Já somos grandes: Dib e o teatro infantil hoje

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Sem sonho, sem fantasia, para que oxigênio? De todas as maravilhas reunidas no Já Somos Grandes (Ed. Giostri), livro do principal crítico de teatro infantil brasileiro, o jornalista Dib Carneiro Neto, esta foi uma que não me sai da cabeça. Dá a dimensão exata – e quase literal – do sufoco que passamos com a onda de politicamente correto nas artes “para crianças”.

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Mas Já Somos Grandes nos dá muito mais. Dib reuniu no livro críticas de peças publicadas no jornal Estado de S. Paulo (onde ficou por duas décadas) e no site da revista Crescer (onde está atualmente publicando textos todas as sextas-feiras), entrevistas especiais, debates, balanços anuais da produção de 2001 a 2012, ano a ano, ou seja, um registro fundamental. E, de presente, nos dá uma visão otimista que me acalma tanto como mãe – Clarice tem o privilégio de acompanhar uma onda de qualidade no teatro e já está experimentando da plateia! -, tanto como especialista e também como colega de tantos profissionais que dão a vida para colocar um parâmetro de qualidade e respeito quando o assunto é subir ao palco e apresentar um espetáculo artístico para uma plateia em que as crianças podem ser maioria. Ao contrário do que publicou em Pecinha É a Vovozinha, seu primeiro livro lançado em 2003, Dib mostra um teatro infantil evoluído no país, com o preconceito e, em nome dele, as más produções, diminuindo cada vez mais. “O Pecinha é a Vovozinha, lançado em 2003, apontava os defeitos que eu via naquele momento. Também surgiu de uma reportagem que eu fiz na época, em que listei os 10 pecados da literatura infantil. Foi um sucesso absurdo. Imprimiam a lista. Aí fiz o livro para ter o registro. E mostrar como as pessoas tinham preconceito”, conta o jornalista.

 

Claro que, como nunca é demais, ele republica a lista, resumidamente, com os 10 pecados, no segundo livro:

1. Excesso de intenções didáticas.


2. Uso de humor fácil e grosseiro.

3. Precariedade/excesso de efeitos multimídias.

4. Obsessão pela lição de moral.


5. Facilitação e edulcoração dos contos de fadas.

6. Cenas com participação forçada da plateia.


7. Divisão dos espetáculos em rótulos por faixa etária.

8. Abusar sem técnica e arte do nariz de palhaço.

9. Desleixo nos diálogos.

10. “Premiar” a plateia com brindes e sorteios que tiram o foco do espetáculo.

Até aqui já tem bastante pano para conversa, né? Mas Dib abre o livro com um achado histórico. Um texto de Bárbara Heliodora, uma das mais importantes críticas de teatro no Brasil, escrito em 1961. Nele ela fala da falta de qualidade e critério na qual se encontrava no teatro para crianças. Tudo em nome de uma “suposta pedagogia” e com uma “exacerbação emocional gratuita”. Lembrava que “o teatro é uma experiência artística, estética, independente, autônoma”. Que PODE educar. Mas “pelos próprios meios, pela ampliação da experiência de conhecimento humano. E nunca pela lição de moral empurrada goela abaixo”. É sensacional porque poderíamos colocar esta crítica como alarme também na produção de livros infantis, filmes, programas de TV. Existe um conceito bizarro no ar que criança precisa viver em uma aula contínua, eterna. E que a experiência estética pode ficar de lado.

Mas Dib nos mostra que não há retrocesso e o teatro infantil melhora a cada ano. E, tenho certeza, tem muito da contribuição dele, em críticas que respeitam a todos os envolvidos. O que temos? De um lado, as crianças e famílias com mais parâmetros artísticos para comparar. De outro, grupos e espaços preocupados com a visão do artista para a criança, a forma de abordagem, quebra de tabus (sejam temas difíceis, sejam formas de se apresentar), e o que é dito é dito com respeito e mais qualidade na palavra, na atuação, na trilha sonora, no cenários, figurinos e tudo o mais. Um caminho para entendermos por que levar a criança ao teatro. “Para a criança se conhecer, perceber o outro, o mundo”, escreve Dib.

Para completar, há depoimentos primorosos de artistas muito diferentes entre si e igualmente majestosamente talentosos. Como de Ilo Krugli, o criador do VentoForte, uma referência:

“A nossa não é apenas uma profissão em si, é uma atitude. A criança que vê atores fazendo, refazendo, criando, recriando, reinventando, tudo sem limites, essa criança vai desenvolver uma disposição e uma energia para, ao longo da vida dela, não engolir teses, saber ter jogo de cintura, reinventar sua própria vida e, sobretudo, brincar muito, em todas as situações, não importa que idade esteja.”

Natural de São José do Rio Preto, SP, Dib também escreve para teatro. Adivinhe Quem Vem Para Rezar foi encenada por Paulo Autran; Salmo 91 lhe rendeu em 2008 o Prêmio Shell de Melhor Dramaturgo; a adaptação do livro Estação Carandiru, de Drauzio Varella, teve direção do premiado Gabriel Vilela; sua tradução do francês Calígula teve interpretação de Thiago Lacerda; ainda adaptou para o teatro os livros Crônica da Casa Assassinada, de Lúcio Cardoso, e Depois Daquela Viagem, best-seller juvenil de Valéria Polizzi. Este ano estreou Um Requiém para Antonio. Dib é autor também de A Hortelã e a Folha de Uva, crônicas culinárias sobre sua ascendência libanesa.

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Confiram o bate-papo que tive com Dib esta semana. E se inspirem a experimentar teatro infantil esta semana… e na outra… e na outra…

ESCONDERIJOS DO TEMPO: O livro ficou otimista…

Dib Carneiro Neto: Sim! O livro ficou todo otimista. Eu acho que melhorou muito mesmo. O Pecinha é a Vovozinha, lançado em 2003, apontava os defeitos que eu via naquele momento. Também, como este, surgiu de uma reportagem que eu fiz na época, em que listei os 10 pecados da literatura infantil. Foi um sucesso absurdo. Imprimiam a lista. Aí fiz o livro para ter o registro. E mostrar como as pessoas tinham preconceito.

ESCONDERIJOS: E então mostra que foi nos últimos 10 anos que isso mudou…

Dib: Há ma consciência muito maior de quem faz, com críticos acompanhando nos jornais dando opinião e mostrando aspectos importantes. Mesmo que a família não concorde, é alguém dando importância para o teatro infantil. Bem como os prêmios também são importantes e só existiam para teatro adulto… Quando me perguntam o que melhorou eu digo isso. E também coloco na lista inclusive a vinda do Cirque du Soleil no Brasil.

ESCONDERIJOS: Por oferecer um espetáculo grandioso…

Dib: Para as pessoas verem que “é para criança” mas dá para ser bem feito, tem a qualidade artística necessária, é ao mesmo tempo para pais e filhos… é claro que é uma franquia, não temos esses recursos, mas serviu de parâmetro.

ESCONDERIJOS: Os musicais também?

Dib: Também, tem razão, entra nesse pacote. Música é algo muito presente, é dificil não ter. Tudo bem se não tiver mas, se tem, vamos fazer direito! Compor uma trilha, parar de copiar as músicas dos filmes da Disney! Isso é uma loucura, corre para o teatro para levar os filhos para ver os clássicos. E às vezes não se importa com a qualidade, se encanta e acha que está mostrando teatro para os filhos. É um círculo vicioso que acaba alimentando os oportunistas que não se preocupam com a qualidade artística.

ESCONDERIJOS: Me dá mais exemplos desta evolução…

Dib: Por exemplo temas que eram tabus. Era assim: “teatro infantil é pecinha com musiquinha alegrinha para a criança ficar feliz e com uma lição de moral”. Aí começou a ter peças que não tinham finais felizes, que falavam da morte do pai, da mãe, da avó… sem medo de chocar. Só que foi um processo. Os pais não se conformavam. Eu já fui à peça que morria alguém e virava uma tristeza no palco. Aí vi pais pegando o filho na mão com um “vamos embora, eu não trouxe meu filho para sofrer”. Aí foi mudando. Sabe, se informa antes. Vai lá sabendo o que vai encontrar para não fazer isso no meio da história.

ESCONDERIJOS: Até porque, pode atrapalhar outras pessoas… Já encontrou muita criança chorando, emocionada?

Dib: Sim, já vi cenas lindas de reação de criança com pai. Se abraçando, o filho se declarar para os pais, pegar na mão, pular da poltrona pra o colo.

ESCONDERIJOS: Demonstrar afeto…

Dib: Isso. E não precisa falar nada. Deixa a criança ter a reação. É lindo quando os pais não tem esta ansiedade de querer falar sobre a peça, de na hora que acaba já grudar na criança e dizer “o que você achou??”… deixa a criança em paz! São exemplos da evolução…

ESCONDERIJOS: Quando foi que você se lembra da primeira peça infantil da vida?

Dib: Eu morava em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, e eu tinha menos de 10 anos. Era uma peça que subvertia os super-heróis, eram os conhecidos, mas fracotes. Isso para mim já foi uma ousadia. Mas o que aconteceu é que o bairro ficou sem energia e a peça teve que começar sem luz. E eu estava amando! De repente voltou a luz e, no meio da peça, eles resolveram fazer tudo direito e quando eu vi aquilo, a diferença de luz e sem luz, eu não acreditava naquelas possibilidades, naquelas cores, naquele jeito de iluminar, as pessoas no palco… Eu já estava adorando e aí então fez-se a luz – em todos os sentidos! (risos) – e eu fiquei maluco. Foi o que ficou para mim.

ESCONDERIJOS: Aqui eu falo muito sobre momentos que a gente guarda da infância e que, muitas vezes, a gente lembra, abraça nossa alma, e faz sentido com o que fazemos hoje. E o que tem no seu Esconderijo do Tempo?

Dib: Eu fui uma criança muito introspectiva. Mas a minha cabeça fervia. Então eu lembro de o caminho da escola para casa, eu ia a pé. Tudo que acontecia na escola eu não abria a boca. Mas neste trajeto até em casa, minha cabeça voava e eu revivia sozinho as situações dentro da minha mente, fantasiando, refazendo, respondendo coisas que eu poderia ter respondido… esse mundo interior muito rico acho que acabou me levando para este lado da criação, do lado artístico, querer ir para o jornalismo. Uma cabeça muito imaginativa. Eu recriava a realidade e era isso que me alimentava. Ninguém imaginava isso.

Outra coisa que me marcou muito era a estante lá de casa. Meus pais compravam livros, incentivam ler. E tinha uma cadeira de balanço, de palhinha mesmo, e eu sentava nesta cadeira e lia. Meus irmãos correndo pela casa, jogando bola e eu sentado na cadeira de balanço lendo. E eu tenho esta cadeira hoje. Depois que meus pais e avós morreram, as pessoas diziam “esta cadeira tem que ser sua”. E ela está lá na minha casa até hoje e eu até hoje sento. As pessoas ficam até acanhadas em sentar nela! (risos).

E o fato de ser uma família de interior e mesmo assim meus pais terem me levado no teatro, mesmo sendo caro. Eles enxergaram isso.

Abaixo, alguns links com trechos ou espetáculos inteiros destacados no livro de Dib:

Sonhatório, da Cia Truks

A Cortina da Babá, do Grupo Sobrevento

O Colecionador de Crepúsculos, de Vladimir Capella

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