Os Saltimbancos

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SALTIMBANCOSCAPAParece óbvio indicar o CD Os Saltimbancos para crianças. Mas não é. Tem gente que esquece, abandona na memória de infância. O meu nunca saiu de mim. Ouvia o disco em casa com minha mãe e meus irmãos – adorava demais porque este era o “meu” Chico Buarque da casa – e quando lançou em CD comprei um, ainda com vinte e poucos anos. O tempo passou e agora ele volta para o destaque na decoração da sala para as primeiras ouvidas da minha filha. Eu ainda sei quase tudo de cor.

Lançado em 1977, o disco é um musical para crianças, adaptação de Chico para as canções de Sérgio Bardotti e Luís Enríquez Bacalov, inspirado no conto Os Músicos de Bremen, dos Irmãos Grimm, em que quatro animais procuram uma vida melhor na cidade, longe da exploração dos humanos. É uma das peças de teatro mais remontadas para o público infantil no Brasil e, na versão do disco, os quatro animais são interpretados por feras da nossa música: Magro (do grupo MPB4), é o questionador jumento que inicia a história e a jornada da turma em busca de ganhar a vida com a música; Ruy Faria (também do quarteto MPB4) vive o submisso cachorro; Miúcha é a cautelosa galinha e Nara Leão interpreta a gata, sorrateira e um tanto folgada. Nas canções, arranjos em diversos ritmos, alternando momentos de humor, ternura e até fortes tensões (há trechos que até hoje me lembro do medo que sentia!), que deveriam ser parâmetros para a guerra iniciada pelo politicamente correto.

Este vídeo é demais. Parte da série de DVDs com entrevistas com Chico (este é Saltimbancos), Chico encontra o músico italiano Sérgio Bardotti (falecido em 2007) na Itália e o próprio diz que a tradução é melhor do que o original! Chico desconversa e lembra que na época que ele conheceu a peça, a Itália produzia bastante coisa para crianças. Mas Bardotti conta que isso também teve uma ‘mãozinha’ brasileira, pois eles queriam que as canções para crianças fossem além das compostas pelos frases e pegasse mais “o espírito um pouco louco das crianças”. Ele diz que a refundação da canção infantil na Itália se inspira em A Casa, de Vinicius de Moraes, ou La Casa, na versão do disco La Vita, Amico, É L arte Del Incontro, um disco só com poesias gravado em 1969 na Itália – canção, aliás, composta em parceria com Bardotti. E, assim, ele conta que A Arca de Noé (disco para crianças do poeta lançado em 1980) nasceu na Itália. Ele conta que ainda que tenham regravado as canções com astro como Lucio Dalla, na Itália o disco não fez tanto sucesso. Chico emenda “E no Brasil, não se sabe porquê, é muito popular até hoje”.

No decorrer do vídeo, Chico afirma que “a música infantil é mais música do que letra. A criança transforma as letras. Criança entende outras coisas e gosta mais por causa da sonoridade do que pela letra que está ali”. Para nossa sorte, Os Saltimbancos têm muito mais do que “sonoridades” interessantes para as crianças. O texto original já nasce político e aqui, o musical acontece em plena ditadura militar e as letras expõem claramente uma busca por território e, o mais importante: por liberdade. Lutar pela liberdade (nossa e dos outros) é mais do que função de pais para os filhos.

Os Saltimbancos (Polygram)

música de Luiz Enriquez, texto original de Sérgio Bardotti, tradução e adaptação de Chico Buarque

1977

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