SOBRE DANTE E FUTEBOL: A DIVINA JOGADA

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Para quem leu A Divina Comédia e para quem não leu. Esta foi a minha primeira conclusão ao ler A Divina Jogada, livro escrito em poemas por José Santos e acompanhado do traço irreverente, forte e bem identificável de Eloar Guazzelli. Nem texto, nem imagens poupam o jovem leitor de uma inusitadíssima viagem pelo Inferno, Purgatório e Paraíso, o mesmo trajeto descrito pelo poeta italiano Dante Alighieri, na obra publicada no ano 1321. É mais do que um convite ao original: o livro inspira uma ótima conversa sobre um dos maiores clássicos da literatura mundial e, assim, aproxima-o à atualidade não em tom de “explicação” ou “adaptação”: mas de respeito e legitimidade.

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Neste primeiro infantojuvenil da Editora Nós, o enredo nos é revelado em poemas cheio de humor e muita descrição em detalhes. Algumas partes, principalmente para quem não tem tanta familiaridade com o original, surgem como uma espécie de pequenos enigmas. O leitor decifra, aos poucos, o cenário curioso: um campeonato em fase de melhor de três, que tem, de um lado, a Seleção Celestial, com arcanjos, santos e musas, comandados por ninguém menos que Jesus Cristo. Do outro, o Inferno, representado por diversos personagens da bíblia, mitologia grega, literatura e história universal, como Caim, Judas Iscariotis, Minotauro e Brutus. O primeiro jogo, no Inferno, é o começo da história, mostrando Dante e seu fiel escudeiro Virgílio tentando entrar na partida, a qual assistem só os minutos finais, quando céu e inferno terminam no zero a zero. A partida no Purgatório já emplaca um 1 a zero para a turma do bem, o que faz com que, no Paraíso, a final seja bastante acirrada e, para os leitores, ainda mais divertida.

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Como em Futebolíada – que José e Guazzelli também fizeram juntos, a partir da história de gregos e troianos – o escritor usa muitos termos conhecidos da narração de partidas de futebol, o que dá o tom para o leitor se ambientar e revela, em mais um livro, a paixão em relacionar literatura com esportes. Mas, nem por isso, causa a sensação de “já vi isso antes”. Porque o tema, como podem imaginar, é puro impacto, principalmente sendo uma publicação voltada para crianças e jovens. Em tempos de ode ao politicamente correto, as dezenas de termos usados para definir os jogadores do lado mal – belzebu, tinhoso, coisa-ruim – laçam o espectador nesta inesquecível partida e demonstram uma atitude corajosa.

A última parte do livro, no entanto, não é a final do campeonato no Paraíso. Um capítulo a mais continua a brincadeira literária, revelando ao leitor detalhes tanto sobre A Divina Comédia original, a história pessoal do autor italiano, quanto sobre personagens citados nas duas histórias, em uma costura de ficção e realidade que vai aguçar o leitor a querer começar tudo de novo.

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A Divina Jogada (Ed. Nós)

Textos de José Santos e ilustrações de Eloar Guazzelli

2015

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