Inês, de Roger Mello e Mariana Massarani

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Amores impossíveis. Paixão. Traição.

Morte.

Tentei dar um tom dramático neste início de post para gente pensar se estas palavras, quer dizer, pensar se o fato de saber sobre os temas de um livro produzido na categoria literatura infantojuvenil nos impediria de experimentar uma mediação de leitura para crianças. Será?

Mas e se eu começasse falando que uma dupla de brasileiros da qual nos orgulhamos muito se juntaram para recontar uma das mais lindas histórias de amor de uma personagem da História (com H maiúsculo) de Portugal. Uma história que grandes nomes como Camões e Bocage já nos embelezaram em palavras, e da qual vem uma expressão que todos nós ouvimos desde crianças: “Agora, Inês é morta”, referindo-se sempre a algo que não tem mais jeito.

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É com este poderoso conto que chegam às livrarias Inês (ed. Companhia das Letrinhas), o mais recente livro de Roger Mello e Mariana Massarani. Roger e Mariana têm dezenas de belíssimas contribuições na nossa literatura infantil juntos, separados, como escritores e como ilustradores. Mariana, para mim, é traço básico para qualquer infância, com seu jeito específico de desenhar e de expressar situações e personagens. Roger foi o vencedor do Prêmio Hans Christian Andersen, em 2014, considerado o Nobel da literatura infantil no mundo. E há algo neles ainda mais especial: uma parceria, amizade e admiração mútua que já ouvi deles muito, o que faz do projeto ainda mais interessante.

Na história, quem narra os trágicos acontecimentos é uma das filhas de Inês com príncipe Pedro I de Portugal, que se casa com Constança, filha de um dos fidalgos mais poderosos do Reino de Castela. Sim, uma história de uma época de casamentos arranjados, mas que o amor teimava em aparecer. Conta a história e suas versões que Inês era ama de Constança, mas que a paixão pelo príncipe foi inevitável. Inevitável mas jamais aceitável: Inês, mesmo mãe de quatro filhos de Pedro, tem um final trágico. “Sem encontrar consolo, d. Pedro I, anos depois, e após a morte do pai, traz sua esposa de volta, oficializa o casamento e faz com que todos participem de um beija-mão com a rainha morta”, conta no final do livro a antropóloga Lilia Moritz Schwarcz, autora de Brasil: Uma Biografia (Cia das Letras).

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O leitor não é poupado, como se não houvesse assunto proibido no amor e na poesia. Um projeto gráfico belíssimo – com as ilustras de Mariana em lápis e tinta em dimensões interessantíssimas e cheias de detalhes – conta a história com a emocionante poesia de Roger. Sim, trata-se de um poema ilustrado, com toda a delicadeza merecida.

 

Uma carruagem veio de Castela.

Trouxe Inês pra ser ama da princesa Constança.

Princesa Constança?

É, esposa de meu pai.

Ah, sua mãe.

Não, minha mãe era Inês,

essa moça que sorriu quando o príncipe fez a carruagem parar.

 

Nem palavra, nem imagem diminuem o que o leitor criança ou jovem pode encontrar, sentir. (melhor nos prepararmos para uma polêmica, sim).

 

Encontrei minha mãe perto da fonte, cercada por três conselheiros.

Diogo. Pero. Álvaro.

Um dos três com uma adaga na mão.

Ela apontou pra mim, pros meus irmãos.

–       Mas vocês me ameaçam na frente dos filhos do seu rei?

Os conselheiros não deram ouvidos.

 

A narradora menina dá um tom especial para esta versão. Uma certa inocência, como se já assumíssemos com ela um dos lados da histórica injustiça, de tempos em que opiniões, vontades e liberdades não tinham vez. O jogo de palavras e significados aliados ao das cores, traços, tons e representações parecem nos revelar uma possibilidade nova entre o real e imaginário, como um laço definitivo entre História e ficção.

 INESCAPA

Inês (Ed. Companhia das Letrinhas)

De Roger Mello e Mariana Massarani

2015

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