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Castelo Rá-Tim-Bum: histórias e memórias

O que causaria a você encontrar os figurinos e cenários de seu programa preferido na infância? Sim, aquele programa guardado em seu Esconderijo do Tempo? Segue aqui um relato de Beatriz Fiorotto, 19 anos de idade e estudante de Rádio e TV, e que cresceu ouvindo “bumbumbum, Castelo Rá-Tim-Bum” e, esta semana, foi à TV Cultura conferir a exposição que começa as comemorações de 20 anos da estreia de um dos mais premiados programas infantis brasileiros. O canal, que completa 45 anos de atividade este ano, abriu as portas para participar da 12ª Semana de Museus, evento promovido pelo governo do Estado de São Paulo, cujo tema este ano é Museus: as Coleções Criam Conexões.

Segue o texto sensível de Beatriz para todos viajarem no tempo ao lado dela!

É pique, é hora, Rá-Tim-Bum!

No dia 13 de maio de 2014, peguei um ônibus que saía do Terminal Barra Funda e me levava pra um encontro delicioso. A TV e Rádio Cultura abriram as portas para uma visita que faz parte da programação da 12ª Semana de Museus, evento anual que comemora o dia do museu (18/05). Os visitantes inscritos por e-mail foram levados pelas dependências da TV e da rádio, pra entrar em estúdios, conhecer cenários e até bater um papinho com alguns dos comunicadores de lá.

Mas o grande motivo da visita foi a exposição que celebra os 20 anos do Castelo Rá-Tim-Bum, amado, idolatrado (salve, salve!) por quase todos que tiveram a oportunidade de ver os episódios. (o programa foi produzido de 1994 a 1997, mas ainda nunca deixou de ser exibido).

 

   “Morcego, ratazana, baratinha e companhia! Está na hora da feitiçariaaaa!”

“Morcego, ratazana, baratinha e companhia! Está na hora da feitiçariaaaa!”

Fomos levados até o Museu FPA (Fundação Padre Anchieta) para conferir figurinos, peças de cenários, bonecos, artes conceituais e até cartinhas enviadas pelos fãs pequeninos na época da exibição original. A reação geral foi linda. Todos queriam fotos com os personagens (uma selfie com a Celeste era quase parada obrigatória), e olhavam com encantamento nos olhos.

Provavelmente, o item mais impressionante é a maquete feita por Silvio Galvão, chefe do Departamento de Efeitos Especiais da TV Cultura no período. Enorme, foi usada para fazer cenas externas, a abertura e o encerramento do programa. Muitos passaram vários minutos apreciando a obra, e abrindo um sorriso a cada nova surpresa nos cantinhos: gárgulas, janelinhas e até a bandeirinha do castelo, fincada no topo da torre mais alta.

O jeito mais fácil de captar o castelo todo era de longe. Assim, bem de lonjão mesmo
O jeito mais fácil de captar o castelo todo era de longe. Assim, bem de lonjão mesmo

Me senti num sonho. Como fã de programas infantis e estudante de Rádio e TV, me encantei com os detalhes de produção, com o cuidado com os materiais, as cores, tudo. E descobrir certas alusões (como a da constituição da fantasia do Etevaldo, que referencia até a Esfinge com seu queixo alongado) feitas pelos artistas envolvidos foi impressionante. Mas quem se sentiu melhor mesmo foi a Beatriz criança, que sentava no tapete da sala pra acompanhar histórias maravilhosas contadas por gente que sabia o que estava fazendo.

 

Mau, que na verdade é um cara legal!
Mau, que na verdade é um cara legal!

 

Na hora da saída, todos pareceram olhar pra trás com vontade de ficar bem mais. A frase “Nossa, não quero sair daqui nunca!” foi constantemente falada. Por mim, inclusive!

Ao final, fomos convidados a preencher uma ficha cadastral dentro de uma salinha. E mal sabíamos as surpresas que nos esperavam.

A tal salinha estava abrigando bonecos, fantasias e outros registros de vários outros programas da TV Cultura, como o Garibaldo da primeira versão brasileira de Vila Sésamo, da década de 70, o Xis do X-Tudo, o Coisinho da Ilha Rá-Tim-Bum, o Galo Galileu do Cocoricó… Entre vários outros personagens e objetos de cenografia. Todos ficaram felicíssimos com a surpresa, e sacaram as câmeras e celulares para mais fotos.

Garibaldo, Xis e Coisinho: encontro de gerações! O bonecão da Vila Sésamo, que é amarelo no original americano, aqui era azul porque o programa exibido no início dos anos 70 era em preto e branco
Garibaldo, Xis e Coisinho: encontro de gerações! O bonecão da Vila Sésamo, que é amarelo no original americano, aqui era azul porque o programa exibido no início dos anos 70 era em preto e branco

Ver os personagens de perto foi muito bom! Me senti agradecida, feliz, e cumprimentei um por um. Bem baixinho, mas cumprimentei.

Fantasia usada por Carlos Mariano e Gisela Arantes nas gravações de Glub-Glub! Demais!
Fantasia usada por Carlos Mariano e Gisela Arantes nas gravações de Glub-Glub! Demais!

Essa exposição já teve suas inscrições encerradas. Mas pra quem se animou e quer ver de pertinho esses itens sensacionais, em julho o MIS (Museu da Imagem e do Som), em São Paulo, vai abrigar uma megaexposição para entrar nas comemorações dos 20 anos do Castelo Rá-Tim-Bum. Ainda não tem data confirmada, mas vale a pena ficar de olhos e ouvidos atentos!

 

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A Bruxa e O Espantalho nas palavras de Gabriel Pacheco

abruxaeoespantalho1O livro não tem palavras. Nos leva do começo ao fim, do céu ao chão, do cinzento ao azul, da solidão ao amor. E quem ficou sem palavras fui eu. Diante da primeira lida de A Bruxa e o Espantalho, do mexicano Gabriel Pacheco e lançado aqui no Brasil pela editora Jujuba, o sentimento de poesia (isso existe??) foi tão intenso que eu assumi por alguns minutos que nada poderia falar sobre ele. Mas acho que consigo aqui.

Uma bruxa voava no céu e, numa distração, em um instante cai desmantelada no chão. Um espantalho preso ao chão assiste a tudo e acompanha a tristeza da bruxa que só deseja voltar ao céu novamente. Mas ela está sem vassoura, sem nada. E ele? Ah, ele está disposto a tudo para fazê-la feliz. É uma história de amor? De resiliência? De compaixão? Tudo junto. Só sentindo, ops!, lendo para ver. Pois tudo vem por meio de um projeto gráfico de emocionar, com ilustrações belíssimas e sombrias, delicadas e expressivas com pequenos detalhes (daqueles que você descobre e redescobre em leituras posteriores). Tem vento nele o tempo todo. Embora denso, forte e preciso, parece que o livro vai sair de nossas mãos. Só experimentando mesmo.

A Bruxa e o Espantalho mora há uns 10 anos na alma de Gabriel Pacheco, este mexicano premiado em sua terra natal e na Feira de Bologna (Itália), e que hoje mora em Buenos Aires, na Argentina. Foi nos bosques da cidade portenha que ele se inspirou para as belas imagens que você vê aqui. Conversei com ele sobre o livro e vejam até onde pode ir a alma de um artista.

 

FOTO DE ALICIA SUÁREZ
FOTO DE ALICIA SUÁREZ

ESCONDERIJOS DO TEMPO: A Bruxa e o Espantalho é seu primeiro livro como autor no Brasil? Eu encontrei apenas outros que você ilustrou. Quantos livros você já fez ao todo?

GABRIEL PACHECO: Como autor do texto e imagem, sim, e este livro tem uns 10 anos aproximadamente. Agora tenho mais dois livros escritos e ilustrados por mim que serão publicados no próximo ano e, espero, também possam ir para o Brasil. E, como ilustrador, são cerca de 40 livros, entre clássicos e livros ilustrados e livros álbum.

ESCONDERIJOS: Ele foi lançado em 2011, ok? Me conte como nasceu a ideia do livro, o que o inspirou.

GABRIEL: O livro nasceu de uma oficina que tive a sorte de fazer com Satoshi Kitamura (autor de livros como O que é que tem o meu cabelo?), em 2004, na Cidade do México. Naquela época, eu tinha na cabeça uma ideia que falava sobre o amor e a entrega, mas além do recebimento deste amor, uma ideia do amor romântico e de seu devaneio. Então, comecei a pensar em dois personagens que pudessem jogar com esta ideia e resultou em uma bruxa que deseja voar e um espantalho que está preso no chão e sempre olha para o céu. Esta oposição me pareceu muito interessante, e então mantive a ideia até que, na oficina, escolhi uma frase para trabalhar: desfazer do amor. Esta foi a origem, pensar que alguém se desfaz literalmente do amor é uma possibilidade de brotar algo novo. Claro, acontece tudo isso sob uma atmosfera cinzenta, muitas sombras, somando poucos momentos de luz, como se tudo fosse um tanto às escondidas. O único momento de cor na noite é justamente quando eles se encontram. É o “azul oceânico”, diria o poeta Ruben Darío.

ESCONDERIJOS: Quanto tempo você levou para fazer A Bruxa e o Espantalho? Levou mais tempo que outros?GABRIEL: Na verdade não levou muito tempo para ser feito, mas ficou guardado na gaveta, pois eu não me sentia seguro em publicá-lo. Foi trabalho da editora Eliana Pasarán, que insistiu para eu finalizá-lo. E uma vez decididas as imagens e alguns detalhes, foi pouco tempo para finalizar as ilustrações, e eu tinha um estilo pouco definido. E, por isso, significou um momento definitivo no meu trabalho.

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ESCONDERIJOS: O que este livro tem de especial para você?

GABRIEL: Com certeza é um livro que significa um tempo, uma forma de ver as coisas e uma aproximação com isto que amo, que são os livros. Mas significa também um ciclo em relação à ilustração e ao estilo, porque agora tento me distanciar dele, do estilo. Quando olho de longe, vejo que o livro é um momento artístico do meu trabalho. Por outro lado, pensar que posso imaginar histórias me abriu outra possibilidade: de me aproximar de outros tipos de projetos e outras relações entre a imagem e a palavra.

ESCONDERIJOS: Aqui no Brasil os livros só com imagens são pouco vistos ainda pelos leitores. Qual a beleza de um livro só de imagens, por que você gosta de fazer?

GABRIEL: Até recentemente, pouco se trabalhava com a ideia do “silente book”, o “livro silencioso.” A beleza destes livros é que ela oscila por sua própria natureza,  pois guardam sempre uma grande margem de possibilidades e permitem folgas ao mostrar o objeto vivo. E essas “folgas” narrativas são propostas e preenchidas pelo leitor. E assim, o ato de ler enfim se confirma como uma ação criativa.

ESCONDERIJOS: Por serem livros “para crianças” tem algum receio de fazer algo que pareça “sombrio”, como este? Qual a importância de a criança ter acesso a tipo de imagens diferentes, experimentar leituras diferentes?

GABRIEL: Sempre existiu um controle do que é permitido passar às crianças, mas penso que mostrar a diversidade é uma boa forma de aproximá-los e falar sobre o mundo em que vivemos. Eu não creio que haja temas impossíveis para uma criança e penso que o livro é inclusive um universo que permite tudo, qualquer tema, qualquer ideia, a mais complexa ou a mais densa. Se pensamos o livro como um interlocutor, precisamos pensar em como falar a uma criança, e não preferir o silêncio, o não dizer.

ESCONDERIJOS: Fale um pouco sobre as técnicas usadas, que importância e que histórias paralelas elas contam para nós?

GABRIEL: A técnica foi uma série de muitas. Tem trabalho em acrílico, texturas digitais, fotografia e colagem. Por exemplo, as árvores vêm de umas fotos que tirei dos bosques do bairro Palermo, em Buenos Aires. O presente que encontrei neste livro foi que era uma história simples que me permitiu trabalhar com certas metáforas e, simultaneamente, outras ideias foram se amarrando à história principal. Por exemplo, a história da ave fêmea que faz o ninho e encontra o macho no meio da noite; ou a do nariz do espantalho que ao final se transforma em pasto ou nuvem… Há também inclusos certos jogos abstratos, por exemplo, me interessei muito pelo jogo de “em cima” e “embaixo”, ou “voo” e preso ao “solo”. São caminhos que me permitiram sugerir uma espécie de paisagem por onde o leitor pudesse desbravar, sem a ideia de uma única trilha e, sim, de muitas.

ESCONDERIJOS: Você teve algum retorno de leitores, alguma história de crianças sobre o que elas acharam do livro? Quer contar?

GABRIEL: Sim, alguns professores têm me enviado atividades em que pedem às crianças que escrevam a história, e o uso de adjetivos e nomes é algo belíssimo. Acho particularmente algo interessante do livro, adjetivar uma imagem sem palavras, pois a ilustração sem texto acaba sendo um pequeno espelho de si mesmo. Dizer e nomear o mundo é importante, mas dizer isso com tons e luzes é fascinante.

ESCONDERIJOS: Por que escolheu uma história de amor? É este um amor improvável ou correspondido?

GABRIEL: Escolhi uma história de amor porque sempre gostei de pensar sobre isso. Creio que é uma veia que irriga a vida dos seres humanos, e muito parecido com o desejo, a ambição. Penso que são as asas que sustentam tantas coisas… Assim, não saberia dizer se é improvável ou não correspondido, penso que o amor é um ato cego que ilumina e se somos iluminados, temos algo para ver. Se um ama, pouco importa que seja correspondido; de fato, o improvável é o melhor, pois nos enchemos de vida.

ESCONDERIJOS: Quando leio o livro, sempre percebo a história de amor. Mas também penso no conceito de vida-morte-vida, de que a psicanalista e escritora americana-mexicana Clarissa Pinkolas Estés fala em Mulheres Que Correm com os Lobos (Ed. Rocco). Ela diz que este conceito estudou observando lobos, que são ótimos em relacionamentos e conta em um de seus livros que os homens poderiam aprender com isso. Ela diz que encarar um relacionamento vida-morte-vida é quando não saímos mais por aí à caça de fantasias, mas nos tornamos conhecedores das mortes necessárias e nascimentos surpreendentes que criam o verdadeiro relacionamento. Pelo mito da “Mulher-esqueleto” , Clarissa afirma que é demonstrado que uma vida compartilhada, nos fluxos e refluxos, em todos os finais e reinícios, é o que cria um inigualável amor de devoção. Será a Bruxa e o Espantalho uma fábula sobre o amor moderno?

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GABRIEL: Não estou certo de que seja uma história do amor moderno, penso mais ser de um amor da essência, o que talvez tenhamos esquecido. É claro que há uma conexão direta com a morte, com o impossível, com o que nos abandona e como seguir em frente de outras maneiras. Como temos a morte como certa, imaginar e desejar são a pulsão que nos sustenta, por isso continuamos e nos mantemos vivos. Neste ponto que esses seres que conseguem se desfazer pelo outro conseguem transcender, continuar, seguir, porque permitem “apesar de”.  De alguma maneira o amor é desejar um pouco de cada vez. Por isso a bruxa é abandonada e o espantalho se abandona por ela, mas nesse desejo há muitas formas de se encontrar. Brotar seria a palavra. O amor é uma forma de voltar a brotar, como uma fibra, uma grama. A grama azul que brota.

ESCONDERIJOS: E você, Gabriel, o que você já viu de maravilhoso olhando para o céu?

GABRIEL: Vejo que nosso verdadeiro lugar se encontra lá, em cima de nós.

ESCONDERIJOS: Última pergunta: o nome do meu site, Esconderijos do Tempo, vem da ideia de que nós guardamos conosco memórias de cultura, memórias de infância ou até vividas depois, que guardamos para sempre em um “lugar” só nosso. Qual é a lembrança que você guarda no esconderijo do tempo?

GABRIEL: Creio que somos memórias, tudo isso que recordamos e nos faz ser. Assim, somos todos um “esconderijo do tempo”. Que bela ideia de usar este nome, porque de alguma maneira somos só o que vai ficando e também isso que vai ficando de nós nos outros, como se fôssemos esconderijos. Sim, o que o tempo nos permite guardar…

Bruxa Zelda e os 80 Docinhos

BRUXAZELDABORISPHavia uma cidade, um cientista, um assistente de cientista, uma bruxa e, claro, um urubu. Ah, também havia o Ladislau, primo do cientista e que começa toda a história. Ele manda uma carta ao primo:

Primo Bóris,
Você não vai acreditar. Lembra que o vovô Petrônio vivia procurando um papel que ele tinha perdido, um manuscrito antigo com a fórmula mais cobiçada do mundo, o elixir da juventude?
(….)
Pois agora eu achei aquele papel, Bó! Pode acreditar, era tudo verdade! Ele estava perdido na própria biblioteca, dentro de um dicionário russo. Eu li a fórmula e não entendi nada, logo vi que era uma coisa pra você, que é cientista. Estou muito curioso para saber no que isso vai dar, não demore a responder.

Bem, como se trata de um livro de Eva Furnari, uma das principais autoras de literatura infantil no Brasil e uma mestre do nonsense, é claro que a história, a partir desta carta, só vira do avesso. Quando você termina de ler Bruxa Zelda e os 80 Docinhos está com aquela sensação de que acaba de sair de uma ventania, sabe? Uma ventania de criatividade, diversão e arte.

Bem, no decorrer da história, a gente descobre que o cientista Bóris ficou tão empolgado que não percebe quando o urubu Astolfo, fiel escudeiro da Bruxa Zelda, ouve tudo e vê que a fórmula do elixir foi anotada em um caderno amarelo. A partir daí, parece fácil conseguir a fórmula. Mas em uma outra casa, na mesma Piririca da Serra, havia o Nicolino, assistente do professor Bóris e sua tia, a Tia Ambrósia. Com esse nome, adivinha o que ela tinha também: um caderno amarelo. De receitas.

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Dá para imaginar a confusão, certo? Mas não dá para perder como ela é contada, pois este é uma das delícias de ler Eva Furnari: a escolha da trama, os nomes, a forma como começa e termina, a maneira como nos faz viajar na história, o humor, o sentido e o nonsense caminhando juntos. Tudo isso com um jogo com as imagens divertido e que funciona para deixar o leitor cada vez mais envolvido. As soluções e as dissoluções da narrativa são o deleite principal: é esse ir e vir amalucado que faz esta reedição, 20 anos depois, ser perfeita para ser relida. Ou lida pela primeira vez, o que seria ainda mais apetitoso, somente como 80 docinhos poderiam ser.

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Bruxa Zelda e os 80 Docinhos (Ed. Moderna)
textos e ilustrações de Eva Furnari

2014

palpite: para crianças de 7 a 100 anos

Katia Canton e suas fabriquetas de ARTE

katiacantonfotoConheci a autora Katia Canton bem no meu começo de vida na revista Crescer. De cara me apaixonei pelo jeito dela de fazer questão de compartilhar conhecimento. E este desejo dela constante era aliado a um respeito muito grande aos artistas que ela exibia – até porque, ela mesma é artista plástica e sabe como ninguém como gostaria de ser tratada – e também um cuidado delicado de como faria. O primeiro livro sobre o qual conversamos foi o belíssimo Brincadeiras (Ed. Martins Fontes, 2006) com pinturas dela e de ninguém menos que Alfredo Volpi. O jeito que ela fala com a criança desde a introdução é um deleite, pela simplicidade e sinceridade. O nome do capítulo é Volpi, O Tio Que Eu Queria Ter e começa assim:
“Não, ele não é meu tio de verdade, mas bem que eu gostaria que fosse… A solidez óssea de sua face, o nariz e as orelhas protuberantes, o olhar sereno sublinhado por bolsas profundas, a idade avançada compunham um retrato de força e dignidade.”
Katia sempre está preocupada em fazer o convite e acho isso uma espécie de dádiva. Por isso, ela tem uma série de livros sobre arte e histórias para crianças em que a brincadeira é contar o que sabe, criar e inspirar ideias novas.
Acontece o mesmo em Fabriquetas de Ideias (Ed. Companhia das Letrinhas), que Katia lançou recentemente sugerindo – mas sem julgar! – que a gente pare para brincar com papel, lápis e tesoura usando o nosso bem mais precioso: a imaginação.

São mais de 80 opções de brincadeiras e atividades, acompanhadas de uma deliciosa linguagem e com reflexões sobre arte, ecologia, cultura, história e literatura. Para, acima de tudo, divertir e proporcionar bons momentos, daqueles de guardar na memória. Ele começou com uma série de artigos e ilustrações que ela fez por mais de dois anos para o caderno Estadinho, do jornal O Estado de S. Paulo. Mas as ideias continuaram a tomar corpo e se organizaram nesta espécie de almanaque-de-fazer-coisas-legais que, para mim, se torna imprescindível a qualquer infância. Tudo curtinho e rápido para fazer e refazer em casa, na escola, em dia de chuva, num piquenique no parque, em grupo, sozinho, dupla, com o amigo, o avô, o primo que chegou de longe… um convite ao brincar!FABRIQUETAdentro1
Conversei com Katia sobre este projeto. Acompanhem aqui!
ESCONDERIJOS DO TEMPO: Como nasceu a ideia da Fabriqueta de Ideias? Você quem escolheu o nome?
KATIA CANTON: Eu mesma que escolhi, pois pensei que uma fábrica pode produzir muitas coisas, produtos. Uma fabriqueta, uma fábrica pequenina, teria uma conotação carinhosa, e seria pensada para propor novas ideias e possibilidades criativas para as “crianças de todas as idades”.
capa Fabriqueta de Ideias

ESCONDERIJOS: É lindo o seu texto de abertura do livro, em que você fala que a arte é um exercício de liberdade e que, por outro aspecto, é uma maneira de transmitir cultura, conhecer o mundo. Para você, o que é arte? E o que é cultura?
KATIA: Arte é uma manifestação da cultura. Ela é capaz de levar para caminhos diferentes, que se bifurcam: por um lado, arte é uma herança cultural, pois testemunha a história de um povo e de um contexto; por outro lado, arte é subjetividade, pois ela representa uma experiência única. Cada pessoa pode reagir de uma maneira única e ter reações e sentimentos muito diversos diante de uma mesma obra de arte.

ESCONDERIJOS: Como podemos passar esse conceito para crianças? E é possível também para as que já cresceram, os chamados “adultos”, rs?
KATIA: Sim, acredito que o instrumental das ideias, da criatividade, do lúdico é importante para que nos tornemos seres humanos melhores. Trata-se de algo precioso na educação das crianças e também igualmente útil para a reciclagem de nossos pensamentos, crenças, possibilidades como adultos que desejam fazer a diferença no mundo.

ESCONDERIJOS: Conversamos rapidamente sobre a questão das pessoas (o governo inclusive) não entenderem ou não investirem no acesso à arte e à cultura? Estamos vivendo no Brasil uma onda de manifestações que estão nos apontado muitas faltas. A arte e cultura
estariam nesta lista? No que o acesso à cultura pode mudar um cidadão, uma sociedade? E, por conta disso, qual a importância de iniciar ainda na infância?
KATIA: A arte representa uma possibilidade, uma experiência de exercitar a liberdade crítica e construtiva para mudarmos o país e o mundo. A vida atual é cheia de respostas prontas e modos digitais de existência. Já a arte vai na contramão dessa padronização de comportamentos e ideias pois nos faz enxergar as coisas de maneiras constantemente diferentes. A arte e a criatividade serão cada vez mais valorizadas num futuro próximo como bens fundamentais, bases de uma mudança positiva de atitude. Quanto mais cedo se introduzir essa possibilidade de criação, logo na tenra infância, melhor para as crianças, pois estarão mais preparadas para testar novos limites e possibilidades. O mundo, afinal, não para de mudar. E isso, numa rapidez incrível!

ESCONDERIJOS: No Fabriqueta, você dá informações sobre artistas, ensina técnicas de arte, brinca com conceitos da nossa língua… E nos conta que o livro é, na verdade, a sua história de vida, o que você fazia na infância e o que você aprendeu na profissão de ser artista e compartilhar arte. Inspirada nos temas que você dividiu o livro, diga pra mim:
– Com qual artista você mais se identifica e por que?
KATIA: Adoro os artistas que adoram as crianças, tipo Miró, Chagall, Karel Appel, Ernesto Neto, Luiz Hermano, Leda Catunda, entre outros.

– Das técnicas divertidas, há alguma que lembre uma boa história
pessoal? Pode ser de quando você a aprendeu ou de quando você fez com o seu filho João, ou de quando você estava em uma oficina.
KATIA: Sempre adorei brincar com o João de desenhar com carimbos. Adorava pegar carimbos com desenhos de bichinhos, por exemplo, e criar com eles contornos de outros objetos e retratos, por exemplo.

– E dos passatempos artísticos? Qual marcou mais”
KATIA: Um que me emociona é o pote de desejos, que uma amiga querida e ex-aluna, a Paula, fez para mim e sempre me acompanha: um vidro de azeitonas vazio, que ela enfeitou e encheu com pequenas frases poéticas bem bacanas. Às vezes, eu o abro, leio uma frase bonita e já fico com o astral lá em cima.

– Dos seus estudos que resultaram na seção “desenhos mil”, qual surpreendeu mais você no momento do fazer? O que vem na sua memória?
KATIA: A possibilidade de desenhar sem olhar, apenas sentindo as formas, texturas e contornos das coisas. Acho isso lindo: ver com as mãos. Também adoro a ideia de fazer um desenho de um jeito e depois completá-lo de outro jeito, várias vezes, com muitas variações possíveis. É incrível o que podemos fazer com as linhas!

– E das fabriquetas de cultura, na sua pesquisa, qual é a que te toca mais
quando você a “passa para frente”?
KATIA: Acho que a ideia dos Gabinetes de Curiosidades, pois fazem parte da tradição humana desde o princípio. Sempre fomos curiosos e tivemos o desejo de colecionar e classificar as coisas, para tentar compreendê-las. Isso para mim é emocionante!

– Da seção Era Uma Vez, qual é a história do seu coração?
KATIA: Acho que como boa menina romântica, Cinderela! Com o tempo, aprendi várias versões dessa história.

– E, finalmente, do Soltando o Verbo, qual é a sua brincadeira com
linguagem preferida?
KATIA: Adoro o “Tirar de Letra”. É uma brincadeira que sempre fiz com meu filho João, desde que ele era bem pequeno: brincar com a sonoridade das palavras, tirar e recolocar letras e mudar seus significados.

ESCONDERIJOS: Katia, se você fosse descrever a si mesma rapidamente, o que você pinçaria de mais importante da sua história?
KATIA: Acho que sempre fui muito pensativa e curiosa. Sempre imaginei o mundo de mil e uma maneiras. Fui uma menininha tímida mas com um universo interno muito rico. Tinha uma fabriqueta de ideias funcionando a mil na minha cabeça…

ESCONDERIJOS: O que significa para você dividir as Fabriquetas neste
projeto gráfico tão gostoso, divertido, daqueles que a gente quer ter a
vida toda?
KATIA: Significa uma felicidade. É poder compartilhar um trabalho de muitos anos, um monte de possibilidades concentradas num só livro. Felicidade concentrada, na verdade!

Olivia Não Quer Ser Princesa

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Adoro livro-surpresa. Não, não estou falando dos livros brinquedos, livros com pop-up, livros com jogos, etc. Estou falando daqueles livros em que você tem cer-te-za de que é sobre um assunto ou, que tem determinada “mensagem” e aí, quando chega ao final, é outra. Este novo volume, Olivia Não Quer Ser Uma Princesa, da porquinha irreverente Olivia, série do norte-americano Ian Falconer, brinca com esta nossa “sabedoria”.

Olivia começa o livro deitada no chão. Sob o olhar de dúvida do cachorro e do gato da casa, o autor nos conta que ela está “arrasada”. Como Olivia é uma porquinha que sabe o que quer, já diz logo de cara para os pais:

– Acho que estou com crise de identidade.

– Não sei o que vou ser!

– Bem – disse o pai – você sempre será uma princesa!

– É esse o problema – disse Olivia. – Todas as meninas querem ser princesas.

E, então, ela começa a listar suas irritações: no aniversário de uma amiga, todas as meninas estavam de princesa com vestidos cor-de-rosa – inclusive alguns meninos; para a apresentação da escola, todas ensaiando o papel de fada das princesas; no Dia das Bruxas… bem, vocês já devem imaginar. Mas Olivia se vestiu de javali.

O que ela nos mostra é que tenta de todas as maneiras implantar um estilo próprio. É aí que Ian Falconer nos dá o traço típico de humor dele de todas as aventuras da porquinha, mas, desta vez, nos presenteando com uma bela homenagem à coreógrafa norte-americana Martha Graham, que marcou a história da dança moderna.

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Graham inventou um modo revolucionário de movimentar o corpo por meio da dança, de forma que revelaria a alegria, as paixões e os sofrimentos comuns a todos os humanos. Ou seja: cada movimento tem um significado. Em uma das duplas de páginas, ele desenha Olivia imitando uma série de movimentos da bailarina que ficaram famosos (da série lamentation, em que ela se movimenta dentro de um pano elástico) e, assim, ao mesmo tempo em que leva uma referência cultural ao leitor, demonstra o poder de uma expressão corporal. Ou seja: gosto muito do modo como ele coloca o questionamento da menina diante de uma sociedade que faz tudo igual de maneira sutil, clara e divertida. A referência se completa quando vemos um pôster de Martha acima da cama de Olivia.
Diante de tal procura de si mesma, a pequena porca perde até o sono tentando imaginar o que gostaria de ser quando crescesse. E, enquanto mergulha em diversas possibilidades, ela chega a uma grande conclusão. Conclusão esta que nos vale o livro! E nos deixa fechar a publicação com diversas perguntas: o que vale na busca por ser diferente (ou na obsessão por não ser igual) se não fizer realmente algum sentido? E como uma criança é capaz de absorver as divergências, os sentidos, as contradições de nossas sociedade? E, o mais importante: como ela mesma é capaz de julgar?

Ian Falconer lançou a personagem Olivia em 2000, inspirada no nascimento de uma sobrinha. São mais de 10 livros, todos um sucesso entre os pequenos, justamente por unir situações facilmente identificáveis do cotidiano, com questões também comuns típicas do desenvolvimento mental das crianças. Não à toa, a série ganhou uma versão em desenho para TV, que hoje passa no canal Disney Junior.

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Olivia Não Quer Ser Princesa (Ed. Globo/Globinho)
textos e ilustrações de Ian Falconer
2014

palpite: para crianças de 5 a 100 anos

VÍDEO: O prazer de publicar no Brasil

diadolivroAfinal, por que publicar livros infantis no Brasil? Qual o prazer de escrever no seu próprio idioma? O bom de ter referências de imagens da cultura brasileira?

Fiz estas perguntas para autores de livros infantis que estavam na Feira do Livro Infantil de Bologna, na edição de 2014 em que o Brasil era o país homenageado, e o resultado foi a esperança de cada um deles pelo futuro do livro infantil no Brasil.

Confiram aqui Eva Furnari, Ilan Brenman, Stela Barbieri, Fernando Vilela, Odilon Moraes, Marilda Castanha, Nelson Cruz, Eloar Guazzelli, José Santos.

E viva o Dia Nacional do Livro Infantil, 18 de abril, aniversário de Monteiro Lobato, que começou todo esse nosso sonho!


 

Lúcia Hiratsuka, Orie e seu chamado da alma

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Sempre tenho fascínio em conversar com alguém sobre a cultura japonesa. É tão diferente da nossa e tão encantadora. Quando leio, ouço ou vivo de alguma forma algo sobre ela, me sinto como se uma brisa boa me tocasse, com afeto, calma e sabedoria. Os livros infantis da paulista Lúcia Hiratsuka me fazem este tipo de carinho. A infância retratada é outra e, ao mesmo tempo, a vivida por mim, ou a que habita meu imaginário. Me encontro com os irmãos de Corrida de Caracóis e Antes da Chuva (ambos da Editora Global), me enfeitiço em Histórias Tecidas em Seda (Ed. Cortez) e acabo de me entregar completamente a Orie, que a Pequena Zahar lançou recentemente.

Ele conta a história de filha de pais barqueiros e de suas aventuras cotidianas nos rios do Japão.

ORIEDENTROP

Como quem tece seda e aprecia o tempo do rio, Lúcia nos dá em belíssimos rabiscos e frases curtas uma personagem encantadora em um livro de lembranças, lembranças da avó querida que dá nome e inspiração à obra. Em papel craft embrulhado numa capa dura de cor terra, a beleza do projeto gráfico é marcante. Você passeia nas páginas como quem pode navegar com Orie. Dá vontade de ir e vir. Como são lembranças, há passagens belíssimas como a que Orie compara o barco a um ninho. Só vendo para sentir.

Lúcia nasceu em um sítio chamado Asahi, que significa “sol da manhã”, na cidade de Duartina, interior de São Paulo, na região de Bauru. Ela conta que quando era bem pequena, sua avó rabiscou um peixinho no chão do quintal de terra. Ela fez o mesmo e nunca mais parou de desenhar. Suas garatujas também tomavam as paredes das tulhas e do terreiro onde o pai espalhava o café. E rabiscos em carvão também, para ela, queriam contar histórias e, assim, começou a Lúcia desenhista. Não demorou para que sua paixão focasse os ehons, que são os livros com ilustração. Aos 16 anos, mudou-se para São Paulo e na Faculdade de Belas Artes começou seus estudos sobre arte. “Depois que me formei, descobri a possibilidade de ir para a área de ilustração. Participei de Salões de Pintura, conquistei alguns prêmios, mas gostava mesmo de narrativas, do objeto livro, das cenas em seqüência, do universo que se abre a partir desse espaço”, conta Lúcia no site. Em 1988, recebeu uma bolsa de estudos para a Universidade de Educação de Fukuoka no Japão e escolheu o ehon como tema de sua pesquisa, e mostrou por lá em desenhos o folclore e as paisagens brasileiras. Voltou ao Brasil depois de um ano e passou a recontar e ilustrar contos e lendas japonesas, e depois, para nossa sorte, lembranças e referências viraram novas histórias. Hoje são mais de 20 livros.

Conversei com Lúcia sobre Orie e é o que vocês conferem abaixo:

foto tirada pelo escritor e mediador de leitura Tino Freitas, quando a autora visitou a ong Roedores de Livros
foto tirada pelo escritor e mediador de leitura Tino Freitas, quando a autora visitou a ong Roedores de Livros

ESCONDERIJOS: Lúcia, conte aqui um pouco sobre como nasceu o livro Orie e em quem você se inspirou para escrever esta história.

LÚCIA HIRATSUKA: Foi a partir da memória da minha avó, Orie. Ela contava que, quando pequena, adorava ir para a cidade com os pais barqueiros. E explicava, “o barco levava verduras, arroz e muitas coisas…”. Depois complementava,  “era que nem um caminhoneiro. ”

ESCONDERIJOS: Como era esta relação com a sua avó e as histórias que contava? Ela falava histórias vividas por ela ou também contava as histórias fantásticas japonesas?

LÚCIA: Eu conseguia visualizar as cenas, quando minha avó contava, por exemplo, que o caminho para sua escola tinha muitos pedriscos. Ou quando o professor dela, um monge, lhe dava as mãos para sair ao pátio. Na sua chegada ao Brasil, ela levou um susto ao ser servido pão com salame e a sua primeira casa era feita de troncos de coqueiros…  Mas, ela sempre tinha um olhar simples e poético para tudo. As lendas japonesas e cantigas, faziam, sim, parte do seu repertório, e uma das que eu mais gostava e me intrigava era a Urashima Taro.

 

(a lenda fala sobre a “eterna juventude” na história de um pescador que um dia salva uma tartaruga que, na verdade, era a filha do imperador do mar.)

ESCONDERIJOS: Como foi passar essa memória da sua avó para um livro infantil? No que você pensava, quanto tempo levou para fazer? Nasceu o texto ou a ilustração primeiro?

LÚCIA: Nesse caso, eu já tinha a história. Mas, precisava encontrar a forma de contar. E não adiantava ficar apenas na mente, era preciso rabiscar. Sentia que precisava de uma cor terra. Aí entrou o papel craft. O texto foi nascendo meio junto. Busquei frases simples, mas cheias de sonoridade. A repetição de “O remo de bambu vai e vem. Vai e vem, vem e vai”, mostra o olhar da criança-personagem ao ver o pai remando. Fiz tudo devagar, sem me preocupar tanto com o tempo.

ESCONDERIJOS: Quais foram as referências de pesquisa que você buscou para este livro especificamente? Ou tudo já fazia parte da sua história como pessoa e artista?

LÚCIA: Queria passar uma sensação de um LUGAR. Não era prioridade lembrar o Japão. Era a memória afetiva de Orie, um lugar que remetesse aos momentos de carinho dos pais, de aconchego, de terra natal. As roupas eu compus a partir do meu repertório que vi em livros, filmes, pesquisei um pouco, mas também entrou o que lembrava da roça: a minha mãe e as vizinhas usando lenços por baixo do chapéu para proteger o rosto do sol. E lenços embrulhando objetos fizeram parte do costume em casa.

ESCONDERIJOS: O projeto gráfico também foi ideia sua? O que você tem para me dizer sobre ele, capa dura, a cor do papel?

LÚCIA: Eu faço sempre um boneco (o protótipo do livro), com texto e ilustrações. Quando o projeto foi aprovado pela editora, trocamos ideia sobre os aspectos gráficos. A impressão teria que ser num papel opaco, não poderia ter brilho no resultado final. Na fase da montagem, a editora sugeriu desenhar o título, o que ficou bacana. A capa dura foi opção da Pequena Zahar, que teve um cuidado em todo o processo. E o livro teve a consultoria editorial da Dolores Prades, que antes da ideia estar no papel, sugeriu o título ao saber que minha avó se chamava Orie.

ESCONDERIJOS: Pensando nisso, me fale um pouco sobre as suas técnicas de ilustrar. Como você desenvolveu isso, por que tem este tipo de referência.

LÚCIA: Depois de me formar na Faculdade de Belas Artes, experimentei um pouco de tudo. Em Orie eu usei poucas cores, tentei valorizar o traço mais solto em carvão e os brancos em pastel seco. Não usei muitos elementos na composição, queria que a atenção do leitor fosse para a emoção da personagem. E o vazio dá um clima de silêncio. A arte do sumiê e o haicai sempre influenciam o meu trabalho.

ESCONDERIJOS: Para terminar, qual é o prazer de ilustrar? O que move você a continuar? Sãos os leitores? Ou são as emoções pedindo para sair? Quem a inspira artisticamente, Lúcia?

LÚCIA: Eu acho que é um chamado da alma. Agora as histórias começam a me procurar, de tanto que fui atrás delas e, nessa procura, busquei o como contar. A curiosidade e o desafio me motivam. Os leitores são as alegrias e as recompensas. São muitos os que me inspiram artisticamente, mas desta vez, vou citar apenas a  ilustradora japonesa Chihiro Iwasaki (1918-1974), isso porque ela tem uma série de livros que falam dessas primeiras emoções da infância.

uma imagem de Chihiro Iwasaki para degustarmos...
uma imagem de Chihiro Iwasaki para degustarmos…

ESCONDERIJOS: E o que você guarda no Esconderijo do Tempo? Qual é a memória cultural que, quando vem à tona, faz você feliz ou simplesmente abraça você por dentro?

LÚCIA: As brincadeiras de quintal com minhas irmãs; minha mãe lendo ou costurando; minha avó Orie ensinando a cantiga do entardecer, meu avô inventando coisas, meu pai voltando da cidade na sua perua rural, trazendo um pacote. Essas coisas simples e preciosas que me fazem construir histórias.

 

Oliver Jeffers e suas 1001 artes

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Vou me apaixonando pelo escritor e ilustrador australiano (criado na Irlanda, morador hoje de Nova York) Oliver Jeffers, um dos autores de livros infantis mais badalados da atualidade, muitas e muitas vezes. Isso mesmo, no gerúndio, pois é hábito difícil de parar.

Não, não é só pelo jeito dele australiano-irlandês-morando-em-Nova-York.

Nem só pelos olhos verdes e o cabelo doidão, cada hora de um jeito diferente. E nem pela sua simpatia que nem mesmo o braço machucado o impediu de tirar uma foto comigo (e o outro fã, o escritor italiano Roberto Parmeggiani) na Feira do Livro Infantil em Bologna.

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E nem apenas pelo clipe maravilhoso do U2 que ele dirigiu ao lado de Mac Premo, para o single Ordinary Love, canção do filme Mandela e que concorreu ao Oscar.

oliverachadoscapaNa verdade, me apaixono porque cada livro seu dá um gostinho de quero mais. A gente deseja mais do livro, mais dos personagens e que cheguem os próximos. Eu tenho os cinco livros dele lançados aqui pela Editora Salamandra, e mais um em italiano, que acabo de comprar em Bologna. Também li o que deu na livraria Hatchards, na minha curta passagem por Londres a caminho da Itália. Mas o primeiro contato que tive com ele foi com o livro Achados e Perdidos, um de seus maiores sucessos. Quando se tornou uma animação (adaptado e filmado por Philip Hunt) chegou a vencer muitos prêmios, inclusive o Bafta, uma premiação britânica. Maravilhoso, conta a história de um menino que encontra um pinguim e não mede esforços para devolvê-lo a seu lugar. Quando eles chegam no polo sul, uma linda surpresa os aguarda.

No livro, as frases curtas e as pausas para o silêncio – típico de um livro ilustrado – embelezam esta emocionante história de amizade, com detalhes preciosos e um toque humorístico (aliás, mistura esta bem característica do autor). Livro para guardar no esconderijo do tempo.

Quando ele vai para adaptação em vídeo, um curta de quase meia hora, a gente percebe outros detalhes e leituras e conseguimos viajar ainda além. Ficamos quase satisfeitos, rs. Veja o vídeo:

Mas o livro ainda é para mim um tesouro mais especial.

Olhem este abraço:
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O menino-protagonista ainda aparece em mais livros dele, como o primeiro de todos, Como Pegar Uma Estrela, também belíssimo.

oliverpegarestreladentroDesta vez, o menino faz de tudo para conseguir uma estrela só para ele. Ele consegue, mas o bonito é como.

Ao todo, Jeffers é autor de 12 livros e seu trabalho já foi traduzido para 30 idiomas. Ilustrou livros de outros escritores, fez outros vídeos para o mercado americano e já até trabalhou como ilustrador free-lancer da Starbucks, além de curtas para as conferências da TED. Em 2012, lançou Neither Here Not There, uma coletânea de pinturas novas e antigas, bem diferentes do trabalho com os infantis. (o Garatujas Fantásticas foi a um encontro com ele na ocasião e conta mais aqui).

E tem mais: no site do autor – oliverjeffers.com – é possível comprar os livros, algumas pinturas como esta sensacional chamada Adolf Dali…

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…e até joias! Isso mesmo: joias.

Joias com os personagens nos pingentes.

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É inacreditável que ele tenha apenas 36 anos.

Rodando na web – youtube ou vimeo -, a gente consegue saber um pouco como ele é (gente, tem até as fotos do casamento dele na internet, rs. Maravilhosas, por sinal, todas de Kacy Jahanbini – bem como a que abre este post).

Tem desde ele neste vídeo sobre si mesmo totalmente maluco e divertido:

Até um bem tradicional, em que ele lê um de seus livros:

 

Até em uma instalação no maravilhoso Seven Stories, na Inglaterra:

 

 

Ou ensinando a desenhar

 

Ou postando foto dele com o U2
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na filmagem do clipe de Ordinary Love. É uma delícia reconhecer a fonte da assinatura dele aqui (acho que dá para vê-lo meio escondidinho)

 

Aqui no Brasil, temos, então, também Os Hueys em O Novo Pulôver, com a história de uma turma de criaturas muito fofas e completamente iguais.

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Tão, mas tão idênticas que uma delas resolve tricotar um pulôver para dar uma mudada naquilo tudo. O problema é que todos os outros Hueys gostaram da ideia e, enfim, foram tricotar também.

 

Além deste, a Salamandra também trouxe ao nosso país O Incrível Menino Devorador de Livros.oliverincriveldevoradorCom a saga de um menino que literalmente comia livros e, por isso, se tornou muito inteligente, mas um pouco enjoado (haja conhecimento na barriga!). Eis que ele resolve em vez de comer, ler.

Mas O Coração e a Garrafa, último lançado no Brasil é, para mim, um presente inesquecível.

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Fala de uma menina que se dava muito bem com o avô, com o qual vivia – e ouvia – muitas aventuras incríveis. Até que um dia, ela tem que lidar com a morte dele e sua ideia é guardar o coração dentro de uma garrafa. Sim, ela cresce protegida da dor de uma perda.

Mas também se esquece das estrelas, não mais presta atenção no mar. Até que um dia ela quer resgatar o coração. E precisa de uma ajuda muito especial.

A história, a identificação imediata com a personagem, os detalhes das guardas (as primeiras e últimas duplas de um livro) faz do livro um poema só.

E é essa a especialidade do premiadíssimo Jeffers: fazer emoções virarem poesia, para serem histórias para todos nós. Em entrevista à revista inglesa The Bookseller, Jeffers diz que realmente não sabe o segredo de um bom livro. “Honestidade é o mais importante. Os livros que eu realmente gosto sempre parecem vir de um lugar puro. O autor fez porque ele sentiu que precisava fazer. Mas não acho que há uma fórmula. Tem que haver um começo, um meio e um final. Mas isso é tão óbvio que as pessoas esquecem.”

O próximo já vem aí: em setembro ele e a Harper Collins, sua editora, lançam Once Upon an Alphabet (algo como Era Uma Vez Um Alfabeto), uma coletânea de histórias curtas ilustradas. Mal posso esperar.

Mãos Mágicas

maosmagicasquadradinhaEra uma vez Quadradinha e Fininho. Ambos eram feitos de papel. Irmãos inseparáveis, brincavam escondendo-se das asas do vento (fácil de imaginar por que, certo?) Mas… um dia o menino se distrai e vuuuu, voa para muito longe. Quadradinha fica entristecida, feito papel amassado. Dobra seu corpo ao meio, depois dobra de novo e fica amuada, esquecida num cantinho qualquer.

Só quem pensa origami poderia criar uma história destas. E é mesmo o caso da delicada imaginação da escritora, ilustradora e designer Tereza Yamashita, uma das pessoas mais doces que já conheci. Quando eu trabalhava na revista Crescer, passei um tempo com ela para a gravação de um vídeo em que ela ensinava origami. Foi maravilhoso. Apaixonada e herdeira desta arte milenar japonesa de dobrar papel, Tereza criou uma deliciosa aventura desta menina em busca do irmão desaparecido. Só que quem ilustra não é ela, mas Suppa, uma das nossas mais importantes ilustradoras do Brasil que, com sua técnica característica de pintura e colagem embeleza tudo de cor e texturas.

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Na história, Quadradinha espanta a tristeza ao dar de cara com um sapo (um clássico das dobraduras) que pula sem parar. Acha-o tão divertido que se transforma em um e parte para os saltos como ele. É assim que ela descobre o origami e o poder de se transformar.

Virando tudo quanto é bicho, ela vai ganhando o mundo atrás de Fininho. E onde ela vai parar? Na casa de uma menina muito inteligente chamada Sadako. O que ela tem? Mãos mágicas que brincam com papel como dança, como música, como arte. E o final? Eu deixo para vocês dobrarem e desdobrarem. Muitas vezes!

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Mãos Mágicas (Ed. Sesi-SP)

textos de Tereza Yamashita

ilustrações de Suppa

 

2013

 

palpite: de 3 a 100 anos. 

Quase de Verdade, de Clarice Lispector

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Adoro Claricear. Eu entendo isso tanto como o ato de ler Clarice Lispector (adulto, infantil, entrevistas, crônicas), quanto o ato de ver o mundo do jeito que é, mas diferente. Fico imaginando como é ver seu amado cachorro todos os dias e imaginar as histórias que ele tem para contar. Só uma real contadora de histórias pode chegar nisso.

Em 1978, no ano seguinte à sua morte, chegou às livrarias Quase de Verdade, o livro em que o narrador é um dos cachorros da escritora. Ulisses, na verdade, nos é oferecido como ponte para Clarice contar uma outra história, a de uma figueira invejosa que não dá figos e que traça um plano para obrigar as galinhas da fazenda a colocarem ovos continuamente. A intenção da árvore é ganhar milhões e, claro, não dar nada em troca às botadeiras de ovos. Ela pede ajuda a uma bruxa, uma bruxa especializada em ser acionada para ajudar os outros a fazer maldades. Só que, galinha é bicho unido e barulhento e, certo dia, resolvem protestar contra a ditadora figueira e dão um jeito naquele abuso. A figueira pensa, então, que escolher as amizades tem lá seus frutos. Frutos? Sim, tudo muda na vida desta figueira mas o final não tem nada a ver com isso. O conto acaba de ser relançado pela Editora Rocco, em edição especial, com capa dura e ilustrações de Carla Irusta, das quais gostei muito (não deve ser nada fácil acompanhar a fantasia da Clarice).

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Os desenhos têm clareza e certo realismo, mas combinam uma dose fantástica de divertir. Há detalhes gostosos de encontrar (como as mãos da Clarice sobre uma máquina de escrever Olympia), bastante movimento e são extremamente expressivos. Tão bons que o livro merecia uma biografia da ilustradora também. A editora (não) fez o mesmo com a primeira destas edições especiais, em que o premiado Odilon Moraes assina os desenhos da A Vida Íntima de Laura. Espero que mudem este jeito de editar um dia.

Claricear é ter a certeza que o mais importante de uma história é como ela caminha. Geralmente demoro muito tempo lendo textos dela, pois volto e revolto nas frases. E me encanto sempre com o jeito dela de amarrar os parágrafos, de nos envolver no conto, de parecer que ela está aqui sentada ao nosso lado, inventando tudo aquilo só para gente.

Há delícias como:

Mas antes de começar, pergunto a você bem baixo para só você ouvir:

– Está ouvindo agora mesmo um passarinho cantando? Se não está, faz de conta que está. É um passarinho que parece de ouro, tem bico vermelho-vivo e está feliz da vida.

Adoro estes pequenos segredos que ela estabelece com o leitor.

Oniria gostava muito da grande figueira e das aves. Tinha até um livro que ensinava como fazer para as galinhas botarem ovo forte: era dando água, em vez de fria e pouca, morninha e muita.

Adoro o jeito dela de inverter o jeito comum de contar. Como se a gente já soubesse, já tivesse conversado com ela sobre o assunto.

O galo se chamava Ovidio. O “O” vinha do ovo, o “vidio” era por conta dele. A galinha se chamava Odisseia. O “O” era por causa do ovo e o “disseia” vinha por conta dela.

Esta brincadeira dela com o “o” de ovo passeia por vários outros personagens do livro, extremamente divertido de reler e, mais uma vez, colocando ali quase uma marca da Clarice em abordar ovos e galinhas nas histórias.

Mas têm mais delícias, como:

Os homens homenzavam, as mulheres mulherizavam, os meninos e meninas meninizavam, os ventos ventavam, a chuva chuvava, as galinhas galinhavam, os galos galavam, a figueira figueirava, os ovos ovavam. E assim por diante.

A essa altura, você deve estar reclamando e perguntando: cadê a história?

Paciência, a história vai historizar.

Adoro trechos em que parece que ela nos introduz para a sua própria literatura, o seu jeito de escrever. Como um “é assim que sou. Vai aguentar até o final?”

E, para mim, aqui vai (é o último trecho, juro!) a parte em que ela nos pega de jeito. Ela conta que a figueira, certo dia, teve um pensamento:

A vida do galo e da galinha é uma verdadeira festa. Ovidio cocorica, as galinhas põem ovos. Mas e eu? Eu, que nem figo dou?

E patati patatá.

O pensamento da figueira apodreceu e virou inveja. Apodreceu ainda mais e virou vingança.

É incrível o uso do termo perfeito para brincar com a realidade e a fantasia (figueira sem frutos apodrecendo), e dar nome ao sentimento legítimo: inveja. E ela precisava sentir isso?

Paro por aqui. Não sou uma estudiosa de Clarice Lispector. Sou uma leitora apaixonada e adoro redescobrir o que ela faz comigo. E, quando ela está na esfera “literatura infantil” só me confirma que emoção e pensamento é coisa de colocar para fora. Assim como criança faz.

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Quase de Verdade (Ed. Rocco)

textos Clarice Lispector

ilustrações Carla Irusta

2014

palpite: para crianças de 6 a 100 anos