Carmen A Grande Pequena Notável

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CARMENCAPA

O encanto começa pela capa, como o impacto real de ver Carmen Miranda pela primeira vez. O formato quadrado, a capa com orelhas e a grossura do papel já nos sinalizam que tipo de projeto gráfico cuidado vem por aí. Não à toa, é de autoria da designer, escritora e ilustradora Raquel Matsushita, vencedora do Prêmio Jabuti ano passado. O que ela nos revela? Uma belíssima biografia assinada pelas escritoras Heloisa Seixas e sua filha, Julia Romeu, e pela ilustradora Graça Lima, lançado pela Edições de Janeiro. Já temos tudo para uma incrível viagem à vida de uma das brasileira mais famosas do mundo. Daí o título bem sacado Carmen A Grande Pequena Notável, uma mistura de seu valor artístico com o apelido ganhado em vida, graças à sua baixa estatura.

O texto é um primor, claro, como pode se esperar da experiência de Heloísa Seixas, que também é esposa de outro famoso, Ruy Castro, biógrafo de Carmen. Mas saliento aqui, o jeito de se referir ao jovem leitor, tarefa nem sempre fácil, mesmo quando se trata de biografias. O início tem uma beleza particular. Diz o final do primeiro trecho:

 

Até hoje, poucas pessoas são tão imitadas quanto ela. Olhe que essa história começou há mais de cem anos! Nessa época, o mundo ainda era em preto e branco…

 CARMENPRETOBRANCO

E quando viramos a página, temos uma dupla desenhada em preto e branco contando sobre a Carmen nascida em Portugal, que veio para o Brasil ainda bebê. Aí, as escritoras mostram como sabem estar escrevendo para um leitor em início de domínio de cultura geral mas que, nem por isso, necessita de algo didaticamente chato ou infantil:

 

O avião já tinha sido inventado por Santos Dumont, mas as pessoas ainda viajavam de navio. Era o maior aperto e um tremendo sacolejo, principalmente quando o mar estava zangado. Todo mundo acabava ficando meio verde, com o estômago embrulhado.

 

Nota-se já que, embora seja um livro com uma quantidade considerável de texto, é possível iniciar a leitura com crianças antes mesmo da alfabetização (e correr para o Youtube para conferir o que tem de Carmen na rede!). É com a mesma sutileza que elas contam de uma menina Carmen criada junto com cinco irmãos e em condições humildes. Ficamos sabendo de seu temperamento, do tipo de falar palavrão, jogar futebol e, com as meninas, fazer concurso de xixi à distância. Isso tudo já morando no boêmio bairro da Lapa, no Rio de Janeiro.

 

Aí vai uma das ilustras mais lindas:

carmen_prova_final_baixa.pdf

É Carmen mostrando seu jeito desinibido nos corais da escola. Aos 14, no entanto, a menina teve de deixar de estudar para ajudar nas despesas de casa e arrumou um emprego em um ateliê de costura e outro em uma fábrica de chapéus. Enquanto fazia os acessórios, cantava para as colegas. Um dia, um dos fregueses ouviu a Pequena e a chamou para um teste em uma série de shows que organizava. Deu certo. Foi ele quem a levou a programas de rádio e logo ela começa a chamar a atenção por seu jeito peculiar de cantar.

carmen_prova_final_baixa.pdf

Em cores e traços, as ilustrações de Graça Lima vão ganhando outro ritmo, conforme a fase da história. Ainda com a base em preto e branco, as cores vão entrando no livro como entram na vida de Carmen, assim como seu característico sorriso em O Que É Que a Baiana Tem, a canção de Dorival Caymmi e um dos maiores sucessos da cantora. Uma belíssima sequência que nos brinda com enquadramentos e movimentos que dão ainda mais vida ao livro.

Conduzido como em uma dança, o leitor é levado a acompanhar a ascensão de Carmen Miranda, dos Estados Unidos ao Tico-Tico Tá e Chica Chica Boom Chic. E a delicada viagem continua até o doloroso momento da morte da cantora que, no livro, é anunciada em uma simples frase, mas de forma bastante emocionante.

O livro tem um apêndice especial: em “Como Seria o Mundo Sem Carmen Miranda”, uma dupla de páginas simula notícias em jornal e mostra a influência de Carmen na cultura mundial, desde o estilo das cantoras brasileiras que a antecederam ao salto plataforma de Lady Gaga!

Um livro para se ter para sempre, assim como o legado de Carmen Miranda deve encher de orgulho cada um de nós brasileiros, desde cedo.

 

Carmen A Grande Pequena Notável (Edições de Janeiro)

textos de Heloisa Seixas e Julia Romeu

ilustrações de Graça Lima

2014

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