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BOLOGNA 2014: Prazer em conhecer, Iela Mari

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Toda véspera de evento (ou alguns dias antes), jornalista corre atrás do site oficial para ver se está confirmada toda a programação do evento. Em meio a tanta coisa para acompanhar na minha primeira visita à Feira do Livro Infantil em Bologna (na 51o edição), li “tributo a Iela Mari”, a ser realizado por uma associação de cultura local. Entre as palestrante, Sophie Van Der Linden, que conheci com a edição da Cosac Naify no Brasil de seu livro Para Ler o Livro Ilustrado. Fui atrás de ver quem era.

 

Na primeira pesquisa entendi o “tributo” a italiana de Milão Iela (nascida Gabriela) morreu em janeiro deste ano, aos 82 anos. Continuando a busca, descobri (ou redescobri, a gente nunca sabe…) que se tratava de uma ilustradora e autora italiana praticamente autodidata que fez história na literatura infantil. Deixou sua marca, mudou rumos. Esposa do designer Enzo Mari, dedicou-se a estudos sobre a percepção visual das crianças e, a partir disto, criou seus famosos livros de imagens como o Il Palloncino Rosso (algo como O Balãozinho Vermelho), em 1967. A partir desta publicação, foram só prêmios e prêmios.

 

A característica de seus livros é sempre não existir texto, deixando toda a narrativa para um caminhar ilustrado. O empenho gráfico reina e a natureza era o principal tema. Uma mulher à frente de seu tempo e que sabia que livro para crianças não nasceu para limites.

 

Eu não consegui conferir o tributo de perto, mas fiz o meu em particular, em meu primeiro contato com a obra dela. Para delírio dos frequentadores, pela primeira a organização da feira abriu um pavilhão ao público, recebeu crianças para oficinas e encontros com o autor e, claro, permitiu a venda de livros. O que eu fiz? Comprei alguns e fui em busca de Il Palloncino Rosso (publicado em 2004 pela Babalibri e datado como primeira edição 1967) como quem procura uma joia rara, em meio a tanta oferta. E eis ele aqui comigo.

 

O livro é lindo desde a primeira ilustração que começa com um sopro – o que seria mais poético que isso? É o que você vê no começo deste post. Do sopro de um menino, uma bola de chiclete vermelha. Uma bola que vira um balão. Um balão que ganha vida e voa. Voa tão alto que se enrosca em uma árvore e se torna uma maçã. Uma maçã que, como comprovado e recomprovado sempre e sempre, cai e se transforma novamente e por aí vai. Até? Até sempre. É este ritmo de sopro, vôo, vida, ciclo que emociona o virar de páginas. Minimalista, tem o vermelho forte e preenchido contracenando com contornos em preto, finos e delicados como a leveza da figura em metamorfose.

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(E me lembrei, claro, do clássico O Balão Vermelho, filme fabuloso média-metragem de 1956, do francês Albert Lamorisse, em que um menino percebe um balão amarrado em um poste e resolve soltá-lo e o acompanha pelas ruas de Paris).
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No site da editora Kalandraka para Portugal, que publicou os livros de Iela, atribuem esta frase a ela. “De todos os meus livros, este é o preferido das crianças, muito mais do que os outros; Entram nele sem nenhum problema. Os adultos, em geral, dizem que não compreendem nada”.

 

E assim alguém se torna necessário para infâncias.

BOLOGNA 2014: Gregos, troianos, brasileiros e italianos juntos

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De um lado, Calcas, Pátroclo, Agamenon, Diomedes, Menelau, Ájax, Odisseu, Aquiles, Nestor, Hera. De outro, Príamo, Heitor, Eneas, Apolo, Páris, Dólon, Sarpédon, Heleno, Ares, Helena. Entre esta turma aí de, você sabe, gregos e troianos, dois brasileiros e um italiano. Sem dúvida, uma partida que promete muita emoção!

Este é a espinha dorsal de Futebolíada, escrita por José Santos, ilustrada por Eloar Guazzelli e lançada em na Feira do Livro Infantil de Bologna pela Editora DSOP. É isso mesmo: José teve a ideia de recontar o poema épico Ilíada, o clássico dos clássicos de Homero, primeira grande obra da literatura ocidental como se fosse uma partida de futebol. Poemas curtos expõem as características da obra e dos personagens e levam o leitor a uma original viagem com muito humor e liberdade, em referência ao último ano da Guerra de Tróia e toda a ação devido ao episódio de desentendimento entre Aquiles, o maior dos guerreiros gregos, e o chefe das tropas, Agamenon.

A ideia da brincadeira é de Zeus, o pai dos deuses.

Fincou lá na beira-mar

quatro traves de madeira.

Convocou os jogadores

e começou a brincadeira.

Só que Hera e Apolo em campo parece um tanto desleal! Mas, nem por isso, a partida não deixa de parecer apenas uma pelada. Aquiles, claro, leva um carrinho no calcanhar… Tem até briga e Odisseu sai mancando, sob vaia. Mas eis que surge o inesperado e, para saber o final, só lendo mesmo. E tudo isso no traço inconfundível de Guazzelli, que balanceia humor, detalhes, movimentos altamente expressivos, neste também jogo de cores e formas que o projeto gráfico cuidou de mostrar bem (as ilustrações fizeram parte de uma bela exposição sobre literatura e esporte no Museu de Arqueologia de Bologna!).

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Ler é o principal convite do livro: inspirar a criança a querer conferir o original (há diversas versões e adaptações prontas para serem conferidas). “Li ainda criança um texto em prosa adaptado e achei encantadora aquela guerra sem censura. É um texto que mexe com todo o mundo mas, principalmente, com o meu ‘eu menino'”, contou José Santos e um encontro sobre o livro na feira. “Eu gostava de desenhar a Guerra de Tróia, e torço para os troianos! Eu tenho este péssimo hábito de torcer para quem perde”, diverte-se Guazzelli. E, para fazer o livro, resgatei tudo do meu imaginário, foi quase um presente. Desenhei Tróia de olhos fechados”, conclui.

Mas e o italiano? Pois é, a turma responsável pelo livro decidiu que, lançando em Bologna, deveriam levar uma versão em italiano e publicaram lá uma edição bilíngue com o título de Un Derby Epico (poderia ser traduzido como “uma partida histórica” ou, como nós dizemos, “um clássico”). A tradução ficou a cargo do escritor e educador Roberto Parmeggianni (de A Lição das Árvores http://esconderijos.com.br/?s=lição+das+árvores, que já falei aqui). “Foi terapêutico”, confessa Roberto. “Um jeito novo de contar uma história que, do jeito que se aprende na escola aqui na Itália, sempre achei chata. Mas eu gostei sempre da parte do cavalo e de Aquiles, o herói fraco, com limites. Não à toa comecei a trabalhar com crianças que têm limites.” Mas todos confessaram que a parte divertida ficou para a tradução de expressões como “drible da vaca”. O italiano de Roberto deveria, claro, acima de tudo agradar seus conterrâneos. “Traduzir é ser também um pouco como educador. Tem a criança, os pais e eles têm uma história e você tem que cuidar desta história. José escreveu, sonhou… eu precisava respeitar isso. O título foi o que mais mudou”.

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Futebolíada (Editora DSOP)

textos de José Santos

ilustrações de Eloar Guazzelli

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palpite: para crianças de 7 anos a 100 anos (especialmente as fanáticas por um futebol!)

BOLOGNA 2014: André Neves e a árvore da vida

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Fiquei somente quatro dias na cidade de Bologna, Itália, enquanto acompanhava a mais vibrante feira do livro infantil do mundo. Mas uma das coisas que mais me impressionou foi a Biblioteca Salaborsa, na belíssima Piazza Maggiore, o coração de Bologna. Ela foi inaugurada em 2001 e fica dentro do Palazzo D’Accursio, uma majestosa construção histórica. Só isso já faz dela um lugar primoroso, com arcos e vitrôs de tirar o fôlego, uma arquitetura impressionante que a gente se perde no olhar.

Mas tem mais: um espaço dedicado às crianças em que a gente quer sentar e não sair mais. E outro só para pais e bebês se perderem nos livros.

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Nesta temporada, a exposição da vez era uma sobre quartos infantis, a uma viagem por décadas pelo famoso design italiano, com brinquedos e mobiliários de 1900 a 1950 – La camera di bambini: giocattoli e arredi della collezione Marzadori 1900-1950. Ela ficava bem no meio do salão principal, maravilhoso.

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Os detalhes dos brinquedos em bom estado, pareciam nos dizer histórias.

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Mas houve uma espécie de catarse por ali, no dia 25, segundo dia da feira. Há sempre uma programação que ultrapassa os limites da Bologna Fiere e, nesta, o encontro era com o ilustrador e escritor André Neves (autor de Tom, Obax, Malvina, A Caligrafia de Dona Sofia e outros) e um grupo de italianos megaespeciais: crianças entre 6 e 8 anos. Uma oficina de artes e uma conversa sobre livros.

andre1Fiquei sabendo antes, mas não pude ver de perto. As fotos são do próprio André que, na noite durante nosso jantar, não conseguia ainda descrever a emoção da experiência para mim e outros amigos.

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As imagens nos dão uma pista, mas esta conversa que tive com ele depois explica melhor.

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ESCONDERIJOS: O que era o evento, e por que convidaram você?

André Neves: Faz parte dos eventos paralelos à feira. A biblioteca, no centro de Bologna, acumula atividades com convidados que prestigiam o evento. O convite aconteceu via biblioteca e editoras que me publicam por lá.

ESCONDERIJOS: Quantos anos tinham as crianças? Você que livros elas conheciam?
André: Entre 6 e 8 anos. Os livros foram das Editora Franco Panini e Il Giocco di Legere. Mas eles conheciam outros traduzidos e apresentei obras brasileiras.

ESCONDERIJOS: Como foi a comunicação com elas?
André: Sim, falei no meu italiano não muito bom, mas criança é criança, sem limites para interagir. Foi fantástico.

ESCONDERIJOS: O Tom e a criança (na capa) no centro da árvore, então, as impressionou, certo?
André: Sim, assim que mostrei a capa do livro.

ESCONDERIJOS: Dá para descrever a reação delas ou de alguma delas? Alguma criança falou algo impressionante, marcante, engraçado, emocionante?
André: Sim. Elas disseram coisas como:
“Tem uma criança dormindo no centro da árvore.
“Ela está sonhando.”
“Os pássaros são folhas e estão cuidando dela.”

ESCONDERIJOS: Você me disse que criaram, então, juntos, uma árvore da vida. Como foi? O que vc desenhou e o que elas completaram? Elas foram fazendo rápido ou pararam para pensar, ficaram envergonhadas?
André: Eu havia feito uma ilustração semelhante para um livro italiano da editora Franco Panini. Para o conto tradicional A Festa no Céu. Eles identificaram no mesmo momento minhas aves. Juntei os dois livros e dialogamos sobre uma árvore da vida, o renascimento pela natureza.
A ideia surgiu na hora, decidi agir assim, sem nada preparado porque não tinha noção dos resultados. Tudo correu tranquilamente e tive ajuda dos professores que complementaram minha ideia ao participar da atividade.

ESCONDERIJOS: Consegue me descrever mais sobre a emoção deste dia? O que teve de mais especial? O que mudou em vc?
André: Esse ano foi especial. Ano Brasil. Roger Mello compartilhando e construindo com todos um orgulho danado do que fazemos aqui. Esse ano me emociona e todas as forças contrárias que poderiam existir caíram em esquecimento pleno. Somos verdadeiros profissionais de uma trajetória brasileira. Cultural em sua raiz. Compartilhar esses valores com estrangeiros e ser compreendido foi abraçar todos os ilustradores que estavam ali mostrando uma só voz. O livro é algo realmente mágico: une, conforta e alegra.

Um beijo para todos leitores e para você que faz o tempo da leitura acontecer.

Bologna 2014: Brasil, o País da Ilustração

 

 

EXPO2Nossas casas, Brasil, abril de 2014. Para muitos ilustradores brasileiros, este abril nunca mais será o mesmo. Isso porque para quem faz livros ilustrados no Brasil a edição da Feira do Livro Infantil em Bologna, na Itália, que aconteceu de 24 a 27 de março, foi inesquecível. Até mesmo para quem não estava lá. O Brasil foi o país homenageado (pela segunda vez, a primeira aconteceu em 1995). O ilustrador, escritor, artista plástico Roger Mello ganhou o Prêmio Hans Christian Andersen de ilustração, o “Nobel” da literatura infantil no mundo. Foi, sem dúvida alguma, um marco. Não apenas para o mercado, não apenas para lembrar que a feira de Bologna é uma feira de negócios. Mas um divisor de águas para que o talento e a paixão pelo livro ilustrado no Brasil ultrapasse as fronteiras da imaginação e da criatividade dos artistas e chegue aos leitores (crianças e adultos), com o selo de qualidade o qual não é preciso marca, logo ou autentificação: apenas a emoção de ter estas obras-primas nas mãos e guardar em nossos esconderijos do tempo. Eu estava lá na verdadeira catarse que se construiu ao redor de nosso país e conto a vocês.

 
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Bem, era a 51o edição da Feira e a minha primeira vez. Mas não só eu estreava por lá: até mesmo Eva Furnari, uma das principais artistas de nossa literatura infantil, visitava o grande espaço Bologna Fiere pela primeira vez. Este gostinho da primeira visita vem acompanhado de encantamentos, sem dúvida, mas fui privilegiada: havia muitos brasileiros presentes e uma exposição que fazia do Brasil também o país da ilustração (embora a Copa do Mundo estrelasse nos discursos, claro). A exposição Brazil Countless Threads, Countless Tales (Brazil Incontáveis Linhas, Incontáveis Histórias) exibia um panorama dos traços, formas, cores e texturas dos livros ilustrados no Brasil, com uma lista de 55 artistas relacionados por uma sempre sofrida seleção (só quem coordenou listas na vida sabe o quanto é dura a escolha!). Na praça central da feira (que ao todo tem mais de 20 mil metros quadrados), ilustrações pinçadas de livros eram exibidas por baixo de vidros, na horizontal, sobre bancadas coloridas.

EM DESTAQUE, ILUSTRAÇÃO DE LAMPIÃO E LANCELOTE, DE FERNANDO VILELA E SUCESSO EM BOLOGNA EM 2007 COM O PRÊMIO BOLOGNA RAGAZZI, CATEGORIA NOVOS HORIZONTES, MENÇÃO HONROSA)
EM DESTAQUE, ILUSTRAÇÃO DE LAMPIÃO E LANCELOTE, DE FERNANDO VILELA E SUCESSO EM BOLOGNA EM 2007 COM O PRÊMIO BOLOGNA RAGAZZI, CATEGORIA NOVOS HORIZONTES, MENÇÃO HONROSA)

Uma primeira olhada e a primeira evidência surgia: Brasil é pura diversidade. “É muito difícil falar da arte brasileira por apenas um ponto de vista. Cada um pode fazer um recorte diferente, cada um de nós tem uma leitura própria”, disse o ilustrador e escritor Fernando Vilela. “Esta característica da diversidade poderia ser um problema para criar uma identidade única. Ao invés disso, fizemos o inverso e vimos que a pluralidade poderia ser o caminho e buscamos grupos que se unificassem nessa diversidade”, completou o também ilustrador e escritor Odilon Moraes que, ao lado de Fernando Vilela, Graça Lima, Mariana Massarani e Roger Mello, formou a equipe de artistas consultores da mostra.

 

CAPA DO BELO CATÁLOGO DA EXPOSIÇÃO
CAPA DO BELO CATÁLOGO DA EXPOSIÇÃO

A curadoria foi feita pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) junto com a Biblioteca Nacional. O conceito que deu nome à mostra foi criado pela escritora Ana Maria Machado. Em sua página no Facebook, a ilustradora Graça Lima fez questão de contar o processo. Recebemos um conjunto de imagens já selecionadas e contruímos uma lógica narrativa que representasse nossa diversidade. Trabalhamos muito durante as festas de fim de ano para que houvesse a possibilidade fazer acontecer algo.” Nas mãos da designer Silvia Negreiros ficou a responsabilidade de criar o catálogo, um livro de 152 páginas disputadíssimo na feira, com três ilustrações de cada artista e a biografia. Graça também fez um desabafo: “Muitos levantaram duvidas sobre a idoneidade de quem estava no processo. Não cabia no momento uma fala, pois na verdade, nem nós mesmos sabíamos se, no fim de tudo, conseguiríamos montar a exposição. Fizemos um esforço apenas movidos por uma espécie de sentimento cívico. A correção pautou nosso trabalho, e creio que todos sabem da trajetória e da formação de cada um de nós. Não fomos curadores, portanto as escolhas de quem estaria, antecedem nosso trabalho. Não havia tempo nem para escolher outras imagens, além das que nos entregaram, por isso o processo teve de ser o mais cuidadoso possível. Quando os originais chegaram e fizemos a última organização, no auditório da Biblioteca Nacional, ficamos emocionados”. E ainda fez sua previsão: Importa que o Brasil estava lá e que ainda fomos presenteados com o prêmio do Roger. Importa que muitas portas foram abertas e certamente muitas outras mostras brasileiras serão organizadas com diferentes formatos, participantes grupos organizadores. Peço que todos nós nos comprometamos com a construcão e consolidação do espaço da ilustração no Brasil.”

 

FERNANDO VILELA, ODILON MORAES (ESCONDIDO), ROGER MELLO, A TRADUTORA PARA O ITALIANO, ZIRALDO, GRAÇA LIMA E ELISABETH SERRA (secretária-geral da FNLIJ)
FERNANDO VILELA, ODILON MORAES (ESCONDIDO), ROGER MELLO, A TRADUTORA PARA O ITALIANO, ZIRALDO, GRAÇA LIMA E ELISABETH SERRA (secretária-geral da FNLIJ)

Na mesa redonda em que os consultores falavam sobre a mostra, Ziraldo foi o homenageado, por todas as razões que a gente já possa imaginar. Embora sem deixar de lado seu tom sarcástico que o caracteriza, fez um depoimento emocionante: “Eu vi cada um destes artistas nascer. É a coisa boa de ser velho. Vou voltar para o Brasil muito feliz, com o prêmio do Roger, nosso herói. Ele representa esta evolução e vejo muitos outros aqui que também poderiam ter ganhado como ele”. O Brasil vai ser homenageado em mais três feiras: Paris, Londres e Nova York. Aguardem!

 

Leia também: Roger Mello, o Premiado

 

Bologna 2014: Roger Mello, o premiado

 

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Acompanho o trabalho de Roger Mello desde o começo de minha empreitada na pesquisa em literatura infantil. É o autor da surpresa. Já foi agraciado e indicado a importantes prêmios pelo mundo. Já até colocou fogo no meio de um livro (graças aos poderosos cortes de uma faca de impressão gráfica e um conjunto de cores especiais que nos surpreendem aos olhos. Aconteceu em Carvoeirinhos, uma obra-prima). Ele nos dá a impressão que pode transformar em papel tudo que lhe vem à cabeça. Seu último livro foi feito especialmente para um público diferente: os chineses.

 

Quando o visitei em sua casa-ateliê, no Rio de Janeiro, em 2010, o bate-papo, claro, foi ótimo. (Era para um vídeo que, infelizmente, está fora do ar no site da Crescer). A paixão pelo objeto livro era notória, sincera, natural. Falou de suas raízes, os primeiros tempos como aprendiz do Ziraldo, e a amizade sem fronteiras com Graça Lima e Mariana Massarani (eles têm juntos o blog Capadura em Cingapura, vale muito a pena!).

 

Mas há uma característica de Roger que ficou ainda mais evidente a partir do momento em o nome dele foi pronunciado pela presidente do júri do Prêmio Hans Christian Andersen 2014, a espanhola María Jesús Gil: ele representa o país de onde vem sua inspiração, seu motivo para ilustrar. Estava eu falando em uma mesa com a Cortez Editora da qual eu participava, quando ouvimos os gritos de felicidade da sala vizinha. Assim que o nosso evento terminou, o que encontrei no hall de um dos andares do pomposo Bologna Fiere, em Bologna, Itália, foi uma massa de brasileiros emocionados e um incansável Roger Mello agradecido e extremamente feliz. Esta “massa” se formava no melhor sentido: o da união e o da esperança. União por todos os artistas que, juntos, lutam para que a arte brasileira e a arte direcionada às crianças tenha seu valor garantido; e esperança que isso aconteça com mais veemência a partir de agora.

Roger é de Brasília, mas mora no Rio de Janeiro há muitos anos. Ele se graduou em Desenho Industrial e e já recebeu vários outros prêmios, como o Jabuti (nove vezes) por vários livros, como o belíssimo João Por Um Fio. É a terceira vez que ele é indicado para o Hans Christian Andersen.

 

Em homenagem ao autor dinamarquês “pai” da literatura infantil no mundo (criador de O Patinho Feio, A Roupa Nova do Rei, O Soldadinho de Chumbo, por exemplo), o Prêmio Hans Christian Andersen acontece desde 1956 (mas desde 1966 premia-se um escritor e também um ilustrador) e é organizado pelo Ibby, International Boards of Books for Young People, organismo internacional mais respeitado mundialmente na produção de qualidade de livros infantis e juvenis. É concedido a cada dois anos e é a terceira vez que o Brasil é contemplado: em 1982 foi a escritora Lygia Bojunga e em 2000, Ana Maria Machado. Na lista geral, nomes como Astrid Lindgren, Gianni Rodari e Maurice Sendak. Este ano, foi a japonesa Nahoko Uehashi, que ficou com o prêmio para escritor. É conhecida pela coleção Moribito, lançada aqui pela WMF Martins Fontes.

 

No estande do Brasil, a comoção não parou. Conversei com Roger no dia seguinte, para ver como ele havia acordado. Será que achava ser um sonho? “Não caiu a ficha ainda! A expectativa realmente era não ganhar, juro. Fico muito feliz, até porque o Ibby é uma família e me identifico com os ideais da instituição, a busca pela paz no mundo por meio da ficção. É exatamente o que eu acredito que uma literatura representa”.

 

Esconderijos: Roger, o que muda a partir de agora para a ilustração no Brasil?

Roger Mello: Muda tudo. Ganhamos um novo olhar sobre o Brasil, entendem agora o Brasil como também um país das artes visuais narrativas. Eu me sinto representando uma geração, que vem junto nestes 20 anos e que também representa uma história que começou muito antes com Santa Rosa (cenógrafo, artista plástico e ilustrador paraibano famoso na primeira metade do século 20 também por capas de livros de grandes escritores brasileiros), Calazans Neto (ilustrador baiano, fundador da Editora Macunaíma e ilustrador de livros de Jorge Amado), Potty Lazzarotto (ilustrador e gravador curitibano, fez Grande Sertão: Veredas, Capitães de Areia, entre outros). A qualidade gráfica destes primeiros livros é impressionante, eles deveriam ser reeditados!

Esconderijos: E a criança, que é o destino, digamos, principal destes livros, o que ganha com isso?

Roger: A criança é o fim, mas também é o princípio. O fim é a gente mesmo, a criança é mais um motivador. Todos nós ganhamos muito.

Ninguém resistiu a tirar uma foto com o nosso premiado preferido do ano. Nem eu.

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E registrei o encontro entre ele e um grupo de coreanos da ilha de Nami, orgulhosos também tanto quanto nós!

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Leia também: Brasil, o País da Ilustração

Gilda de Aquino, a tradutora que ama livros infantis

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GILDADEAQUINOPGILDADEAQUINOPGILDADEAQUINOPBruxa, bruxa, venha à minha festa

O ratinho, o morango vermelho maduro e o grande urso esfomeado

A velhinha que dava nome às coisas

Quando mamãe virou um monstro

Carona na vassoura

O Grúfalo

Guilherme Augusto Araújo Fernandes

O homem que amava caixas

Ana, Guto e o gato dançarino

Petro e Tina – uma amizade muito especial

Está boa esta lista de livros para você? Sabe o que eles têm em comum? Sim, são todos livros estrangeiros. Sim, são todos maravilhosos. Sim, todos foram lançados aqui no Brasil pela editora Brinque-Book. E, finalmente, sim, todos eles foram traduzidos por Gilda De Aquino. Basta pouco tempo lidando com livros infantis no Brasil para dar de cara com o nome dela em várias edições. E, como sempre quis bater um papo com uma tradutora de livros infantis, convidei Gilda para responder a algumas perguntas. A alguns dias da Feira do Livro Infantil em Bologna (na Itália e eu estarei por lá), me inspirei a conversar sobre o assunto, pois nestas exposições nascem ótimas parcerias de traduções. E, como o Brasil é o país homenageado, quis saber da Gilda, que sabe muito da produção estrangeira, o que ela acha do que fazemos aqui em nosso país.

ESCONDERIJOS: Gilda, quando começou sua história como tradutora? E quando foi que entraram os livros infantis?GILDA DE AQUINO: Obrigada por seu interesse pela minha vida profissional como tradutora. Sou professora universitária de inglês aposentada, e comecei minha história fazendo tradução simultânea em congressos internacionais no Rio de Janeiro nos anos 50. O inglês é praticamente minha língua materna, já que fui alfabetizada neste idioma. Também morei nos Estados Unidos e cursei uma universidade lá. Em 1991 quando minha filha, Suzana (Sanson), fundou a Brinque-Book fui ajudá-la no que fosse preciso e, assim que ela começou a adquirir na Feira de Bologna os direitos autorais dos livros infantis, passei a fazer as traduções dos mesmos.

ESCONDERIJOS: Você traduz em quais idiomas?

GILDA: Eu traduzo em inglês e em francês, apesar de também falar alemão, não me sinto apta a fazer traduções deste idioma. Traduzi aproximadamente 80% dos livros estrangeiros da Brinque-Book até agora.

ESCONDERIJOS: Qual é o seu maior desafio na hora de traduzir? Existe algo recorrente, pelo menos em determinado idioma, quanto às palavras?

GILDA: Meu maior desafio na hora de traduzir são os textos rimados. Ter de manter o tamanho das estrofes, manter a cadência e fazer a rima sem mudar a harmonia do texto original. O mais recorrente no idioma inglês e que atrapalha um pouco a tradução, é o apóstrofe, especialmente o apóstrofe ‘s  muito recorrente na língua inglesa.
ESCONDERIJOS: E, pensando no politicamente correto ou incorreto, ou nas exigências da editora, existe algum desafio específico por se dirigido a uma criança?

GILDA: Quanto às exigências da editora, o único desafio é manter-me sempre fiel ao imaginário do autor, sem mudar o sentido do texto, procurando usar palavras adequadas às diferentes faixas etárias do publico infantil.

ESCONDERIJOS: Você faz alguma pesquisa sobre a cultura do país do autor?

GILDA: Na hora de traduzir procuro me informar bastante sobre o autor e a cultura de seu país pois isto influencia muito no modo de escrever de cada um.

ESCONDERIJOS: Neste tempo de trabalho, você tem algum escritor estrangeiro favorito? Do tipo “ai, que bom, mais um livro dele!”? (rs)

GILDA: O escritor que eu mais amo traduzir é o Colin Thompson (Como Viver Para Sempre, O Violinista, A Vida Curta e Incrivelmente Feliz de Riley) pois ele apela de uma forma meio surrealista para a imaginação da criança. Aliás, uma situação inusitada aconteceu justamente ao traduzir o Como Viver para Sempre, pois numa das páginas a ilustração mostra uma estante de uma biblioteca onde existem cinco livros de culinária cujos títulos tinham de ser todos com a letra ‘Q’. Tive de quebrar a cabeça para inventar, mas acabei conseguindo. Por exemplo: Quitutes de Quitéria, Queijadinhas, Quibebe, etc. Não só os textos dele são incríveis, bem como as ilustrações onde a criança pode passar horas descobrindo detalhes quase escondidos.

ESCONDERIJOS: E você também escreveu seu próprio livro, certo? São quantos? Isso mudou alguma coisa na tradução?

GILDA: O primeiro livro que a Brinque-Book lançou foi o Brinque-Book Com as Crianças na Cozinha, que eu escrevi baseado no meu amor pela culinária e por ter na época sete netos que adoravam fazer “comidinhas de verdade” na cozinha. Até hoje este livro faz sucesso, pois as receitas são fáceis, rápidas e funcionam mesmo. O segundo livro que escrevi foi inspirado pela perda de minha neta, numa madrugada em que vi o sol nascer enquanto a lua ainda estava no céu. Chama-se Por Que o Céu Chora.  Fiquei muito emocionada ao ser convidada a assistir uma adaptação dele numa peça infantil em uma comunidade bem pobrezinha de Pedro do Rio, aqui perto de Petrópolis, onde moro. As fantasias eram de papel, os cavalos eram crianças com máscaras de cara de cavalo feitas por elas mesmo; e a carruagem que os ‘cavalos’ puxavam, era um carrinho de mão de jardim. A sala de leitura desta escola paupérrima tinha um tapete velho no centro onde as crianças fingiam voar pela janela enquanto ouviam histórias. Que bom que ainda existem professoras dedicadas que ajudam as crianças a viajar pelo mundo encantado dos livros.

ESCONDERIJOS: Semana que vem começa a Feira do Livro Infantil de Bologna e o Brasil vai ser homenageado. Você, lendo profundamente tantos livros estrangeiros, consegue perceber alguma característica peculiar dos livros brasileiros? Do tempo que começou para cá, acredita que algo mudou, que melhoramos de alguma forma?

GILDA: Sim, acredito piamente que o Brasil vem melhorando muito no campo da literatura infantojuvenil. Hoje há uma oferta maior por parte das editoras e as escolas trabalham com mais leituras com as crianças.  E também em casa, elas são incentivadas a manusearem os livros desde a mais tenra idade, bem antes de serem alfabetizadas. Há a leitura compartilhada e até os “e-books” que, com certeza, estimulam o gosto pela leitura.

3 traduções de Gilda que você não pode perder:

BRUXABRUXACAPABruxa, Bruxa, Venha à Minha Festa

Escrita por Arden Druce e ilustrada por Pat Ludlow, o livro mostra uma menina que chama uma série de seres assustadores para a sua festa. Mas tem uma surpresa, claro. Um jeito delicioso de abordar o medo com os leitores (e descobrir até onde a imaginação pode nos levar!). Um clássico mundial.

 

OHOMEMAMAVACAIXASCAPAO Homem Que Amava Caixas

É um dos mais emblemáticos livros do australiano Stephen Michael King. Com poesia nas poucas palavras e nas belas ilustrações, ele mostra a história de amor entre um pai e um filho. Para ler e reler sempre que puder.

 

AVELHINHANOMECOISASCAPAA Velhinha Que Dava Nome às Coisas

A escritora Cynthia Rylant e a ilustradora Kathryn Brown contam aqui a emocionante história de uma velhinha que dava nome a tudo que pudesse durar mais do que ela, como a casa, o sofá, o carro. Mas o medo do apego lhe prega uma surpresa que faz tudo mudar na vida da adorável senhora.

 

Snoopy, Charlie Brown… The Peanuts!!

Em 2011, em viagem a San Francisco, meu marido e eu fomos visitar o Cartoon Museum, museu de desenhos da cidade. Pequenininho, mas foi uma delícia, tinha uma exposição de uma série de quadrinhos que eu esqueci (não era exatamente um sucesso no Brasil, desculpem, não lembro!) e vimos até um minidocumentário sobre a Pixar chamado Pixar: Before They Were Stars.

Porém confesso que o que me deixou maluca mesmo foi o livro The Peanuts Collection Treasures From The World’s Most Beloved Comic Strip, de Nat Gertler, lançado pela Little Brown.

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É um livro de 2010 e uma espécie de scrapbook com a história toda da turma de Charlie Brown, cheio de material inédito até então. É incrível! Tem prints de desenhos originais, pequenos livros, reprodução de negativos de cenas, esboços da carreira do criados Charles Schulz… Eu ainda nem cheguei perto de ler tudo. Até porque, voltamos de San Francisco e logo depois descobrimos a gravidez, Clarice nasceu e a sequência normal de virada de vida após o primeiro filho.

Mas hoje estou aqui com ele ao meu lado porque acabei de ver no site do Estadão o primeiro trailer de um filme que está anunciado para 2015. Quem está à frente é Craig Schulz, filho do criador dos Peanuts, que faleceu em 2000. Craig disse que há tempos os fãs pedem por um filme.

 

Sucesso nos quadrinhos e na televisão, desde 1980 os personagens não estrelam um longa-metragem (o último foi Boa Viagem, Charlie Brown (E Não Volte!)). A direção é de Steve Martino, o mesmo de A Era do Gelo 4, e Horton e o Mundos Quem. O roteiro é assinado por Craig e seu filho, Bryan Schulz.

 

Eu não saberia dizer aqui como conheci os Peanuts, se por quadrinhos ou TV. Mas sempre amei. A gente quando criança não entende, mas sabe quando algo é genialmente diferente. Eu amava estar naquele mundo deles, o mundo das crianças. Mas o mundo das crianças que tinham conflitos, angústias, medo. Dá até vontade de dar risada pensando no que autores, editoras, roteiristas são capazes de fazer hoje em nome de combater o “bullying” sendo que Schulz nos ensinou com Charlie Brown que crianças sofrem e sabem o porquê. Ao mesmo tempo, uma inocência tocante. Ele sempre foi de uma delicadeza e de uma coragem emocionante.

 

Eis aqui o trailer:

 

 

 

Clarice ganhou de uma família amiga querida um kit de utensílio de cozinha da turma do Snoopy. Eu fui apresentando a ela um a um, como se fossem velhos amigos. Ela se simpatizou bastante e solta um “upi” para cada vez que vê o beagle mais lindo do mundo dos desenhos. Mas sou louca, claro, para apresentar a ela os três filmes emblemáticos da era TV de Peanuts. Em 2008, a Warner lançou uma caixa com eles chamada Snoopy & Charlie Brown, com: O Natal de Charlie Brown: É Natal de Novo, Charlie Brown, Charlie Brown e O Dia de Ação de Graças: Os Viajantes de Mayflower, 

É a Grande Abóbora Charlie Brown: É Mágica, Charlie Brown, três grandes clássicos com cenas impagáveis como a dancinha deles sempre igual no ensaio do espetáculo de final de ano e a Charlie Brown dizendo que não ganhou doces no Dia das Bruxas (e a frase que eu nunca esqueço: “e eu, uma pedra”… dó dele!!), que mostro abaixo nos vídeos.

 

É para chorar de rir e deixar as lágrimas caírem de emoção. Quem consegue isso melhor que esta turma?

 

A Dancinha de Natal

 

E eu, uma pedra!

 

O Bicho Alfabeto, de Leminski e Ziraldo

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O BICHO ALFABETO-MIOLO-3P-3K.inddO BICHO ALFABETO-MIOLO-3P-3K.inddO bicho alfabeto é sempre o mesmo, mudam os modos de usá-lo. O de Paulo Leminski é brincar com as palavras, com os sentidos e formas das palavras. Como se acendesse as luzes delas.

Este lindo período faz parte da apresentação escrita por Arnaldo Antunes para o livro O Bicho Alfabeto, que a Companhia das Letras acaba de lançar com poemas do curitibano Paulo Leminski, um dos mais importantes poetas do Brasil. Há maravilhas como:

Feliz a lesma de maio

um dia de chuva

como presente de aniversário

 

Noite sem sono

o cachorro late

um sonho sem dono

 

Os poemas são brincadeira, informação e surpresa. Delícia de falar em voz alta, brincar de memorizar, entender até onde vai um poema. Uma bela maneira de iniciar com crianças as possibilidades que Leminski criou e marcou a poesia brasileira, até sua morte, em 1989, aos 44 anos de idade. Foram pinçados do livro Toda Poesia, uma reunião de toda a obra poética do artista e que a editora lançou no passado e virou um fenômeno.

 

São acompanhados dos desenhos superreconhecido de Ziraldo, que varia intensidade e cores conforme as palavras causam. Pode ser cor, pode ser traço, pode ser de página cheia, pode ter um pouco de cada: quem “manda” é o poeta. Afinal, de Menino Maluquinho, Ziraldo entende bem.

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O Bicho Alfabeto (Ed. Companhia das Letrinhas)

textos de Paulo Leminski

Ilustrações de Ziraldo

2014

palpite: para crianças de 6 a 100 anos (embora as menores vão amar os não significados que a obra mostra)

Mio Mao

MIOMAOABERTURAcutHá uns meses, procurando algo no Youtube para apresentar à minha filha Clarice, fiquei pensando que poderia ser algo da minha memória de infância. Sei lá por qual razão, o que veio primeiro à minha mente foi o seriado de massinha Mio Mao, que passava na TV Globinho, faixa de horário dedicada às crianças, nos anos 70. O dos gatinhos branco e vermelho, lembram? Achei alguns episódios e ela adorou de cara. Na verdade, ela gosta mais conforme o tempo passa (no momento em que estamos no Youtube, no celular, a série disputa com clipes do Cocoricó, Palavra Cantada e Mônica Toy).

Para fazer este post, fui em busca de mais informações que combinassem às minhas lembranças de infância. Eu sempre amei animações em massinha e então era vidrada em tudo. E, claro, isso ficou até hoje (vou falar de outros clássicos da minha infância aqui). Tem muita data desencontrada, mas já deu para mergulhar no passado lembrando do Globinho completo, a apresentadora e repórter Paula Saldanha (eu sempre me perguntava porque ela tinha um cabelo tão pesado… rs, eu não entendia que era apenas liso. Achava que ela sofria com isso, rs). No site Memória Globo, encontrei a informação de que Mio Mao entraram quando, a partir de 1978, o programa voltou a ter 15 minutos de duração (ele era um programa de notícias, lembram? E houve vários formatos), e assim teve espaço para a apresentação de desenhos e animações (entram nesta lista também A Família Barbapapa, Vermelho e Azul, A Linha, etc).

MIOMAOBEE

Bem, voltando ao Mio Mao, é uma criação do italiano Francesco Misseri e teve um supersucesso no país, quando lançado, em 1974. Os esquetes de cerca de 5 minutos de duração contam as aventuras destes dois gatos curiosíssimos. Qualquer coisa nova que apareça no ambiente deles, eles já correm para ver o que é, o que tem identificação direta com os pequenos, exatamente nesta mesma fase. A animação é fantástica, pois as massinhas se partem e se fundem, se transformam em objetos e tudo o mais diversas vezes. E a trilha, composta por Piero Barbetti, tem uma simplicidade de linguagem, daquelas que o bebê aprende em segundos, acha engraçado e, claro, gruda na nossa cabeça. Os maiores, rolam de rir e é uma ótima chance de a criança apreciar a bela arte do stop-motion. Os diálogos são rosnados e gemidos, superfáceis de entender e universais, ao estilo de Pingu, que nasceria mais ou menos 10 anos depois.

 

Há alguns episódios no youtube, como este aqui (anos depois, agora em 2019, descobri que eles têm um canal oficial e episódios recentes!!!):

 

e até um making-of meio de brincadeira:
)

Mas, desde 2011, há um app, o Mio Mao Watch and Tell. Você baixa grátis, assiste a uma das animações e compra outras, inclusive produzidas nos anos 2000. Existe também uma opção em cada episódio de acessar cenas do filme e gravar a sua voz, montando uma espécie de audio-book customizado! Aqui vai o link: https://itunes.apple.com/us/app/mio-mao-watch-and-tell/id375094154?mt=8.

 

Minutos de risada preciosos!

Não Sim Talvez

nao_sim_dentroEi, quantas respostas uma pergunta pode ter? Parece meio bobo para o mundo adulto cheio de regras e utilidades (inúteis, ops!). Mas para criança… ah, como a possibilidade de perguntar é gigantescamente saborosa!

É isso que aborda o livro Não Sim Talvez de Raquel Matsushita (capa, texto, projeo gráfico) e Ionit Zilberman (ilustrações), que será lançado logo mais (dia 8 mesmo, às 15h) pela editora do Sesi, na livraria NoveSete, em São Paulo. Na história, um menino adorava perguntar mas, só os bem atentos percebem: ele amava mesmo eram as respostas. Assim, disparava sem parar:

– Por que nunca vi uma árvore de salada de frutas?

– Por que meu pipi parece uma tromba de elefantes?

– Por que eu não posso voar?

 

A mãe, como todas, procurava responder tudinho. Mas o livro, claro, não traz apenas uma possibilidade. A irmã do menino, sempre preferia confundir um pouquinho mais. Até que o menino… bem, até que ele encontra uma reposta para si mesmo. Das boas.

As meninas Raquel e Ionit, talentosíssimas, apresentam aqui um projeto gráfico divertido em que, como pode acontecer na nossa cabeça, as frases ora se sobrepõe às antigas, brincando com a gente de substituir respostas – mesmo que temporariamente (não é isso que fazemos todos os dias?). E o menino ruivo encaracolado criado por Ionit (a mesma de Até as Princesas Soltam Pum e Hocus Pocus) é doce e singelamente ingênuo. Assim como deveria ser nosso olhar para o mundo. A gente sente isso só de ver, só se ouvir. Só de perguntar…

nao_sim_capa

Não Sim Talvez (Sesi-SP Editora)

textos de Raquel Matsushita

ilustrações de Ionit Zilberman

2014

palpite: para crianças de 6 a 100 anos