AQUI ESTAMOS NÓS, de Oliver Jeffers

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Oi, este é o mundo.

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Eu poderia resumir assim Aqui Estamos Nós, novo livro do irlandês Oliver Jeffers e que a Salamandra traz ao Brasil. Lançado ano passado, o autor conta que escreveu esse livro quando o primeiro filho estava com 2 meses de idade.

Dois meses de idade. Por coincidência estava eu aqui mexendo e remexendo algumas lembranças da minha filha Clarice, hoje com 6 anos, e me veio à mente a pergunta: “o que eu pensava sobre o nosso futuro juntas quando ela era bebê?”… “o que eu pensava sobre mostrar o mundo? Fiz algo certo?”. Não sei as respostas. Oliver Jeffers, um dos mais sensíveis artistas do mundo que nós colocamos na categoria “literatura infantil”, decidiu que como artista de livro ilustrado ele apresentaria a seu bebê o mundo em forma de livro. Talvez ele também nunca saiba se “fez certo” ou não.

Mas o que quer que eu escreva aqui não será suficiente para falar de Aqui Estamos Nós. Farei de tudo para não estragar a experiência de quem pegá-lo pela primeira vez depois deste texto. Pode parecer óbvio, mas a emoção desta obra é a cada virar de página.

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Me peguei passando o dedo nas páginas para ver os detalhes, voltar às anteriores, rever, reler frases. Este vaivém de vasculhar informações me veio com tanta alegria! Porque você começa o livro achando que ele vai falar da Terra, dos outos planetas, do sistema solar, meio ambiente, mar, paisagens, corpo humano…. mas o “nós” é muito mais.

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O autor vai nos levando desenho a desenho, palavra a palavra para uma narrativa de diversidade que faz qualquer discurso fascista parecer tolo. (é, eu sei que todos são). Não tem discurso de “todos merecemos a nossa parte do planeta”. Nós somos nós, simplesmente. Basicamente. Elementarmente. Humanamente. Ou “almamente”, como diria Guimarães Rosa.

É aquela leitura que nos faz pensar “uau, que imensidão somos”, mas numa mistura de real e fantasia, no literal e na metáfora, de “eu e o outro” de forma tão intensa que é bom preparar o lencinho.

Como ele bem sabe jogar, Oliver nos faz dar risada, logo depois vem uma vontade de chorar…

No trecho: “Cuide bem do seu corpo. A maioria das partes não cresce de novo”, é aquele tom irônico dele, das suas características mais precisas. Depois, quando viramos a página, vemos:

“Existem pessoas de inúmeros formatos, tamanhos e cores. Podemos até parecer diferentes, agir diferente e falar diferente… mas não se engane: somos todos gente.”

Aí, é o nó na garganta.

Mas não é? Você aí, que pensa ser mais que o outro, vai ter uma surpresa: somos todos gente. Precisa de mais algum argumento?

E é também aí que o leitor pode se tocar de outra delícia do livro: como Oliver apresenta o mundo ao filho, não poderiam faltar personagens seus emblemáticos, como o menino e o pinguim, de Achados e Perdidos (será que tem mais algum e eu não achei?). Mas não é só: ler cada detalhe das ilustrações, cada caracterização, cada “gente” e seus particulares é traçar um combinado com o leitor de busca pela igualdade de direitos fenomenal. Porque os personagens não estão chapados em cores, formatos ou tamanhos: cada um têm sua expressão, um movimento, uma ação, que nos enchem de dúvidas ou elocubrações de quem são, para onde estão indo, o que estão pensando, o que desejam… quem é que conhece esses “nós” todos, afinal?

Desta emoção, ele pula para outras ao listar animais, depois expor as tantas perguntas que um bebê pode fazer antes de começar a falar. O bebê, sim, faz muitas hipóteses para ler o mundo! E o lê de diversas maneiras. Assim como nós: olha só aqui, a gente, lendo texto e imagem com Oliver, sentindo que tudo ali é palavra. Imagem ou texto, é palavra. Imagem ou texto, é leitura. Imagem ou texto, é arte. Imagem ou texto, é narrativa. Literatura.

Quando olho para o livro de novo ao escrever aqui, me parece que ele tem umas mil páginas. Ou seriam 7.327.450.667 páginas, uma para cada cidadão do mundo? (número de pessoas “até agora” segundo o autor). Quando você acha o livro está acabando de um jeito, vem o nó na garganta novamente: Oliver nos convida a olhar de volta para o livro, a reencontrar o que foi dito, pensado, sentido. Feito criança que começa a ler este mundo, apresentado por nós, numa alternância de possibilidades, encontros e desencontros, onde não podemos parar de lutar enquanto não houver dignidade e respeito.

Termino este post com uma foto de uma das duplas do livro, para mim, emblemáticas, e que me fizeram reler um trecho de O Enigma da Infância, capítulo do livro Pedagogia Profana (Ed. Autêntica), de Jorge Larrosa, professor da Universidade de Barcelona. “Pelo fato de que constantemente nascem seres humanos no mundo, o tempo está sempre aberto a um novo começo: ao aparecimento de algo novo que o mundo deve ser capaz de receber, ainda que, para recebê-lo, tenha de ser capaz de se renovar; à vinda de algo novo ao qual tem de ser capaz de responder, ainda que, para responder, deva ser capaz de colocar em questão.”

se alguém não conseguir ler o que está na dupla: APESAR DE TODO O NOSSO PROGRESSO, NÓS NÃO ENCONTRAMOS TODAS AS RESPOSTAS, ENTÃO AINDA HÁ MUITO O QUE VOCÊ PODE FAZER. VOCÊ VAI DESVENDAR MUITAS COISAS SOZINHO. MAS LEMBREM-SE DE ANOTÁ-LAS PARA AS OUTRAS PESSOAS.
se alguém não conseguir ler o que está na dupla: APESAR DE TODO O NOSSO PROGRESSO, NÓS NÃO ENCONTRAMOS TODAS AS RESPOSTAS, ENTÃO AINDA HÁ MUITO O QUE VOCÊ PODE FAZER.
VOCÊ VAI DESVENDAR MUITAS COISAS SOZINHO. MAS LEMBREM-SE DE ANOTÁ-LAS PARA AS OUTRAS PESSOAS.

PS – mesmo sem informações de processos, tenho que dar um destaque para “edição de texto” de Marília Mendes e Lenice Bueno e tradução de Yukari Fujimura, pois o texto “deslizou” para mim… 

Aqui Estamos Nós (Ed. Salamandra)

de Oliver Jeffers

2018

Mais sobre ele? Eu já escrevi aqui (um texto sobre quem é ele) e aqui (resenha de Presos).

 

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