Os Fantásticos Livros Voadores de Modesto Máximo e as Esperanças

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Em outubro e novembro de 2015, tive o privilégio de promover encontros sobre o livro para a infância para mais uma turma do curso de pós-graduação A Arte de Contar Histórias (parceria Facon, A Casa Tombada e Núcleo Educatho). O texto que você verá a seguir é de uma das alunas, a educadora de leitura Ana Carolina Prado Alonso, em um exercício que chamamos de “resenha-afetiva”. A dela foi sobre o famoso livro de William Joyce e não só fala sobre o livro: mas sobre toda a sua relação com a leitura

POR Ana Carolina Prado Alonso

Dedicado à moça dos livros Juliana Sampei

Quando eu era criança adorava um livro chamado A Revolta dos Livrinhos, de Aldo Domingos dos Santos e Lielba Ramos publicado pela editora Brasil, que falava de uma biblioteca onde os livros faziam um protesto por só ficarem nas estantes. Cada livro tinha sua forma, ilustração de capa e trejeitos que dialogavam com seu assunto, as matérias escolares.

O livro de História tinha o aspecto de um velhinho, o de Biologia usava óculos de cientista, o de Geografia tinha uma ilustração de Mapa-múndi, dentro outros detalhes inesquecíveis à minha memória de infância, dos cartazes da manifestação, até hoje me alegram: os livrinhos e sua coragem de falar sobre rejeição.

 

Meu amigo de infância.”A revolta dos livrinhos”
Meu amigo de infância.”A revolta dos livrinhos”

 

Mas só no meu encontro com a obra do autor William Joyce, Os Fantásticos Livros Voadores de Modesto Máximo (Ed. Rocco) , publicada em 2012 originalmente em inglês, e traduzida para o Brasil por Elvira Vigna, foi que senti o quanto A Revolta dos Livrinhos foi importante. Depois de lê-lo, aos 8 anos de idade, passei a tentar não deixar mais nenhum livro de canto.

Li os livros antigos da minha irmã mais velha que também adorava ler, fiz carteirinha da biblioteca da escola e me lembro de fazer empréstimos desde a 3a série. Li os livros ignorados de namorados, li os livros de misticismo da minha mãe e muitos outros que apareceram no meu caminho desde então.

Acredito seriamente que tudo isso só tenha acontecido por causa de apenas um “livrinho para criancinhas”, que por acaso parou em minhas mãos, esta singela obra para pequenos me fez sentir que os livros não poderiam ser coisas estáticas que vivem numa estante, alguns sem nunca terem sido lidos.

Depois de adulta, na contínua paixão por livros fui estudar Literatura. Porém, confesso que analisar os livros como um problema matemático me tirou um pouco do desejo da leitura. Ela ali era obrigação e análise racional, o que dificulta bastante um contato mais íntimo e subjetivo de uma leitora que deseja um encontro. De volta à biblioteca, muitos títulos à minha espera e muitas leituras obrigatórias a cumprir. Mas não se aflijam, pois esse não é o fim de uma história! Assim terminada a faculdade voltei a todo vapor.

Fui trabalhar com leitura e literatura e desde o primeiro estágio, passei por museus e salas de aula até acabar… dentro de uma biblioteca! Onde estou faz quatro anos. Um lugar que a mim parecia encantador, mas que eu descobri ser, muitas vezes, mais um muro do que uma porta: os livros estavam lá, mas a leitura, nem sempre. É como se os livros vivessem num templo, mas em completa solidão. É preciso alguém amigo dos livros para apresentá-los e “quebrar o gelo” ou o muro, entregar a chave da porta.

Buscava “levar os livros pra passear” em minhas atividades, tirá-los do lugar estático onde viviam e levá-los para perto dos visitantes, escolhendo livros que soassem como velhos conhecidos em determinada atividade, ilustrações que sozinhas comunicassem mais que uma hora toda de aula, e títulos que despertassem o desejo pelo que estava por vir.

Influenciada pela leitura do As Aventuras de Pinóquio, ouso dizer que me sentia uma manipuladora de livros, não como alguém que manipula para que o visitante leia exatamente aquilo que eu quero, na hora e do jeito que eu desejo. Mas como uma manipuladora de bonecos, aquela responsável por transparecer a vida e as histórias das encantadoras marionetes.

Até que um dia chegou até mim, voando pela rede do Facebook, um curta-metragem vencedor do Oscar de melhor curta de animação de 2012, chamado Os Fantásticos Livros Voadores de Modesto Máximo, onde os livros bailavam e cantavam delicadas canções regidas por um simpático maestro-doutor-bibliotecário-jovem-velhinho Modesto Máximo.

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Esse encantamento foi tão efêmero quanto os dez minutos que duraram aquela animação, mergulhei em sua beleza e seus efeitos que, por breves momentos, num tempo de imagens que só os filmes são capazes de nos levar.

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Semanas depois, fui despretensiosamente à livraria e lá estava ELE, em LIVRO. Esperando para que eu o levasse para casa, meu novo amigo, um livro vermelho, comprido e simpático que tive o prazer de conhecer.

Essa tentativa de história de como encontrei meu novo velho amigo nada mais é do que o reflexo da minha relação afetiva com os livros. É exatamente desse assunto que o livro fala, e é por acreditar nessas relações que estou contando aqui esta história.

Já na capa nos deparamos com uma figura realmente modesta, um jovem em sua varanda com alguns livros próprios, um jovem escrevendo sua própria história. Sentimos-nos abrindo não mais um livro escrito por um autor distante e desconhecido que mora nos Estados Unidos, mas o próprio livro, “ELE” é que está nas mãos do jovem e também está em nossas mãos.

“Sua vida era um livro escrito por ele mesmo, uma página organizada depois da outra. Ele o abria a cada manhã e escrevia as suas alegrias e tristezas, tudo que conhecia e todas as suas esperanças” (trecho do início do livro)
“Sua vida era um livro escrito por ele mesmo, uma página organizada depois da outra. Ele o abria a cada manhã e escrevia as suas alegrias e tristezas, tudo que conhecia e todas as suas esperanças” (trecho do início do livro)

Adversidades muitas acontecem ao nosso personagem escritor durante a narrativa, que não cabem a mim contar aqui. É através do próprio texto, ilustrações e diagramação do livro que você descobrirá.

Mas o que mais toca neste livro, além da sua lógica infinita de compartilhamento e valorização dos livros, é a figura deste grande modesto mediador Modesto Máximo. Ele recebe a tarefa de cuidar dos livros, e ajudá-los em sua missão de voar por aí, e os livros recebem a missão de cuidar dele também, e fazê-lo também voar com as histórias. Modesto cuida dos livros e os livros cuidam dele em troca.

Uma vida dedicada aos livros, o tempo passa, Modesto se torna velho e os livros continuam lá como sempre foram, uns velhos e outros novos, alguns com histórias que acabaram de ser inventadas e outros carregando histórias de antes dos livros existirem, mas sempre na casa dos “livros voadores”: A Biblioteca.

Depois da partida de Modesto, alguém novo encontra a casa dos livros, uma menina entra e é recepcionada por quem? Pelo livro de Modesto aquele mesmo livro que ele escrevia.

E a história termina como começou, como disse o próprio Joyce, com o livro de Modesto fazendo seu primeiro voo para ser lido pela nova visitante. E nós? Nós na última página somos convidados a perceber que essa história também é nossa. Assim como a dos “livrinhos revoltados” sempre viverá em mim se o livro for novamente levado a voo.

E que nós em algum momento de nossas jornadas também nos deparamos com um novo velho amigo, que falava de todas as nossas alegrias e tristezas, tudo que conhecíamos ou estávamos a conhecer e todas as esperanças de que os livros e as histórias voem livres para as mãos de pequenos leitores.

“Dentro estava a história de Modesto. Todas as suas alegrias e tristezas, tudo o que conhecia e todas as suas esperanças”
“Dentro estava a história de Modesto. Todas as suas alegrias e tristezas, tudo o que conhecia e todas as suas esperanças”

 

 

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