Macli – I Mostra de Arte Contemporânea em Literatura Infantil

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MACLISCHIZOA ilustração está inserida na arte? Antes de “entrar” de cabeça neste mundo da literatura infantil eu nem cogitava que esta seria uma questão. Mas, conforme meus estudos vão avançando vejo o que para mim é óbvio, para os intelectuais – artistas e críticos – é, uma grande questão: a ilustração deve ser considerada arte?

O artista multimídia Favish Tubenchlak quis colocar a pergunta à prova no Brasil e inaugurou em 2012 a Macli – Mostra de Arte Contemporânea em Literatura Infantil,  colocando em quadros, pendurados na parede, bem ao estilo tradicional de galerias e museus, ilustrações pinçadas de livros infantis. Sócio da Galeria Livre, no Jardim Botânico, no Rio, ele assina a curadoria ao lado das especialistas Aline Pereira e Flavia Corpas. A exposição já aconteceu estreou na galeria de Favish, foi para Brasília e até o próximo domingo estará em São Paulo, na Caixa Cultural da Sé, no centro da cidade. Estão expostos ilustrações de Lampião e Lancelote, Simbá O Marujo e Caçada, de Fernando Vilela; Telefone Sem Fio, com as imagens de Renato Moriconi, e três artistas estrangeiros: a argentina Juliana Bollini, que mora e publica no Brasil e mostra a série Lobo Está? e Alma; o norte-americano John Parra, com obras como A Árvore Imaginada; e a israelense Ofra Amit, com a série Schizo (que é o destaque nos materiais de divulgação). Obras que, segundo Favish, se isoladas das narrativas literárias para as quais foram originalmente criadas, têm vida própria e conexão com a arte contemporânea. As técnicas, como em toda vasta obra da literatura infantil, são bem variadas: acrílica sobre tela ou placa de ilustração, óleo sobre madeira, xilogravura, fotografia, escultura e desenho digital. A exposição foi delineada com base no conceito de “estranho familiar”, de Sigmund Freud. “É aquilo que você estranha, mas de alguma forma também se identifica”, explica Favish que faz questão de dizer que esta é só a primeira de muitas que virão. Vale a pena experimentar.

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Estive na inauguração, em dezembro do ano passado. Quando me aproximei de Fernando Vilela para cumprimentá-lo e colocar a ele minha surpresa com um ar de “era isso mesmo que eu gostaria de ter nas paredes lá de casa”, ele me disse duas palavras que simbolizam bem a ideia toda: “Funciona, não?”. Sim, Fernando, funciona. As telas, expostas na altura padrão de exposições, incomodou alguns, por pensar que uma criança pequena, teoricamente alvo inicial dos livros, pode nem sequer alcançar os quadros. Mas a ideia, talvez, seja o oposto: tirando da altura “fácil” das crianças, os adultos poderiam, então, dar outro valor às obras. E aí moram as grandes questões na literatura infantil: um livro ilustrado é somente para as crianças? E, se for, por que não deveria ser considerado arte? Por que o “para crianças” diminui o valor do processo ou o resultado final?

Como, ainda bem, há milhões de pessoas que não pensam assim, a exposição se tornou possível e, para os outros milhões, necessária. “Eu sempre tive uma relação com o livro considerando-o como arte, algo precioso. Quando faço um livro, estou me colocando por inteiro, minha alma mesmo”, contou o ilustrador e escritor Renato Moriconi, na mesa redonda que inaugurou a mostra. “O ponto de partida para decidir fazer um livro é o mesmo de escrever um poema, contar uma história”, disse o ilustrador e escritor Fernando Vilela.

Uma ótima conclusão desta conversa toda é que quem sai ganhando é a criança, que pode iniciar uma relação com a arte mais aberta, mais livre. “Como explicar o que é arte contemporânea para criança? Como se explica carinho? Dando carinho! Então eu acho que esta exposição pode ser, no mínimo, uma ótima oportunidade para a crianças levarem os adultos para as galerias!”, brincou Favish.

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Perguntei a eles: então, qual seria o lugar da criança neste tipo de arte? “Ao lado, parceira. Vejo tudo como um diálogo”, disse Fernando.

Não percam a chance de ir até mesmo para conferir este centro cultural por dentro, que não é assim, infelizmente, tão convidativo por fora. Lembrando: a exposição fica até o próximo domingo, dia 16 de fevereiro.

 

Macli – I Mostra de Arte Contemporânea em Literatura Infantil

até 16 de fevereiro de 2014, de terça-feira a domingo, das 9h às 19h

Local: CAIXA Cultural São Paulo – Praça da Sé, 111 – Centro

Informações: (11) 3321-4400

 

Mais em: macli.com.br

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