Katia Canton e suas fabriquetas de ARTE

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katiacantonfotoConheci a autora Katia Canton bem no meu começo de vida na revista Crescer. De cara me apaixonei pelo jeito dela de fazer questão de compartilhar conhecimento. E este desejo dela constante era aliado a um respeito muito grande aos artistas que ela exibia – até porque, ela mesma é artista plástica e sabe como ninguém como gostaria de ser tratada – e também um cuidado delicado de como faria. O primeiro livro sobre o qual conversamos foi o belíssimo Brincadeiras (Ed. Martins Fontes, 2006) com pinturas dela e de ninguém menos que Alfredo Volpi. O jeito que ela fala com a criança desde a introdução é um deleite, pela simplicidade e sinceridade. O nome do capítulo é Volpi, O Tio Que Eu Queria Ter e começa assim:
“Não, ele não é meu tio de verdade, mas bem que eu gostaria que fosse… A solidez óssea de sua face, o nariz e as orelhas protuberantes, o olhar sereno sublinhado por bolsas profundas, a idade avançada compunham um retrato de força e dignidade.”
Katia sempre está preocupada em fazer o convite e acho isso uma espécie de dádiva. Por isso, ela tem uma série de livros sobre arte e histórias para crianças em que a brincadeira é contar o que sabe, criar e inspirar ideias novas.
Acontece o mesmo em Fabriquetas de Ideias (Ed. Companhia das Letrinhas), que Katia lançou recentemente sugerindo – mas sem julgar! – que a gente pare para brincar com papel, lápis e tesoura usando o nosso bem mais precioso: a imaginação.

São mais de 80 opções de brincadeiras e atividades, acompanhadas de uma deliciosa linguagem e com reflexões sobre arte, ecologia, cultura, história e literatura. Para, acima de tudo, divertir e proporcionar bons momentos, daqueles de guardar na memória. Ele começou com uma série de artigos e ilustrações que ela fez por mais de dois anos para o caderno Estadinho, do jornal O Estado de S. Paulo. Mas as ideias continuaram a tomar corpo e se organizaram nesta espécie de almanaque-de-fazer-coisas-legais que, para mim, se torna imprescindível a qualquer infância. Tudo curtinho e rápido para fazer e refazer em casa, na escola, em dia de chuva, num piquenique no parque, em grupo, sozinho, dupla, com o amigo, o avô, o primo que chegou de longe… um convite ao brincar!FABRIQUETAdentro1
Conversei com Katia sobre este projeto. Acompanhem aqui!
ESCONDERIJOS DO TEMPO: Como nasceu a ideia da Fabriqueta de Ideias? Você quem escolheu o nome?
KATIA CANTON: Eu mesma que escolhi, pois pensei que uma fábrica pode produzir muitas coisas, produtos. Uma fabriqueta, uma fábrica pequenina, teria uma conotação carinhosa, e seria pensada para propor novas ideias e possibilidades criativas para as “crianças de todas as idades”.
capa Fabriqueta de Ideias

ESCONDERIJOS: É lindo o seu texto de abertura do livro, em que você fala que a arte é um exercício de liberdade e que, por outro aspecto, é uma maneira de transmitir cultura, conhecer o mundo. Para você, o que é arte? E o que é cultura?
KATIA: Arte é uma manifestação da cultura. Ela é capaz de levar para caminhos diferentes, que se bifurcam: por um lado, arte é uma herança cultural, pois testemunha a história de um povo e de um contexto; por outro lado, arte é subjetividade, pois ela representa uma experiência única. Cada pessoa pode reagir de uma maneira única e ter reações e sentimentos muito diversos diante de uma mesma obra de arte.

ESCONDERIJOS: Como podemos passar esse conceito para crianças? E é possível também para as que já cresceram, os chamados “adultos”, rs?
KATIA: Sim, acredito que o instrumental das ideias, da criatividade, do lúdico é importante para que nos tornemos seres humanos melhores. Trata-se de algo precioso na educação das crianças e também igualmente útil para a reciclagem de nossos pensamentos, crenças, possibilidades como adultos que desejam fazer a diferença no mundo.

ESCONDERIJOS: Conversamos rapidamente sobre a questão das pessoas (o governo inclusive) não entenderem ou não investirem no acesso à arte e à cultura? Estamos vivendo no Brasil uma onda de manifestações que estão nos apontado muitas faltas. A arte e cultura
estariam nesta lista? No que o acesso à cultura pode mudar um cidadão, uma sociedade? E, por conta disso, qual a importância de iniciar ainda na infância?
KATIA: A arte representa uma possibilidade, uma experiência de exercitar a liberdade crítica e construtiva para mudarmos o país e o mundo. A vida atual é cheia de respostas prontas e modos digitais de existência. Já a arte vai na contramão dessa padronização de comportamentos e ideias pois nos faz enxergar as coisas de maneiras constantemente diferentes. A arte e a criatividade serão cada vez mais valorizadas num futuro próximo como bens fundamentais, bases de uma mudança positiva de atitude. Quanto mais cedo se introduzir essa possibilidade de criação, logo na tenra infância, melhor para as crianças, pois estarão mais preparadas para testar novos limites e possibilidades. O mundo, afinal, não para de mudar. E isso, numa rapidez incrível!

ESCONDERIJOS: No Fabriqueta, você dá informações sobre artistas, ensina técnicas de arte, brinca com conceitos da nossa língua… E nos conta que o livro é, na verdade, a sua história de vida, o que você fazia na infância e o que você aprendeu na profissão de ser artista e compartilhar arte. Inspirada nos temas que você dividiu o livro, diga pra mim:
– Com qual artista você mais se identifica e por que?
KATIA: Adoro os artistas que adoram as crianças, tipo Miró, Chagall, Karel Appel, Ernesto Neto, Luiz Hermano, Leda Catunda, entre outros.

– Das técnicas divertidas, há alguma que lembre uma boa história
pessoal? Pode ser de quando você a aprendeu ou de quando você fez com o seu filho João, ou de quando você estava em uma oficina.
KATIA: Sempre adorei brincar com o João de desenhar com carimbos. Adorava pegar carimbos com desenhos de bichinhos, por exemplo, e criar com eles contornos de outros objetos e retratos, por exemplo.

– E dos passatempos artísticos? Qual marcou mais”
KATIA: Um que me emociona é o pote de desejos, que uma amiga querida e ex-aluna, a Paula, fez para mim e sempre me acompanha: um vidro de azeitonas vazio, que ela enfeitou e encheu com pequenas frases poéticas bem bacanas. Às vezes, eu o abro, leio uma frase bonita e já fico com o astral lá em cima.

– Dos seus estudos que resultaram na seção “desenhos mil”, qual surpreendeu mais você no momento do fazer? O que vem na sua memória?
KATIA: A possibilidade de desenhar sem olhar, apenas sentindo as formas, texturas e contornos das coisas. Acho isso lindo: ver com as mãos. Também adoro a ideia de fazer um desenho de um jeito e depois completá-lo de outro jeito, várias vezes, com muitas variações possíveis. É incrível o que podemos fazer com as linhas!

– E das fabriquetas de cultura, na sua pesquisa, qual é a que te toca mais
quando você a “passa para frente”?
KATIA: Acho que a ideia dos Gabinetes de Curiosidades, pois fazem parte da tradição humana desde o princípio. Sempre fomos curiosos e tivemos o desejo de colecionar e classificar as coisas, para tentar compreendê-las. Isso para mim é emocionante!

– Da seção Era Uma Vez, qual é a história do seu coração?
KATIA: Acho que como boa menina romântica, Cinderela! Com o tempo, aprendi várias versões dessa história.

– E, finalmente, do Soltando o Verbo, qual é a sua brincadeira com
linguagem preferida?
KATIA: Adoro o “Tirar de Letra”. É uma brincadeira que sempre fiz com meu filho João, desde que ele era bem pequeno: brincar com a sonoridade das palavras, tirar e recolocar letras e mudar seus significados.

ESCONDERIJOS: Katia, se você fosse descrever a si mesma rapidamente, o que você pinçaria de mais importante da sua história?
KATIA: Acho que sempre fui muito pensativa e curiosa. Sempre imaginei o mundo de mil e uma maneiras. Fui uma menininha tímida mas com um universo interno muito rico. Tinha uma fabriqueta de ideias funcionando a mil na minha cabeça…

ESCONDERIJOS: O que significa para você dividir as Fabriquetas neste
projeto gráfico tão gostoso, divertido, daqueles que a gente quer ter a
vida toda?
KATIA: Significa uma felicidade. É poder compartilhar um trabalho de muitos anos, um monte de possibilidades concentradas num só livro. Felicidade concentrada, na verdade!

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