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as viagens de HAICAIS VISUAIS

Era final de abril passado e estava eu conversando com o ilustrador e escritor Nelson Cruz, em um evento em uma livraria de São Paulo, a Blooks. Ele estava a trabalho na cidade e resolveu aproveitar a viagem de Santa Luzia, Minas, onde mora, até aqui para rever amigos como os outros autores de livros infantis Odilon Moraes e Fernando Vilela. Como vício de jornalista, perguntei o que esperávamos dele neste ano e ele citou um livro chamado Haicais Visuais. A partir destas palavras, fiquei como aqueles momentos que costumamos tirar sarro onde você simplesmente para de ouvir o que a pessoa está falando: a minha lembrança é só do Nelson dizendo algo que eu não me recordo, pois a imagem da possibilidade de ver haicais visuais – sendo lá o que fosse isso! – me desligou da conversa e me proporcionou uma curiosa viagem na imaginação. Haicai, a clássica forma de poemas de origem japonesa que preza pela concisão e objetividade, em desenhos?

Pois a viagem em si acaba – finalmente! – de chegar nas minhas mãos e, sim, é ainda melhor do que pude imaginar. O livro Haicais Visuais, lançado pela Editora Positivo, é uma das mais belas sucessões de poemas em imagens que já presenciei. Mas eu lá havia presenciado algo parecido? Não, com certeza não.

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A viagem começa com este trem. A sequência de mais duas imagens nos fazem o primeiro convite a uma experiência importante. Seguem, então, outras sequências de três imagens, sempre com a sugestão feita pelos títulos que as precedem. Vou revelar apenas um para que entendam do que estou falando.

Este aqui é Magritte ao Vento:

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A expressão dos desenhos, o uso das bordas e quadros contrastando com páginas inteiras de cor nos títulos, o movimento das cenas, as vibrações das cores, tons e das texturas provocadas e, acima de tudo, a micro-história a ser contada em simplicidade, leveza e beleza sugerida por quem se apaixonou pelos haicais japoneses, estão tão presentes quanto – arrisco dizer – as paixões e desejos de Nelson que, como talentoso artista, consegue compartilhar com seu público. É o Nelson poeta que nos dá o tom para brincar de pintura, cinema, literatura e observações da vida: o que pensamos que é, ele está pronto para sugerir um “pode ser”.

O humor está bastante presente ou no teor da história ou na forma. Não à toa, Nelson, no final do livro, relembra seu encantamento na descoberta dos cartuns e das charges nos anos 70. Os poemas visuais nos permitem, ainda, outra brincadeira adquirida só no virar de páginas: “será que o que vem a seguir é o que estou pensando?”, pensei eu na tira Boa Noite, Alice! E era! (Mas não vou contar aqui, não!). Brinque, viaje, leia. E repita várias vezes na vida. Não vai haver infância que resista a este convite. Um livro para todos.

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Haicais Visuais (Ed. Positivo)

De Nelson Cruz

2015

Coisa de Gente Grande

Nos encontros sobre literatura infantil que tenho a felicidade de promover no curso de pós-graduação A Arte de Contar Histórias – Abordagens Poética, Performática e Literária (parceria da A Casa Tombada com a Faculdade das Conchas – Facon), o grupo de alunos e eu sempre conversamos sobre o fato do livro ilustrado encontrar o seu lugar na literatura “feita para crianças e jovens”. Ali ele está à vontade, não tem tanta briga pelo preconceito de “os desenhos estão ali para facilitar a leitura”, como se isso fosse algo ruim, menor, inferior. Daí surge – e se baseia, de certa forma – uma série de conceitos discutidos hoje no mundo inteiro sobre o que é o livro ilustrado, o livro-álbum, o chamado em inglês de picturebook etc. A relação palavra e imagem está viva nos livros ilustrados em diversos aspectos.

O escritor e ilustrador André Neves dá uma espécie de acolhimento à nossa paixão por literatura infantojuvenil quando “já” somos adultos, com a frase: “é uma nova literatura: é uma literatura para infância de adultos e crianças também”. Bem… do que será que ele está falando? Ele está falando do “livro para a infância”, do livro que conversa com a infância. E o que é infância? Ah, isso quem pode nos ajudar a entender é justamente o livro ilustrado. Percebem a volta que dei?

Todas estas informações, opiniões, reflexões, polêmicas etc vêm à tona criança com o lançamento de Coisa de Gente Grande, da ilustrador a escritora Patricia Auerbach, que chega às livrarias pela Editora Cosac Naify. Para mim, simboliza toda esta conversa sobre livro para tal idade e sobre o que representa ou que define o livro ilustrado.

A história começa na capa, onde vemos uma ilustração a lápis de um garoto de costas em uma bicicleta. A bicicleta não está ali à toa. As duas rodinhas soltas no chão nos remetem ao que vem pelas páginas: uma criança cresce. A guarda (a continuação da capa e a primeira página em papel mais fino) já nos fornece outra ilustração simbólica, com peças de jogos de montar espalhadas e a palavra ao lado: PEDAÇOS. A seguir, duas crianças dentro de uma caixa de papelão e outra palavra: LUGARES. Segue, então, uma bolo de aniversário e uma decoração de festa com mais uma palavra: CANÇÕES… e por aí vai, um poema ilustrado, um poema em palavra escrita e palavra desenhada, nos jogando a perspectivas (de enquadramentos ou na escolha dos objetos representados) e de texto: quais palavras definem a sua infância?

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Patricia me contou que este livro nasceu por acaso. “Foi quando alguém me perguntou o que era infância e eu não consegui responder. Comecei a fazer o poema, buscando um significado e percebi que cada palavra/verso era também um conceito muito aberto, muito cheio de possibilidades. As imagens foram o jeito que eu encontrei de amarrar as ideias e construir a minha visão para as histórias de infância, os lugares da infância e seus caminhos até chegar na obra pronta, e responder à pergunta inicial”.

Não se emocionar com Coisa de Gente Grande, suponho, é quase impossível. A criança de antes e de hoje vai encontrar referências, diálogos. O virar de páginas tem um ritmo de revelação que, somando um a outro a outro a outro a outro nos devolvem sentimentos, ao mesmo tempo que nos provoca a sonhar: será que esta infância está acabada mesmo? Seria tudo LEMBRANÇAS ou eternos ENCONTROS e COMEÇOS?

Para mim, esta é a provocação do livro ilustrado e do livro para a infância: não tem idade, lugar ou formato certo. Tem bagagens, tem histórias, tem experiências. Tem vida.

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Coisa de Gente Grande

Textos e ilustrações de Patricia Auerbach

2015

 

EXPOSIÇÃO ANDRÉ NEVES EM CAMINHOS

 

 

EXPOBALAO

Poderia ser “apenas” mais uma edição de um projeto incrível que o Sesc Ribeirão Preto (interior de São Paulo) faz desde 2010, em que um autor brasileiro de literatura infantil é homenageado em uma exposição. Mas não é.

Já aconteceu com Tatiana Belinky, Ricardo Azevedo, Daniel Munduruku, e, ano passado, com a ilustradora e escritora Eva Furnari, atingiu tamanho sucesso que outros Sescs do interior do estado decidiram solicitar a exposição para seus espaços. O que? Você ainda não havia ouvido falar do projeto? Pois é isso mesmo: um fabuloso trabalho que agora está correndo o estado e que, esperamos, não tenha mais limites para sua itinerância. Vocês já vão entender por quê.

Mas o que esta edição do projeto Tirando de Letra proporciona até dia 20 de setembro, gratuitamente, para todas as idades e interessados em todos os tipos de belezas, é uma homenagem ao livro ilustrado. Como nasce um livro ilustrado, morada de todos estes autores, morada preferida das crianças, morada urgente de muitos adultos. É isso que nos causa André Neves Em Caminhos, a exposição que se inspira nos livros deste autor pernambucano para nos encantar sobre o processo e o encontro da palavra e da imagem.

Mas é mais.

As palavras são poucas para descrever a viagem na qual o visitante pode embarcar. Na entrada, são tantos elementos, detalhes, cores, texturas!

Ela pode começar de vários jeitos mas, se você tiver a agradável companhia do grupo de educadores do Sesc, eles talvez sugiram um percurso que começa por um espaço cheio de vento e jardim, onde folhas em branco e papéis amassados nos provocam à fase inicial de qualquer ideia: o vazio. O que fazer diante de um trabalho a ser começado?

A viagem continua para um pequeno contêiner, localizado ainda em uma parte externa do Sesc Ribeirão Preto. Sabe o que tem lá? Acho que quase um tudo: é onde brotam as ideias do autor. Tem o André bebê, fotos de família; tem representações artísticas de cenas de livros, detalhes marcantes; tem também as ideias que ainda estão fervilhando, as que ainda não viraram histórias. Artista nunca está sem nada na cabeça, ora.

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É tão emocionante quanto intrigante mergulhar em uma mente tão criativa quanto colorida, é sentir que o autor de Obax, A Caligrafia de Dona Sofia, Mel Na Boca, Seca, Sebastiana e Severina, Malvina e mais algumas dezenas outras de livros está ali na nossa frente criando. É vivo.

EXPOTUBO

Saindo deste espaço, é hora de imaginar tubos nos levando para algo que vai acontecer, nós sabemos que vai: o livro. No meio do caminho tem uma poesia. Uma não. Muitas. Desenhadas, escritas. A mente-poesia de André se torna palavra: o sentimento vira imagem.

 

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Voltando estão lá, as Casas-Livros, talvez uma das partes mais emocionantes, que expõem o André como um artista, como alguém especial, como único.

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Mas que também nos mostra o André como nós, suas influências, objetos pessoais, seu modo de trabalhar. Ainda por ali, uma sala de leitura especial – cheio de livros bem usados, bem lidos, bem mexidos, eis o sucesso da exposição -, e também interatividades propostas para as crianças (isso se aparecer mesmo algum adulto que resista!), além de mais riquíssimas e incríveis instalações que contêm esta magnífica carreira a completar 20 anos.

EXPOTOMCASA

 

Há no entanto um toque ainda mais especial por ali. Está em uma sala separada: a exposição dedicada ao livro Tom, prêmio Jabuti de 2013 e uma das mais significativas obras de André. Ele mesmo criou a exposição que nasceu em Porto Alegre, onde mora.

EXPOVARIOSTOM

O livro, que nos revela uma relação de um menino com seu irmão autista, ganhou prêmio Jabuti em 2013. André conta que era tanto a se pensar e a se criar sobre aquela história que o livro não deu conta. Ao contrário do restante da exposição, em que a equipe da produtora TG3 criou um universo a partir da obra e das conversas com o autor, na parte dedicada ao Tom as instalações, posições dos objetos são todas de André, que levou para lá fases do processo de criação, escreveu frases marcantes e exibiu tamanha criatividade que fica até difícil sair do local. Ao mesmo tempo forte, ao mesmo tempo acolhedor, o espaço ainda é lúdico e extremamente bonito.

 

Vocês pensam que eu descrevi toda a exposição? Estão muito, mas muito enganados. O que? Se ela tem grandes pavilhões? Estão enganados também. Como um bom livro e uma boa obra de arte, André Neves em Caminhos só existe com a presença do visitante. E nós só percebemos do que se trata se a sentirmos com todos os nossos sentidos.

Confiram o vídeo feito pelo Sesc, com detalhes dos bastidores deste projeto de literatura e sobre este trabalho incrível:

EXPOSIÇÃO ANDRÉ NEVES EM CAMINHOS

Onde: Sesc Ribeirão Preto – R. Tibiriçá, 50 – Centro, Ribeirão Preto – SP, 14010-090

Telefone:(16) 3977-4477

Quando: até dia 20 de setembro – terça a sexta das 13h às 21h30; sábados e domingos das 10h às 18h

É possível agendamento para escolas

SOBRE DANTE E FUTEBOL: A DIVINA JOGADA

 

 

Para quem leu A Divina Comédia e para quem não leu. Esta foi a minha primeira conclusão ao ler A Divina Jogada, livro escrito em poemas por José Santos e acompanhado do traço irreverente, forte e bem identificável de Eloar Guazzelli. Nem texto, nem imagens poupam o jovem leitor de uma inusitadíssima viagem pelo Inferno, Purgatório e Paraíso, o mesmo trajeto descrito pelo poeta italiano Dante Alighieri, na obra publicada no ano 1321. É mais do que um convite ao original: o livro inspira uma ótima conversa sobre um dos maiores clássicos da literatura mundial e, assim, aproxima-o à atualidade não em tom de “explicação” ou “adaptação”: mas de respeito e legitimidade.

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Neste primeiro infantojuvenil da Editora Nós, o enredo nos é revelado em poemas cheio de humor e muita descrição em detalhes. Algumas partes, principalmente para quem não tem tanta familiaridade com o original, surgem como uma espécie de pequenos enigmas. O leitor decifra, aos poucos, o cenário curioso: um campeonato em fase de melhor de três, que tem, de um lado, a Seleção Celestial, com arcanjos, santos e musas, comandados por ninguém menos que Jesus Cristo. Do outro, o Inferno, representado por diversos personagens da bíblia, mitologia grega, literatura e história universal, como Caim, Judas Iscariotis, Minotauro e Brutus. O primeiro jogo, no Inferno, é o começo da história, mostrando Dante e seu fiel escudeiro Virgílio tentando entrar na partida, a qual assistem só os minutos finais, quando céu e inferno terminam no zero a zero. A partida no Purgatório já emplaca um 1 a zero para a turma do bem, o que faz com que, no Paraíso, a final seja bastante acirrada e, para os leitores, ainda mais divertida.

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Como em Futebolíada – que José e Guazzelli também fizeram juntos, a partir da história de gregos e troianos – o escritor usa muitos termos conhecidos da narração de partidas de futebol, o que dá o tom para o leitor se ambientar e revela, em mais um livro, a paixão em relacionar literatura com esportes. Mas, nem por isso, causa a sensação de “já vi isso antes”. Porque o tema, como podem imaginar, é puro impacto, principalmente sendo uma publicação voltada para crianças e jovens. Em tempos de ode ao politicamente correto, as dezenas de termos usados para definir os jogadores do lado mal – belzebu, tinhoso, coisa-ruim – laçam o espectador nesta inesquecível partida e demonstram uma atitude corajosa.

A última parte do livro, no entanto, não é a final do campeonato no Paraíso. Um capítulo a mais continua a brincadeira literária, revelando ao leitor detalhes tanto sobre A Divina Comédia original, a história pessoal do autor italiano, quanto sobre personagens citados nas duas histórias, em uma costura de ficção e realidade que vai aguçar o leitor a querer começar tudo de novo.

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A Divina Jogada (Ed. Nós)

Textos de José Santos e ilustrações de Eloar Guazzelli

2015

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Clóvis, assim como todos nós, nasceu livre e pelado.

Um camaleão, define os autores do livro Uniforme (Ed. Edições de Janeiro), de Tino Freitas e Renato Moriconi.

Um camaleão em uma bela metáfora.

Clóvis era, assim, como todos nós.

 

Tino, no texto, e Renato, na ilustração, constroem uma narrativa daquelas de puro deleite. A gente vira a página e, a cada dupla escancarada, uma fase da vida de Clóvis, aquele “personagem-assim-como-todos-nós” que:

 

(…)

aprendeu a se camuflar para sobreviver.
(…)

fingiu não ter medo do escuro.

(…)

em algumas situações de perigo, soube esconder suas fraquezas.

Noutras, precisou exibir sua força.

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A prosa poética de Tino tem uma companhia bastante especial: a leitura-traço de Moriconi que inclui Clóvis em situações exageradas e, de certa forma, cômicas, com o exercício de procura-e-acha o personagem. É aí que a brincadeira do camaleão fica tão divertida quanto perspicaz, mexendo com vários sentidos e significados. Claro que não é só isso: esta conversa de texto e imagem fazem com que, dupla a dupla, o leitor encontre desafios que não se limitam ao desenho, mas o que existe por trás de cada representação. Em uma era de excesso de informações, opiniões, e, por que não?, de oportunidades de ser isto ou aquilo, qual é o momento em que olhamos para nós mesmos para descobrirmos para onde ir?

 

Um Clóvis assim como todos nós.

Um camaleão que oferece uma viagem de mãos dadas com o leitor.

 

É livro pra conversa até não acabar mais.

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Uniforme (Ed. Edições de Janeiro)

De Tino Freitas e Renato Moriconi

2015

10 (ou mais) COISAS QUE ADOREI SABER SOBRE ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS

A mais famosa, a original: a Alice de John Tenniel
A mais famosa, a original: a Alice de John Tenniel

LIVRO: ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS

AUTOR: LEWIS CARROLL (1832-1898), pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson, inglês da pequena cidade de Daresbury, condado de Cheshire, perto de Manchester. Filho mais velho, divertir seus sete irmãos com jogos e passatempos criados por ele mesmo. Formou-se na Universidade de Oxford, onde lecionou matemática e ficou amigo de Henry Liddel, pai de três meninas, entre elas uma chamada Alice.

ILUSTRAÇÕES: JOHN TENNIEL, original e centenas mais

ANO DE PUBLICAÇÃO: 1865

 

  1. Certa vez, Lewis Carroll escreveu numa carta para uma criança sua amiga: “Você costuma brincar de vez em quando? Ou a ideia que você faz da vida é ‘café da manhã, fazer lições, almoço, fazer lições e assim por diante?… Essa seria uma forma muito organizada de viver, e seria tão interessante quanto ser uma máquina de costura ou um moedor de café”.
  2. Segundo a crítica inglesa Juliet Dusinberre, Alice No País das Maravilhas evidencia o papel inovador e revolucionário de Carroll como forma de mudar um panorama de comportamentos vividos pelas crianças no século 19. Sob o rígido governo da Rainha Vitória, o conservadorismo cultural e a moral puritana não permitiam desvios à rotinas metódicas e normas de conduta e virtude. Carroll satiriza o mundo dos adultos, o jeito pomposo e hipócrita, uma seriedade aborrecida, falta de espontaneidade, arrogância autoritária, etc. “Alice, nesse sentido, é uma figura rebelde, que enfrenta, cheia de espanto e indignação, as criaturas presunçosas, mal-humoradas e falastronas do Mundo das Maravilhas”, afirma Nicolau Sevcenko (1952-2014), importante escritor, historiador e professor da USP e da Universidade de Harvard, e tradutor da versão do livro da editora Cosac Naify lançado em 2009 com ilustrações de Luiz Zerbini.
  3. A influência de Carroll para o que se seguiu na literatura daquele momento em diante foi gritante. E não só na dita “literatura para crianças”. Ainda segundo Sevcenko: “Incorporando a espontaneidadem a vivacidade lúdica e a extraordinária habilidade dos petizes em parodiar o mundos dos adultos, ela desafiaria as convenções da cultura oficial, plantando sementes da revolução estética que fundaria a arte moderna. Escritores diretamente influenciados por Carroll, como Robert Loius Stevenson, Rudyard Kipling, Mark Twain, Oscar Wilde e Virginia Woolf abririam os muitos caminho dessa transformação estética que está na raiz da cultura contemporânea.”
  4. Foi em 4 de julho de 1862 que tudo começou: Lewis Carroll estava em um passeio de barco com as filhas de seu amigo Henry Liddel, quando improvisou uma história fantástica em que uma das meninas, Alice, era a principal. Carroll tinha uma polêmica predileção pela companhia das crianças – não sabemos se polêmica por fatos ou pela falta de informações e tantos mistérios que envolvem esta amizade. A pedido da garota, a história se transformou em livro, mas em um único e manuscrito exemplar também ilustrado pelo autor com o nome de As Aventuras de Alice Debaixo da Terra. Teriam sido sete meses com a elaboração do livro e outros sete na produção das ilustrações. Em 1865, Carroll decidiu publicá-lo com o título que conhecemos, com as ilustrações de John Tenniel, já famoso na época. Porém, recolheram esta edição por julgarem mal impressa e em 1866 a Oxford Press fez nova tiragem.
  5. A história da menina Alice com o livro, no entanto, terminou de uma maneira nada poética: ela conservou o livro com cuidado até os 75 anos de idade, “quando então o vendeu em leilão, pois, tendo ficado viúva, necessitava obter recursos financeiros para se manter”, escreve Myriam Ávila, professora da Universidade Federal de Minas Gerais e especialista na obra de Carroll, em apêndice a uma recriação do livro em português (Aventuras de Alice no Subterrâneo feita pela designer Adriana Peliano, que já tinha há anos um projeto pessoal de recriar a caligrafia do autor para os leitores brasileiros), lançado pela Editora Scipione em 2011. Mesmo tendo colocado no mercado o Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho, vinte anos depois do manuscrito da menina, Carroll pediu-o emprestado para uma edição fac-similar.
  6. O poema em forma de cauda de rato já existia no original, mas os versos eram diferentes.
  7. “Na Inglaterra ainda se acredita que raramente um autor foi tão bem servido por um ilustrador como Lewis Carroll foi por John Tenniel mesmo a obra tendo sido ilustrada por centenas de artistas em todo o mundo. É bom lembrar que, desde o início do século XX, produziram-se, nas mais diferentes linguagens visuais, Alices em variados estilos: art noveau, art déco, surrealista, pop, psicodélico, futurista, gótico, naïf, étnico, dark, steampunk, e tantas outras mil maravilhas. (…) A Alice de Tenniel, ainda que seja cativante, é mais comportada, fria, hierática e distante do que acontece ao seu redor. Já a de Carroll exala uma sinistra melancolia, ao mesmo tempo que nos encara com olhares perturbadores e enigmáticos”, escreve Adriana Peliano em artigo no mesmo apêndice da edição da Scipione.
  8. Segundo o site Universia Brasil, Alice foi traduzido para quase 100 idiomas diferentes, e é o sétimo livro mais traduzido no mundo.
  9. A primeira tradução no Brasil foi feita em 1931, pela Companhia Editora Nacional, por Monteiro Lobato. Sobre ela, há um belíssimo comentário na introdução da edição da editora, de 2005 (com ilustrações de Darcy Penteado), feito pela professora Nelly Novaes Coelho, a principal estudiosa de literatura infantojuvenil no Brasil: “Alice é uma espécie de ‘avó’ da Narizinho. Em 1920, ao decidir criar uma nova literatura para as crianças brasileiras, Lobato encontrou na queda do poço, sofrida por Alice, o elo mágico que lhe permitiu ligar o mundo real (o Sítio da vó Benta) ao mundo maravilhoso (o Reino das Águas Claras). Tal como Alice, ao perseguir o Coelho Falante, cai no poço e chega do País das Maravilhas, Narizinho, ao seguir o Peixe Falante, entra no ribeirão e chega no Reino das Águas Claras. Mas em lugar do universo sem-sentido ameaçador de Carroll, o mundo lobatiano fundiu a realidade do cotidiano com a magia dos contos de fadas… Tudo vira uma grande e feliz aventura. Em essência, ambos os mundos se completam: o de Carroll e o de Lobato.”
  10. Segundo Lobato, é “culpa” de Narizinho a tradução para o Brasil. “Tanto insistiu esta menina em vê-la em português (Narizinho ainda não sabe inglês), que não houve remédio, apesar de ser, como dissemos, uma obra intraduzível.

–       Serve assim mesmo – disse ela ao ler a tradução da primeira parte hoje publicada (a segunda, Through the Looking Glass, ainda é mais maluca) – Dá uma ideia, embora “muito pálida”, como diz a Emília…”, diz trecho do prefácio de Lobato para a obra. Ele se refere a um parágrafo anterior em que afirma que traduzir é sempre difícil. “Traduzir uma obra de Lewis Carroll, mais que difícil, é dificílimo. Trata-se do sonho de uma menina travessa – sonho em inglês, de coias inglesas, com palavras, referências, citações, alusões, versos, humorismo, trocadilhos, tudo inglês – isto é, especial, feito exclusivamente para a mentalidade dos inglesinhos.”

A versão de Monteiro Lobato, 2005, com ilustras de Darcy Penteado (Ed. Companhia Editora Nacional)
A versão de Monteiro Lobato, 2005, com ilustras de Darcy Penteado (Ed. Companhia Editora Nacional)

Há uma beleza especial nas histórias ditas “voltadas para as crianças e jovens”: elas podem. Podem o que? Ah, podem várias coisas. Podem, inclusive, enganar-nos com uma falsa maluquice para nos fazer refletir sobre a vida. Ou nos mostrar que, até na maluquice, há sempre uma lógica. A grosso modo, isso é um dos pontos que nos oferece o nonsense e o nonsense é um dos recursos fabulosos usados por Lewis Carroll em uma das obras literárias mais traduzidas, vendidas, adaptadas e lidas do mundo: Alice no País das Maravilhas. Como o livro está completando 150 anos neste mês de julho, muitos jornais, revistas e sites especializados no mundo todo fizeram reportagens, estudiosos publicaram artigos e há uma série de atividades em Nova York para comemorar, com curiosidades que parecem não ter fim. E não tem mesmo: Alice é, até hoje, recheada de enigmas e não somente na narrativa, mas também nos porquês que levaram um professor de matemática que adorava estar com crianças criar uma história em homenagem a uma delas em especial: Alice Liddel, em um belo passeio de barco pelo rio Tâmisa em um inesquecível 4 de julho. Uma história de uma menina que, ao perseguir um coelho, cai em um mundo subterrâneo repleto de personagens incríveis e confusos, feito um sonho, feito um mergulho nas próprias perguntas existenciais.

Não à toa, as tantas ilustrações nos deleitam em semelhanças e diferenças:

Os manuscritos de Carroll transformados em português pela artista Adriana Peliano (Ed. Scipione)
Os manuscritos de Carroll transformados em português pela artista Adriana Peliano (Ed. Scipione)

 

 

A mais famosa, a original: a Alice de John Tenniel
De Helen Oxenbury, aqui pela Editora Salamandra
De Helen Oxenbury, aqui pela Editora Salamandra
Da empresa Coolgraphics
Da empresa Coolgraphics

 

O projeto gráfico mais divertido, com ilustras de Yayoi Kusama (aqui pela Ed. GloboLivros)
O projeto gráfico mais divertido, com ilustras de Yayoi Kusama (aqui pela Ed. GloboLivros)

 

O que mais me atrai sempre ao reler Alice no País das Maravilhas é o fato de os valores humanos estarem tão explícitos quanto enigmáticos: não seria essa a relação mais próxima da nossa realidade? Ou há coisa mais complicada do que lidar com os valores Humanos?

Alice se compõe numa sucessão de perguntas dos nossos costumes, regras, pensamentos… e não só do período vitoriano em que vivia Carroll: mas por uma necessidade humana de questionarmos o que vivemos. “Ele foi escrito como um antídoto contra o embotamento da imaginação, o travo da inteligência e a contenção da graça”, diz Sevcenko.

Foi quando se surpreendeu, ao ver o Gato Inglês sentado num galho de árvore a pouca distância dali. O Gato apenas sorriu quando viu Alice. Parecia muito simpático, ela pensou. Tinha, porém, garras muito longas e uma porção de dentes, de modo que ela considerou que deveria tratá-lo com respeito.

–       Gatinho inglês – começou ela, meio tímida, pois não tinha muita certeza de ele iria gostar de ser tratado desse modo.

O Gato apenas alargou o sorriso.

“Ora vejam só! Parece que ele está gostando muito”, pensou Alice e foi em frente. – Você pode me dizer, por gentileza, como é que faço para sair daqui?

–       Isso depende muito de para onde você pretende ir – disse o Gato.

–       Para mim tanto faz onde que quer seja… – respondeu Alice.

–       Então, pouco importa o caminho que você tome – disse o Gato.

–       … contanto que eu chegue em algum lugar… – acrescentou Alice, explicando-se melhor.

–       Ah, então certamente você chegará lá se continuar andando bastante… – respondeu o Gato.

Alice achou que não podia negar isso; tentou, portanto, uma outra pergunta:

–       Que tipo de gente vive por aqui?

–       Naquela direção – disse o Gato, apontando com a pata direita – mora um Chapeleiro e naquela direção – fez ele, apontando com a outra pata – vive uma Lebre Aloprada. Visite qualquer um deles, tanto faz. Ambos são loucos.

–       Mas eu não quero ir parar no meio de gente maluca – observou Alice.

–       Ah, mas não adianta nada querer ou não – disse o Gato. – Nós somos todos loucos por aqui. Eu sou louco. Você é louca.

–       E como é que você sabe que eu sou louca? – perguntou Alice.

–       Bem, deve ser – disse o Gato – ou então você não teria vindo parar aqui. 

E você, por acaso, sabe por que leu tudo isso?

Contos Ortográficos, de Marilda Castanha

Na minha casa, a ortografia sempre foi também um jeito de se divertir. Minha irmã Denise foi por um bom tempo corretora de redação de uma rede grande de colégios de São Paulo e eu, ainda na faculdade de jornalismo, fiz o mesmo exercício por alguns meses. Nem sei se aprendi tudo o que deveria mas, mesmo assim, regras gramaticais e ortográficas sempre foram uma espécie de cumplicidade nossa, de trocar ideias e tal. Na ocasião da última reforma oficial da nossa língua portuguesa houve muito protesto e, principalmente, muito a aprender… Mas, eu – este é um comentário muito nerd, preparem-se – mais queria saber era de aprender a novidade. Sempre adorei ler livros antigos e me deparar com acentos já caídos e outras palavras hoje em desuso. Acho viva a nossa língua e, até por causa disso, louvo as outras formas de falar e escrever como caminhos, como bem Fernanda Montenegro narra naquele maravilhoso filme exibido todos os dias no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo.

Não sou estudiosa e nem pesquisadora da língua. Este papo todo aqui de língua e afeto é para falar do Contos Ortográficos (Ed. Abacatte), novo livro da ilustradora e escritora mineira Marilda Castanha.

 

Sr. Hífen
Sr. Hífen

Em nove histórias inusitadíssimas, a autora imaginou o que acontece na vida – corpo e alma, vejam só! – dos sinais gráficos, diante de tantas reformas. Assim, ela criou, para nosso deleite, a Cidade Ortográfica e desenrolou para nós uma série de aventuras inesquecíveis. Um dos livros mais legais que já li!

Tudo começa com um tal Manoel Português, que:

 

amava sobremaneira sua língua materna. Pontos de interrogação, exclamação ou finais, representavam, para ele, muitos mais que sinais gráficos. Eram sinais… de vida!

(…)

Por isto, tomava todo o cuidado para que estivessem sempre no local exato. E às vírgulas, Manoel dedicava total apreço…

 

Eis que senhor Manoel recebe em seu local de trabalho um cliente bem esquisito:

 

–       Bom dia! Preciso de chá, pães, biscoitos, mel, manteiga, leite, para meu, lanche, matinal. Ponto, final.

Manoel, que por alguns segundos se quedara paralisado, tentou se refazer do espanto de encontrar alguém que, além da aparência incomum, não economizava vírgulas e pausas.

 

E são brincadeiras como esta que compõem o livro, sem deixar nenhum sinal de fora. O conto Sr. Hífen é hilário e tem vocabulário de tirar o fôlego. Tudo começa em um dia em que o personagem acorda abatido, após a mudança brusca vivida por ele na última reforma.

 

Ele, que pouco tempo atrás figurava na autoestrada, na agroindústria e na cor de vinho não se conformava. Poderia alguém, pensava Pequeno Grande Hífen, que sempre fora onipresente, nos passeios de fim de semana e em todos os modelos de paraquedas, de uma hora para outra cair em desuso?

Deprimido, ele se autoavaliava. Mas, para contrariá-lo mais ainda, espalharam que por causa de sua (ínfima) infraestrutura, grupos de Erres e Esses tomariam para sempre o seu lugar, em dezenas e até centenas de palavras! Um movimento extrarregular que mudaria para sempre o biorritmo da cidade.

 

Sr. Circunflexo
Sr. Circunflexo

Deu para ter uma ideia do cuidado do texto? É uma costura de imaginação, boa narrativa e, por que não dizer, palavras certas nos lugares certos (ops!), de fazer a leitura ser um constante “vamos virar a página para ver a próxima história!”. Exige, sem dúvida, um leitor já envolvido ou envolvendo-se com amor pela língua, mas, acima de tudo, um jeitinho especial de colocar na discussão uma linda reflexão sobre vários tipos de personalidades. Ou será isso tudo simplesmente uma grande maluquice?

 

Marilda conta que a ideia surgiu há alguns anos, folheando manuais de reforma ortográfica, surgiu a pergunta: e se os sinais ortográficos tomassem vida e se revoltassem com tudo isso? E se isso fosse uma história? E aí surgiu uma primeira ilustração. “Eu tinha uns retalhos de papel schoeller que adoro e comecei a pintar, por curtição mesmo, alguns personagens (como o homem virgula , o hífen, o circunflexo …) e adorei o jeito que os desenhos ficaram. Queria fazer um livro bem solto com personagens malucos mesmo.” Perguntei a ela como foi o processo e ela respondeu que, após o primeiro acerto com a editora, partiu para as pesquisas mais específicas. “Eu anotava tudo: desde palavras referentes às reformas (com ss e rr, por exemplos) até expressões idiomáticas portuguesas. Com estas pesquisas é que fui trabalhando o texto do livro, e claro, adicionando outras ilustrações. Foi prazeroso pois parecia uma ‘brincadeira’ de gente grande…”

Ela se lembrou de uma conversa que tivemos na Feira do Livro Infantil de Bologna, em 2014 – veja o vídeo aqui – em que falávamos sobre o prazer de fazer livros. “É fascinante criar histórias com o mesmo instrumento (a palavra) que a gente usa para o dia a dia, para comprar pão, passagem de ônibus, para conversar com o médico, para contar uma piada… enfim, achar os diferentes usos desta nossa língua portuguesa é genial! E, neste livro, eu tentei isto, pensar nas mudanças e também no inusitado, no lúdico…” Mas quem conhece o trabalho fundamental de Marilda Castanha já se inquieta por mais ilustrações, não? O projeto gráfico exibe desenhos de página inteira com os vibrantes traços, cores e um jogo belíssimo de proporções e significados. Bem daqueles que torna possível reconhecer uma obra da Marilda de longe.

O livro é para guardar feito homenagem às possibilidades de NOSSA língua, nosso povo, nossa história. Cheio de humor e – por que não? – regras. Mas com um final, acreditem, emocionante.

CONTOSORTOGRACAPA

 

 

 

 

 

 

 

 

Contos Ortográficos (Ed. Abacatte)

Textos e ilustrações de Marilda Castanha

2015

Inês, de Roger Mello e Mariana Massarani

Amores impossíveis. Paixão. Traição.

Morte.

Tentei dar um tom dramático neste início de post para gente pensar se estas palavras, quer dizer, pensar se o fato de saber sobre os temas de um livro produzido na categoria literatura infantojuvenil nos impediria de experimentar uma mediação de leitura para crianças. Será?

Mas e se eu começasse falando que uma dupla de brasileiros da qual nos orgulhamos muito se juntaram para recontar uma das mais lindas histórias de amor de uma personagem da História (com H maiúsculo) de Portugal. Uma história que grandes nomes como Camões e Bocage já nos embelezaram em palavras, e da qual vem uma expressão que todos nós ouvimos desde crianças: “Agora, Inês é morta”, referindo-se sempre a algo que não tem mais jeito.

INESDENTRO

É com este poderoso conto que chegam às livrarias Inês (ed. Companhia das Letrinhas), o mais recente livro de Roger Mello e Mariana Massarani. Roger e Mariana têm dezenas de belíssimas contribuições na nossa literatura infantil juntos, separados, como escritores e como ilustradores. Mariana, para mim, é traço básico para qualquer infância, com seu jeito específico de desenhar e de expressar situações e personagens. Roger foi o vencedor do Prêmio Hans Christian Andersen, em 2014, considerado o Nobel da literatura infantil no mundo. E há algo neles ainda mais especial: uma parceria, amizade e admiração mútua que já ouvi deles muito, o que faz do projeto ainda mais interessante.

Na história, quem narra os trágicos acontecimentos é uma das filhas de Inês com príncipe Pedro I de Portugal, que se casa com Constança, filha de um dos fidalgos mais poderosos do Reino de Castela. Sim, uma história de uma época de casamentos arranjados, mas que o amor teimava em aparecer. Conta a história e suas versões que Inês era ama de Constança, mas que a paixão pelo príncipe foi inevitável. Inevitável mas jamais aceitável: Inês, mesmo mãe de quatro filhos de Pedro, tem um final trágico. “Sem encontrar consolo, d. Pedro I, anos depois, e após a morte do pai, traz sua esposa de volta, oficializa o casamento e faz com que todos participem de um beija-mão com a rainha morta”, conta no final do livro a antropóloga Lilia Moritz Schwarcz, autora de Brasil: Uma Biografia (Cia das Letras).

INESDENTRO2

O leitor não é poupado, como se não houvesse assunto proibido no amor e na poesia. Um projeto gráfico belíssimo – com as ilustras de Mariana em lápis e tinta em dimensões interessantíssimas e cheias de detalhes – conta a história com a emocionante poesia de Roger. Sim, trata-se de um poema ilustrado, com toda a delicadeza merecida.

 

Uma carruagem veio de Castela.

Trouxe Inês pra ser ama da princesa Constança.

Princesa Constança?

É, esposa de meu pai.

Ah, sua mãe.

Não, minha mãe era Inês,

essa moça que sorriu quando o príncipe fez a carruagem parar.

 

Nem palavra, nem imagem diminuem o que o leitor criança ou jovem pode encontrar, sentir. (melhor nos prepararmos para uma polêmica, sim).

 

Encontrei minha mãe perto da fonte, cercada por três conselheiros.

Diogo. Pero. Álvaro.

Um dos três com uma adaga na mão.

Ela apontou pra mim, pros meus irmãos.

–       Mas vocês me ameaçam na frente dos filhos do seu rei?

Os conselheiros não deram ouvidos.

 

A narradora menina dá um tom especial para esta versão. Uma certa inocência, como se já assumíssemos com ela um dos lados da histórica injustiça, de tempos em que opiniões, vontades e liberdades não tinham vez. O jogo de palavras e significados aliados ao das cores, traços, tons e representações parecem nos revelar uma possibilidade nova entre o real e imaginário, como um laço definitivo entre História e ficção.

 INESCAPA

Inês (Ed. Companhia das Letrinhas)

De Roger Mello e Mariana Massarani

2015

Este Não É o Presente Que Eu Pedi!

 

Eu nasci no dia do aniversário de 9 anos do meu irmão Jonas. A história é que estavam todos no litoral, eram férias (27 de julho), esperando minha mãe ir para lá com seu barrigão, mas eu quis sair dele umas duas semanas antes do previsto. Dizem também que ele não ficou bravo, nem nada. Foi ao hospital, me viu por uma janelinha e disse: “ela parece uma boneca”. Tempos depois, dizia a quem perguntasse: “sou o menino mais feliz da rua: tenho um cachorro e um bebê”. Não sei se eu era o que ele esperava, embora já tivesse certa idade para discernir o que vinha por aí. Mas eu vim no dia do aniversário dele e, até hoje, ele ainda me trata como se fosse um presente.

ESTENAOPRESENTE

Sou a caçula e mãe de filha única e, então, foi do meu irmão que me lembrei deste abraçável livro novo da escritora e ilustradora Aline Abreu. Falo de Este Não É o Presente que Eu Pedi!, lançado pela Editora Melhoramentos. Na capa, já vemos o menino bastante contrariado. Ele desenha na sala quando a porta se abre. O tal presente chega e, de cara, nota que não era exatamente o que estava esperando. Veio em um pacote e vai direto para o berço.

 

Tô achando tudo muito chato.

Este não é o presente que eu pedi.

(…)
O presente que eu pedi

ia viajar pra selva comigo.

Com esse só dá pra brincar

De urso-dormindo-no-inverno.

Meio sem graça.

 

É assim que vamos acompanhando a decepção do garoto com a chegada do irmão. Quem aguenta tanta monotonia? E a choradeira constante? Quem não conhece um depoimento parecido? Só que Aline surpreende e nos dá a narrativa em sintonia única de texto e imagem: as palavras dão conta de acreditarmos ser uma criança pequena a narradora, mas com riqueza de vocabulário e raciocínio pois, afinal, a criança de Aline não é uma leitora com menos recursos, como tantos pensam por aí…

ESTENAOPRESENTE2

e as ilustrações têm uma beleza de profundidade, precisão à história e criatividade que até emocionam. Junto do traço que definem os fatos reais, Aline mistura outro, lembrando algo feito por criança, para definir os pensamentos do menino. São rabiscos de uma personalidade em formação que tantas dúvidas encontra dentro de si: o que fazer com uma gama de sentimentos tão confusos que chegam junto com o irmão? Raiva, curiosidade, ciúme, carinho… é por isso que, no final do livro, uma cena totalmente inesperada faz o tal presente trocar de status de “decepção” para “sentimento-bom-ainda-indefinido”. Para, provavelmente, ficar oscilando assim pela vida toda. Ou vocês não ficam imaginando o que acontece depois que o livro acaba?

ESTENAOPRESENTECAPA

Este Não É O Presente Que Eu Pedi! (Ed. Melhoramentos)

Textos e ilustrações de Aline Abreu

2015

 

 

O Barco dos Sonhos

Descubro cada dia mais que estou em uma espécie de “cruzada” pela valorização do livro ilustrado, muitíssimo mais à vontade quando encaixado nas prateleiras e catálogos da literatura infantojuvenil. Muitos bons e encontros e todos os bons livros me encaminham para o pensamento do quanto perde-se tempo não aproveitando o que temos de arte disponível. Parece até piada esta crise da produção brasileira do setor na qual estamos mergulhados se temos tudo para salvar o mundo, se estamos diante de uma gama de pessoas tão criativas e com tanto a dizer, trocar…

Há muitas razões e aspectos diversos e sempre que estou diante de uma obra de arte em minhas mãos – considerada por mim, assim, diga-se – eu me encho de felicidade para gritar ainda mais alto: ei, você, olha isso aqui! Algumas vezes eu faço isso literalmente. Outras, por aqui, outras em encontros presenciais… Ei, olhe já O Barco dos Sonhos, livro mais recente do artista Rogério Coelho, lançado pela Editora Positivo! É meu grito agora.

Levou sete anos para ficar “pronto”. Mas livro fica pronto quando mesmo?

BARCOSONHOSSENHOR

Em uma história “só” com imagens, temos em mãos um livro que as palavras não dão conta. Posso simplificar dizendo que trata-se de uma belíssima sequência de quadros que mostra um senhor em uma casa antiga à beira-mar, que recebe uma folha em branco, encontrada dentro de uma garrafa que veio boiando no mar. Ele pega um lápis e, misteriosamente aos olhos do leitor, desenha um barco. Enrola o papel, recoloca na garrafa, que vai para o mar, com sua mensagem.

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O tom sépia ganha azul para nos levar, agora, para uma outra casa. A casa de um menino que recebe uma carta, envelopada. Nela, um barco. Neste barco, o menino coloca lá o seu sonho. No seu sonho, ele vai no barco, mas um barco voador, que encontra um senhor, que mora à beira-mar. Faz-se um ciclo? Por fora ou por dentro?

Ah, não é livro para ler correndo e entender de uma vez. É livro para descobrir, degustar, aproveitar. Cheio de detalhes em luzes, sombras, tons e formatos, parece que voamos no barco ou ouvimos os cantos dos pássaros. O livro está cheio de pássaros cantando! É livro-música também, veja só. De infância, de velhice e de pensar no encontro de ambas fases, que somos o tempo todo.

Aí, quem sabe, nos damos conta de que é um livro que não vai acabar nunca. Feito literatura.

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O Barco dos Sonhos (ed. Positivo)

Ilustrações de Rogério Coelho

2015