as viagens de HAICAIS VISUAIS

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Era final de abril passado e estava eu conversando com o ilustrador e escritor Nelson Cruz, em um evento em uma livraria de São Paulo, a Blooks. Ele estava a trabalho na cidade e resolveu aproveitar a viagem de Santa Luzia, Minas, onde mora, até aqui para rever amigos como os outros autores de livros infantis Odilon Moraes e Fernando Vilela. Como vício de jornalista, perguntei o que esperávamos dele neste ano e ele citou um livro chamado Haicais Visuais. A partir destas palavras, fiquei como aqueles momentos que costumamos tirar sarro onde você simplesmente para de ouvir o que a pessoa está falando: a minha lembrança é só do Nelson dizendo algo que eu não me recordo, pois a imagem da possibilidade de ver haicais visuais – sendo lá o que fosse isso! – me desligou da conversa e me proporcionou uma curiosa viagem na imaginação. Haicai, a clássica forma de poemas de origem japonesa que preza pela concisão e objetividade, em desenhos?

Pois a viagem em si acaba – finalmente! – de chegar nas minhas mãos e, sim, é ainda melhor do que pude imaginar. O livro Haicais Visuais, lançado pela Editora Positivo, é uma das mais belas sucessões de poemas em imagens que já presenciei. Mas eu lá havia presenciado algo parecido? Não, com certeza não.

HAICAISVISUAISTREM

A viagem começa com este trem. A sequência de mais duas imagens nos fazem o primeiro convite a uma experiência importante. Seguem, então, outras sequências de três imagens, sempre com a sugestão feita pelos títulos que as precedem. Vou revelar apenas um para que entendam do que estou falando.

Este aqui é Magritte ao Vento:

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A expressão dos desenhos, o uso das bordas e quadros contrastando com páginas inteiras de cor nos títulos, o movimento das cenas, as vibrações das cores, tons e das texturas provocadas e, acima de tudo, a micro-história a ser contada em simplicidade, leveza e beleza sugerida por quem se apaixonou pelos haicais japoneses, estão tão presentes quanto – arrisco dizer – as paixões e desejos de Nelson que, como talentoso artista, consegue compartilhar com seu público. É o Nelson poeta que nos dá o tom para brincar de pintura, cinema, literatura e observações da vida: o que pensamos que é, ele está pronto para sugerir um “pode ser”.

O humor está bastante presente ou no teor da história ou na forma. Não à toa, Nelson, no final do livro, relembra seu encantamento na descoberta dos cartuns e das charges nos anos 70. Os poemas visuais nos permitem, ainda, outra brincadeira adquirida só no virar de páginas: “será que o que vem a seguir é o que estou pensando?”, pensei eu na tira Boa Noite, Alice! E era! (Mas não vou contar aqui, não!). Brinque, viaje, leia. E repita várias vezes na vida. Não vai haver infância que resista a este convite. Um livro para todos.

HAICAISVISUAISCAPA

Haicais Visuais (Ed. Positivo)

De Nelson Cruz

2015

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