Bologna 2014: Brasil, o País da Ilustração

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EXPO2Nossas casas, Brasil, abril de 2014. Para muitos ilustradores brasileiros, este abril nunca mais será o mesmo. Isso porque para quem faz livros ilustrados no Brasil a edição da Feira do Livro Infantil em Bologna, na Itália, que aconteceu de 24 a 27 de março, foi inesquecível. Até mesmo para quem não estava lá. O Brasil foi o país homenageado (pela segunda vez, a primeira aconteceu em 1995). O ilustrador, escritor, artista plástico Roger Mello ganhou o Prêmio Hans Christian Andersen de ilustração, o “Nobel” da literatura infantil no mundo. Foi, sem dúvida alguma, um marco. Não apenas para o mercado, não apenas para lembrar que a feira de Bologna é uma feira de negócios. Mas um divisor de águas para que o talento e a paixão pelo livro ilustrado no Brasil ultrapasse as fronteiras da imaginação e da criatividade dos artistas e chegue aos leitores (crianças e adultos), com o selo de qualidade o qual não é preciso marca, logo ou autentificação: apenas a emoção de ter estas obras-primas nas mãos e guardar em nossos esconderijos do tempo. Eu estava lá na verdadeira catarse que se construiu ao redor de nosso país e conto a vocês.

 
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Bem, era a 51o edição da Feira e a minha primeira vez. Mas não só eu estreava por lá: até mesmo Eva Furnari, uma das principais artistas de nossa literatura infantil, visitava o grande espaço Bologna Fiere pela primeira vez. Este gostinho da primeira visita vem acompanhado de encantamentos, sem dúvida, mas fui privilegiada: havia muitos brasileiros presentes e uma exposição que fazia do Brasil também o país da ilustração (embora a Copa do Mundo estrelasse nos discursos, claro). A exposição Brazil Countless Threads, Countless Tales (Brazil Incontáveis Linhas, Incontáveis Histórias) exibia um panorama dos traços, formas, cores e texturas dos livros ilustrados no Brasil, com uma lista de 55 artistas relacionados por uma sempre sofrida seleção (só quem coordenou listas na vida sabe o quanto é dura a escolha!). Na praça central da feira (que ao todo tem mais de 20 mil metros quadrados), ilustrações pinçadas de livros eram exibidas por baixo de vidros, na horizontal, sobre bancadas coloridas.

EM DESTAQUE, ILUSTRAÇÃO DE LAMPIÃO E LANCELOTE, DE FERNANDO VILELA E SUCESSO EM BOLOGNA EM 2007 COM O PRÊMIO BOLOGNA RAGAZZI, CATEGORIA NOVOS HORIZONTES, MENÇÃO HONROSA)
EM DESTAQUE, ILUSTRAÇÃO DE LAMPIÃO E LANCELOTE, DE FERNANDO VILELA E SUCESSO EM BOLOGNA EM 2007 COM O PRÊMIO BOLOGNA RAGAZZI, CATEGORIA NOVOS HORIZONTES, MENÇÃO HONROSA)

Uma primeira olhada e a primeira evidência surgia: Brasil é pura diversidade. “É muito difícil falar da arte brasileira por apenas um ponto de vista. Cada um pode fazer um recorte diferente, cada um de nós tem uma leitura própria”, disse o ilustrador e escritor Fernando Vilela. “Esta característica da diversidade poderia ser um problema para criar uma identidade única. Ao invés disso, fizemos o inverso e vimos que a pluralidade poderia ser o caminho e buscamos grupos que se unificassem nessa diversidade”, completou o também ilustrador e escritor Odilon Moraes que, ao lado de Fernando Vilela, Graça Lima, Mariana Massarani e Roger Mello, formou a equipe de artistas consultores da mostra.

 

CAPA DO BELO CATÁLOGO DA EXPOSIÇÃO
CAPA DO BELO CATÁLOGO DA EXPOSIÇÃO

A curadoria foi feita pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) junto com a Biblioteca Nacional. O conceito que deu nome à mostra foi criado pela escritora Ana Maria Machado. Em sua página no Facebook, a ilustradora Graça Lima fez questão de contar o processo. Recebemos um conjunto de imagens já selecionadas e contruímos uma lógica narrativa que representasse nossa diversidade. Trabalhamos muito durante as festas de fim de ano para que houvesse a possibilidade fazer acontecer algo.” Nas mãos da designer Silvia Negreiros ficou a responsabilidade de criar o catálogo, um livro de 152 páginas disputadíssimo na feira, com três ilustrações de cada artista e a biografia. Graça também fez um desabafo: “Muitos levantaram duvidas sobre a idoneidade de quem estava no processo. Não cabia no momento uma fala, pois na verdade, nem nós mesmos sabíamos se, no fim de tudo, conseguiríamos montar a exposição. Fizemos um esforço apenas movidos por uma espécie de sentimento cívico. A correção pautou nosso trabalho, e creio que todos sabem da trajetória e da formação de cada um de nós. Não fomos curadores, portanto as escolhas de quem estaria, antecedem nosso trabalho. Não havia tempo nem para escolher outras imagens, além das que nos entregaram, por isso o processo teve de ser o mais cuidadoso possível. Quando os originais chegaram e fizemos a última organização, no auditório da Biblioteca Nacional, ficamos emocionados”. E ainda fez sua previsão: Importa que o Brasil estava lá e que ainda fomos presenteados com o prêmio do Roger. Importa que muitas portas foram abertas e certamente muitas outras mostras brasileiras serão organizadas com diferentes formatos, participantes grupos organizadores. Peço que todos nós nos comprometamos com a construcão e consolidação do espaço da ilustração no Brasil.”

 

FERNANDO VILELA, ODILON MORAES (ESCONDIDO), ROGER MELLO, A TRADUTORA PARA O ITALIANO, ZIRALDO, GRAÇA LIMA E ELISABETH SERRA (secretária-geral da FNLIJ)
FERNANDO VILELA, ODILON MORAES (ESCONDIDO), ROGER MELLO, A TRADUTORA PARA O ITALIANO, ZIRALDO, GRAÇA LIMA E ELISABETH SERRA (secretária-geral da FNLIJ)

Na mesa redonda em que os consultores falavam sobre a mostra, Ziraldo foi o homenageado, por todas as razões que a gente já possa imaginar. Embora sem deixar de lado seu tom sarcástico que o caracteriza, fez um depoimento emocionante: “Eu vi cada um destes artistas nascer. É a coisa boa de ser velho. Vou voltar para o Brasil muito feliz, com o prêmio do Roger, nosso herói. Ele representa esta evolução e vejo muitos outros aqui que também poderiam ter ganhado como ele”. O Brasil vai ser homenageado em mais três feiras: Paris, Londres e Nova York. Aguardem!

 

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