ROUPAS DE BRINCAR

1921

Um guarda-roupas pode ser um bom lugar para brincar e se divertir. Mas quando a tristeza vai morar dentro dele, como fazer para a alegria voltar?

 

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Na guarda-capa de Roupas de Brincar, novo livro de Eliandro Rocha e Elma e lançado pela Editora Pulo do Gato, imagens daquelas roupas para bonecas de papel. Entramos na história por meio de umas janelas que, a princípio, não sabemos direito o que fazem ali. Avançando um pouco mais, vimos uma menina e sua mãe. Onde estão indo? Visitar a tia Lúcia. A menina, de coroa na cabeça e expectativas no coração, revela sua paixão pela tia, pela casa, por algo curioso: as roupas. A menina gostava de entrar no guarda-roupa da tia e brincar com as roupas dela. Roupas de alegria. Roupas de poesia. Roupas de brincar.

Um dia, a menina quis repetir o passeio e a mãe afirmou não ser um bom dia para isso. A menina não se conforma, insiste. E vai. Quando vê tia Lúcia, a surpresa: as cores das roupas haviam sumido. Não era magia. Nem maldição. Era tristeza.

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É assim que Eliandro Rocha, escritor gaúcho, e Elma, ilustradora pernumbacana, nos convidam a uma viagem de emoções. A tristeza da tia tem uma causa tão difícil de lidar, quanto comum a todos nós: a morte de uma pessoa querida. O tema não está no título, nem envolto de ilustrações sombrias. Está na viagem proposta, no mergulho inevitável com delicadeza e poesia. É um convite a uma história, um convite à compaixão, um dar a mão, um acolhimento.
O texto de Eliandro é sutil no vocabulário sem ser reducionista, óbvio ou didático. Não quer nos ensinar nada. As imagens que partem dele são facilmente identificáveis e profundas ao mesmo tempo. Elma, por sua vez, deu tanta leveza para os personagens que a gente sente voo, afeto, cumplicidade, amor. As expressões têm texturas de casas da nossa infância, daquelas visitas que fazíamos ao mundo adulto, só que do nosso jeito. Dá vontade de abraçar o livro, a tia Lúcia, a menina. A inocência da perspectiva da criança nos enche a alma de esperança. Em momento algum ela está com todas as respostas: está apenas seguindo seu coração. Quando percebe que as roupas coloridas de brincar estão guardadas na melancolia, enche-se de tintas para alegrá-las novamente. Era em benefício próprio, claro, necessitava continuar brincando. Mas sabia que a mãe e a tia precisavam disso ainda mais do que ela.
Quem costura esta dança entre palavra e imagem é um projeto gráfico cuidadoso. Tem tempos, silêncios, cores e movimentos de ilustrações próprios, pensados para aquela história. Eu suspeitava um pouco, mas não sabia que este livro poderia ter tantos desdobramentos em mim. A cada reencontro, uma emoção nova, um detalhe descoberto, um mistério de sentimento. Lendo esta semana para dois grupos diferentes – alunos do curso de extensão O Livro Para a Infância, na A Casa Tombada, e alunos do curso de pós-graduação A Arte de Contar Histórias – outras comoções compartilhadas.
Soube dele numa conversa com o escritor do livro, o gaúcho Eliandro Rocha e com o escritor e ilustrador André Neves, que assina a direção de arte e o projeto gráfico do livro. Com os editores Márcia Leite e Leonardo Chianca, o grupo conversava via whatsapp (Eliandro e André moram em Porto Alegre, Elma em João Pessoa, Márcia e Leonardo em São Paulo), amarrando ideias, construindo uma narrativa que não se dá aos pedaços e só faz sentido na criação coletiva.

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Roupas de Brincar (ed. Pulo do Gato)
De Eliandro Rocha e Elma
2015

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