Quase de Verdade, de Clarice Lispector

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Adoro Claricear. Eu entendo isso tanto como o ato de ler Clarice Lispector (adulto, infantil, entrevistas, crônicas), quanto o ato de ver o mundo do jeito que é, mas diferente. Fico imaginando como é ver seu amado cachorro todos os dias e imaginar as histórias que ele tem para contar. Só uma real contadora de histórias pode chegar nisso.

Em 1978, no ano seguinte à sua morte, chegou às livrarias Quase de Verdade, o livro em que o narrador é um dos cachorros da escritora. Ulisses, na verdade, nos é oferecido como ponte para Clarice contar uma outra história, a de uma figueira invejosa que não dá figos e que traça um plano para obrigar as galinhas da fazenda a colocarem ovos continuamente. A intenção da árvore é ganhar milhões e, claro, não dar nada em troca às botadeiras de ovos. Ela pede ajuda a uma bruxa, uma bruxa especializada em ser acionada para ajudar os outros a fazer maldades. Só que, galinha é bicho unido e barulhento e, certo dia, resolvem protestar contra a ditadora figueira e dão um jeito naquele abuso. A figueira pensa, então, que escolher as amizades tem lá seus frutos. Frutos? Sim, tudo muda na vida desta figueira mas o final não tem nada a ver com isso. O conto acaba de ser relançado pela Editora Rocco, em edição especial, com capa dura e ilustrações de Carla Irusta, das quais gostei muito (não deve ser nada fácil acompanhar a fantasia da Clarice).

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Os desenhos têm clareza e certo realismo, mas combinam uma dose fantástica de divertir. Há detalhes gostosos de encontrar (como as mãos da Clarice sobre uma máquina de escrever Olympia), bastante movimento e são extremamente expressivos. Tão bons que o livro merecia uma biografia da ilustradora também. A editora (não) fez o mesmo com a primeira destas edições especiais, em que o premiado Odilon Moraes assina os desenhos da A Vida Íntima de Laura. Espero que mudem este jeito de editar um dia.

Claricear é ter a certeza que o mais importante de uma história é como ela caminha. Geralmente demoro muito tempo lendo textos dela, pois volto e revolto nas frases. E me encanto sempre com o jeito dela de amarrar os parágrafos, de nos envolver no conto, de parecer que ela está aqui sentada ao nosso lado, inventando tudo aquilo só para gente.

Há delícias como:

Mas antes de começar, pergunto a você bem baixo para só você ouvir:

– Está ouvindo agora mesmo um passarinho cantando? Se não está, faz de conta que está. É um passarinho que parece de ouro, tem bico vermelho-vivo e está feliz da vida.

Adoro estes pequenos segredos que ela estabelece com o leitor.

Oniria gostava muito da grande figueira e das aves. Tinha até um livro que ensinava como fazer para as galinhas botarem ovo forte: era dando água, em vez de fria e pouca, morninha e muita.

Adoro o jeito dela de inverter o jeito comum de contar. Como se a gente já soubesse, já tivesse conversado com ela sobre o assunto.

O galo se chamava Ovidio. O “O” vinha do ovo, o “vidio” era por conta dele. A galinha se chamava Odisseia. O “O” era por causa do ovo e o “disseia” vinha por conta dela.

Esta brincadeira dela com o “o” de ovo passeia por vários outros personagens do livro, extremamente divertido de reler e, mais uma vez, colocando ali quase uma marca da Clarice em abordar ovos e galinhas nas histórias.

Mas têm mais delícias, como:

Os homens homenzavam, as mulheres mulherizavam, os meninos e meninas meninizavam, os ventos ventavam, a chuva chuvava, as galinhas galinhavam, os galos galavam, a figueira figueirava, os ovos ovavam. E assim por diante.

A essa altura, você deve estar reclamando e perguntando: cadê a história?

Paciência, a história vai historizar.

Adoro trechos em que parece que ela nos introduz para a sua própria literatura, o seu jeito de escrever. Como um “é assim que sou. Vai aguentar até o final?”

E, para mim, aqui vai (é o último trecho, juro!) a parte em que ela nos pega de jeito. Ela conta que a figueira, certo dia, teve um pensamento:

A vida do galo e da galinha é uma verdadeira festa. Ovidio cocorica, as galinhas põem ovos. Mas e eu? Eu, que nem figo dou?

E patati patatá.

O pensamento da figueira apodreceu e virou inveja. Apodreceu ainda mais e virou vingança.

É incrível o uso do termo perfeito para brincar com a realidade e a fantasia (figueira sem frutos apodrecendo), e dar nome ao sentimento legítimo: inveja. E ela precisava sentir isso?

Paro por aqui. Não sou uma estudiosa de Clarice Lispector. Sou uma leitora apaixonada e adoro redescobrir o que ela faz comigo. E, quando ela está na esfera “literatura infantil” só me confirma que emoção e pensamento é coisa de colocar para fora. Assim como criança faz.

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Quase de Verdade (Ed. Rocco)

textos Clarice Lispector

ilustrações Carla Irusta

2014

palpite: para crianças de 6 a 100 anos

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