POR SABEDORIAS E PÉROLAS: AS SEMENTES DE ILAN BRENMAN

2021

CALIFAEPEROLASCAPA

O escritor Ilan Brenman, um dos mais publicados no Brasil e conhecidos por livros infantis que tratam do cotidiano das crianças (Até as Princesas Soltam Pum, Papai É Meu!, A Cicatriz), é, acima de tudo, um semeador. Um semeador de histórias. Ele colhe aqui, colhe ali e até mesmo acolá. Dele podem vir histórias de diversas origens, seja em livros separados, seja em coleções específicas. Digo “acima de tudo” pois hoje vou falar da grande paixão do Ilan: a mistura da tradição oral com as literaturas de todos os cantos do mundo.

Este mês foi momento de ter contato com duas obras dele que, para mim, entram no rol das fundamentais para presentear infâncias. A primeira se chama A Sabedoria do Califa, um conto da tradição oral árabe, lançado pela Editora Ática e bom estonteantes ilustrações do espanhol Iban Barrenetxea. O segundo livro é o quinto volume de uma série intitulada 14 Pérolas que já passeou pela cultura da Índia, já narrou histórias budistas, judaicas, sufis e agora chega a poderosíssima mitologia grega. As ilustrações, como em toda a coleção, é de Ionit Zilberman que dá o seu traço e unidade para os livros, sem deixar evidenciar as singularidades de cada volume. Sai pela editora Escarlate.

CALIFAHACHID

Em A Sabedoria do Califa, o leitor vai se deparar com Hachid, um mendigo conhecido das ruas de Bagdá, na época em que ela era capital de um grande império. A sutileza do texto está em expor a condição miserável de Hachid e sua tragédia pessoal, sem perder a leveza e, de certa forma, o humor.

Diziam que Hachid podia viver com um pão seco durante uma semana inteira, comendo migalha por migalha. Sua capacidade para enganar a fome era algo extraordinário, tão eficiente que às vezes dava a impressão aos outros de ser um homem saciado, que se banqueteava diariamente.

Ele tinha uma técnica: cheirar os alimentos, mas cheirar profundamente, uma verdadeira experiência gastronômica (só que de estômago vazio!). E é aí que se desenrola o fio da história: um dia, o mendigo fica 20 minutos na porta de um restaurante cheirando as delícias do lugar. Mas ele enfurece o dono do lugar de tal maneira que é obrigado a pagar pela comida. A polêmica está instalada e o grande Califa Al-Mamun (um personagem que realmente existiu no século IX, chefe supremo do islamismo) é acionado para resolver a celeuma. Ele tem uma resposta que, a princípio, entristece Hachid e é um golpe para o leitor. Mas, logo em seguida, o Califa tem uma saída surpreendente. Uma história que aguça, sim, um ótimo papo sobre justiça. Mas, acima de tudo, uma história muito boa para se ouvir ou contar.

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As ilustrações de Iban são um mundo à parte: impressionantes da caracterização física e expressiva da personalidade dos personagens à ambientação da antiga Bagdá com ricos detalhes.

O segundo, As 14 Pérolas da Mitologia Grega, nos oferece uma série de histórias a partir da conquista de Zeus e seus irmãos após as lutas extraordinárias contra os gigantes e os poderosos titãs. Hábitos e costumes, origens de termos ou situações e as incríveis relações entre os deuses e os mortais fazem parte desta compilação, com o tradicional tom de Ilan de escrever como se tivéssemos ouvindo-o.

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Como no primeiro conto, O Criador e Protetor dos Homens:

A deusa da sabedoria olhou para Prometeu e, em seguida, agachou-se para olhar de perto o primeiro homem que ele havia moldado. Palas Atena foi tomada por uma sentimento de amor intenso, levantou a cabeça da criatura e soprou o hálito divino em direção ao rosto dela.

Prometeu ficou comovido ao ver o primeiro homem se levantar da terra. Palas Atena, então, começou a percorrer, rápida como o vento, todos os lugares onde os outros seres estavam. Ela soprava e soprava, sem parar, dia e noite, até todos os homens se erguerem.

Ou em O Maior Construtor da Grécia Antiga:

Contam que as antigas esculturas humanas tinham sempre os olhos fechados e as mãos rentes ao corpo, representações sem vivacidade. Tudo isso mudou com o nascimento de Dédalo, o ateniense. Ele se tornou o maior construtor e escultor da Grécia Antiga.

A técnica refinada e criativa de Dédalo fazia com que suas esculturas humanas fossem as primeiras a ter os olhos abertos e as mãos em posições de movimentos. Era impressionante a comoção causada pelo trabalho do genial escultor. Suas estátuas pareciam querer andar, respirar e falar.

 

“Parece existir algo especial no corpo do mito grego, pois ele ressoa de uma forma única naqueles que o ouvem, como se um grande espelho fosse colocado à nossa frente toda vez que alguém se propõe a narrar um antigo mito grego, um espelho que captura a essência da natureza humana”, diz Ilan sobre a beleza dos mitos.

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A atração é realmente imediata e, aqui, se dá costurada pelas sempre delicadas ilustrações de Ionit, que misturou tintas acrílicas, caligráficas e até café em cortes criativos que ambientam cada conto como se fosse um convite irrecusável à leitura.

 

A Sabedoria do Califa (Ed. Ática)

Textos Ilan Brenman e ilustrações Iban Barrenetxea

2014

 

As 14 Pérolas da Mitologia Grega (ed. Escarlate)

Textos Ilan Brenman e ilustrações Ionit Zilberman

2014

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