Ponto de Partida, Meninos de Araçuaí e o Presente de Vô

2185

PRESENTEDEVOCDS 

A arte é forma para a gente se sentir vivo. Dá lágrima, arrepio, riso. Joga lembrança para o presente, guarda preciosidades no Esconderijo do Tempo. Assim cai como chuva esperada o mais recente trabalho da turma de mineiros do grupo de teatro Ponto de Partida e o coral Meninos de Araçuaí, a coleção de CDs Presente de Vô. São 4 CDs com quatro histórias entrelaçadas entre si e costuradas com uma trilha sonora de amarrar o coração da gente para sempre. Tudo para deixar a pergunta do que seria um mundo sem memórias. Dá para imaginar?

Como uma metalinguagem com a proposta de enredo, os 4 CDs costuram ritmos e raízes, como se nos mostrassem que somos todos uma mistura de raças, ideias e ideais, experiências e emoções. Há repertório de nossa MPB com canções de Chico Buarque, Tom Jobim e Gilberto Gil; há músicas recolhidas do Vale do Jequitinhonha, nas origens das famílias dos Meninos de Araçuaí; tem também uma rica demonstração de música folclórica em canções indígenas, africanas, portuguesas, e, claro, composições inéditas do próprio grupo. Todos se sentem representados, criando juntos.

Não há ordem certa para ouvir os CDs, dizem os artistas que os criaram. Mas eu arrisco indicar começar pelo A Oficina de Cambeva. O velho homem é um restaurador de memórias.

Ali, naquele lugar

Tudo está por consertar

Se a sua memória falhou

Ela irá se lembrar!

 

Do gosto da sobremesa

Do cheiro da nova estação

Do som do sino da igreja

Da meia roçando o dedão

Diz “A Oficina”, canção dos ponto-de-partida Pablo Bertola e Júlia Medeiros. Ouça aqui. Cambeva tem uma neta, a corajosa Deolinda que, ao lado do companheiro Tuzébio, mergulha no mundo de infinitas possibilidades do avô. Preocupadíssima com o que vai ganhar de presente em seu próximo aniversário, ela se envolve nas quatro histórias e vive altas aventuras. Neste, eles encontram um antigo realejo que não se lembra mais de como cantar. O que acontece quando Cambeva tem sucesso em seu trabalho? Ouvimos “Voltei a Cantar”, de Lamartine Babo, com arranjos do conceituadíssimo grupo musical de São Paulo, o Pau Brasil, que assina outros arranjos da coleção. Mas é neste CD que vemos também que Cambeva é um excelente contador de histórias. A criançada se junta para ouvi-lo até que um dia não tinha lugar para todo o mundo. “Afastem um pouco as paredes”, pede o avô.

O segundo CD que ouvi foi Temporina Já Foi Menina? que, para mim, é um dos mais emocionantes. Impossível não se identificar ou se apaixonar pela doce Temporina, uma senhora com uma casa com “dois séculos de quartos” e que guarda o jogo de chá no banheiro. “Se não me esqueço bem, foi um bule que se apaixonou por uma escova de dentes e trouxe toda a família para cá”, conta Temporina. Quando leva Deolinda e Tuzébio para visitar seu quarto de infância, uma tragédia se anuncia: o quarto estava vazio, as lembranças haviam sumido! É tarefa para o velho Cambeva que, com a ajuda dos caçadores de memórias Zalém e Calunga,  a mãozinha das Sonhambulantes, três velhinhas guardadoras de sonhos, ajuda Temporina a recuperar os tempos de criança. Ganhamos nós, assim, cantigas de roda, citações de brincadeiras, e belíssimas versões para “A Banda” (Chico Buarque) e “Bola de Meia, Bola de Gude” (Milton Nascimento e Fernando Brant). Caímos em uma espécie de viagem no tempo que joga a gente para a nossa infância, ao mesmo tempo em que nos lança para a incerteza da velhice, tudo regado a respeito e compaixão. E tem coisa melhor do que pensar essas coisas perto de uma criança? Senta que lá vem música!

Nos outros CDs Sonhambulantes e Zalém e Calunga, a história ganha outros braços e emoções. No primeiro, tudo que sai da boca das sonhadeiras Eterna, Perpétua e Constança dá vontade de decorar e sair repetindo. Uma dose de humor nos é oferecida, como um lembrete de que a vida precisa dele para ser vivida e sonhada. Em Zalém e Calunga, é hora de deixar pulsar a África de nossas histórias, os cantos populares e fica ainda mais evidente a pesquisa de Marlui Miranda, compositora, cantora e pesquisadora cultural, colaboradora do projeto.

Veja o que eles falam sobre o trabalho, nesta entrevista no site do patrocinador Natura.
PRESENTEDEVOFOTO
Um pouco disso estará em 80 minutos de espetáculo, de 8 a 10 de agosto, no Sesc Belenzinho, em São Paulo. Veja mais aqui.

Vejam um vídeo do show, de trecho delicioso do CD Temporina:

 

 

Conheci a união de Ponto de Partida e Meninos de Araçuaí em 2005, assim que entrei na revista Crescer (onde fiquei até 2013). A equipe já era fã de Roda Que Rola, o primeiro CD e, em 2006, fui para Belo Horizonte ver pela primeira vez a turma ao vivo, no Palácio das Artes, na estreia de Pra Nhá Terra, disponível em CD e DVD. Foi inesquecível, parecia uma bênção. Principalmente quando a gente lembra que eles se uniram para ficar alguns meses e estão completando mais de 15 anos de parceria. Tudo começou quando Tião Rocha, criador do CPCD (Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento) – ong que visa trabalhar a educação de maneira inovadora e sempre por meio das raízes culturais, e que atua em diversos lugares de Minas Gerais – ouviu de grupo de meninos de Araçuaí, no meião do Vale do Jequitinhonha, que queria agradecer ao patrocinador Natura o apoio ao projeto Ser Criança (projeto em que crianças passam horas de complemento de aprendizado em horário alternativo ao da escola). Eles queriam cantar uma música, mas Tião conta que em pouco tempo viu que eles não estavam preparados. Assim, acionou sua amiga, Regina Bertola, diretora do grupo de teatro musical Ponto de Partida, para ajudá-los. E nunca mais se separaram.
Em 2008, eu estive em Araçuaí para a ver de perto o Cinema que os Meninos haviam conseguido construir para a cidade. E de lá viajei com o Coral (sempre com crianças e adolescentes de 7 a 14 anos que vão saindo e chegando conforme crescem) até um show que eles fariam na também mineiro Ipatinga. Gravei um vídeo e colocamos no ar com a edição de meu marido, que na época também trabalhava na revista. Foi muito tocante tudo que vi e vivi com eles.

Além dos CDs e DVD já citados, a turma também tem um DVD com a participação de Milton Nascimento, o Ser Minas Tão Gerais, que os levou a Paris no Ano do Brasil na França. A estrada, amizade e história que entrelaçou esta turma para sempre dá frutos sem parar e há meninos que já fazem parte da Universidade Bituca no Complexo Ponto de Partida, área ocupada pelos artistas que estão revitalizando antigos casarões da de Barbacena, onde nasceu o grupo, e que acaba de ganhar um belo jardim projetado pelo Instituto Inhotim. Sim, eles não vieram ao mundo a passeio.

Nestes anos todos de encantamento por este grupo eu coleciono histórias inesquecíveis. Cresci com eles. Com este cantar “mineirês” deles, eles me dão um “brasilês”. É ouvir para bater junto com o coração, ninguém sai ileso. Dá um quê de nosso, a gente quer tomar de volta. As vozes das crianças amarram os laços, fazem a ponte de antes e depois. Perpetuam nossa poesia e nos convidam a levantar e dançar. São sopros de vida irrecusáveis.

Presente de Vô

Ponto de Partida e Meninos de Araçuaí

2013

à venda nos espetáculos, em algumas livrarias e até em sites como da Livraria Cultura

 

Deixe uma resposta