Abriu a página, entrou na arca. As guardas-capas são de madeira. De madeira? Não, não é exatamente um projeto gráfico ousado com materiais diferenciados, recortes e outros recursos. É tudo papel comum e nem capa dura tem. Mas a provocação de “entrei na arca” é deliciosa, de verdade. São as primeiríssimas sensações de Fuzarca na Arca de Noé, com textos de Adriano Messias e ilustrações de Ionit Zilberman, lançado pela editora ÔZé. Depois a imersão continua. Na verdade, uma aventura em alto-mar, com direito a imaginar enjoos e muita bagunça.
A clássica passagem bíblica começa com um homem barbudo (mas tão, tão barbudo que os pelos precisam ficar presos com pregadores de roupas) no grito tradicional “todos a bordo!”. O que vemos a seguir é um bando de animais com expressões de perdidos ou levemente preguiçosos correndo em direção à pagina seguinte: a grande arca, a conhecida Arca de Noé. Poderia ser mais uma versão da ideia que temos de 40 dias cheios de confusão em alto-mar desta história – que, de tão clássica, às vezes se desliga da representação da Igreja Católica e se torna um pretexto para uma boa narrativa com animais – que já experimentamos nos poemas de Vinicius de Moraes (Cia das Letrinhas) e nos livros de Ronaldo Simões Filho (Mazza Edições) e Milton Célio de Oliveira Filho (Editora Globo), por exemplo. Mas o escritor vai além ao propor uma série de brincadeiras de linguagem com a formação dos nomes dos bichos e suas características, provocando um vaivém de significados, rimas e, consequentemente, estranhamentos e boas risadas. E o projeto gráfico, como mencionei no começo, dá um peso extra à bagunça. Eles vão entrando mas com muito empurra-empurra, comentários ácidos uns sobre os outros, críticas à decoração da arca, como se estivessem em um cruzeiro turístico que não deu lá muito certo.
Os estranhamentos, aliás, também nascem do projeto gráfico que não parou de nos provocar na guarda-capa. Antes mesmo da metade do livro, já estamos na história diante de quatro janelas típicas de navio com um animal em cada uma. A ilustração introduz as interpretações:
Ninguém queria ouvir o ornitorrinco, o primeiro a tentar pôr ordem nas coisas:
– Vocês não entenderam que estamos sendo salvos de um dilúvio? Isso aqui não é nenhum passeio ao zoológico.
(uma dica nada didática ao leitor de que aquilo ali faria parte de algo maior. “Será que foi assim mesmo?”, o leitor pode se perguntar entre realidade e imaginação)
Em seguida, o desenho nos mostra a arca flutuando e o dilúvio a toda. Mas embaixo, o texto, ops!, inclina todo para a esquerda. E nunca mais para no lugar, enquanto continuamos lendo de brincar (ou seria o contrário?):
O disse que disse é que dava o tom do samba.
– Dizem que nunca mais a água vai baixar – comentou, pensativo, um camelo que sentia saudades do deserto.
– Meus pés precisam de um escalda-pés – resmungou a centopeia, colocando par cima dos seus cinquenta pares de tênis.
– Viram que a galinha-d’angola está com o pijama de bolinhas até esta hora? – fofocou a velha.
– E a senhora? Interferiu o castor. – Ainda está com o casaco de inverno! Aqui dentro já faz quase trinta graus.
Aquilo estava pior que ninho de gato.
O urso-panda foi parar no aquário da salamandra.
E a doninha foi bicar o milho da galinha.
Com o passar do tempo, algumas confusões eram desfeitas.
A anta saiu do quarto da elefanta.
A capivara desceu do poleito da arara.
O jogo de significados, texturas e movimentos vai assim até o final nesse “salve-se quem pudesse”. E prova como o nonsense pode ser um recurso profundo para melhorar tantos e tantos discursos de nosso mundo politicamente correto.
Em julho de 2015, dois amigos meus inauguraram um espaço no bairro de Perdizes, zona oeste de São Paulo, chamado A Casa Tombada – Lugar de Arte, Cultura e Educação. Além de cursos de extensão e conversas sobre as urgências da nossa vida em comum (principalmente nos desafios urbanos), o espaço abriga duas pós-graduações lato-sensu: uma é A Arte de Contar Histórias – Abordagens Poética, Literária e Performática, voltada para a pesquisa e encontro com a oralidade, acontecia já em outros espaços, está na nona turma e é pela qual tenho, com muita alegria, minha especialização; e a outra é a recém-criada O Livro Para a Infância – Textos, Imagens e Materialidades, voltada para quem trabalha na rede de produção e promoção do livro, projeto que sigo feliz em parceria na coordenação com Giuliano Tierno, que criou a primeira pós e é um dos fundadores da Casa. (ALIÁS… INSCRIÇÕES ABERTAS ATÉ 12 DE FEVEREIRO!!!)
Acima de tudo é um lugar para encontros especiais.
Neste julho de 2015, mais precisamente na inauguração da Casa, dia 18, estava eu em pleno deleite da festa quando uma amiga querida, a narradora de histórias Renata Truffa, me chama baixinho: “Cris, senta aqui. Você conhece este livro?”. Eu olhei surpresa pois, como “representante” do linha “livro para infância” da lugar, a maioria dos livros que estava ali eram meus ou do acervo da Casa e que eu conheceria. Mas ela segurava o livro Às Vezes, da colombiana Claudia Rueda, editado aqui em 2013 pela Pensarte, que hoje está na editora MOV Palavras, que ano passado divulgou um poderoso acervo com autores brasileiros e estrangeiros e um olhar cuidadoso para o livro ilustrado (veja mais sobre ela aqui).
– Não conheço. – respondi para Renata. Peguei o livro que vi que a autora já me era muito querida desde 2010, quando conheci seu maravilhoso livro Formas (lançado depois no Brasil pela editora Hedra), em uma viagem a Argentina.
– Então leia. – recomendou minha amiga.
Foi uma surpresa. Estava eu preparada mais para apresentar do que para ser surpreendida naquele dia. Na capa, a gente vê um pedaço do que poderiam ser dois olhos, mas não fica bem claro. A guarda-capa do livro apresenta um prateado com espirros de tinta. É o que parece. A seguir, na página que normalmente vem repetido o nome do livro, vemos o nome impresso invertido. Na primeira dupla com a narrativa, de um lado, a frase:
Às vezes você se afoga numa gota.
Do outro, uma moldura e um pedaço de espelho reflete uma menina. Segue:
Outras, um oceano fica pequeno.
E o pedaço de espelho cresce para fora da moldura e a menina cresce também. Para gente.
Às vezes cai uma tempestade e não te molha.
E a menina reflete satisfeita, segura.
E outras, uma brisa te derruba.
E, desta vez, o reflexo está mais quebrado, agoniado.
O livro segue este sobe-e-desce de sentimentos, sempre na poesia da palavra de um lado, e na imagem da emoção do outro. A representação no texto e na ilustração nos pega no sufoco e no alívio, em um jogo de realidade e metáfora feito dia-a-dia, feito convivência, feito tentativa de entender quem somos. Quando pensamos que o jogo é para olhar a si mesmo (e, para mim, é, sempre é), a autora nos dá uma outra chance no final do livro. Outra chance de nos reconhecer. Que me fez lembrar de uma frase do filósofo francês Michel de Montaigne (apresentada pela minha mestra Luiza Christov): “Eu nunca vi um monstro ou um milagre maior do que eu mesmo”.
De modo geral, as pessoas deliram com feiras de livros, cheios de descontos ou oportunidades de encontrar o que há tanto tempo as estantes de casa estão pedindo. Eu tenho, algumas vezes, imensa dificuldade em me encontrar no meio de tanta gente e oferta (e, no caso da Feira do Livro da USP no início de dezembro, muito calor). Pois uma coleção de livros gritava aos olhos do visitante no estande da Callis Editora: era uma trilogia de livros de Rosinha, uma de nossas grandes ilustradoras brasileiras, a coleção ContoImagem com versões de Os Três Porquinhos, Chapeuzinho Vermelho e João e Maria.
Contos de fadas, de novo? Ah, como amo este tipo de indagação! Não existe beleza maior no mundo das histórias do que a possibilidade de ela ser recontada criativamente. Aqui Rosinha simplesmente arrasou: priorizando a narrativa visual, os três livros são incríveis, impactantes, únicos.
As imagens são fortes, grandes, um tom de modernidade (ô palavrinha difícil de usar esta), com traços que misturam delicadeza com provocação, identificação com assombro e as emoções próprias dos contos de fadas: ansiedade, medo, alívio, sarcasmo, vitória.
Priorizando sempre três cores (que se unem ao preto e ao branco) em cada livro, o resultado se dá em enquadramentos marcantes que cadenciam as cenas no ritmo da história sugerido pela artista, como se fosse um filme gravado por câmeras posicionadas em diversos lugares. A fragilidade (ou não) das vítimas contrasta com a bocarra do lobo mas não só em terror: também em beleza, em atitude da ilustradora. O impacto é imediato e pude ver isso nos olhos gigantes da minha filha.
Mesmo aos 3 anos e meio e familiarizada com várias outras versões destes contos, depois de pedir repetidas vezes que eu lesse o conto, decidiu sentar-se no sofá e conferir ela mesma o que tinha ali de tanto especial.
No final, Rosinha não termina simplesmente. Oferece uma versão em texto corrido. “Principalmente para que os adultos conheçam as histórias mais perto das originais”, conta Rosinha, que teve a ideia de fazer a coleção há 10 anos que, originalmente estava projetada em 13 histórias. “Demorei bastante para que alguma editora aceitasse. Passei pouco mais de três anos trabalhando, entre outros livros. Trabalho intenso, em torno de quatro meses em cada livro.”
Ainda existe um detalhe que embeleza o projeto: em cada livro, Rosinha dedica a um ilustrador (em Os Três Porquinhos, para Marilda Castanha; em Chapeuzinho Vermelho, para André Neves; em João e Maria, para Ciça Fittipaldi). Na contracapa, outros três grandes ilustradores – Odilon Moraes, Ionit Zilberman e Lúcia Hiratsuka – assinam um comentário preciso, o que só reforça as palavras “respeito” e “admiração” que tanto soaram aos meus ouvidos e mente no tempo todo de leitura: respeito e admiração pela tradição dos contos clássicos, pelo valor do que provocam (negando o politicamente correto), pelo papel da ilustração e a necessidade de qualidade dos artistas no livro para a infância, principalmente para uma infância de qualquer idade.
Coleção ContoImagem Os Três Porquinhos, Chapeuzinho Vermelho, João e Maria (Callis Editora)
Dia 30 de novembro o mercado editorial brasileiro – e muitos leitores – foi surpreendido com a notícia de que a editora Cosac Naify, 20 anos após sua abertura, encerraria suas atividades. Conhecida por livros de arte, clássicos, sofisticação no acabamento e por “bancar” projetos caros, a editora também marcou a história da literatura infantojuvenil e do livro ilustrado no Brasil, seja importando obras históricas do gênero no mundo, seja apostando em projetos de autores brasileiros. Por todas as razões, a editora acumula prêmios no Brasil e no exterior. Mas, o legado que deixa para o livro para a infância está no catálogo que, agora, todo mundo quer saber para onde vai.
Da sedimentação do departamento infantojuvenil para cá, especialmente nos últimos 10 anos, a editora marcou as prateleiras de livrarias e, sim, expôs outras referências para quem fazia livro para crianças e jovens por aqui. Não por acaso, o mercado mudou, inclusive com novas editoras, novas empreitadas, novos sonhos. Bancá-los não é fácil, muito menos barato, principalmente em um país que ainda não valoriza a leitura – e muitos menos as narrativas visuais – como poderia.
Para entendermos o papel da editora e entender a lamentação quase generalizada, segue aqui uma lista de alguns livros da editora que impactaram a minha história com o livro ilustrado.
Onda, Sombra e Espelho, de Suzy Lee e A Trilogia da Margem
Os três livros da autora sul-coreana compõem a “trilogia da margem”, chamados assim pela importância da autora que a autora deu à dobra interna do livro.
Em Onda, uma menina visita uma praia e enfrenta o mar com toda a sua meninice, atitude e beleza. Publicação horizontal, os detalhes que fazem vermos a história separada em página esquerda e página direita são o entrenimento à parte;
em Sombra, a brincadeira é a velha conhecida das infâncias: a autora divide o livro entre em cima e embaixo, usando a dobra do livro como uma espécie de divisor o que é “real” e o que é “imaginação” na mente de uma criança. Coloquei entre aspas porque é justamente esta nossa lógica que ela rompe com o livro;
por fim, em Espelho, a margem do meio do livro é mais um elemento para narrar a relação de uma menina com seu reflexo, jogando com o leitor a mesma brincadeira de fantasia e realidade e ainda simbolizando as tantas descobertas sonre nós mesmos.
Em A Trilogia da Margem, também lançado aqui pela editora, Suzy Lee expõe o processo criativos dos três livros, discute a relação com os limites do livro e ainda revela reações de leitores (inclusive alguns do Brasil) às suas obras. É um livro, a meu ver, completo. “Quando duas páginas de um livro são abertas, elas se tornam um único e amplo espaço. Na realidade, as páginas duas são dois espaços separados por uma margem, mas, ao ler, o leitor tende a ignorar a dobra central da encadernação. Há uma regra editorial implícita de que o artista do livro ilustrado deve evitar desenhar no centro das páginas duplas para não perturbar a leitura. Mas o que será que acontece quando essa regra é ignorada?”, diz ela no livro. “E se os componentes físicos do livro se tornassem parte da história? E se o próprio livro se tornasse parte da experiência de leitura?”. Isso é lindo, não?
Lampião e Lancelote
Certa vez, fui procurar este livro para dar de presente em uma grande livraria de São Paulo. Cheguei à seção de livros infantojuvenis e dei o nome à vendedora: não tinha. Mas era um engano. O livro estava na seção dedicada aos livros de arte. O escritor e ilustrador paulistano Fernando Vilela criou, com a editora, um marco na história do livro ilustrado brasileiro e o inusitado vem na forma e conteúdo: na história, um encontro-confronto-inesquecível entre o cangaceiro brasileiro e o cavaleiro da Távola Redonda do Rei Arthur. Escrito ora em verso nas sextilhas do cordel sertanejo, ora em prosa no tom das narrativas medievais, a história nos é exposta em grandiosas ilustrações (o livro tem 35cm por 24cm!) em cores especiais, que se intensificam e se colorem conforme o enredo manda. Foi premiado dentro e fora o país e passou da quinta reimpressão.
Neste vídeo, ele conta um pouco sobre a obra:
A Árvore Generosa
O livro clássico do autor norte-americano Shel Silverstein foi relançado pela editora com a mesma tradução de Fernando Sabino feita originalmente na edição brasileira. No conto, a relação de amizade, entrega e cumplicidade entre uma árvore e um menino. A pretexto de uma espécie de “fábula ecológica”, uma profunda metáfora do amor incondicional experimentado na maternidade ou paternidade, suas características intrínsecas e suas consequências. O traço de Silverstein também é marcante (uma linha diz tudo) e cheio de significado e uma tocando simplicidade. Uma história impossível de esquecer.
Onde Vivem os Monstros
De um dos autores da literatura infantojuvenil mais aclamados do mundo, esta é sua história também mais emblemática. Um menino contraria as ordens da mãe e é mandado para o quarto sem jantar. A fúria é o primeiro passo para um mergulho na imaginação, mas também uma chance de dar evidências às “coisas sem nome” que vivem em cada um de nós. Lançado em 1963 e em 201 que o torna clássico também diz respeito às ilustrações e ao projeto gráfico: conforme a imaginação ganha força, os desenhos crescem nas páginas, dando espaço a silêncios desejados pela intensidade da história. O livro chegou aqui quase 50 anos depois de seu lançamento, em 1963.
Contos Maravilhosos Infantis e Domésticos de GrimmA Cosac publicou uma série de histórias em domínio público, como Alice no País das Maravilhas, Pinóquio, Peter Pan e, uma das mais belas edições, a com os Contos Maravilhosos Infantis e Domésticos de Grimm. Para cada lançamento, um projeto gráfico mais do que especial, com ilustradores criativos e de renome. Para os Grimm, o companheiro escolhido para as histórias traduzidas do original alemão foi o pernambucano J. Borges, um dos mais importantes gravuristas brasileiros. Em dois volumes, os 156 contos costurados à xilogravura de Borges inspiraram até uma exposição no Sesc Interlagos.
Ops
Mas como se faz um livro para bebês? Poucas palavras e ilustrações com cores bem fortes? Hummm, acho que não foi bem isso que a autora mineira Marilda Castanha pensou ao criar este livro. Em papel cartonado do tamanho (16cm por 16cm) bom para criança manusear, ele é uma sequência de cenas deliciosas de narrar para o bebê, inspirando sons do adulto e da criança (uoooooooooops!), ao mesmo tempo em que sugere uma autonomia de leitura ao bebê.
Contos de Lugares Distantes
O australiano Shaun Tan é um dos mais falados autores de livros ilustrados no mundo. Esta série de histórias de realismo fantásticos nos captam em cheio na profundidade das metáforas, nas belezas das narrativas. Para cada uma delas, uma ou mais ilustrações que nos remetem ao conteúdo ao mesmo tempo em que nos elevam a outras referências como leitores. Quais são os nossos lugares distantes? O que desejamos deles?
Marcelino Pedregulho
Quarenta anos após sua publicação original, este livro de Jean-Jacques Sempé, um dos maiores cartunistas do mundo, chegou no Brasil como se fosse novo. A atemporalidade dele chega a ser emocionante: na história, Marcelino é um menino que fica vermelho sem qualquer motivo. E, quando deveria enrubescer, não acontecia. Preferia sempre brincar sozinho, para que não ficassem só falando de sua característica. Até que, um dia, ele conhece Renê Rocha, também um solitário: o garoto espirrava por qualquer coisa, a qualquer hora. E ficaram amigos e é nos detalhes que esta história se torna um marco.
Eis um vídeo que amo, que produzi com o Henrique Sitchin, criador da Cia Truks, para o site da revista Crescer:
O Cântico dos Cânticos
A mais importante obra da artista mineira Angela-Lago volta a impactar o Brasil em 2013, quando a Cosac publica em uma edição especial. Originalmente lançado em 1992 pela Editora Paulinas, o livro ganhou capa dura com novas tonalidades e um toque especial: as informações bibliográficas e prefácios vêm em uma cinta à parte. O motivo? É que o livro de Angela não tem começo, não tem fim. Em suas ilustrações com referências às iluminuras, às miniaturas medievais e islâmicas, aos trabalhos de William Morris e Escher, estão ali um encontro de dois jovens que “se buscam e se perdem: é tudo”, diz a artista que intencionava mesmo um poema visual, sem palavras, inspirado nos versos da Bíblia. “Uma curta oração, feita em um quarto escuro, com a matéria de um sonho. E talvez por isto, eu tenha que pedir ao leitor até mais do que duas leituras: uma contemplação. Tenho que lhe pedir, não mais que ele reivente ou construa histórias, mas que se permita o devaneio poético”, nos convida a autora.
Fique Longe da Água, Shirley
O inglês John Burningham é um dos pioneiros do livro ilustrado moderno na Inglaterra. Neste livro (e em outros dois lançados pela Cosac, como o Hora de Sair da Banheira, Shirley! e Vovô, o autor faz o que se chama de “contraponto” no livro ilustrado: a história se passa no mesmo tempo, mas sob perspectivas diferentes. E, o mais interessante: se só se ler o texto, não é possível entender o livro. Isto porque, do lado esquerdo, a realidade, os pais de Shirley na praia; na página da direita, a imaginação da menina correndo leva, sem limites. O leitor assiste, então, a duas experiências em um mesmo lugar, algo muito comum nas convivências entre adultos e crianças. Incrível. (adoro esta assinatura dele na capa!)
O Dariz
Quando um nariz entupido decide sair em busca de um lenço para assoar, tudo pode acontecer. Ele pode encontrar um pequeno botão que também acha que é um nariz; uma tromba perdida, um focinho de porco… Mas o francês Olivier Douzou não se limita à história para narrar algo em puro nonsense. Além de ilustrações divertidas e um projeto gráfico especial, ele escreve todo o texto como poderíamos imaginar que fosse um dariz endupido. “Cabinhamos bor um bom tempo. O cabinho era longo. No cabinho dambém desgobrimos que ninguém gonhecia o cabinho. Esdávamos cabinhando a esbo à brogura do lenço crande”. Para ler (só) em voz alta.
Mamãe Zangada
A alemã Jutta Bauer tem um jeito especial de olhar para como encaramos os revezes da vida. É assim em Selma, a ovelha que sabe ser feliz; em O Anjo da Guarda do Vovô com sua perspectiva de uma vida bem vivida. Mas em Mamãe Zangada ela simplesmente expõe uma ferida da relação com os filhos que ninguém – nem filho, nem mãe, nem pai – quer olhar. Quando a mãe grita com seu filho, ele se despedaça e suas partes voam por todo o mundo. No decorrer das páginas, vamos acompanhando o filho em pedaços e, no final, um pedido de desculpas tão emocionante quanto uma metáfora poética destas pode ser. Dá para consertar um grito destes?
Fico à Espera
Uma linha vermelha conta toda a narrativa visual, com poucas palavras, imaginada por Davide Cali e Serge Bloch. É o fio da vida. A textura do cordão vermelho se destaca nos contornos simples que nos revelam as tantas esperas que nos aguardam durante a vida. Tão emocionante quanto virar as páginas, é chegar ao final e descobrir que é hora de recomeçar.
Ismália
Poderia um poema do Simbolismo brasileiro, do mineiro Alphonsus de Guimarães (1870-1921), se tornar um livro ilustrado? Pelo projeto especial do escritor, ilustrador e pesquisador Odilon Moraes, sim. O autor de Pedro e Lua (uma fábula cotidiana belíssima sobre a amizade de um menino e sua tartaruga, também da Cosac) cria aqui uma experiência visual em que os devaneios do poeta se desdobram em páginas espelhadas, em um sanfonado emocionante em que torre, céu e mar se apresentam iluminados pela lua. Estão lá a loucura, o suicídio, a dor… “Quando Ismália enlouqueceu/ pôs-se na torre a sonhar (…) E como um anjo penseu as asas para voar…”
Na Noite Escura
O italiano Bruno Munari (1956-1998) foi um aclamado artista no mundo do design, um grande projetor de produtos industriais, cenários para exposições e outros trabalhos. Mas em 1953 ele marcou a história do livro com uma exposição em Nova York com a sua experiência “livros-ilegíveis”, feitos com páginas coloridas, rasgadas perfuradas ou costuradas. Na Noite Escura nasce desta ideia e nos conduz a entender a função de uma pequena luz amarela na história de um gato. História? Mas quem falou em história? Quem falou em gato? No meio do livro tem um… vagalume! E uma caverna, e um urso… E Munari ainda deixa outros tantos livros para mexer com a criança (e perturbar os adultos).
Aqui, um vídeo com a edição de Portugal, da Bruaá Editora:
O Livro Inclinado
Certo bebê vive no alto de uma rampa. Um dia, sua babá soltou seu carrinho, por distração e daí começa uma corrida inesperada que passa por toda uma cidade, assombrando os moradores, desesperando a cuidadora e divertindo o garoto!
A narração ganha mais sentido, vigor e graça em um projeto gráfico ousado: o livro está inclinado, o que faz a sensação de descida das ilustras e da história se tornar única. Melhor ainda quando ficamos sabendo quando o norte-americano Peter Newell lançou o livro: 1910.
O Pato, a Morte e a Tulipa
A premiada história do alemão Wolf Erlbruch (um dos principais autores do livro para a infância do mundo) não é lá fácil de engolir. Afinal, um dos personagens é a morte. O outro, um adorável pato que não estava esperando este encontro tão cedo. Mas não é que a morte decide ficar um pouquinho mais por ali? E se envolve com o cotidiano dele até que… até que a tulipa assume tudo.
Neste vídeo, uma animação com a obra:
Ter Um Patinho É Útil
De um lado de um livro em formato sanfona, as vantagens que um menino vê em ter um patinho como servir de chapéu, de apito, de cachimbo… Do outro, a vantagem que um patinho enxerga em ter um menino, como massagem nas costas, ganhar beijinhos.
Já seria boa a ideia não fosse a premiada autora argentina Isol ter deixado as mesmas ilustrações dos dois lados, o que dá o impacto das duas perspectivas.
Estes são apenas alguns dos livros que a editora publicou no Brasil seja intensificando as traduções do acervo estrangeiro, seja apostando em obras brasileiras que, pelo menos até sua publicação, autores poderiam não ter saído da posição de “apenas um projeto”. O investimento na ampliação da concepção do livro ilustrado – vivida por uma equipe do departamento infantojuvenil, por 13 anos sob a coordenação da editora Isabel Lopes Coelho – foi também na tão rara literatura sobre o assunto. É da Cosac os livros Era Uma Vez uma Capa, de Alan Powers, Para Ler o Livro Ilustrado, de Sophie Van der Linden e Livro Ilustrado: Palavra e Imagem, de Maria Nikolajeva e Carole Scott que, mesmo com referências construídas em publicações não brasileiras (mas muitas já aqui traduzidas).
Em 2012, o lançamento de Traço e Prosa, de Odilon Moraes, Rona Hanning e Mauricio Paraguassu aprofundam a história do livro ilustrado no Brasil, com 12 entrevistas com ilustradores brasileiros, fundamentais para entendermos e conhecermos a nossa estrada até aqui.
Agradecimentos especiais a Vanessa Gonçalves, uma das editoras do infantojuvenil pela parceria de todos estes anos com base na informação, na paixão pelo livro ilustrado e, acima de tudo, na ética.
Em outubro e novembro de 2015, tive o privilégio de promover encontros sobre o livro para a infância para mais uma turma do curso de pós-graduação A Arte de Contar Histórias (parceria Facon, A Casa Tombada e Núcleo Educatho). O texto que você verá a seguir é de uma das alunas, a educadora de leitura Ana Carolina Prado Alonso, em um exercício que chamamos de “resenha-afetiva”. A dela foi sobre o famoso livro de William Joyce e não só fala sobre o livro: mas sobre toda a sua relação com a leitura
POR Ana Carolina Prado Alonso
Dedicado à moça dos livros Juliana Sampei
Quando eu era criança adorava um livro chamado A Revolta dos Livrinhos, de Aldo Domingos dos Santos e Lielba Ramos publicado pela editora Brasil, que falava de uma biblioteca onde os livros faziam um protesto por só ficarem nas estantes. Cada livro tinha sua forma, ilustração de capa e trejeitos que dialogavam com seu assunto, as matérias escolares.
O livro de História tinha o aspecto de um velhinho, o de Biologia usava óculos de cientista, o de Geografia tinha uma ilustração de Mapa-múndi, dentro outros detalhes inesquecíveis à minha memória de infância, dos cartazes da manifestação, até hoje me alegram: os livrinhos e sua coragem de falar sobre rejeição.
Meu amigo de infância.”A revolta dos livrinhos”
Mas só no meu encontro com a obra do autor William Joyce, Os Fantásticos Livros Voadores de Modesto Máximo (Ed. Rocco) , publicada em 2012 originalmente em inglês, e traduzida para o Brasil por Elvira Vigna, foi que senti o quanto A Revolta dos Livrinhos foi importante. Depois de lê-lo, aos 8 anos de idade, passei a tentar não deixar mais nenhum livro de canto.
Li os livros antigos da minha irmã mais velha que também adorava ler, fiz carteirinha da biblioteca da escola e me lembro de fazer empréstimos desde a 3a série. Li os livros ignorados de namorados, li os livros de misticismo da minha mãe e muitos outros que apareceram no meu caminho desde então.
Acredito seriamente que tudo isso só tenha acontecido por causa de apenas um “livrinho para criancinhas”, que por acaso parou em minhas mãos, esta singela obra para pequenos me fez sentir que os livros não poderiam ser coisas estáticas que vivem numa estante, alguns sem nunca terem sido lidos.
Depois de adulta, na contínua paixão por livros fui estudar Literatura. Porém, confesso que analisar os livros como um problema matemático me tirou um pouco do desejo da leitura. Ela ali era obrigação e análise racional, o que dificulta bastante um contato mais íntimo e subjetivo de uma leitora que deseja um encontro. De volta à biblioteca, muitos títulos à minha espera e muitas leituras obrigatórias a cumprir. Mas não se aflijam, pois esse não é o fim de uma história! Assim terminada a faculdade voltei a todo vapor.
Fui trabalhar com leitura e literatura e desde o primeiro estágio, passei por museus e salas de aula até acabar… dentro de uma biblioteca! Onde estou faz quatro anos. Um lugar que a mim parecia encantador, mas que eu descobri ser, muitas vezes, mais um muro do que uma porta: os livros estavam lá, mas a leitura, nem sempre. É como se os livros vivessem num templo, mas em completa solidão. É preciso alguém amigo dos livros para apresentá-los e “quebrar o gelo” ou o muro, entregar a chave da porta.
Buscava “levar os livros pra passear” em minhas atividades, tirá-los do lugar estático onde viviam e levá-los para perto dos visitantes, escolhendo livros que soassem como velhos conhecidos em determinada atividade, ilustrações que sozinhas comunicassem mais que uma hora toda de aula, e títulos que despertassem o desejo pelo que estava por vir.
Influenciada pela leitura do As Aventuras de Pinóquio, ouso dizer que me sentia uma manipuladora de livros, não como alguém que manipula para que o visitante leia exatamente aquilo que eu quero, na hora e do jeito que eu desejo. Mas como uma manipuladora de bonecos, aquela responsável por transparecer a vida e as histórias das encantadoras marionetes.
Até que um dia chegou até mim, voando pela rede do Facebook, um curta-metragem vencedor do Oscar de melhor curta de animação de 2012, chamado Os Fantásticos Livros Voadores de Modesto Máximo, onde os livros bailavam e cantavam delicadas canções regidas por um simpático maestro-doutor-bibliotecário-jovem-velhinho Modesto Máximo.
Esse encantamento foi tão efêmero quanto os dez minutos que duraram aquela animação, mergulhei em sua beleza e seus efeitos que, por breves momentos, num tempo de imagens que só os filmes são capazes de nos levar.
Semanas depois, fui despretensiosamente à livraria e lá estava ELE, em LIVRO. Esperando para que eu o levasse para casa, meu novo amigo, um livro vermelho, comprido e simpático que tive o prazer de conhecer.
Essa tentativa de história de como encontrei meu novo velho amigo nada mais é do que o reflexo da minha relação afetiva com os livros. É exatamente desse assunto que o livro fala, e é por acreditar nessas relações que estou contando aqui esta história.
Já na capa nos deparamos com uma figura realmente modesta, um jovem em sua varanda com alguns livros próprios, um jovem escrevendo sua própria história. Sentimos-nos abrindo não mais um livro escrito por um autor distante e desconhecido que mora nos Estados Unidos, mas o próprio livro, “ELE” é que está nas mãos do jovem e também está em nossas mãos.
“Sua vida era um livro escrito por ele mesmo, uma página organizada depois da outra. Ele o abria a cada manhã e escrevia as suas alegrias e tristezas, tudo que conhecia e todas as suas esperanças” (trecho do início do livro)
Adversidades muitas acontecem ao nosso personagem escritor durante a narrativa, que não cabem a mim contar aqui. É através do próprio texto, ilustrações e diagramação do livro que você descobrirá.
Mas o que mais toca neste livro, além da sua lógica infinita de compartilhamento e valorização dos livros, é a figura deste grande modesto mediador Modesto Máximo. Ele recebe a tarefa de cuidar dos livros, e ajudá-los em sua missão de voar por aí, e os livros recebem a missão de cuidar dele também, e fazê-lo também voar com as histórias. Modesto cuida dos livros e os livros cuidam dele em troca.
Uma vida dedicada aos livros, o tempo passa, Modesto se torna velho e os livros continuam lá como sempre foram, uns velhos e outros novos, alguns com histórias que acabaram de ser inventadas e outros carregando histórias de antes dos livros existirem, mas sempre na casa dos “livros voadores”: A Biblioteca.
Depois da partida de Modesto, alguém novo encontra a casa dos livros, uma menina entra e é recepcionada por quem? Pelo livro de Modesto aquele mesmo livro que ele escrevia.
E a história termina como começou, como disse o próprio Joyce, com o livro de Modesto fazendo seu primeiro voo para ser lido pela nova visitante. E nós? Nós na última página somos convidados a perceber que essa história também é nossa. Assim como a dos “livrinhos revoltados” sempre viverá em mim se o livro for novamente levado a voo.
E que nós em algum momento de nossas jornadas também nos deparamos com um novo velho amigo, que falava de todas as nossas alegrias e tristezas, tudo que conhecíamos ou estávamos a conhecer e todas as esperanças de que os livros e as histórias voem livres para as mãos de pequenos leitores.
“Dentro estava a história de Modesto. Todas as suas alegrias e tristezas, tudo o que conhecia e todas as suas esperanças”
Um guarda-roupas pode ser um bom lugar para brincar e se divertir. Mas quando a tristeza vai morar dentro dele, como fazer para a alegria voltar?
Na guarda-capa de Roupas de Brincar, novo livro de Eliandro Rocha e Elma e lançado pela Editora Pulo do Gato, imagens daquelas roupas para bonecas de papel. Entramos na história por meio de umas janelas que, a princípio, não sabemos direito o que fazem ali. Avançando um pouco mais, vimos uma menina e sua mãe. Onde estão indo? Visitar a tia Lúcia. A menina, de coroa na cabeça e expectativas no coração, revela sua paixão pela tia, pela casa, por algo curioso: as roupas. A menina gostava de entrar no guarda-roupa da tia e brincar com as roupas dela. Roupas de alegria. Roupas de poesia. Roupas de brincar.
Um dia, a menina quis repetir o passeio e a mãe afirmou não ser um bom dia para isso. A menina não se conforma, insiste. E vai. Quando vê tia Lúcia, a surpresa: as cores das roupas haviam sumido. Não era magia. Nem maldição. Era tristeza.
É assim que Eliandro Rocha, escritor gaúcho, e Elma, ilustradora pernumbacana, nos convidam a uma viagem de emoções. A tristeza da tia tem uma causa tão difícil de lidar, quanto comum a todos nós: a morte de uma pessoa querida. O tema não está no título, nem envolto de ilustrações sombrias. Está na viagem proposta, no mergulho inevitável com delicadeza e poesia. É um convite a uma história, um convite à compaixão, um dar a mão, um acolhimento.
O texto de Eliandro é sutil no vocabulário sem ser reducionista, óbvio ou didático. Não quer nos ensinar nada. As imagens que partem dele são facilmente identificáveis e profundas ao mesmo tempo. Elma, por sua vez, deu tanta leveza para os personagens que a gente sente voo, afeto, cumplicidade, amor. As expressões têm texturas de casas da nossa infância, daquelas visitas que fazíamos ao mundo adulto, só que do nosso jeito. Dá vontade de abraçar o livro, a tia Lúcia, a menina. A inocência da perspectiva da criança nos enche a alma de esperança. Em momento algum ela está com todas as respostas: está apenas seguindo seu coração. Quando percebe que as roupas coloridas de brincar estão guardadas na melancolia, enche-se de tintas para alegrá-las novamente. Era em benefício próprio, claro, necessitava continuar brincando. Mas sabia que a mãe e a tia precisavam disso ainda mais do que ela.
Quem costura esta dança entre palavra e imagem é um projeto gráfico cuidadoso. Tem tempos, silêncios, cores e movimentos de ilustrações próprios, pensados para aquela história. Eu suspeitava um pouco, mas não sabia que este livro poderia ter tantos desdobramentos em mim. A cada reencontro, uma emoção nova, um detalhe descoberto, um mistério de sentimento. Lendo esta semana para dois grupos diferentes – alunos do curso de extensão O Livro Para a Infância, na A Casa Tombada, e alunos do curso de pós-graduação A Arte de Contar Histórias – outras comoções compartilhadas.
Soube dele numa conversa com o escritor do livro, o gaúcho Eliandro Rocha e com o escritor e ilustrador André Neves, que assina a direção de arte e o projeto gráfico do livro. Com os editores Márcia Leite e Leonardo Chianca, o grupo conversava via whatsapp (Eliandro e André moram em Porto Alegre, Elma em João Pessoa, Márcia e Leonardo em São Paulo), amarrando ideias, construindo uma narrativa que não se dá aos pedaços e só faz sentido na criação coletiva.
Roupas de Brincar (ed. Pulo do Gato) De Eliandro Rocha e Elma 2015
Acho que se alguém pudesse hoje fazer um livro ilustrado dos meus pensamentos, estaria dividido em trechos que elevam a infância, como os próprios livros ilustrados, poemas sobre o tema, canções, cenas de filme. Aqui tentei resgatar parte deles para sugerir uma espécie de viagem nestes tempos que lembramos do que é ser criança.
1.
A Fantástica Fábrica de Chocolate, ilustração de Quentin Blake para a história de Roadl Dahl (ed. Martins Fontes)
2. “Todas as crianças crescem – menos uma. E bem cedo elas ficam sabendo que vão crescer. O jeito de Wendy ficar sabendo foi assim. Um dia, quando ela tinha dois anos, estava brincando no jardim, pegou mais uma flor e correu com ela junto da mãe. Imagino que ela devia estar uma gracinha, porque a senhora Darling pôs a mão no coração e exclamou:
– Ah! Por que é que você não pode ficar assim para sempre?
Foi só isso que se passou entre as duas sobre esse assunto. Mas daí para a frente, Wendy ficou sabendo que tinha que crescer. Depois dos dois anos, você sempre fica sabendo. Dois anos é o começo do fim.”, trecho de Peter Pan, de James M. Barrie (da tradução Ana Maria Machado, Ed. Salamandra)
3.
do livro Onda, de Suzy Lee (ed. Cosac Naify)
4. Duas velhinhas muito bonitas,
Mariana e Marina,
estão sentadas na varanda:
Marina e Mariana.
Elas usam batas de fitas,
Mariana e Marina,
e penteados de tranças:
Marina e Mariana.
Tomam chocolate, as velhinhas,
Mariana e Marina,
em xícaras de porcelana:
Marina e Mariana.
Uma diz:”Como a tarde é linda, não é, Marina?”
A outra diz: “Como as ondas dançam, não é Mariana?”
“Ontem, eu era pequenina”, diz Marina.
Ontem, nós éramos crianças”, diz Mariana.
E levam à boca as xicrinhas,
Mariana e Marina,
as xicrinhas de porcelana:
Marina e Mariana.
Tomam chocolate, as velhinhas,
Mariana e Marina.
E falam de suas lembranças,
Marina e Mariana.
Poema As Duas Velhinhas, parte do livro Ou Isto ou Aquilo, de Cecília Meireles (Ed. Global)
5.
Malvina, de André Neves (ed. DCL)
6.
Make ‘Em Laugh, cena de Cantando na Chuva com Donald O’Connor, 1952
7. “Esta história só serve para criança que simpatiza com coelho. Foi escrita a pedido-ordem de Paulo, quando ele era menor e ainda não tinha descoberto simpatias mais fortes. O mistério do coelho pensante é também minha discreta homenagem a dois coelhos que pertenceram a Pedro e Paulo. meus filhos. Coelhos aqueles que nos deram muita dor de cabeça e muita surpresa de encantamento. Como a história foi escrita para exclusivo uso doméstico, deixei todas as entrelinhas para as explicações orais. Peço desculpas a pais e mães, tios e tias, e avós, pela contribuição forçada que serão obrigados a dar. Mas pelo menos posso garantir, por experiência própria, que a parte oral desta história é o melhor dela. Conversar sobre coelho é muito bom. Aliás, esse “mistério” é mais uma conversa íntima do que uma história. Daí ser muito mais extensa que o seu aparente número de páginas. Na verdade só acaba quando a criança descobre outros mistérios.”, Clarice Lispector, abertura de O Mistério do Coelho Pensante, 1967/2013, Editora Rocco. É o primeiro livro para crianças de Clarice, premiado no ano seguinte como o melhor do ano
8.
“Quando eles se conheceram,
eu andava escondida no meio de outras coisas.
Curva de brisa, alga vermelha, briga de passarinho.
Eu ainda não era uma vez”, abertura de Inês, livro de Roger Mello e Mariana Massarani (ed. Cia das Letrinhas)
9. Quando eu era criança, um grande búfalo do rio vivia num terreno baldio no fim da nossa rua, aquele que ninguém cortava a grama. Ele ficava a maior parte do tempo dormindo e ignorava qualquer um que passasse, a não ser que nós resolvêssemos parar e pedir conselhos. Aí ele se levantava bem devagar, erguia a pata esquerda e apontava exatamente na direção certa. Mas ele nunca dizia para o que estava apontando, ou até onde tínhamos de ir, ou o que devíamos fazer ao chegar lá. Na verdade, ele nunca dizia nada, pois os búfalos do rio são assim: eles odeiam conversar.
Para muitos de nós, isso era frustrante. Quando alguém pensava em “consultar um búfalo”, nosso problema costumava ser urgente e requeria solução imediata. A gente acabou parando de visitá-lo, e acho que pouco tempo depois ele foi embora: ficamos só com a grama alta.
É uma vergonha, sabe, porque sempre que seguíamos a pata pontura dele nos supreendíamos, aliviados e satisfeitos com o que encontrávamos. E toda vez a gente dizia exatamente a mesma coisa: “Como é que ele sabia?”, uma das histórias de de Contos de Lugares Distantes, Shaun Tan (ed. Cosac Naify)
10. “- A vida, Senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem para de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. É um dorme e acorda, dorme e acorda, até que dorme e não acorda mais. É, portanto, um pisca-pisca.
O Visconde ficou novamente pensativo, de olhos no teto.
Emília riu-se.
– Está vendo como é filosófica a minha ideia? O Senhor Visconde já está de olhos parados, erguidos para o forro. Quer dizer que pensa que entendeu… A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e anda; pisca e brinca; pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos; pisca e geme os reumatismos. Por fim pisca pela última vez e morre.
– E depois que morre? – perguntou o Visconde.
– Depois que morre vira hipótese. É ou não é?
O Visconde teve de concordar que era.”, do livro Memórias da Emília, Monteiro Lobato, 1936 (ed. Globo)
11. Mafalda, de Quino.
12. Onde Vivem os Monstros, de Maurice Sendak (Ed. Cosac Naify)
13.
La Luna, curta da Pixar
14.
Ônibus, de Marianne Dubuc (ed. Jujuba)
15.
Músicos e Dançarinos, animação de Laurent Cardon para canção da Palavra Cantada
16.
e
Tira de Bruxinha Zuzu, de Eva Furnari (ed. Moderna)
17.
Uma Galinha Para Brincar, Cia Truks no teatro com objetos
18.
Achados e Perdidos, livro de Oliver Jeffers (ed. Salamandra)
19.
O menino ia no mato E a onça comeu ele. Depois o caminhão passou por dentro do corpo do menino E ele foi contar para a mãe. A mãe disse: mas se a onça comeu você, como é que o caminhão passou por dentro do seu corpo? É que o caminhão só passou renteando meu corpo E eu desviei depressa. Olha, mãe, eu só queria inventar uma poesia. Eu não preciso de fazer razão.
Estava aqui à procura das primeiras palavras para iniciar este post sobre Tapajós, livro do escritor e ilustrador Fernando Vilela recém-lançado pela Editora Brinque-Book. Pensei “este livro é bonito demais, é isso”. Mas o adjetivo não basta para uma resenha, claro. Então fui pensando, desde a capa, o que me encanta.
Primeiro o nome que nos remete ao tema e nos inspira a pensar no nosso país, às vezes tão maltratado nas nossas raízes, na nossa história. Depois, a guarda já nos apresenta sete pássaros em posição de boas-vindas, emaranhados no desenho-gravura-pintura que dão tanta a marca do artista em tantos livros. A gente vai avançando e é convidado a mergulhar no rio beirando as margens e as casas de palafitas. (Imediatamente lembrei das minhas viagens pela revista Crescer no projeto Bebês do Brasil – que virou livro pela Editora Globo -, onde vi de perto a vida em volta do rio Amazonas.) São lembranças que nunca se apagam e reviver é uma consciência necessária.
Este gosto de Brasil dá um prazer danado. Quando sentido em livro, melhor ainda. “Todas as imagens que aparecem no livro foram vivenciadas por mim”, conta o autor em entrevista do blog da editora. Dá para se notar, parece um filme. Começa assim:
Todo dia a gente acorda bem cedo, toma mingau de banana e, quando ouve de longe o motor do barco do Zé, pega a mochila e corre para a escada. É hora de ir para a escola!
Tchau, pai! Tchau, mãe! Tchau, Titi! – Titi é nosso jabuti.
Viver na beira do rio é uma delícia, porque no caminho da escola tem muito bicho. Eu e o Zé adoramos brincar com os jacarés.
Eu sempre adoro os jacarés do Fernando! A essas alturas já estamos vendo também pássaros, outro barco e outros bichos. Navegando mais, vemos a dança dos botos, a arrumação da igreja para uma festa de casamento, até que Cauã e Inaê, os prota chegam à escola. Mas até que o inverno do Pará traz um importante acontecimento: uma chuva forte. E é aí que uma tempestade atinge o livro. É impressionante como Fernando enche tudo de água e como nos revela a mudaça da paisagem: o povo da vila inteira se muda de lugar, levando tudo que tem. Os meninos vão junto, mas descobrem que alguém foi deixado para trás e voltam à vila, sozinhos, e vivem uma grande aventura, em um dos maiores rios da Amazônia e um dos mais famosos do Brasil. Quando acabar de ler, volte mais vezes, pois os detalhes das ilustras merecem.
“PÉ-DE-BI-CHO???” foi a primeira reação da minha filha Clarice assim que eu falei o nome do livro. Ela, aos 3 anos, começando a colocar significados e palavras em seus lugares, adorou o estranhamento. Por isso, claro, eu já havia gostado do livro desde a capa.
Escrito por Márcia Leite (que, além de escritora, é educadora e editora), a história de Pé-de-Bicho (Editora Pulo do Gato) se dá em um movimento de passos, voos, saltos e muito mais de uma série de bichos que têm um poderoso ponto de encontro: uma linda árvore. Eles vão chegando e compondo tanto a narrativa como as páginas em um ritmo harmonioso, diverso, cúmplice. A cargo do ilustrador Joãocaré está a responsabilidade de mostrar estes animais nos seus detalhes e nas expressões que, junto ao texto da Márcia, nos revela uma curiosa história que de um jeito simples nos enriquece muito.
Tudo começa com um chamado:
OLHA QUEM ESTÁ CHEGANDO:
UMA ARARA,
DUAS CAPIVARAS,
TRÊS JABUTIS.
O leitor, então, tira os olhos (ou os ouvidos) das palavras escritas (assim mesmo, em letra bastão) para observar os desenhos . Na dupla de páginas seguinte, mais uma turma de animais chega, mas as ilustras exibem mais do que a própria lista: os bichos ganham vida, interagem entre si, se apropriam do lugar.
Assim vai se sucedendo a narrativa, dividindo o leitor entre a expectativa de quem é o próximo convidado, junto do desafio de um “procura-acha” dos animais e a observação do que estão fazendo. A festa de cores, formas e bicharada tem o auge na metade do livro, quando algo inevitável acontece: é hora de ir embora. Mas onde é que está cada um? Será que vão sair com quem entraram? Como esta história realmente termina?
A riqueza e beleza de Pé-de-Bicho exibe um enredo construído na mistura da criatividade da palavra (na habilidade do vocabulário, na informação relevante e na escolha dos nomes dos bichos essencialmente brasileiros) com a inventividade do desenho (na variedade dos tons e texturas, no uso do espaço da página). Amarrando tudo, o uso do humor e uma forma de abordar com a criança questões do tempo: o tempo real no qual contamos horas, minutos e dias; e o tempo urgente de nos reapaixonarmos pelos animais, sem moralismo ou pressão social. Mas simplesmente porque conhecer nosso mundo, país, cultura e seres ao redor é parte do saber viver.
Conheço a Cia Truks desde sempre. Não, eu não estava próxima deles, não. Mas esta é uma sensação forte que tenho: como se a Cia Truks de Teatro de Bonecos – fundada e dirigida pelo ator, bonequeiro, escritor e educador Henrique Sitchin – sempre houvesse existido. Desde que você se dá conta de que a boneca da Bruxinha a sua autora, Eva Furnari, criou com eles… ou quando se lembra das belíssimas cenas de Cidade Azul, O Senhor dos Sonhos, Vovô… ou quando revive as risadas em Zôo-Ilógico… ou… ou quando você assiste o mais recente espetáculo, aquele que foi criado há pouco tempo, fresquinho, novo… Novo. Mas que você tem a sensação de que sempre existiu.
São – juro, me perdoe Roberto! – tantas emoções. Acampatório, o novo espetáculo da Cia Truks, em cartaz até dia 26 de setembro, é uma sucessão de emoções e de vidas. Emoções diversas e vidas assim como as nossas, assim como elas são e a gente vive esquecendo. No palco, três divertidos amigos – interpretados pelos excelentes Gabriel Sitchin, Rafael Senatore e Rogério Uchoas – vão acampar juntos! Chegam diante da plateia com suas mochilas, barracas e vestimentas de quem está preparado para um magnífica aventura. Mostram o que tem para comer, como vão dormir, o que planejam fazer. Mas este piquenique selvagem tem muitos acontecimentos: desde quase perda total das comilanças por um exército de formigas, até o ataque de tubarão. O que? Exército de formigas tem em toda história de piquenique? Com certeza não como nesta. Oi? Ataque de tubarão em um acampamento? Pois é: é assim que se conta uma história na Cia Truks.
O nonsense e o real se misturam e brincam com a gente. As crianças na plateia deliram: não param nas cadeiras, não querem perder nem um lance, gargalham. Os adultos assistem encantados, em poucos minutos entregues ao deleite de uma boa história narrada praticamente sem falas e, de alguma forma, voltam para um lugar que nunca deveriam ter deixado: a imaginação. Em Acampatório, os atores usam o que se chama de “teatro de objetos”. A Truks prefere chamam “teatro com objetos”, o que faz todo sentido. Sentido? Ah, esta é uma brincadeira importante: o que era passa a ser sempre outra coisa. A partir de um cantil e duas canecas, vemos uma vaca; três pés de patos e snorkels aparecem-nos como três cantores; dois cachos de bananas se transforam em pés de caranguejo e a brincadeira é sempre tão esperada e excitante que minha filha Clarice, de 3 anos, vira para mim e pergunta: “Mãe, e agora, o que vai virar isso?”, assim que avista um objeto novo chegando.
A gente pode rir muito, mas muito mesmo. Rir de chorar. Os atores são cômicos e as cenas transformadas dão sempre uma mistura de “óooooooooh” com “não acredito!”. Dá uma vontade de correr para casa e brincar. Brincar, lembra?
Mas a Truks e Henrique sabem seu papel no nosso planeta. Sabem que são poetas. E que a poesia também nos alcança para nos tornar outros. De uma peteca que vira índio, o grupo nos dá um golpe de consciência em nossos corações, uma sensação de “está tudo errado”, como definiu minha irmã Denise, que nos acompanhou. O final também é extremamente emocionante: nos coloca em uma espécie de catarse para reconhecer a vida, as vidas ou que é, realmente, CONVIVER e valorizar o outro. Da lista de coisas que a gente vem esquecendo. A Truks não tem medo de jogar emoção nas crianças. Não se importa se ela chora ou se inclina a cabecinha de lado, sentindo a beleza da compaixão com um personagem (é sempre a mais comum reação da minha filha). Porque ela aposta que cada um de nós sempre pode ser mais e que a tristeza muitas vezes nos dá a mão nesta virada. As pessoas “ainda não foram terminadas”, como diz Guimarães Rosa. Sempre podem se transformar. Feito um teatro com objetos. Feito poesia. Feito ser humano.
Acampatório – Cia Truks de Teatro de Bonecos
Onde: Sesc Consolação/Teatro Anchieta – Rua Dr Vila Nova, 245 – (11) 3234 3000 – São Paulo/SP