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VÍDEO: O MUNDO DE EVA FURNARI

Entrevistei a escritora e ilustradora Eva Furnari pela primeira vez em 2007. Era para a Lista dos 30 Melhores Livros Infantis do Ano e quisemos homenageá-la. Na lista daquele ano, o fabuloso Felpo Filva, um livro lançado em 2006, com a história de um coelho um tanto neurótico e cheios de traumas de infância por ter uma orelha mais curta do que a outra. Um coelho poeta, na verdade, que é criticado por uma leitura e daí surgem as mais variadas e divertidas cenas e encontros, permeados por uma brincadeira entre gêneros de escrita.

Desde o primeiro encontro com a Eva, a admiração foi certa. Não só pelo seu trabalho, porque isso eu já conhecia dos livros desde a minha infância, com as minhas leituras na Biblioteca Chácara do Castelo, acompanhadas pelas aventuras de seus personagens dos anos 80, como a famosíssima Bruxinha. Mas o que me encanta na Eva é como ela pensa o livro, o seu papel como artista, mas também como pessoa que leva uma ideia a uma porção de crianças, professoras, famílias: há uma forte preocupação com a ética (e que nada tem a ver com a confusa discussão sobre o politicamente correto na literatura infantil). Ética como questão para nos mantermos “humanos”, característica primordial da literatura.

É isso que talvez vocês sintam ao assistir este documentário exclusivo do Esconderijos do Tempo, produzido por mim e por Ricardo Fiorotto. Divirtam-se, reflitam, encantem-se com o Mundo de Eva Furnari!

Entregue-se a Divertida Mente, novo da Pixar

 

Medo, Nojinho, Alegria, Raiva e Tristeza (no chão).
Medo, Nojinho, Alegria, Raiva e Tristeza (no chão).

 

Se eu contasse a você a estrutura do novo filme da Pixar, assim, em uma espécie de mapa mental de roteiro, talvez você se assustasse com as alternâncias de simplicidade e complexidade. O filme parte da premissa “Você já olhou para alguém e se perguntou o que se passa na mente dessa pessoa?”, e a resposta seria algo como #quemnunca???.

Pois bem, Divertida Mente, nova animação da Disney/Pixar que estreia em 18 de junho, nos apresenta a história de Riley, uma menina de 11 anos, cuja vida podemos acompanhar desde o nascimento. O diferente, no entanto, é a perspectiva: conhecemos Riley por dentro de sua mente, onde temos o prazer de conhecer cinco “criaturas” até então bastante abstratas, mas que a animação pôde concretizar. Elas são As Emoções: Alegria, cuja a missão é garantir que Riley esteja sempre sempre sempre e sempre feliz; Medo que zela pela segurança da menina desde os primeiros passos; Raiva que libera toda aquela energia quando julga necessário; Nojinho que, segundo o filme “evita que Riley seja envenenada com itens como, por exemplo, brócolis” e, por último, Tristeza, uma personagem tão adorável quanto frágil e sobre a qual, por muitos minutos do filme, não sabemos muito como lidar.

Desde o início, há cenas de provocar nó na garganta, principalmente para quem tem filhos ou convive com alguma criança. No melhor estilo UP e Toy Story, as cenas ora emocionantes, ora hilárias, desenrolam-se na tela cheias de delicadeza e fantasia, mas com um toque de realidade que vai fazer o espectador se identificar imediatamente. Tudo caminha bem até que a família – pai, mãe e Riley – precisam se mudar de Minnesotta para San Francisco, assustadoramente diferente. As Emoções imediatamente reagem a esta profunda fase de transição. A saudade dos amigos, o incômodo com o atraso na entrega da mudança e outros contratempos trazidos pelo “novo” provocam sentimentos novos na menina e aí mora a beleza do filme: o conflito é só pretexto para mergulharmos nas emoções e reações de Riley, e refletirmos sobre as emoções e as reações de todos nós. O enredo se passa, então, em dois mundos: o primeiro bastante concreto para nós, com a adaptação da família à nova vida; o segundo, bastante abstrato, visto pela mente de Riley e sob metáforas belíssimas sobre a importância e construção das lembranças.

DIVERTIDAMENTECHORA

Na trama, Alegria é obcecada por sua dedicação em manter Riley alegre. Embora doce e cuidadosa, ela lidera a mente da menina e de certa forma despreza as outras emoções. Tristeza é alguém que Alegria tenta ao máximo dominar, aproveitando-se da culpa que a pequena personagem azul sente, sendo sempre indesejada, atrapalhando os planos de Alegria. A grande virada é quando as duas vão inadvertidamente para as profundezas da mente de Riley, que ambas nunca haviam visitado: um lugar onde memórias são preservadas ou descartadas conforme Riley cresce. É lá que passeiam por lugares como Memória de Longo Prazo, Terra da Imaginação, Pensamento Abstrato e Produções de Sonhos, enquanto Medo, Raiva e Nojinho assumem o controle (ou descontrole) de Riley.

Alegria tenta desesperadamente voltar com Tristeza ao comando, mas o caminho é árduo e o tempo é curto: as atitudes de Riley mudam a menina e a fazem se desconectar de quase tudo que era até então importante. Enquanto isso, assistimos a uma explosão de criatividade que nos faz esquecer onde sequer estamos sentados (inclusive porque não é só a mente de Riley que nos aparece “por dentro”: outros personagens enriquecem ainda mais a história). Há passagens inesquecíveis, daquelas de guardar bem no nosso Esconderijo do Tempo. O que as crianças vão achar disso tudo? Está aí algo que vou adorar descobrir: se entregarão ao nonsense de cores e formas ou serão capazes de se aprofundar nas questões nada simples abordadas? Ou os dois? Isso realmente importa agora? Que todas tenham a chance de tentar.

Dirigido por Pete Docter, de Monstros S.A. e UP, Divertida Mente é daqueles filmes que nos enganam: você se envolve com os personagens e com a aventura e, quando menos percebe, mergulhou em uma espécie de terapia. O final é um baque. Um baque daqueles que a gente precisa sentir para entender enquanto há tempo de cuidar de uma infância que, ao contrário do que a gente pensa, precisa viver todas as emoções, o tempo todo. A Alegria que me desculpe.

O trailer:

EDITORA POETISA: TRADUZIR É CRIAR

Há muito se discute sobre traduções no Brasil. Desde a virada do século 19 para o 20, quando o “português abrasileirado” começou a ser uma alternativa às traduções portuguesas trazidas pela corte real. Para o público infantojuvenil, foi Monteiro Lobato quem começou a se mexer para dar às crianças brasileiras, preocupado com a pobreza dos livros feitos para elas. Em carta ao amigo Godofredo Rangel, disse: “Ando com várias ideias. Uma: vestir à nacional as velhas fábulas de Esopo e La Fontaine, tudo em prosa e mexendo nas moralidades. Coisa para crianças… Um fabulário nosso, com bichos daqui em vez dos exóticos, se for feito com arte e talento dará coisa preciosa. (…).”

Junto a tantas ideias até aqui vêm também as polêmicas. Afinal, traduzir, principalmente literatura, é uma forma de recriar. Estamos contando uma história. É uma leitura dela. Com esses pensamentos vibrando, as editoras Cynthia Beatrice Costa e Juliana Lopes Bernardino juntaram seus conhecimentos na área e fundaram a Editora Poetisa com o objetivo “de levar ao leitor belas obras estrangeiras traduzidas para o português brasileiro com o cuidado e a dedicação de que a nossa língua é merecedora”, afirmam na orelha de Bela e a Fera, o primeiro lançamento, com a superconhecida história da filha do comerciante que é obrigada a morar com a Fera que, muito assustadora a princípio termina por conquistas a jovem.

Certamente o cuidado das duas será sentido ao longo das publicações, a cada tradução. Além do clássico da francesa Jeanne-Marie Leprince de Beaumont, do século 18, a Poetisa também já colocou nas livrarias um inédito no Brasil: O Coelho de Veludo, o clássico mais sucesso entre as crianças norte-americanas, lançado por lá em 1922, com o nome de The Velveteen Rabbit or How Toys Become Real. Trata-se da história de um coelho que luta pela atenção da criança para um dia se tornar “de verdade”. É mais um dos contos e coletâneas de contos adultos e infantis que a editora pretende preencher o catálogo. Para 2016, planeja-se trazer os romances. A estratégia é que as traduções são sempre feitas por estudantes da teoria da tradução e/ou tradutores profissionais. Para valorizar isso também como um produto de pesquisa – além do leitor pretendido diretamente – todos os livros terão paratextos com  apresentação do tradutor e ilustrador, uma opinião externa (no caso de Bela e a Fera, da escritora Marina Colasanti), notas de rodapé, glossário etc. “Queremos que o livro seja bonito e informativo, de modo que sirva de apoio, minimamente, para alguém que esteja estudando a obra”, diz Juliana. “Contamos com a colaboração de diversos profissionais da área editorial e professores-doutores de conceituadas universidades brasileiras para levar aos leitores belas traduções literárias. Não traduções ‘definitivas’, pois não acreditamos nelas. Mas, sim, traduções refletidas, leais ao texto de partida e também à nossa língua”, completa Cynthia. Cinderela de Perrault e Oscar Wilde estão a caminho.

Só para estes dois livros, a Poetisa já juntou uma turma grande. Conversei com eles por email sobre a empreitada e o trabalho feito e é o que vocês conferem a seguir:

 

4 PERGUNTAS PARA AS CRIADORAS DA POETISA, JULIANA LOPES BERNARDINO E CYNTHIA BEATRICE COSTA

Falem um pouco sobre a Poetisa ainda como projeto, como se conheceram e tiveram a ideia de criá-la e por que. 

Nós (Juliana e Cynthia) nos conhecemos na faculdade de jornalismo, há quase 17 anos, e, desde então, nossos caminhos profissionais se cruzaram diversas vezes. Na Univerdade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde a Cynthia faz doutorado em Estudos da Tradução, com frequência são traduzidos livros inteiros que acabam sem destino, pois nem sempre há a iniciativa de publicá-los. Foi nesse contexto que surgiu a ideia de abrir uma editora nossa, para traduzir e publicar livros que consideremos interessantes e/ou importantes. Assim, poderíamos também exercitar a nossa experiência no mercado — além do nosso amor pelos livros — em um projeto nosso. Em agosto de 2014, nasceu a Poetisa.

Quais são os diferenciais da Poetisa? 

O nosso diferencial, acreditamos, é a forma com que lidamos com a tradução e a literatura. Não que outras editoras não reflitam sobre isso, mas sentimos que há espaço para uma valorização ainda maior da criação/recriação literária. Há uma fundamentação teórica por trás de cada escolha, ainda que não seja conscientemente perceptível pelo leitor. Acreditamos na tradução como recriação (baseando-nos em Jakobson, Walter Benjamin, Haroldo de Campos, entre outros) e na influência cultural que cerca o ato de traduzir e de publicar em outra língua e outra sociedade (aqui, a referência é o cultural turn dos Estudos da Tradução). Na relação com os colaboradores, isso também fica mais palpável. Acreditamos na liberdade de expressão deles e somos abertas às propostas.

As obras de literatura infantojuvenil têm uma particularidade: são lidas por crianças e por adultos (a tal dupla audiência)e, há os paratextos explicativos na obra. Vocês se questionam sobre isso? Pensam que o leitor mais novo não se aproprie dos paratextos?

Não pensamos, necessariamente, que a criança se interessará pelo paratexto, e é bem possível que a maioria “pule” aquelas páginas. Mas consideramos essencial que ele esteja lá, para caso o leitor se interesse ou, por motivos acadêmicos, até precise das informações contidas neles. Consideramos fundamental apresentar a obra e contextualizá-la minimamente.

O que temos mais por aí? Vocês podem adiantar? 

Podemos! Ao menos parcialmente, hehe Publicaremos ainda neste ano uma versão integral do conto “Cendrillon” do Perrault, retraduzindo inclusive o famoso nome da personagem borralheira. Um romance inédito no Brasil de Mary Shelley, autora de “Frankenstein”, também está em produção. Além disso, clássicos do terror têm nos chamado atenção.

 

Bela e a Fera

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Já começa pelo nome: a tradutora optou por trocar “A Bela” por Bela. No tom da narrativa, a oralidade de uma contadora de histórias. O estilo se manteve simples, quase infantil, do texto francês. Estas são algumas das decisões de Marie-Hélène C. Torres, tradutora e professora de Literatura Francesa da UFSC, para sua versão da obra de Jeanne-Marie.

Qual o maior desafio de traduzir um clássico? 

Bela e a Fera, por ser um clássico, foi traduzido para muitas línguas/culturas (inglês, espanhol, italiano, alemão etc). No Brasil, só existem adaptações, ou seja, Bela e a Fera nunca havia sido publicado em tradução integral antes. Adaptação não é tradução! Mas claro que uma adaptação pode ter traços estilísticos do texto original de partida. Temos dois autores: o autor da obra de partida Mme Leprince de Beaumont e a tradutora, eu. Considero o tradutor como um autor ou um coautor, pois é ele que escreveu o texto traduzido a partir do texto a traduzir. Já o adaptador cria outro texto, outro estilo, outro ritmo.

E sobre o dilema entre idiomas?

Para responder a esta pergunta, falarei de literalidade. Traduzir literalmente não significa fazer uma má tradução, pelo contrário. Traduzir literalmente pode significar revelar o outro, o estrangeiro, ou seja, mostrar que o texto é um texto traduzido com palavras estrangeiras, expressões incomuns, estrutura diferente. É o caso, por exemplo, das expressões idiomáticas, dos provérbios. Para a tradução de provérbios, o tradutor tem duas possibilidades: ou procura um provérbio ˝equivalente˝ na língua e cultura para a qual ele traduz ou procura traduzir o provérbio literalmente. Não significa que o tradutor desconhece o provérbio existente na língua para a qual traduz. Dependendo do caso, o efeito produzido será totalmente distinto. Traduzir por um equivalente tem como efeito principal tornar invisíveis as características do texto original. Isto seria como traduzir, por exemplo, Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa, sem criação de linguagem (sem neologismos ou aglutinações), sem os nobres procedimentos estilísticos, todo em sonoridades, aliterações ou ainda sem a oralidade da língua ou sem o uso da língua popular no solilóquio. O efeito da tradução seria oposto se o tradutor revelasse, ao contrário, as idiossincrasias do texto estrangeiro na tradução, mostrando a criação de linguagem com neologismos ou aglutinações etc.

Para ilustrar, o convidado foi Laurent Cardon, ilustrador e animador francês que mora no Brasil. Para ele, interpretar este clássico em desenhos foi um importante desafio.

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Laurent, você já havia ilustrado um grande clássico como este?

Antes de Bela e a Fera, tive a oportunidade de ilustrar outros clássicos sim, como acoleção de três livros de Júlio Verne para a editora FTD (A volta ao mundo em 80 dias, Viagem ao centro da terra e 20.000 léguas submarinas); Merlim o mestre da magia pela Companhia das Letras; O livro da selva, uma adaptação da história original do Kipling, pela editora Scipione;  A galinha preta, considerado um dos maiores (senão o o maior)  conto fantástico russo, escrito no inicio do século XIX, pela editora SM; e  uma livre adaptação, muito mais estilizada, de Os três mosqueteiros, para a  editora DCL. Também ilustrei vários livros na coletânea “O prazer da prosa”, de contos brasileiros clássicos, pela editora Scipione.

A escolha das ilustrações em preto e branco veio a partir do projeto gráfico ou vice-versa?

Geralmente o projeto gráfico de um livro vai evoluindo paralelamente à criação das ilustrações. A Poetisa conseguiu criar um projeto muito lindo, que combinou perfeitamente com as ilustrações, criativa e original, mas respeitando a elegância de um livro clássico. Isso me deixou muito feliz.

Você conta que imaginou Gustave Doré ilustrando esta história. Fale sobre sua inspiração em Gustave Doré.

Sou fascinado pelo trabalho de Gustave Doré há muito tempo, bem antes de descobrir essa história. Ele é considerado o percussor da ilustração moderna. No centenário da sua morte, em 1983, ele foi homenageado em Paris com uma grande exposição, a qual tive a oportunidade de visitar. Ele era conhecido muito mais por suas gravuras em preto e branco (a sua grande frustração, aliás), mas era um pintor e escultor exemplar. Fiquei muito admirado e, desde então, quando  resolvo abordar  ilustrações mais “realistas”, sempre me vem na cabeça essa referência, sem nenhuma pretensão. Ela reflete livremente nos meus desenhos , particularmente nos meus trabalhos em preto e branco ou monocromáticos. Não só usando bico de pena e texturas de gravura, mas nas representações também. O que me fascina é a maneira com que ele manipula e dirige  o nosso olhar com o movimento do traço e as linhas de luz e sombras na composição.

Quando fui convidado para ilustrar Bela e a Fera, minha primeira preocupação era ter de me prender demais às imagens já muito referenciadas do conto. Como animador de formação, precisava fugir desse amálgama de cores vibrantes e do tom alegre do filme da Disney, que, infelizmente, fez sombra à essência dessa primeira versão do inicio do século XVIII. E como sou francês, precisava abstrair as imagens fortes da belíssima adaptação cinematográfica de Jean Cocteau, que me habitam desde a adolescência. Uma coisa certa é que não queria e nem saberia como transpor as imagens que me vinham à cabeça para um mundo infantil. Para mim, atribuir ao conto seu sentido e sua profundeza, só poderia ser feito em preto e branco. O preto e branco tem esse poder de evocar o mistério intuitivamente no inconsciente coletivo.

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O Coelho Veludo: Quando uma Coisa de Mentira Vira Algo de Verdade

O tradutor Davi Gonçalves foi quem deu voz brasileira a O Coelho Veludo, clássico norte-americano escrito por uma inglesa, Margery Williams Bianco.

Qual o maior desafio de traduzir um clássico?

Nós tradutores sempre nos cobramos muito quando sabemos que o nosso objeto de trabalho foi extremamente bem recebido em seu contexto de partida, a meu ver porque nos vemos na responsabilidade de fazer jus ao seu sucesso. No caso do livro “The Velveteen Rabbit” eu sabia que se tratava de um dos livros mais lidos pelo público infanto-juvenil no mundo Anglófono já há algum tempo, porque durante a minha graduação em Letras Inglês, a professora Helliane Corrêa (na disciplina de Literatura Infanto-Juvenil em Língua Inglesa) nos havia pedido para ler tal obra, além de outros clássicos como “Alice no País das Maravilhas” ou “Ilha do Tesouro”, que nós brasileiros já conhecemos muito bem. O fato de “The Velveteen Rabbit” nunca ter sido traduzido até então no Brasil surpreende e aumenta o grau de motivação, mas também o faz com o grau de responsabilidade, tendo em vista que a versão que agora lançamos já era provavelmente esperada por muita gente e, além disso, servirá também de consulta primordial para tradutores brasileiros que pretenderem adaptar ou retraduzir a obra futuramente. O clássico é sempre alvo de muita expectativa, por ser muito cobrado e muito conhecido – e tudo isso é empolgante e assustador ao mesmo tempo, mas é um desafio que vale muito a pena, um daqueles desafios que nós tradutores adoramos enfrentar. Ou seja, a minha maior alegria como tradutor é também a minha maior angústia: saber que meu texto, para bem ou para o mal (espero que para o bem), será muito lido.

A escolha dos termos passa por impressões pessoais e da experiência profissional ou, no caso do infantojuvenil, também há algum tipo de consulta a potenciais leitores?

Em todos os casos acho que o que acaba acontecendo é um pouco dos três. É impossível que um tradutor seja puramente profissional, que ele se distancie completamente da obra e aplique em suas escolhas apenas seu conhecimento teórico e prático na área; isso porque a própria leitura da obra original já é uma reconstrução: o leitor também escreve o livro que lê. Logo, ao traduzir já partimos da premissa de que o que temos é um tradutor que toca o barco na direção em que ele acredita que ele deveria ser tocado, um tradutor que não transfere e sim reescreve aquilo que leu. O que tento dizer aqui é que muitas das escolhas tradutórias são tomadas para que tentemos despertar no nosso leitor (no contexto de chegada) algo similar ao que foi despertado na nossa leitura, ainda que a nossa leitura seja idiossincrática – ainda que seja impossível duas pessoas entenderem o mesmo livro da mesma maneira, em qualquer contexto. A preocupação com o leitor, que é algo moderno, hoje é praticamente inerente à qualquer projeto de tradução. Se antigamente o texto era visto como algo sagrado e intocável (assim como o seu autor), atualmente a academia, a crítica e o mercado estão plenamente cientes de que o leitor é peça fundamental nesse processo, e que ele não é apenas o receptor passivo da obra traduzida, mas sim alguém que também constrói sentido acerca e a partir dela. Durante o processo de tradução de “The Velveteen Rabbit” eu fiz diversas consultas a minha filha de sete anos, a amigos, colegas e aos filhos de colegas. Além de confiar nas nossas impressões pessoais e no nosso conhecimento e experiência profissional, nós – tradutores – precisamos também da opinião do outro, precisamos tirar dúvidas e pedir conselhos para as mais distintas fontes –  eu posso afirmar que bebi em várias, sem limitar o leque – ou seja, conversei ora com crianças ora com pós-doutores acerca das mais distintas questões relacionadas ao livro.

Neste livro, houve algum grande dilema entre idiomas?

Entre as várias escolhas mais complicadas que tive de fazer está uma que discuto na nota do tradutor, no início do livro, mas sem me estender muito. Trata-se de um momento no começo da estória, quando os presentes de natal da Criança são colocados dentro de meias. Eu fiquei com bastante dúvida com relação a isso: onde estariam os presentes na minha tradução? Sabia que essa era uma tradição comum nos EUA no período em que o livro foi escrito, mas que me lembre, pelo menos na minha experiência e de meus amigos de infância, não era o nosso caso – nossos presentes de natal eram colocados embaixo das árvores e abríamos na manhã seguinte. Logo, para tomar uma decisão, recorri à pesquisa e também aos amigos aqui na Universidade Federal de Santa Catarina. Entretanto, essa minha busca me deixou mais confuso ao invés de me trazer soluções fáceis e concretas, pois tenho amigos de diversas partes do Brasil (Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Espírito Santo, Bahia, Ceará, Pará, entre muitos outros estados). Ao perguntar a eles onde ficavam seus presentes de natal eu descobri que a minha tarefa não seria assim tão simples, pois para cada região, lugar ou família, a tradição muda (presentes na sala, no quarto, embaixo da árvore, embaixo da cama, em cima da cama, dentro de meias, dentro de sapatos etc.); e mesmo em um estado específico, a tradição parece ser diferente nos interiores. Como um ato quase de desespero, eu resolvi utilizar em minha tradução a árvore de natal e os brinquedos embaixo dela, pois, pelo que percebi, essa seria a tendência geral (já que muitas tradições distintas estão, pouco a pouco, se voltando para essa) – uma tentativa de aproximar aquela situação inicial da obra à realidade da maioria dos seus potenciais leitores, apesar de reconhecer que não há nada de “universal” nessa escolha – aliás, não há nada de universal em nada relacionado à tradução.

 

A ilustração do livro ficou a cargo da designer e ilustradora Marcela Fehrenbach, que conta aqui como criou a atmosfera desta brinquedo-animal para os brasileiros.

 

Você tem uma predileção por coelhos… você os desenhava quando criança? 

Eu desenhava de tudo quando era criança, embora nunca achasse nada bom o suficiente. Porém, só a ação de colocar uma ideia, algo que só estava na minha cabeça, no papel, muitas vezes já me bastava e eu ficava bem feliz com isso. Já desenhei diversos coelhos nessa vida, mas a maioria para campanhas publicitárias.

Quando leu o texto pela primeira vez?

Sim, eu li o texto pela primeira vez para esse trabalho. Quando a Cynthia me falou do livro fiquei muito empolgada e lembrei de duas coisas: do meu primeiro Coelho, o KinKin, e do Peter Rabbit. Pra mim, poder desenhar esse Coelho, foi tornar ele real em cada pincelada, pois muitas vezes, é na ilustração que a criança se apóia para dar asas a sua imaginação.

Como foi a escolha da técnica… algo lhe surpreendeu no meio do caminho? Alguma curiosidade para contar? 

 Marcela: A escolha da técnica partiu da Cynthia. Ela disse que tinha pensado em aquarela e eu achei perfeito. Fechava totalmente com a ideia de um clássico infantil com uma história tão delicada quanto essa. Inicialmente, eu tinha pensado em fazer a criança o mais realista possível. Quando as ilustrações ficaram prontas, eu fiquei um pouco em dúvida. Mas o resultado final, impresso no livro, ficou muito melhor, mais querido e acessível para o público alvo.

Qual a importância de dar forma a um clássico inédito no Brasil? O que lhe passou pela cabeça diante deste desafio, pensando no significado deste livro na Europa e nos Estados Unidos? 

Eu só queria fazer o melhor trabalho possível, que a ilustração apoiasse essa história linda e que criasse uma conexão com os leitores, tanto com os pais que leem para os filhos, quanto com as crianças. Espero que se torne um clássico aqui no Brasil também!

A Garagem, o Bebê-Tubarão e o crescimento

Ah, o crescimento das crianças… tem o físico, o emocional, o intelectual… mas somente os termos que rondam a constatação “meu filho está crescendo” já provoca arrepios nos pais. Não estou julgando, estou confessando.

Existe uma beleza dos livros infantis que é a sutileza. Adoro ir degustando um livro dedicado a ir para as mãos, olhos e ouvidos de uma criança e ver que nem tudo está ali, que tem algo escondido, ou algo para ser sentido num cantinho da alma. Não estou dizendo que os livros devem ser assim para serem bons, mas que estes pequenos presentes também são uma forma de homenagear a infância.

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Aconteceu com A Garagem (Ed. Dedo de Prosa), escrito por Bea Pecci e ilustrado por Silvana Rando. E também com Bebê-Tubarão (ed. Manati), da dupla Bia Hetzel e Mariana Massarani. O primeiro conta a história de uma menina que tinha duas irmãs, uma garagem para brincar e uma mãe incansável em promover uma infância cheia de tintas, colas, papéis. Um dia, esta menina foi à escola e não entendeu nem um pouco por que tinha de estar, agora, em companhia de crianças desconhecidas.

Ela não queria deixar as lembranças da garagem. Por dias se recusou a entrar na sala, até que algo novo a surpreendeu e finalmente a escola passou a fazer algum sentido.

A Garagem é uma história curta mas cheia de profundidades. Além da ideia e textos, o projeto gráfico e a disposição das sempre incríveis ilustras da Silvana dão um peso especial para a perspectiva da criança. É livro para ser lido com as pequenas mãozinhas, inteiro, com mediador preparado para vários “bis”.

BEBETUBARAOCAPA

Bebê-Tubarão também me fez ver minha filha crescer em um virar de páginas. Embora eu já tenha passado da fase exata do contexto do livro, ele simboliza também para os pais esta vida passando diante de nossos olhos. Uma mistura de saudade e aceitação.

A brincadeira desde o título é com os dentes que, sim, são um símbolo forte no crescimento das crianças. Podemos dizer que o tema principal é o desmame, mas, no fundo, ele é apenas um pretexto, pois todas as crianças entre quase 2 e 4 anos estão interessadas nesta mágica da vida em que tudo muda, este jogo de perdas e conquistas. No livro, tudo começa com o menino Joca ainda mamando no peito da mamãe (e aparece peito, sim, viu, pessoal! Pois é linda a amamentação!). Depois, vem a mamadeira, um lugar que abriga mais que o leite, pois a vida é mais que leite… Em seguida, são os dentões do Joca que aparecem. “Joca está parecendo um tubarão”, nos dizem as autoras. E tubarão… ops… não mama. Mas, afinal, para que servem os dentes? E aí seguem outras cenas e situações que mostram as substituições ao longo da infância.

Como é que a gente aprende a perder e a ganhar ao mesmo tempo? Como lidamos com estas constantes “já estou grande” e “ainda sou pequeno”? E isso tudo está disposto em frases curtas, um projeto gráfico acolhedor (com formato arredondado nas pontas, etc) e uma série de ilustrações que revelam o que o texto não diz, cheias de detalhes e surpresas, representações engraçadas e tudo o mais que o traço de Mariana Massarani pode nos oferecer. Sempre digo que livros ilustrados pela Massarani deveriam estar na lista dos itens básicos de sobrevivência dos pequenos leitores: toda a infância tem que passar pelas crianças, adultos, bichos e cenários desenhados por ela e Bebê-Tubarão pode ser um jeito ótimo de começar.

 

A Garagem (Ed. Dedo de Prosa)

Textos de Bea Pecci e ilustrações de Silvana Rando

2015

 

Bebê-Tubarão (Ed. Manati)

De Bia Hetzel e Mariana Massarani

2015

Duas casas, duas maneiras de falar com as crianças sobre separação

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Ah, ah, se a gente pudesse evitar falar sobre assuntos difíceis com as crianças. Por mais bem-resolvidos que sejamos, está aí um sentimento legítimo que pinta no coração de qualquer adulto que deseje a felicidade de um pequeno. Os temas difíceis de conversar são desafios que, em um primeiro momento, nos parecem instransponíveis. Doença, morte, separação dos pais… Mas há muita ajuda da boa nos livros.

Há alguns anos fui surpreendida com o livro Dois De Cada (ed. Ática), da inglesa Babette Cole. Lançado aqui em 1998, conta o dilema de dois irmãos que não aguentam mais ver seus pais brigarem. Eles nunca concordavam em nada, e Babette vai nos revelando detalhe em texto e desenhos, com seu típico traço de humor e seu medido desprezo pelo politicamente correto. Superconhecida pelo clássico Mamãe Botou um Ovo (onde ela arrisca falar sobre a origem dos bebês!), em Dois de Cada ela mostra a iniciativa das duas crianças em pedir ajuda e chegarem a uma conclusão inusitada: “des-casar” os pais. Com padre, festa e tudo o mais. As últimas cenas remetem ao nome do livro: os filhos ganham duas casas interligadas por um túnel secreto. Solução com uma dose de nonsense e fantasia, nos causando (sim, em nós, os adultos) reflexões sobre o quanto teimamos em não descomplicar nossas questões.

Pois este mês eu me deparei com um presente. Chama-se Lá e Aqui (Ed. Pequena Zahar), veio em formato de livro, com os traços sempre delicados, emocionantes e únicos do mestre Odilon Moraes, em parceria de texto com Carolina Moreyra, que, com ele, já lançou o belíssimo O Guarda-Chuva do Vovô (DCL).

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Narra a história de um menino, um pai, uma mãe e uma casa. Havia junto cachorros, peixes, sapos, flores: tudo que um menino precisava.

Um dia, uma chuva forte, mas bem forte mesmo, abalou as estruturas desta casa.

 

As flores murcharam, o jardim morreu…

… e a casa ficou vazia.

Os peixinhos foram morar nos olhos úmidos da minha mãe.

Os sapos levaram os ensopados pés de papai para longe.

 

Como uma criança pode elaborar a separação dos pais? Por uma atitude brincante como a proposta de Babette Cole? Ou pela poesia, pelo simbólico, pela emoção em metáforas como a imaginada por Odilon e Carolina?

 

A casa de Lá e Aqui se transformou em duas também. Uma Lá com a mãe. Outra Aqui, com o pai. Um dia, o menino está Lá. Outro dia, está Aqui. O acolhimento ele busca sempre e é desafio para quem cuida dos dois lugares. De que maneira fazer isso bem cabe aos personagens (dos livros ou de nossas vidas). Mas a possibilidade de transver o mundo (lembrando Manoel de Barros, claro) com os olhos do humor ou os olhos da emoção é talento de todo artista e tarefa de todo educador. Para as famílias que enfrentam estas mudanças, para quem está por perto, para provocar compaixão. Afinal, é tudo poesia para gente se relacionar melhor, enxergar o outro, nos tornarmos mais humanos. Um brinde às possibilidades. De livros, de casas, de viver.

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Lá e Aqui (Ed. Pequena Zahar)

De Carolina Moreyra e Odilon Moraes

2015

SUBA E EMBARQUE NESTA HISTÓRIA!

 

 

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Quais as expectativas para a primeira vez em uma viagem de ônibus sozinha? Como fica a criança? Como fica a mãe? E quem estaria dentro?…

Ursos enormes?

Coelhos fofinhos?

Uma família de lobos?

Alguma outra criança?

Pode acontecer algo assustador? E pode acontecer algo divertido?

Pode ser tudo isso e mais um pouco na imaginação de uma menina. Ou na realidade de um livro.

Estas são algumas das perguntas e respostas que nos causam a leitura de Ônibus, da canadense Marianne Dubuc, que a editora Jujuba acaba de trazer para o Brasil, com tradução de Maria Viana.

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Só uma observação: adoro o trabalho dela e tenho como meus livros de cabeceira tanto o divertido Em Frente à Minha Casa (Ed. WMF Martins Fontes) – que, em uma espécie de ciranda, nos apresenta uma série de cenas puxadas por figuras ou palavras…

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.. como o belíssimo O Leão e O Pássaro (Ed. Positivo),  com a história de amizade nascida após um leão solitário encontrar um pássaro ferido.

onibus1Ônibus, no entanto, trata-se de uma viagem que, logo se percebe, está longe de ser uma experiência comum. Falando em experiência, a leitura do livro já se dá de maneira que lemos a situação representada nas duas páginas de uma única vez. O que vemos, são cenas de um ônibus, como se estivéssemos do lado de cá do transporte, ou mesmo do lado de fora (aí vai da imaginação do leitor). Esta perspectiva divertida provoca a sensação de estar assistindo a um filme. Um filme em que uma menina com uma peça vermelha e carregando uma cestas de doces vai ao encontro da avó. O que? Já ouviram esta história antes? Sim, a referência a Chapeuzinho Vermelho é tão clara quanto inusitado é o decorrer da narrativa.

Tudo começa com a mãe acompanhando a filha na espera pelo ônibus. Quando ela sobe, a recomendação da mãe: “Seja boazinha”. A protagonista narradora nos revela, então, ser a primeira viagem sozinha e nos conta sobre uma cesta e uma blusa vermelha, preparadas pela mãe. De olho nos paradas, o leitor-espectador vê um grupo de passageiros do tipo que a gente não espera, mas adora: duas amigas coelhas, um urso, uma família de lobos, um bicho-preguiça… Cada um à sua maneira aproveita a viagem enquanto a menina faz amizades e observa a vida.

O desenho de Marianne, já característico por pequeninos rabiscos cheios de delicadezas, estão ainda incorpados nos detalhes e nas cores tornando irresistível a vontade de voltar a página e ver tudo de novo. Há sempre o que procurar: um determinado elemento nos dá pistas da jornada. Se ela chega bem na casa da vovó? Mas isso é realmente importante?

 

Ônibus (Editora Jujuba)

textos e ilustrações Marianne Dubuc

tradução Maria Viana

2015

FEIRA DE BOLOGNA 2015: O espanto como jeito de ler o mundo

 

BOLOGNA2015FOTO

Aqui no Brasil, quem trabalha com literatura infantil sonha em ir todos os anos para a Feira do Livro Infantil em Bologna, na Itália. Estive lá ano passado, e é realmente maravilhoso. Para falar sobre a versão da feira deste ano, convidei o escritor Roberto Parmeggiani, que nasceu e mora em Bologna e que tem uma carreira lá e aqui no Brasil, com dois livros lançados aqui pela editora DSOP, Lição das Árvores e o Avó Adormecida (que ele lançou na feira pela Kalandraka!), ambos pela editora DSOP, e que já prepara mais um, pela recém-lançada editora NÓS. Vejam este apaixonado e lúcido depoimento sobre a mais importante feira de livros infantis do mundo

 

Se tivesse que escolher uma palavra para descrever o que foi, este ano, a Feira do Livro Infantil de Bolonha, que aconteceu na cidade italiana de 30 de março a 2 de abril, sem dúvida escolheria a palavra espanto.

E claro, dentro desta palavra se mistura a minha experiência como autor, como leitor e como morador da cidade que hospeda a feira.

O espanto representa para mim uma das mais importantes habilidades e características humanas. É a capacidade de responder ao que acontece ao seu redor, de descobrir a beleza que nos cerca, de entrelaçar relações com o mundo e, enfim, de ver a realidade com um outro olhar.

Qual momento melhor se não uma feira de livro infantis para se espantar?

O que me suscitou mais espanto foram as tantas pessoas que visitaram os pavilhões da feira e que, também segundo os dados oficiais, foram mais que o ano passado.

Claro, não se trata só de números. Mas também do desejo perceptível de descobrir, aprofundar, conhecer o que o mundo da literatura infantil ainda pode oferecer. A confirmação, como se ainda precisássemos disso, de que a literatura faz parte da vida das pessoas e é importante como a comida, o futebol ou o namorar.

Pessoas, olhares, palavras, relações, experiências e esperanças.

Editores, ilustradores, escritores e leitores, protagonistas, não só da publicação de bons livros, mas também da construção da sociedade que queremos para o nosso futuro.

BOLOGNA2015MURAL

Outra coisa que chamou a minha atenção foi o mural dedicado à exposição de diversas ilustrações que, a cada ano, permite a ilustradores, mais ou menos conhecidos, de propor o próprio trabalho. Foi muito bom parar na frente de algumas delas, deixar a mente descansar e viajar em vários lugares desconhecidos, encontrar pessoas, personagem e animais fantásticos, descobrir como o percurso da ilustração profissional está conseguindo integrar, sempre mais, a estética com uma comunicação emocional eficaz.

Espanto, porém, é também ver como, apesar de estarmos passando por uma crise econômica muito importante, a resposta que o mundo literário infantil está tentando de dar não é “menor qualidade, por menor custo”, mas “maior qualidade, para maior cultura”. Porque a resposta para esta crise está em um aumento do saber, das competências, da pesquisa, da consciência social e ecológica. Da diversidade da proposta, seja no conteúdo e na forma do texto, nas diferentes técnicas utilizadas para realizar as imagens. Ter bons livros e boas palavras, significa ter bons leitores e, consequentemente, pessoas mais conscientes.

Enfim, o espanto maior. Nesta feira, nos pavilhões, na livraria internacional mas também nesta cidade, nas suas ruas, sob os pórticos, você encontra o mundo. Pessoas de qualquer parte que se encontram ao redor dos livros, seja por interesse comercial seja pelo amor da literatura como arte e jeito de viver.

 

Roberto Parmeggiani com a versão italiana de seu A Avó Adormecida, na Feira de Bologna 2015
Roberto Parmeggiani com a versão italiana de seu A Avó Adormecida, na Feira de Bologna 2015

Gosto de pensar que isto possa ser uma antecipação de um mundo futuro possível, no qual as diversidade estão juntas, no meio de muitas cores, falando uma língua universal e com uma atenção especial para a parte melhor de nós: as crianças.

 

GRUPO TRIII e CHICO DOS BONECOS EM LIVRO-CD

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Trabalhar conhecendo cultura para a infância me dá muitas alegrias. Alegrias como ouvir estes meninos do Grupo Triii. Sim, chamo-os de “meninos”, porque já estou nos meus 40 anos e vejo os músicos Estevão Marques, Marina Piltier e Fê Stok, que hoje formam o Grupo Triii como sobrinhos. Como aqueles meninos que a gente se orgulha, sabe? Porque o que eles estão fazendo pela infância merece ser comemorado. E eles estão fazendo isso no livro Brasil for Children, Editora Peirópolis, acompanhados do mestre do mestres, o músico, escritor e um tudo mais, Francisco Marques, o Chico dos Bonecos! Um presente que está começando a ir para as livrarias e que tem lançamento marcado para dia 26 de abril no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo.

GRUPOTRIIICAPASLIVROS

O trio já lançou outros três livros-cd, pela Melhoramentos, com canções-histórias que fazem parte de seu repertório: Pão, Pão, Pão (com ilustrações de Ionit Zilberman), A Sopa Supimpa e Ei, ei, Vanderlei (ambos com ilustrações de Suppa). São muito bacanas, divertidíssimos e sucessos entre os fãs. Aliás, este encontro de fãs-crianças – que eu já tenho quase 20 anos de experiência com a Palavra Cantada – é delícia de ver. Clarice, Ricardo e eu já fomos a dois shows do Triii. Eles provocam uma catarse nas crianças. Mas daquelas catarses de movimento (existe isso?). As crianças dançam, cantam, se esticam, abraçam e beijam os adultos acompanhantes… é lindo. Eles já sabem agradecer felicidade, vejam só! É sempre uma mistura de ritmos, instrumentos e sons, em belíssimos vocais e muita, muita brincadeira. E vai tudo surgindo aos nossos olhos e ouvidos em uma harmonia emocionante de ver. Dá para sentir esta sintonia e beleza nos mais de 20 vídeos com a turma postados no Canal do Grupo Triii no Youtube. Como este aqui, com a canção AEIOU, apresentando as vogais às crianças de um jeito criativo e bem musicado:

 

ou o divertidíssimo Baratas Alienígenas:

Nenhuma destas, no entanto, está neste primeiro CD do grupo. Isto porque o Brasil For Children é um projeto maior e focado no que têm em comum os quatro artistas que, como contam, já transitavam na área da literatura, educação dança e música e descobriram que, juntos, poderiam mergulhar ainda mais nas pesquisa relacionadas ao universo da criança.

 

Por isso, o livro-CD contém canções brasileiras tradicionais, adaptadas e criadas a partir desta intensa busca por belezas muitas vezes ainda escondidas no coração, na alma e nas memórias das nossas famílias. Algumas delas, sim, as crianças já ouviram nos shows ou já conhecem por outras fontes. O CD vem anexado em um interessante projeto gráfico com as letras das músicas, um apêndice com histórias sobre cada faixa, apresentado com ilustrações de Larissa Ribeiro, que criou figuras a partir de módulos que ela explica no final do livro, e incentiva os leitores a “imitá-la”. Mas não é só isso que faz a gente sentir um nó na garganta já a partir da canção que abre a obra, Cipó de Mororó. Eles explicam que a cantiga foi recolhida por Lydia Hortélio – uma das grandes referências em pesquisas de cantigas e brincadeiras no Brasil – e, nela, cada criança é chamada pelo nome e, assim, eles se apresentam aos ouvintes. Mas o arranjo é tão bonito, tão brasileiro, que mais nos parece uma homenagem à infância, a gente imagina uma grande ciranda, daqueles infinitas, daquelas que só a cultura podem nos proporcionar.

As canções vão se seguindo em qualidade de som e apropriação de repertório perfeitamente. Feito uma roda de poesia, vão enlaçando a gente faixa a faixa, nos mostrando costumes, remetendo a passados vividos por tantos, misturando em alguns momentos referências de outros países, como o cânone Toembai, de Israel junto a Se Essa Rua Fosse Minha. E também, em um glossário final, você pode se deparar com uma “análise” sobre a relação entre as canções, crianças e sapos , trinca que deve fazer parte de qualquer de infância. Além de sinalizar que, pelas canções tradicionais estamos ligados a povos de todo o mundo e que nossa história de viagens e caminhos nos separam, mas ao mesmo tempo, nos conectam para sempre. Até por isso, o livro tem este nome e é bilíngue – português e inglês, tradução de Vera White – para que continue correndo o mundo, vencendo paredes.

E é, então, esta mistura de tradições que sentimos nesta viagem por 30 canções, o baú do tesouro, como os autores mesmo estão chamando. Ou “trinta pedrinhas de brilhante” para compartilhar.

 

Brasil For Children (Ed. Peirópolis)

de Francisco Marques, Estevão Marques, Marina Pittier, Fê Stok

ilustrações de Larissa Ribeiro

tradução para o inglês de Vera White

2015

Carmen A Grande Pequena Notável

CARMENCAPA

O encanto começa pela capa, como o impacto real de ver Carmen Miranda pela primeira vez. O formato quadrado, a capa com orelhas e a grossura do papel já nos sinalizam que tipo de projeto gráfico cuidado vem por aí. Não à toa, é de autoria da designer, escritora e ilustradora Raquel Matsushita, vencedora do Prêmio Jabuti ano passado. O que ela nos revela? Uma belíssima biografia assinada pelas escritoras Heloisa Seixas e sua filha, Julia Romeu, e pela ilustradora Graça Lima, lançado pela Edições de Janeiro. Já temos tudo para uma incrível viagem à vida de uma das brasileira mais famosas do mundo. Daí o título bem sacado Carmen A Grande Pequena Notável, uma mistura de seu valor artístico com o apelido ganhado em vida, graças à sua baixa estatura.

O texto é um primor, claro, como pode se esperar da experiência de Heloísa Seixas, que também é esposa de outro famoso, Ruy Castro, biógrafo de Carmen. Mas saliento aqui, o jeito de se referir ao jovem leitor, tarefa nem sempre fácil, mesmo quando se trata de biografias. O início tem uma beleza particular. Diz o final do primeiro trecho:

 

Até hoje, poucas pessoas são tão imitadas quanto ela. Olhe que essa história começou há mais de cem anos! Nessa época, o mundo ainda era em preto e branco…

 CARMENPRETOBRANCO

E quando viramos a página, temos uma dupla desenhada em preto e branco contando sobre a Carmen nascida em Portugal, que veio para o Brasil ainda bebê. Aí, as escritoras mostram como sabem estar escrevendo para um leitor em início de domínio de cultura geral mas que, nem por isso, necessita de algo didaticamente chato ou infantil:

 

O avião já tinha sido inventado por Santos Dumont, mas as pessoas ainda viajavam de navio. Era o maior aperto e um tremendo sacolejo, principalmente quando o mar estava zangado. Todo mundo acabava ficando meio verde, com o estômago embrulhado.

 

Nota-se já que, embora seja um livro com uma quantidade considerável de texto, é possível iniciar a leitura com crianças antes mesmo da alfabetização (e correr para o Youtube para conferir o que tem de Carmen na rede!). É com a mesma sutileza que elas contam de uma menina Carmen criada junto com cinco irmãos e em condições humildes. Ficamos sabendo de seu temperamento, do tipo de falar palavrão, jogar futebol e, com as meninas, fazer concurso de xixi à distância. Isso tudo já morando no boêmio bairro da Lapa, no Rio de Janeiro.

 

Aí vai uma das ilustras mais lindas:

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É Carmen mostrando seu jeito desinibido nos corais da escola. Aos 14, no entanto, a menina teve de deixar de estudar para ajudar nas despesas de casa e arrumou um emprego em um ateliê de costura e outro em uma fábrica de chapéus. Enquanto fazia os acessórios, cantava para as colegas. Um dia, um dos fregueses ouviu a Pequena e a chamou para um teste em uma série de shows que organizava. Deu certo. Foi ele quem a levou a programas de rádio e logo ela começa a chamar a atenção por seu jeito peculiar de cantar.

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Em cores e traços, as ilustrações de Graça Lima vão ganhando outro ritmo, conforme a fase da história. Ainda com a base em preto e branco, as cores vão entrando no livro como entram na vida de Carmen, assim como seu característico sorriso em O Que É Que a Baiana Tem, a canção de Dorival Caymmi e um dos maiores sucessos da cantora. Uma belíssima sequência que nos brinda com enquadramentos e movimentos que dão ainda mais vida ao livro.

Conduzido como em uma dança, o leitor é levado a acompanhar a ascensão de Carmen Miranda, dos Estados Unidos ao Tico-Tico Tá e Chica Chica Boom Chic. E a delicada viagem continua até o doloroso momento da morte da cantora que, no livro, é anunciada em uma simples frase, mas de forma bastante emocionante.

O livro tem um apêndice especial: em “Como Seria o Mundo Sem Carmen Miranda”, uma dupla de páginas simula notícias em jornal e mostra a influência de Carmen na cultura mundial, desde o estilo das cantoras brasileiras que a antecederam ao salto plataforma de Lady Gaga!

Um livro para se ter para sempre, assim como o legado de Carmen Miranda deve encher de orgulho cada um de nós brasileiros, desde cedo.

 

Carmen A Grande Pequena Notável (Edições de Janeiro)

textos de Heloisa Seixas e Julia Romeu

ilustrações de Graça Lima

2014

POR SABEDORIAS E PÉROLAS: AS SEMENTES DE ILAN BRENMAN

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O escritor Ilan Brenman, um dos mais publicados no Brasil e conhecidos por livros infantis que tratam do cotidiano das crianças (Até as Princesas Soltam Pum, Papai É Meu!, A Cicatriz), é, acima de tudo, um semeador. Um semeador de histórias. Ele colhe aqui, colhe ali e até mesmo acolá. Dele podem vir histórias de diversas origens, seja em livros separados, seja em coleções específicas. Digo “acima de tudo” pois hoje vou falar da grande paixão do Ilan: a mistura da tradição oral com as literaturas de todos os cantos do mundo.

Este mês foi momento de ter contato com duas obras dele que, para mim, entram no rol das fundamentais para presentear infâncias. A primeira se chama A Sabedoria do Califa, um conto da tradição oral árabe, lançado pela Editora Ática e bom estonteantes ilustrações do espanhol Iban Barrenetxea. O segundo livro é o quinto volume de uma série intitulada 14 Pérolas que já passeou pela cultura da Índia, já narrou histórias budistas, judaicas, sufis e agora chega a poderosíssima mitologia grega. As ilustrações, como em toda a coleção, é de Ionit Zilberman que dá o seu traço e unidade para os livros, sem deixar evidenciar as singularidades de cada volume. Sai pela editora Escarlate.

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Em A Sabedoria do Califa, o leitor vai se deparar com Hachid, um mendigo conhecido das ruas de Bagdá, na época em que ela era capital de um grande império. A sutileza do texto está em expor a condição miserável de Hachid e sua tragédia pessoal, sem perder a leveza e, de certa forma, o humor.

Diziam que Hachid podia viver com um pão seco durante uma semana inteira, comendo migalha por migalha. Sua capacidade para enganar a fome era algo extraordinário, tão eficiente que às vezes dava a impressão aos outros de ser um homem saciado, que se banqueteava diariamente.

Ele tinha uma técnica: cheirar os alimentos, mas cheirar profundamente, uma verdadeira experiência gastronômica (só que de estômago vazio!). E é aí que se desenrola o fio da história: um dia, o mendigo fica 20 minutos na porta de um restaurante cheirando as delícias do lugar. Mas ele enfurece o dono do lugar de tal maneira que é obrigado a pagar pela comida. A polêmica está instalada e o grande Califa Al-Mamun (um personagem que realmente existiu no século IX, chefe supremo do islamismo) é acionado para resolver a celeuma. Ele tem uma resposta que, a princípio, entristece Hachid e é um golpe para o leitor. Mas, logo em seguida, o Califa tem uma saída surpreendente. Uma história que aguça, sim, um ótimo papo sobre justiça. Mas, acima de tudo, uma história muito boa para se ouvir ou contar.

CALIFAABERTO

As ilustrações de Iban são um mundo à parte: impressionantes da caracterização física e expressiva da personalidade dos personagens à ambientação da antiga Bagdá com ricos detalhes.

O segundo, As 14 Pérolas da Mitologia Grega, nos oferece uma série de histórias a partir da conquista de Zeus e seus irmãos após as lutas extraordinárias contra os gigantes e os poderosos titãs. Hábitos e costumes, origens de termos ou situações e as incríveis relações entre os deuses e os mortais fazem parte desta compilação, com o tradicional tom de Ilan de escrever como se tivéssemos ouvindo-o.

PEROLASABERTO

Como no primeiro conto, O Criador e Protetor dos Homens:

A deusa da sabedoria olhou para Prometeu e, em seguida, agachou-se para olhar de perto o primeiro homem que ele havia moldado. Palas Atena foi tomada por uma sentimento de amor intenso, levantou a cabeça da criatura e soprou o hálito divino em direção ao rosto dela.

Prometeu ficou comovido ao ver o primeiro homem se levantar da terra. Palas Atena, então, começou a percorrer, rápida como o vento, todos os lugares onde os outros seres estavam. Ela soprava e soprava, sem parar, dia e noite, até todos os homens se erguerem.

Ou em O Maior Construtor da Grécia Antiga:

Contam que as antigas esculturas humanas tinham sempre os olhos fechados e as mãos rentes ao corpo, representações sem vivacidade. Tudo isso mudou com o nascimento de Dédalo, o ateniense. Ele se tornou o maior construtor e escultor da Grécia Antiga.

A técnica refinada e criativa de Dédalo fazia com que suas esculturas humanas fossem as primeiras a ter os olhos abertos e as mãos em posições de movimentos. Era impressionante a comoção causada pelo trabalho do genial escultor. Suas estátuas pareciam querer andar, respirar e falar.

 

“Parece existir algo especial no corpo do mito grego, pois ele ressoa de uma forma única naqueles que o ouvem, como se um grande espelho fosse colocado à nossa frente toda vez que alguém se propõe a narrar um antigo mito grego, um espelho que captura a essência da natureza humana”, diz Ilan sobre a beleza dos mitos.

PEROLASILUSTRA

A atração é realmente imediata e, aqui, se dá costurada pelas sempre delicadas ilustrações de Ionit, que misturou tintas acrílicas, caligráficas e até café em cortes criativos que ambientam cada conto como se fosse um convite irrecusável à leitura.

 

A Sabedoria do Califa (Ed. Ática)

Textos Ilan Brenman e ilustrações Iban Barrenetxea

2014

 

As 14 Pérolas da Mitologia Grega (ed. Escarlate)

Textos Ilan Brenman e ilustrações Ionit Zilberman

2014