DRUFS E A INCESSANTE REINVENÇÃO DO RISO DE EVA FURNARI

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Livro expõe diversos tipos de família da nossa sociedade, mostrando que isso talvez não seja o mais importante

“Tudo que não invento é falso”. Esta é uma das frases, para mim, mais inquietantes da poesia de Manoel de Barros. Mexe comigo há tantos anos, faço releituras delas em mim a todo instante (algumas vezes conscientemente, outras não). Do que ele está falando? É um tamanho convite ao que temos dentro da gente que, quando saímos de lá, parece a volta de um mergulho buscando o ar novamente. Renascemos.

Suspeito que seja por aí o que caminha entre Eva Furnari e seus personagens: é tão ela e tão eles que o mergulho é individual e termina coletivo. Ela volta ao lado de todos eles, todos os personagens e histórias inventadas e busca o ar, o ar que é dela, deles e de todos nós, os leitores. Ela renasce e renascemos com ela.

Drufs (Ed. Moderna), o mais recente livro lançado por Eva, com sua história de cerca de 70 livros e mais de 35 anos de carreira, tem, ao mesmo tempo, força de uma autora experiente e leveza de um frescor de quem acaba de brotar uma novidade. O leitor desavisado pode até achar que se trata de mais um livro engraçado, ou até mesmo que ela só quis, desta vez, abordar uma questão atual. Mas, preparem-se: tem em Drufs muito mais do que você pode imaginar.

Há algum tempo, nos trabalhos que temos feito em parceria com a formação de educadores (nos Sescs de São Paulo e nos cursos que ela foi muito parceira n’ A Casa Tombada, onde trabalho, na cidade de São Paulo), ela me contou que estava criando um livro novo e que ele falava sobre famílias (ela chegou a contar e pedir opinião aos alunos, veja só!). Ela queria falar sobre estas questões das diversas formações e eu via que ela buscava ali, em algum lugar do mundo de Eva Furnari, não só a melhor maneira, mas a melhor maneira para ela. Parece simples. Mas não. Assunto tabu em uma sociedade que já É diversa. E há muitos livros que tratam do assunto, claro. Como não cair no didatismo da interpretação única? Uma maneira de fazer isso é, então, uma de maiores habilidades da autora: provocar o riso. Mas o riso da gente diante da obra da Eva, é aquele riso de suspiro, sabe? A gente se solta. Não é riso da ofensa, da humilhação, é riso de liberdade.

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Mas o que é Drufs? Na capa o título, o nome da autora e uma porção de fotos… Figuras engraçadas, diversas, cheias de detalhes, texturas… mas, peraí, você reconhece aquilo… são dedos! São dedos caracterizados. Na primeira dupla, o convite:

Os Drufs são seres parecidos com a gente, só que menores.

Os começos de livros de Eva são muito preciosos (aqui falando com a poeta portuguesa Maria Gabriela Llansol, apresentada a mim por outra poeta, a Angela Castelo Branco: “O começo de um livro é precioso. Muitos começos são preciosíssimos. Mas breve é o começo de um livro – mantém o começo perseguindo.”). Ficamos ansiosos para o que vem a seguir. Ela nos apresenta a professora Rubi que adora dar tarefas diferentes aos seus alunos. A narrada pelo livro é:

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O livro é uma sucessão destes trabalhos apresentados por alunos e aí vem o toque de delicadeza da autora mais uma vez: são as crianças que narram como são as suas famílias. Não são os pais, nem os avós, nem os professores, nem os psicólogos, nem os jornalistas, nem os deputados federais, nem os senadores, nem os advogados, nem os juízes…

Se “Drufs” não sugere nada sobre o tema do livro, muito menos os nomes das famílias: Família Gorrinho, Família Ui, Família Balum, Família Brong, Família Padoca. Mas estão ali famílias com pai, mãe, filhos, cachorros e gatos; com um dos filhos adotado; com pai já falecido; com pais separados e irmãos de outro casamento; com dois pais e com duas mães (e muitos, muitos avós!!); com crianças cuidadas pelas tias; com gêmeos, filhos únicos e com perguntas que não são respondidas. Nos detalhes também as semelhanças, as características de comportamento comuns. Quando menos percebe, o leitor está no assunto por deleite, não por informação ou função. Mas, claro, esta entrega ao livro é uma escolha do adulto, principalmente diante dos possíveis incômodos provocados pela leitura. A criança? Acredito que ela não esteja nem um pouco preocupada com isso.

Eva tece maravilhas como:

Da Família Ui, que tem uma fábrica de um item perigoso e se machuca muito: “Meu nome é Fifi e a Zizi é minha irmã gêmea. Nós duas estudamos na mesma classe. Por fora nós somos idênticas, mas por dentro somos diferentes”.

Da Família Balum, que trabalha com festas: “O único que não fala de festa é o tio Murchun. Ele tem depressão. O tio Bum também trabalha em festas infantis (como meus pais), mas detesta. Ele não tem paciência com crianças. Qualquer coisinha ele estoura.”

Da Família Suflê: “Meu pai tem um restaurante de comida Fritemburguesa. Ele é um chefe de cozinha famoso, mas quem faz comida aqui em casa é o meu outro pai, o Croassan. Quando eu crescer, quero ser chefe de cozinha.”

Da Família Zum: “Minha família tem três pessoas, contando eu e descontando meu pai, que já morreu. No ano que vem vai ter quatro pessoas de novo, porque a minha prima do interior vem morar com a gente.”

O livro mexeu muito com a minha filha Clarice, de 4 anos. Primeiro o nome: brinquei com ela para ver se ela adivinhava quem eram eles. Quando os conheceu, agiu muito naturalmente e disse: “são dedoches!”. Continuamos a brincadeira de que a palavra “drufs” estava invadindo as nossas frases a todo o momento, como se eles tivessem “entrado” nos nossos pensamentos. Ela adorou. Gosta de ouvir o que leio em voz alta, mesmo que não compreenda tudo (li e reli muitas vezes já). Percebeu as ausências nas famílias e quis elaborar sobre elas. E amou cada uma das crianças como se falasse dos amigos da escola. Suspeito que a conexão também venha de uma definição belíssima que aprendi com um outro autor de livros para crianças, Claudio Thebas que, como Eva é na palavra e na imagem, ele é na profissão: palhaço. Em “O Livro do Palhaço” (Ed. Companhia das Letrinhas), ele diz: “Todo mundo nasce palhaço. Sem exceção. Basta observar as crianças pequenas para perceber que elas têm todas as qualidades que um bom palhaço deve ter: são atrapalhadas, sinceras, espontâneas e, por tudo isso, muito engraçadas. Elas não têm o menor medo do ridículo, até porque não fazem ideia do que seja isso.”

Ah, claro, vocês viram na capa aquela porção de dedos fotografados. Esta foi mais uma reinvenção da autora que desta vez focou sua destreza para caracterizar personagens decorando dedos com lãs, botões, tampinhas, pedaços de comida, massinha, miçangas e muito mais. E as tipografias e outros recursos gráficos também variam muito.

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Nada está à toa. Tudo completa a ideia do livro.

Como em Umbigo Indiscreto, Nós, Lolo Barnabé, Cacoete, Marilu e tantos outros livros, Eva está ali revelando cada de um de nós em pensamentos, gestos, costumes e jogando com as nossas possibilidades de acolher diferenças e limites. É como se ela nos lançasse a um jogo em que avançar ou não seja uma questão de fazer escolhas.

Drufs (Editora Moderna)

De Eva Furnari

2016

VEJA TAMBÉM:

e uma entrevista com Eva, sobre Drufs feita pela Bia Reis, no blog Estante de Letrinhas.

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