BOLOGNA 2014: Gregos, troianos, brasileiros e italianos juntos

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De um lado, Calcas, Pátroclo, Agamenon, Diomedes, Menelau, Ájax, Odisseu, Aquiles, Nestor, Hera. De outro, Príamo, Heitor, Eneas, Apolo, Páris, Dólon, Sarpédon, Heleno, Ares, Helena. Entre esta turma aí de, você sabe, gregos e troianos, dois brasileiros e um italiano. Sem dúvida, uma partida que promete muita emoção!

Este é a espinha dorsal de Futebolíada, escrita por José Santos, ilustrada por Eloar Guazzelli e lançada em na Feira do Livro Infantil de Bologna pela Editora DSOP. É isso mesmo: José teve a ideia de recontar o poema épico Ilíada, o clássico dos clássicos de Homero, primeira grande obra da literatura ocidental como se fosse uma partida de futebol. Poemas curtos expõem as características da obra e dos personagens e levam o leitor a uma original viagem com muito humor e liberdade, em referência ao último ano da Guerra de Tróia e toda a ação devido ao episódio de desentendimento entre Aquiles, o maior dos guerreiros gregos, e o chefe das tropas, Agamenon.

A ideia da brincadeira é de Zeus, o pai dos deuses.

Fincou lá na beira-mar

quatro traves de madeira.

Convocou os jogadores

e começou a brincadeira.

Só que Hera e Apolo em campo parece um tanto desleal! Mas, nem por isso, a partida não deixa de parecer apenas uma pelada. Aquiles, claro, leva um carrinho no calcanhar… Tem até briga e Odisseu sai mancando, sob vaia. Mas eis que surge o inesperado e, para saber o final, só lendo mesmo. E tudo isso no traço inconfundível de Guazzelli, que balanceia humor, detalhes, movimentos altamente expressivos, neste também jogo de cores e formas que o projeto gráfico cuidou de mostrar bem (as ilustrações fizeram parte de uma bela exposição sobre literatura e esporte no Museu de Arqueologia de Bologna!).

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Ler é o principal convite do livro: inspirar a criança a querer conferir o original (há diversas versões e adaptações prontas para serem conferidas). “Li ainda criança um texto em prosa adaptado e achei encantadora aquela guerra sem censura. É um texto que mexe com todo o mundo mas, principalmente, com o meu ‘eu menino'”, contou José Santos e um encontro sobre o livro na feira. “Eu gostava de desenhar a Guerra de Tróia, e torço para os troianos! Eu tenho este péssimo hábito de torcer para quem perde”, diverte-se Guazzelli. E, para fazer o livro, resgatei tudo do meu imaginário, foi quase um presente. Desenhei Tróia de olhos fechados”, conclui.

Mas e o italiano? Pois é, a turma responsável pelo livro decidiu que, lançando em Bologna, deveriam levar uma versão em italiano e publicaram lá uma edição bilíngue com o título de Un Derby Epico (poderia ser traduzido como “uma partida histórica” ou, como nós dizemos, “um clássico”). A tradução ficou a cargo do escritor e educador Roberto Parmeggianni (de A Lição das Árvores http://esconderijos.com.br/?s=lição+das+árvores, que já falei aqui). “Foi terapêutico”, confessa Roberto. “Um jeito novo de contar uma história que, do jeito que se aprende na escola aqui na Itália, sempre achei chata. Mas eu gostei sempre da parte do cavalo e de Aquiles, o herói fraco, com limites. Não à toa comecei a trabalhar com crianças que têm limites.” Mas todos confessaram que a parte divertida ficou para a tradução de expressões como “drible da vaca”. O italiano de Roberto deveria, claro, acima de tudo agradar seus conterrâneos. “Traduzir é ser também um pouco como educador. Tem a criança, os pais e eles têm uma história e você tem que cuidar desta história. José escreveu, sonhou… eu precisava respeitar isso. O título foi o que mais mudou”.

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Futebolíada (Editora DSOP)

textos de José Santos

ilustrações de Eloar Guazzelli

2014

palpite: para crianças de 7 anos a 100 anos (especialmente as fanáticas por um futebol!)

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