Este Não É o Presente Que Eu Pedi!

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Eu nasci no dia do aniversário de 9 anos do meu irmão Jonas. A história é que estavam todos no litoral, eram férias (27 de julho), esperando minha mãe ir para lá com seu barrigão, mas eu quis sair dele umas duas semanas antes do previsto. Dizem também que ele não ficou bravo, nem nada. Foi ao hospital, me viu por uma janelinha e disse: “ela parece uma boneca”. Tempos depois, dizia a quem perguntasse: “sou o menino mais feliz da rua: tenho um cachorro e um bebê”. Não sei se eu era o que ele esperava, embora já tivesse certa idade para discernir o que vinha por aí. Mas eu vim no dia do aniversário dele e, até hoje, ele ainda me trata como se fosse um presente.

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Sou a caçula e mãe de filha única e, então, foi do meu irmão que me lembrei deste abraçável livro novo da escritora e ilustradora Aline Abreu. Falo de Este Não É o Presente que Eu Pedi!, lançado pela Editora Melhoramentos. Na capa, já vemos o menino bastante contrariado. Ele desenha na sala quando a porta se abre. O tal presente chega e, de cara, nota que não era exatamente o que estava esperando. Veio em um pacote e vai direto para o berço.

 

Tô achando tudo muito chato.

Este não é o presente que eu pedi.

(…)
O presente que eu pedi

ia viajar pra selva comigo.

Com esse só dá pra brincar

De urso-dormindo-no-inverno.

Meio sem graça.

 

É assim que vamos acompanhando a decepção do garoto com a chegada do irmão. Quem aguenta tanta monotonia? E a choradeira constante? Quem não conhece um depoimento parecido? Só que Aline surpreende e nos dá a narrativa em sintonia única de texto e imagem: as palavras dão conta de acreditarmos ser uma criança pequena a narradora, mas com riqueza de vocabulário e raciocínio pois, afinal, a criança de Aline não é uma leitora com menos recursos, como tantos pensam por aí…

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e as ilustrações têm uma beleza de profundidade, precisão à história e criatividade que até emocionam. Junto do traço que definem os fatos reais, Aline mistura outro, lembrando algo feito por criança, para definir os pensamentos do menino. São rabiscos de uma personalidade em formação que tantas dúvidas encontra dentro de si: o que fazer com uma gama de sentimentos tão confusos que chegam junto com o irmão? Raiva, curiosidade, ciúme, carinho… é por isso que, no final do livro, uma cena totalmente inesperada faz o tal presente trocar de status de “decepção” para “sentimento-bom-ainda-indefinido”. Para, provavelmente, ficar oscilando assim pela vida toda. Ou vocês não ficam imaginando o que acontece depois que o livro acaba?

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Este Não É O Presente Que Eu Pedi! (Ed. Melhoramentos)

Textos e ilustrações de Aline Abreu

2015

 

 

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