EXCLUSIVO: A ÉPOCA DE OURO DOS INFANTIS DA TV CULTURA

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BAMBALALAOClássicos… quais são os clássicos da TV da sua infância? Da minha a memória me leva para os americanos Muppets e o brasileiríssimo Bambalalão. Ele estreou em 1977 na TV Cultura, em módulos gravados, mas a partir de 1982 passou a ser transmitido ao vivo do Auditório da Cultura. Foi ao ar pela última vez em fevereiro de 1990. Eu amava tudo: os apresentadores Gigi Anheli e o palhaço Tic Tac, as maravilhas do músico, cientista e mágico (rs!) Professor Parapopó e, claro, os bonecos Maria Balinha e João Balão, o macaco Chiquinho e o sapo Agapito (que eram inspirados nas criações de Jim Henson, claro, o inventor de Muppets e Vila Sésamo). Muitos artistas passaram por lá, e muitos entraram depois, fazendo o programa ter diversas versões, inclusive, que fui acompanhando, mesmo “crescida”.

Para meu coração-memória, o Bambalalão foi uma espécie de berço para o que estava por vir na década de 90, considerada a década de ouro dos infantis da TV Cultura: Rá-Tim-Bum, Castelo Rá-Tim-Bum, Cocoricó e tanta coisa boa que seguiu, com alta qualidade, alta dose de humor e preocupação séria com educação. E foi sobre isso que a minha colaboradora Beatriz Fiorotto ouviu três mestres desta época falar, dia 14 de agosto, em um auditório da Faculdade Cásper Líbero. Fernando Gomes, diretor de programa, criador e manipulador de bonecos (o adorável Júlio, do Cocoricó!), Flávio de Sousa, ator, escritor e roteirista e Henrique Stroeter, ator de diversos programas foram conversar com estudantes de Rádio, TV e Internet sobre este riquíssimo período para a televisão brasileira. E, de quebra, emocionaram-se e emocionaram a jovem plateia. Uma plateia cheia de boas lembranças de infância graças a eles, tudo bem guardado no Esconderijo do Tempo de cada um.

A palestra foi mediada pelos queridos professores Marcelo Rosa e Soninha Castino. Ao centro, da esquerda pra direita, Fernando Gomes, Henrique Stroeter e Flávio de Souza. (Foto por Yuri Andreoli)
A palestra foi mediada pelos queridos professores Marcelo Rosa e Soninha Castino. Ao centro, da esquerda pra direita, Fernando Gomes, Henrique Stroeter e Flávio de Souza. (Foto por Yuri Andreoli)

Com vocês, o texto de Beatriz Fiorotto e, no final, um vídeo-surpresa especial para o Esconderijos do Tempo:

Entre os dias 11 e 15 de agosto de 2014, os estudantes de Rádio, TV e Internet da Faculdade Cásper Líbero organizaram a 8ª Semana do Audiovisual, com palestras (que tinham mais cara de bate-papo) com vários profissionais da área. E uma das mais aguardadas foi a intitulada “Anos 90: A época de ouro dos infantis da TV Cultura”, que trouxe Fernando Gomes¹, Flávio de Souza² e Henrique Stroeter³ ao Teatro Cásper Líbero. (vejam abaixo mais detalhes sobre a carreira de cada um deles!)

Perguntas sobre roteiros, dicas e inspirações não faltaram. Fernando respondeu sobre a necessidade de manipuladores realmente talentosos, que dêem realmente vida aos fantoches, além de terem uma boa história para contar. “Um boneco não precisa de vários atributos tecnológicos pra ser vivo e mágico, não precisa piscar os olhos, mexer a cabeça de um jeito diferente… É claro que se isso existir e for bem usado, é ótimo! Mas a vida mesmo se dá com talento. Me lembro de quando vi Chiquinho Brandão4 gravando um quadro de artes pro Bambalalão usando apenas uma meia como boneco. E ele com aquela meia, sem olhos, sem nada, fazia o estúdio inteiro cair na gargalhada!”, lembrou.

Flávio lembrou o grupo sobre os ricos momentos durante as gravações dos programas. “Quando gravávamos o Cata-Vento (1985-89), não tínhamos dinheiro pra quase nada. Era difícil! Teve um dia em que demoramos um tempão para conseguir três bananas na lanchonete do lado do estúdio, que precisávamos para fazer uma gravação!”, contou Flávio, que se lembrou de outra situação inusitada, quando gravavam O Mundo da Lua (1991-92). “Tínhamos um supervisor que não nos deixava gravar cenas com erros de português. Mas houve uma vez que o Lucas, jogando vídeo-game, tinha que falar: ‘Pula, Blixto, pula!’. A fala teve que ser mudada pra ‘Pule, Blixto, pule!’. Imagina, gente, qual criança fala ‘pule’? O que que é ‘pule’? É ‘pula’!”.

Henrique Stroeter e Flávio de Souza não puderam escapar de contar alguma história sobre os amados e inesquecíveis Tíbio e Perônio, do Castelo Rá-Tim-Bum (1994-97), que ambos interpretavam. “A gente, de vez em quando, não sabia quem era quem. Eu dava até um tchauzinho discreto pra câmera, pra me ver no monitor!”, disse Stroeter, rindo. “E aqueles chapéus eram de napa, bem grossos, e nos deixavam meio surdos. Certa vez, a gente tava fora do estúdio pra entrar correndo. Aí disseram “Ação!”. E nada da gente entrar. “Ação!”. E nada. Tiveram que ir nos buscar!”, contou Flávio, também rindo muito.

No entanto, foi uma das respostas traduziu todo o sentimento da noite. Perguntei a eles: “Qual o legado que essa ‘Era de Ouro da produção infantil’ deixa para os brasileiros?”. Henrique pegou o microfone, sorriu, e disse que são as lembranças. “Isso que tá todo mundo sentindo agora é muito legal!”. E contou para todos a seguinte história: estava ele num táxi, certa vez, e o taxista o reconheceu. “Você fez aquele Tíbio e Perônio, Perônio e Tíbio, né?”. Após a confirmação, o homem começou a chorar. E disse: “Quando minha filha era pequena e estava se alfabetizando, eu e minha esposa fomos chamados na escolinha dela. Ela era a única que não queria aprender a escrever o nome, se negava. Então perguntamos a ela o que queria escrever. E minha filha falou que a primeira coisa que queria aprender a escrever era ‘Castelo Rá-Tim-Bum’!”

“Eu me emocionei muito, ele se emocionou, ligou pra filha, ela também chorou… e agora, contando essa história, tô me emocionando de novo!”, falou Stroeter, para a plateia igualmente chorosa. Nenhum outro palestrante quis responder à pergunta. Flávio chegou a abanar as mãos e sorrir, dando a entender que “nada mais precisava ser dito”.

E, pra terminar, um presente! Gravei uma saudação mais do que especial de cada um dos convidados! Vem se emocionar junto, vem!

 

1 COMENTÁRIO

  1. Realmente…O legado são as lembranças! Grande parte da minha infância foi preenchida por esses programas incríveis e é muito gostoso ler esse relato e perceber que eles faziam isso com carinho e dedicação!

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