A Caligrafia de Dona Sofia

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Como é bom se apaixonar. Geralmente acontece com algo que você não conhecia antes. Aquele prazer de ver algo pela primeira vez. Há livros que eu tenho isso tão bem guardado no Esconderijo do Tempo que basta a mínima menção de ver uma pontinha dele na estante e lá estou eu suspirando…

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A Caligrafia de Dona Sofia é assim. Representa muito para mim. Representa que eu, naquele momento, já me reconhecia no universo da literatura infantil, porque eu queria a qualquer custo conhecer a história de seu autor, André Neves, um pernambucano que morava no Rio Grande do Sul. E eu achava que era só isso, imagine.

O livro chegou a mim na redação da revista Crescer, por conta de uma segunda edição feita pelo autor e lançada pela Editora Paulinas. A senhora já me encantou na capa, com sua mão firmemente segurando um lápis. Gostei da forma que o André assinava o livro e aquelas colagens harmonicamente combinadas em tons terrosos… Na dedicatória, uma afetividade explícita: “Para Badida, pois, acreditem, ela tem uma casa toda escrita. Para a minha irmã Elma, que tanto amo, e que tem uma caligrafia tão bonita quanto a de Dona Sofia”.

Quem não se animaria a este convite? Era 2007.

Primeira capa: CALIGRAFIADONASOFIAVERSAO1 Segunda capa: CALIGRAFIADONASOFIA2 Afinal, mas quem é essa Dona? Nas primeiras páginas, obras e autores estão jogados como se fosse um erro poético de diagramação. Roseana Murray, Fernando Pessoa, Fernando Paixão. Trata-se de uma introdução à inesperada decoração de uma casa especial que estava prestes a ser exposta. Segue um texto-prefácio do poeta Elias José (falecido em 2008) – “é um livro que a gente lê e diz com uma invejinha positiva: por que não fui eu quem o escreveu?”.

Na página seguinte, o primeiro parágrafo dá a primeira flechada de curiosidade na gente:

Enquanto as flores desabrochavam, os primeiros raios de sol foram surgindo no horizonte, interrompendo a brisa fria e suave da madrugada e novamente despertando a cidade para um novo amanhecer. Toda aquela região era cercada por colinas. Bem lá no alto, na mais alta delas, morava uma velha senhora chamada Dona Sofia.

Ao lado e nas páginas seguintes, Gonçalves Dias, Castro Alves e outros poetas vão dizendo suas emoções a nós, ao mesmo tempo em que André nos apresenta em palavras, traços e cores a protagonista da história. Professora aposentada, ela tinha uma casa bem diferente das outras: as paredes eram decoradas com poesias. Ela mesma as escrevia por todos os cantos. O problema é que o tempo foi passando e as poesias, claro, brotaram ainda mais. Quase sem controle. E não havia mais espaço para novas e então Dona Sofia teve a ideia de escrever e presentear os moradores vizinhos. Preparou vários cartões poéticos e chamou Seu Ananias, o carteiro que conhecia todos na cidade.

CALIGRAFIADONASOFIAANANIAS

Ele adorava a companhia de Dona Sofia. Com a poesia correndo solta, em diversas formas, de Garcia Lorca a João Cabral de Melo Neto, o autor do livro nos expõe uma virada na história: Seu Ananias também recebe um cartão-poético da professora. A primavera é a estação dos risos. Casimiro de Abreu E nasce ali uma paixão. E é Seu Ananias, esbanjando sensibilidade, que nos faz notar uma falta da professora semeadora de poemas: alguém ainda manda cartas para Dona Sofia? É desta forma que o círculo cria movimento. A velha senhora passa a receber mais do que cartas. O leitor entende mais do que poesias. E, dizem, esse semear não para nunca.

Dona Sofia existe. Sob a poesia da artista plástica cearense Badida, que foi professora de pintura de André, ele transformou memória em livro. Ele conta que os poemas na casa dela estão por todos os lados, até mesmo em rodapés e almofadas. Não à toa, Badida é conhecida como a artista que pinta a literatura. 

A Caligrafia de Dona Sofia (Ed. Paulinas)

textos e ilustrações de André Neves

2007

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