Contos Ortográficos, de Marilda Castanha

1965

Na minha casa, a ortografia sempre foi também um jeito de se divertir. Minha irmã Denise foi por um bom tempo corretora de redação de uma rede grande de colégios de São Paulo e eu, ainda na faculdade de jornalismo, fiz o mesmo exercício por alguns meses. Nem sei se aprendi tudo o que deveria mas, mesmo assim, regras gramaticais e ortográficas sempre foram uma espécie de cumplicidade nossa, de trocar ideias e tal. Na ocasião da última reforma oficial da nossa língua portuguesa houve muito protesto e, principalmente, muito a aprender… Mas, eu – este é um comentário muito nerd, preparem-se – mais queria saber era de aprender a novidade. Sempre adorei ler livros antigos e me deparar com acentos já caídos e outras palavras hoje em desuso. Acho viva a nossa língua e, até por causa disso, louvo as outras formas de falar e escrever como caminhos, como bem Fernanda Montenegro narra naquele maravilhoso filme exibido todos os dias no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo.

Não sou estudiosa e nem pesquisadora da língua. Este papo todo aqui de língua e afeto é para falar do Contos Ortográficos (Ed. Abacatte), novo livro da ilustradora e escritora mineira Marilda Castanha.

 

Sr. Hífen
Sr. Hífen

Em nove histórias inusitadíssimas, a autora imaginou o que acontece na vida – corpo e alma, vejam só! – dos sinais gráficos, diante de tantas reformas. Assim, ela criou, para nosso deleite, a Cidade Ortográfica e desenrolou para nós uma série de aventuras inesquecíveis. Um dos livros mais legais que já li!

Tudo começa com um tal Manoel Português, que:

 

amava sobremaneira sua língua materna. Pontos de interrogação, exclamação ou finais, representavam, para ele, muitos mais que sinais gráficos. Eram sinais… de vida!

(…)

Por isto, tomava todo o cuidado para que estivessem sempre no local exato. E às vírgulas, Manoel dedicava total apreço…

 

Eis que senhor Manoel recebe em seu local de trabalho um cliente bem esquisito:

 

–       Bom dia! Preciso de chá, pães, biscoitos, mel, manteiga, leite, para meu, lanche, matinal. Ponto, final.

Manoel, que por alguns segundos se quedara paralisado, tentou se refazer do espanto de encontrar alguém que, além da aparência incomum, não economizava vírgulas e pausas.

 

E são brincadeiras como esta que compõem o livro, sem deixar nenhum sinal de fora. O conto Sr. Hífen é hilário e tem vocabulário de tirar o fôlego. Tudo começa em um dia em que o personagem acorda abatido, após a mudança brusca vivida por ele na última reforma.

 

Ele, que pouco tempo atrás figurava na autoestrada, na agroindústria e na cor de vinho não se conformava. Poderia alguém, pensava Pequeno Grande Hífen, que sempre fora onipresente, nos passeios de fim de semana e em todos os modelos de paraquedas, de uma hora para outra cair em desuso?

Deprimido, ele se autoavaliava. Mas, para contrariá-lo mais ainda, espalharam que por causa de sua (ínfima) infraestrutura, grupos de Erres e Esses tomariam para sempre o seu lugar, em dezenas e até centenas de palavras! Um movimento extrarregular que mudaria para sempre o biorritmo da cidade.

 

Sr. Circunflexo
Sr. Circunflexo

Deu para ter uma ideia do cuidado do texto? É uma costura de imaginação, boa narrativa e, por que não dizer, palavras certas nos lugares certos (ops!), de fazer a leitura ser um constante “vamos virar a página para ver a próxima história!”. Exige, sem dúvida, um leitor já envolvido ou envolvendo-se com amor pela língua, mas, acima de tudo, um jeitinho especial de colocar na discussão uma linda reflexão sobre vários tipos de personalidades. Ou será isso tudo simplesmente uma grande maluquice?

 

Marilda conta que a ideia surgiu há alguns anos, folheando manuais de reforma ortográfica, surgiu a pergunta: e se os sinais ortográficos tomassem vida e se revoltassem com tudo isso? E se isso fosse uma história? E aí surgiu uma primeira ilustração. “Eu tinha uns retalhos de papel schoeller que adoro e comecei a pintar, por curtição mesmo, alguns personagens (como o homem virgula , o hífen, o circunflexo …) e adorei o jeito que os desenhos ficaram. Queria fazer um livro bem solto com personagens malucos mesmo.” Perguntei a ela como foi o processo e ela respondeu que, após o primeiro acerto com a editora, partiu para as pesquisas mais específicas. “Eu anotava tudo: desde palavras referentes às reformas (com ss e rr, por exemplos) até expressões idiomáticas portuguesas. Com estas pesquisas é que fui trabalhando o texto do livro, e claro, adicionando outras ilustrações. Foi prazeroso pois parecia uma ‘brincadeira’ de gente grande…”

Ela se lembrou de uma conversa que tivemos na Feira do Livro Infantil de Bologna, em 2014 – veja o vídeo aqui – em que falávamos sobre o prazer de fazer livros. “É fascinante criar histórias com o mesmo instrumento (a palavra) que a gente usa para o dia a dia, para comprar pão, passagem de ônibus, para conversar com o médico, para contar uma piada… enfim, achar os diferentes usos desta nossa língua portuguesa é genial! E, neste livro, eu tentei isto, pensar nas mudanças e também no inusitado, no lúdico…” Mas quem conhece o trabalho fundamental de Marilda Castanha já se inquieta por mais ilustrações, não? O projeto gráfico exibe desenhos de página inteira com os vibrantes traços, cores e um jogo belíssimo de proporções e significados. Bem daqueles que torna possível reconhecer uma obra da Marilda de longe.

O livro é para guardar feito homenagem às possibilidades de NOSSA língua, nosso povo, nossa história. Cheio de humor e – por que não? – regras. Mas com um final, acreditem, emocionante.

CONTOSORTOGRACAPA

 

 

 

 

 

 

 

 

Contos Ortográficos (Ed. Abacatte)

Textos e ilustrações de Marilda Castanha

2015

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