Duas casas, duas maneiras de falar com as crianças sobre separação

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Ah, ah, se a gente pudesse evitar falar sobre assuntos difíceis com as crianças. Por mais bem-resolvidos que sejamos, está aí um sentimento legítimo que pinta no coração de qualquer adulto que deseje a felicidade de um pequeno. Os temas difíceis de conversar são desafios que, em um primeiro momento, nos parecem instransponíveis. Doença, morte, separação dos pais… Mas há muita ajuda da boa nos livros.

Há alguns anos fui surpreendida com o livro Dois De Cada (ed. Ática), da inglesa Babette Cole. Lançado aqui em 1998, conta o dilema de dois irmãos que não aguentam mais ver seus pais brigarem. Eles nunca concordavam em nada, e Babette vai nos revelando detalhe em texto e desenhos, com seu típico traço de humor e seu medido desprezo pelo politicamente correto. Superconhecida pelo clássico Mamãe Botou um Ovo (onde ela arrisca falar sobre a origem dos bebês!), em Dois de Cada ela mostra a iniciativa das duas crianças em pedir ajuda e chegarem a uma conclusão inusitada: “des-casar” os pais. Com padre, festa e tudo o mais. As últimas cenas remetem ao nome do livro: os filhos ganham duas casas interligadas por um túnel secreto. Solução com uma dose de nonsense e fantasia, nos causando (sim, em nós, os adultos) reflexões sobre o quanto teimamos em não descomplicar nossas questões.

Pois este mês eu me deparei com um presente. Chama-se Lá e Aqui (Ed. Pequena Zahar), veio em formato de livro, com os traços sempre delicados, emocionantes e únicos do mestre Odilon Moraes, em parceria de texto com Carolina Moreyra, que, com ele, já lançou o belíssimo O Guarda-Chuva do Vovô (DCL).

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Narra a história de um menino, um pai, uma mãe e uma casa. Havia junto cachorros, peixes, sapos, flores: tudo que um menino precisava.

Um dia, uma chuva forte, mas bem forte mesmo, abalou as estruturas desta casa.

 

As flores murcharam, o jardim morreu…

… e a casa ficou vazia.

Os peixinhos foram morar nos olhos úmidos da minha mãe.

Os sapos levaram os ensopados pés de papai para longe.

 

Como uma criança pode elaborar a separação dos pais? Por uma atitude brincante como a proposta de Babette Cole? Ou pela poesia, pelo simbólico, pela emoção em metáforas como a imaginada por Odilon e Carolina?

 

A casa de Lá e Aqui se transformou em duas também. Uma Lá com a mãe. Outra Aqui, com o pai. Um dia, o menino está Lá. Outro dia, está Aqui. O acolhimento ele busca sempre e é desafio para quem cuida dos dois lugares. De que maneira fazer isso bem cabe aos personagens (dos livros ou de nossas vidas). Mas a possibilidade de transver o mundo (lembrando Manoel de Barros, claro) com os olhos do humor ou os olhos da emoção é talento de todo artista e tarefa de todo educador. Para as famílias que enfrentam estas mudanças, para quem está por perto, para provocar compaixão. Afinal, é tudo poesia para gente se relacionar melhor, enxergar o outro, nos tornarmos mais humanos. Um brinde às possibilidades. De livros, de casas, de viver.

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Lá e Aqui (Ed. Pequena Zahar)

De Carolina Moreyra e Odilon Moraes

2015

1 COMENTÁRIO

  1. Adorei seus comentários sobre os livros que abordam a separação dos pais. Já conhecia o livro “Lá é Aqui” muito lindo! Mas, apesar de gostar muito de Babette Cole, nunca li esse “Dois de Cada”, vou procurar! Você escreve sempre com muita paixão e leveza, parabéns! Hoje passei seu blogue para um grupo de Psicopedagogos, formados em psicologia e pedagogia. Tenho certeza que suas dicas serão muito preciosas e os farão mergulhar ainda mais nesse universo mágico do livro ilustrado infantil e da poesia. Bjos!

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