BOLOGNA 2014: André Neves e a árvore da vida

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Fiquei somente quatro dias na cidade de Bologna, Itália, enquanto acompanhava a mais vibrante feira do livro infantil do mundo. Mas uma das coisas que mais me impressionou foi a Biblioteca Salaborsa, na belíssima Piazza Maggiore, o coração de Bologna. Ela foi inaugurada em 2001 e fica dentro do Palazzo D’Accursio, uma majestosa construção histórica. Só isso já faz dela um lugar primoroso, com arcos e vitrôs de tirar o fôlego, uma arquitetura impressionante que a gente se perde no olhar.

Mas tem mais: um espaço dedicado às crianças em que a gente quer sentar e não sair mais. E outro só para pais e bebês se perderem nos livros.

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Nesta temporada, a exposição da vez era uma sobre quartos infantis, a uma viagem por décadas pelo famoso design italiano, com brinquedos e mobiliários de 1900 a 1950 – La camera di bambini: giocattoli e arredi della collezione Marzadori 1900-1950. Ela ficava bem no meio do salão principal, maravilhoso.

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Os detalhes dos brinquedos em bom estado, pareciam nos dizer histórias.

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Mas houve uma espécie de catarse por ali, no dia 25, segundo dia da feira. Há sempre uma programação que ultrapassa os limites da Bologna Fiere e, nesta, o encontro era com o ilustrador e escritor André Neves (autor de Tom, Obax, Malvina, A Caligrafia de Dona Sofia e outros) e um grupo de italianos megaespeciais: crianças entre 6 e 8 anos. Uma oficina de artes e uma conversa sobre livros.

andre1Fiquei sabendo antes, mas não pude ver de perto. As fotos são do próprio André que, na noite durante nosso jantar, não conseguia ainda descrever a emoção da experiência para mim e outros amigos.

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As imagens nos dão uma pista, mas esta conversa que tive com ele depois explica melhor.

André Neves escritor

ESCONDERIJOS: O que era o evento, e por que convidaram você?

André Neves: Faz parte dos eventos paralelos à feira. A biblioteca, no centro de Bologna, acumula atividades com convidados que prestigiam o evento. O convite aconteceu via biblioteca e editoras que me publicam por lá.

ESCONDERIJOS: Quantos anos tinham as crianças? Você que livros elas conheciam?
André: Entre 6 e 8 anos. Os livros foram das Editora Franco Panini e Il Giocco di Legere. Mas eles conheciam outros traduzidos e apresentei obras brasileiras.

ESCONDERIJOS: Como foi a comunicação com elas?
André: Sim, falei no meu italiano não muito bom, mas criança é criança, sem limites para interagir. Foi fantástico.

ESCONDERIJOS: O Tom e a criança (na capa) no centro da árvore, então, as impressionou, certo?
André: Sim, assim que mostrei a capa do livro.

ESCONDERIJOS: Dá para descrever a reação delas ou de alguma delas? Alguma criança falou algo impressionante, marcante, engraçado, emocionante?
André: Sim. Elas disseram coisas como:
“Tem uma criança dormindo no centro da árvore.
“Ela está sonhando.”
“Os pássaros são folhas e estão cuidando dela.”

ESCONDERIJOS: Você me disse que criaram, então, juntos, uma árvore da vida. Como foi? O que vc desenhou e o que elas completaram? Elas foram fazendo rápido ou pararam para pensar, ficaram envergonhadas?
André: Eu havia feito uma ilustração semelhante para um livro italiano da editora Franco Panini. Para o conto tradicional A Festa no Céu. Eles identificaram no mesmo momento minhas aves. Juntei os dois livros e dialogamos sobre uma árvore da vida, o renascimento pela natureza.
A ideia surgiu na hora, decidi agir assim, sem nada preparado porque não tinha noção dos resultados. Tudo correu tranquilamente e tive ajuda dos professores que complementaram minha ideia ao participar da atividade.

ESCONDERIJOS: Consegue me descrever mais sobre a emoção deste dia? O que teve de mais especial? O que mudou em vc?
André: Esse ano foi especial. Ano Brasil. Roger Mello compartilhando e construindo com todos um orgulho danado do que fazemos aqui. Esse ano me emociona e todas as forças contrárias que poderiam existir caíram em esquecimento pleno. Somos verdadeiros profissionais de uma trajetória brasileira. Cultural em sua raiz. Compartilhar esses valores com estrangeiros e ser compreendido foi abraçar todos os ilustradores que estavam ali mostrando uma só voz. O livro é algo realmente mágico: une, conforta e alegra.

Um beijo para todos leitores e para você que faz o tempo da leitura acontecer.

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