “tornar-se” leitor seja um trabalho de muitos. “Se a produção de livros for tratada apenas como negócio, perde sua essência; mas, se for tratada só como missão, vocação, aumenta muito o risco de não se sustentar ao longo do tempo. É esse equilíbrio que estamos buscando desde o início”, disse Cristiane ao site Publishnews, em fevereiro de 2022. 

O livro, no entanto, chegou a mim pelo próprio Odilon, durante a Oficina de Criação de Livro Ilustrado que ele e Carolina Moreyra promovem desde 2018 n’ A Casa Tombada, onde trabalhamos todos juntos. Ele quis mostrar a novidade aos alunos e a mim, com a alegria de um livro que acaba de sair, mas também com uma história boa para contar. É assim que muitos autores dão suas aulas: falando dos processos, elaboram sobre eles com quem ouve. Começa a contar para nós, então, que teve a ideia deste livro muitos anos atrás, depois dos 40… enfim, esta história vocês já sabem. 

Abriu o livro e começou a mediar a leitura para gente. 

Aula da Oficina de Criação de Livro Ilustrado com Carolina Moreyra e Odilon Moraes, parceria A Casa Tombada e Casa das Caldeiras, janeiro 2024
Anna Lúcia Maestri, Susana Garcia e Maria Helena Alvim (mais escondidinho) em aula da Oficina de Criação de Livro Ilustrado com Carolina Moreyra e Odilon Moraes, parceria A Casa Tombada e Casa das Caldeiras, janeiro 2024

 

Rosane Ferreira, Claudia Codgnato (mais escondidinho), Sofia Fajersztjan, Leonor Decourt e Selma Boaventura (mais escondidinho) em aula da Oficina de Criação de Livro Ilustrado com Carolina Moreyra e Odilon Moraes, parceria A Casa Tombada e Casa das Caldeiras, janeiro 2024
Rosane Ferreira, Claudia Codgnato (mais escondidinho), Sofia Fajersztjan, Leonor Decourt e Selma Boaventura (mais escondidinho) em aula da Oficina de Criação de Livro Ilustrado com Carolina Moreyra e Odilon Moraes, parceria A Casa Tombada e Casa das Caldeiras, janeiro 2024

O livro abre com uma epígrafe: “Lagartas e borboletas conversam ao entardecer.”, assinada por Lin Cheng. Mas ele existe? Existiu? É uma biografia? “Pois é” – nos diz Odilon já conhecendo nós leitoras e leitores antes mesmo de falar algo, reafirmando que, sim, é o chinês dele inventado falando. No objeto retangular que vemos na vertical, lemos:

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em seguida, lemos:

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Opa, “se é livro ilustrado”, pensamos juntos, significa que aquilo que vemos – uma página de texto à esquerda, uma página com ilustração à direita, uma dupla só de ilustrações em seguida – é um ritmo. Qual é a dança que Odilon nos propõe? 

É Odilon quem sempre usa este termo, “dança”, para falar do conceito do livro ilustrado. Deste gênero em que palavra, imagem e design narram a história de forma tão intrincada que é como se “dançassem” para o leitor ou a leitora, que tem ali a oportunidade de assistir a aquele espetáculo. É a terceira dupla, no entanto, que dá ao O Entardecer de Lin Cheng o terceiro passo do compasso. 1, 2, 3; 1, 2, 3.

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É assim que vamos ritmando a leitura enquanto tentamos entender um senhor de idade que observa todas as manhãs que algo que era vigoroso nele está se perdendo com o tempo. As imagens, no entanto, nos adiantam uma espécie de dica do que virá depois. E o texto, ou a página-texto, também tem um ritmo, como um poema, um conto, um momento. Um tempo. Quando o leitor aprende a cadência já está totalmente envolvido, absorto naquela reflexão sobre o envelhecer. 

Seria certo, eu, com o objetivo de resenhar este livro, falar tanto assim do autor? Importa o autor?, perguntamos tanto no estudo das literaturas. Importa o que pensa, o que é, o que sente? Mas o autor não fala de algum lugar, de como se entende no mundo, de um tempo específico? Para Anna Lucia Maestri, poeta, educadora e uma das alunas da oficina de janeiro, ficou muito impactada por este “por trás da história”. “A inspiração que o levou a criar o livro, ao se deparar com a própria passagem de idade, as escolhas autoficcionais em criar um personagem marcante dentro desse simbolismo da sabedoria oriental que ao menos pra mim, é o que mais se aproxima da ideia de serenidade, e a dualidade que existe não só no conflito jovem/velho mas que se reflete em tudo o que vivemos… nessa experiência sensível através dos próprios sentidos, o que vem e o que fica, o que era e o que ainda vai ser, o que surge e o que desaparece, o que se entristece e o que sorri, criando essa conversa caleidoscópica com o tempo, nossas próprias metamorfoses como indica a epígrafe.” Outra aluna da turma, a escritora Maria Helena Alvim, comentou: “Eu acrescentaria só o fato de ser um livro que ficou na gaveta esperando a hora certa dele acontecer.”

O tempo.

Odilon se imaginou velho e trouxe uma figura completamente diferente dele, “vestiu uma voz oriental”, como disse para mim, mais de três anos atrás. Susana Garcia, ilustradora e uma das alunas da oficina, me disse depois que: “as pausas, o respiro que a imagem traz faz refletirmos sobre a vida”. 

O tempo. Suspiro. 

 


O Entardecer de Lin Cheng, de Odilon Moraes
Maralto Edições, 2023

 

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