Coisa de Gente Grande

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Nos encontros sobre literatura infantil que tenho a felicidade de promover no curso de pós-graduação A Arte de Contar Histórias – Abordagens Poética, Performática e Literária (parceria da A Casa Tombada com a Faculdade das Conchas – Facon), o grupo de alunos e eu sempre conversamos sobre o fato do livro ilustrado encontrar o seu lugar na literatura “feita para crianças e jovens”. Ali ele está à vontade, não tem tanta briga pelo preconceito de “os desenhos estão ali para facilitar a leitura”, como se isso fosse algo ruim, menor, inferior. Daí surge – e se baseia, de certa forma – uma série de conceitos discutidos hoje no mundo inteiro sobre o que é o livro ilustrado, o livro-álbum, o chamado em inglês de picturebook etc. A relação palavra e imagem está viva nos livros ilustrados em diversos aspectos.

O escritor e ilustrador André Neves dá uma espécie de acolhimento à nossa paixão por literatura infantojuvenil quando “já” somos adultos, com a frase: “é uma nova literatura: é uma literatura para infância de adultos e crianças também”. Bem… do que será que ele está falando? Ele está falando do “livro para a infância”, do livro que conversa com a infância. E o que é infância? Ah, isso quem pode nos ajudar a entender é justamente o livro ilustrado. Percebem a volta que dei?

Todas estas informações, opiniões, reflexões, polêmicas etc vêm à tona criança com o lançamento de Coisa de Gente Grande, da ilustrador a escritora Patricia Auerbach, que chega às livrarias pela Editora Cosac Naify. Para mim, simboliza toda esta conversa sobre livro para tal idade e sobre o que representa ou que define o livro ilustrado.

A história começa na capa, onde vemos uma ilustração a lápis de um garoto de costas em uma bicicleta. A bicicleta não está ali à toa. As duas rodinhas soltas no chão nos remetem ao que vem pelas páginas: uma criança cresce. A guarda (a continuação da capa e a primeira página em papel mais fino) já nos fornece outra ilustração simbólica, com peças de jogos de montar espalhadas e a palavra ao lado: PEDAÇOS. A seguir, duas crianças dentro de uma caixa de papelão e outra palavra: LUGARES. Segue, então, uma bolo de aniversário e uma decoração de festa com mais uma palavra: CANÇÕES… e por aí vai, um poema ilustrado, um poema em palavra escrita e palavra desenhada, nos jogando a perspectivas (de enquadramentos ou na escolha dos objetos representados) e de texto: quais palavras definem a sua infância?

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Patricia me contou que este livro nasceu por acaso. “Foi quando alguém me perguntou o que era infância e eu não consegui responder. Comecei a fazer o poema, buscando um significado e percebi que cada palavra/verso era também um conceito muito aberto, muito cheio de possibilidades. As imagens foram o jeito que eu encontrei de amarrar as ideias e construir a minha visão para as histórias de infância, os lugares da infância e seus caminhos até chegar na obra pronta, e responder à pergunta inicial”.

Não se emocionar com Coisa de Gente Grande, suponho, é quase impossível. A criança de antes e de hoje vai encontrar referências, diálogos. O virar de páginas tem um ritmo de revelação que, somando um a outro a outro a outro a outro nos devolvem sentimentos, ao mesmo tempo que nos provoca a sonhar: será que esta infância está acabada mesmo? Seria tudo LEMBRANÇAS ou eternos ENCONTROS e COMEÇOS?

Para mim, esta é a provocação do livro ilustrado e do livro para a infância: não tem idade, lugar ou formato certo. Tem bagagens, tem histórias, tem experiências. Tem vida.

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Coisa de Gente Grande

Textos e ilustrações de Patricia Auerbach

2015

 

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