Bologna 2014: Roger Mello, o premiado

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Acompanho o trabalho de Roger Mello desde o começo de minha empreitada na pesquisa em literatura infantil. É o autor da surpresa. Já foi agraciado e indicado a importantes prêmios pelo mundo. Já até colocou fogo no meio de um livro (graças aos poderosos cortes de uma faca de impressão gráfica e um conjunto de cores especiais que nos surpreendem aos olhos. Aconteceu em Carvoeirinhos, uma obra-prima). Ele nos dá a impressão que pode transformar em papel tudo que lhe vem à cabeça. Seu último livro foi feito especialmente para um público diferente: os chineses.

 

Quando o visitei em sua casa-ateliê, no Rio de Janeiro, em 2010, o bate-papo, claro, foi ótimo. (Era para um vídeo que, infelizmente, está fora do ar no site da Crescer). A paixão pelo objeto livro era notória, sincera, natural. Falou de suas raízes, os primeiros tempos como aprendiz do Ziraldo, e a amizade sem fronteiras com Graça Lima e Mariana Massarani (eles têm juntos o blog Capadura em Cingapura, vale muito a pena!).

 

Mas há uma característica de Roger que ficou ainda mais evidente a partir do momento em o nome dele foi pronunciado pela presidente do júri do Prêmio Hans Christian Andersen 2014, a espanhola María Jesús Gil: ele representa o país de onde vem sua inspiração, seu motivo para ilustrar. Estava eu falando em uma mesa com a Cortez Editora da qual eu participava, quando ouvimos os gritos de felicidade da sala vizinha. Assim que o nosso evento terminou, o que encontrei no hall de um dos andares do pomposo Bologna Fiere, em Bologna, Itália, foi uma massa de brasileiros emocionados e um incansável Roger Mello agradecido e extremamente feliz. Esta “massa” se formava no melhor sentido: o da união e o da esperança. União por todos os artistas que, juntos, lutam para que a arte brasileira e a arte direcionada às crianças tenha seu valor garantido; e esperança que isso aconteça com mais veemência a partir de agora.

Roger é de Brasília, mas mora no Rio de Janeiro há muitos anos. Ele se graduou em Desenho Industrial e e já recebeu vários outros prêmios, como o Jabuti (nove vezes) por vários livros, como o belíssimo João Por Um Fio. É a terceira vez que ele é indicado para o Hans Christian Andersen.

 

Em homenagem ao autor dinamarquês “pai” da literatura infantil no mundo (criador de O Patinho Feio, A Roupa Nova do Rei, O Soldadinho de Chumbo, por exemplo), o Prêmio Hans Christian Andersen acontece desde 1956 (mas desde 1966 premia-se um escritor e também um ilustrador) e é organizado pelo Ibby, International Boards of Books for Young People, organismo internacional mais respeitado mundialmente na produção de qualidade de livros infantis e juvenis. É concedido a cada dois anos e é a terceira vez que o Brasil é contemplado: em 1982 foi a escritora Lygia Bojunga e em 2000, Ana Maria Machado. Na lista geral, nomes como Astrid Lindgren, Gianni Rodari e Maurice Sendak. Este ano, foi a japonesa Nahoko Uehashi, que ficou com o prêmio para escritor. É conhecida pela coleção Moribito, lançada aqui pela WMF Martins Fontes.

 

No estande do Brasil, a comoção não parou. Conversei com Roger no dia seguinte, para ver como ele havia acordado. Será que achava ser um sonho? “Não caiu a ficha ainda! A expectativa realmente era não ganhar, juro. Fico muito feliz, até porque o Ibby é uma família e me identifico com os ideais da instituição, a busca pela paz no mundo por meio da ficção. É exatamente o que eu acredito que uma literatura representa”.

 

Esconderijos: Roger, o que muda a partir de agora para a ilustração no Brasil?

Roger Mello: Muda tudo. Ganhamos um novo olhar sobre o Brasil, entendem agora o Brasil como também um país das artes visuais narrativas. Eu me sinto representando uma geração, que vem junto nestes 20 anos e que também representa uma história que começou muito antes com Santa Rosa (cenógrafo, artista plástico e ilustrador paraibano famoso na primeira metade do século 20 também por capas de livros de grandes escritores brasileiros), Calazans Neto (ilustrador baiano, fundador da Editora Macunaíma e ilustrador de livros de Jorge Amado), Potty Lazzarotto (ilustrador e gravador curitibano, fez Grande Sertão: Veredas, Capitães de Areia, entre outros). A qualidade gráfica destes primeiros livros é impressionante, eles deveriam ser reeditados!

Esconderijos: E a criança, que é o destino, digamos, principal destes livros, o que ganha com isso?

Roger: A criança é o fim, mas também é o princípio. O fim é a gente mesmo, a criança é mais um motivador. Todos nós ganhamos muito.

Ninguém resistiu a tirar uma foto com o nosso premiado preferido do ano. Nem eu.

ROGERECRIS

 

E registrei o encontro entre ele e um grupo de coreanos da ilha de Nami, orgulhosos também tanto quanto nós!

ROGERECHINESES

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