O Grande Amigo

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Esta não é uma história de amizade.

Como assim?

Não exatamente como pode nos causar o interesse no título. Começa assim:

Rodrigo não era exatamente um tipo bonito por natureza. Mas também não era feio. Tinha um nariz de batata, o rosto quadrado e os lábio bem-feitos. Os cabelos eram castanhos e levemente encaracolados, era baixinho e tímido. E põe tímido nisso. Seus pais e sua irmã colocaram nele o apelido de Bicho do Mato, porque toda vez que alguém desconhecido aparecia de repente ele se escondia e ia direto para o quarto.

 

Pensei: “hummm, será que isso soa preconceituoso? Será que esse abre de texto vai causar indignação por citar padrões de beleza discutíveis?”.

Pois é. Era isso.

Assim é O Grande Amigo, novo livro da escritora e artista plástica e professora da USP Kátia Canton, lançado pela editora Panda Books.

GRANDEAMIGOMENINO

O que vemos na página à direita é um desenho de um menino. Mas ele está de costas. Ideia do autor do traço, o premiado ilustrador Renato Moriconi.

Ao abrir a próxima dupla de páginas, nos deparamos com mais duas pessoas que, no texto, nos damos conta de serem os pais de Rodrigo.

GRANDEAMIGOPAIS

Também estão desenhados de costas.

Rodrigo queria muito um amigo. Também tinha o desejo de que seus pais prestassem mais atenção nele.

É quando nos damos conta de que Moriconi leu o texto de Katia como uma sucessão de retratos. Todos de costas. Todos em uma sucessão de não olhares para Rodrigo.

O menino segue a cartilha/manual de sobrevivência do tímido: tenta se aproximar de um menino na praia, arrisca algumas palavras com a menina que gostava da escola, entra no campo para uma partida de futebol com os meninos da classe. Mas as receitas não funcionam.

Até que um dia, ele desiste de tudo isso. E descobre algo surpreendente: um verdadeiro amigo ali bem na sua frente. E nos é revelado, então, o porquê da cor da capa e a escolha de um projeto gráfico simples (no sentido de formato e recursos de materiais extras, por exemplo) em que o desenho comunica uma mistura emocionante de graça, gritos, suspiros e satisfação. Em tempo de belezas diversas, preconceitos revistos e combatidos e lutas que parecem eternas, talvez seja importante pensarmos que isso tudo acontece junto, não?

No final do livro, Katia Canton conta que se inspirou na biografia do pintor holandês Rembrandt para a história de Rodrigo. O artista fez mais de 100 autorretratos e, para ele, não era só uma forma de registrar suas mudanças físicas, mas também as emocionais. É uma especialidade da autora costurar ficção e realidade para livros infantis, como já em Brincadeiras (Editora Martins Fontes), com pinturas de Alfredo Volpi, um dos meus preferidos.

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O Grande Amigo (Ed. Panda Books)

Textos de Katia Canton e ilustrações de Renato Moriconi

2016

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