MAURICIO NEGRO: “Somos muitos. Plurais na singularidade”

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ENTREVISTA: MAURICIO NEGRO

“Somos muitos. Plurais na singularidade”

 

Pode dar uma olhada no que temos no mercado brasileiro de “livro para a infância” que acolha temáticas africanas, afro-brasileiras, indígenas, povos antigos e vai encontrar o nome Maurício Negro em diversas edições. Paulistano, crescido próximo às belezas da Mata Atlântica e leitor desde cedo, seu traço nos evidencia ancestralidades e pesquisa em suas dezenas de livros ilustrados, alguns como escritor também.

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No final de 2017 tive acesso ao seu Gente de Cor – Cor de Gente, lançado pela FTD. Um livro com rostos em formas de retrato com uma porção de expressões e cores. Só imagens.

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Folheamos várias vezes, dá vontade de ir e voltar, vasculhar semelhanças, entender diferenças.

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Conversei com ele para saber a história por trás de querer colocar essas imagens em livro e lançar em livro para as crianças.

ESCONDERIJOS DO TEMPO: Bem, de início queria saber a história por trás do livro. Você o dedica às suas filhas e a uma certa menina… quem é? Que história é esta?

MAURICIO NEGRO: A ideia do livro nasceu de uma frase de sexta-feira, que ouvi em frente ao portão do nosso condomínio, numa roda de conversa entre adolescentes. Uma menina negra disparou: “Pois então, fulano. Você aí fica vermelho de vergonha e depois eu é que sou de cor?”. Todos riram. Eu também. Na manhã de segunda-feira montei meu material na área externa, para pensar e esboçar um livro que eu precisava ilustrar. Foi quando lembrei daquele comentário da menina, antes de iniciar o trabalho. Logo me lembrei de outras tantas expressões idiomáticas, que misturam cores, sensações e ideias pré-concebidas. Um livro sobre preconceito racial se anunciou num estalo. Aproveitei as folhas que tinha à mão, fiz um boneco em miniatura e reservei 32 páginas. Ao meio-dia o essencial estava pronto. Eliminei o texto literário; percebi que as imagens bastavam, davam mais pano para manga. E mais abertura para a reflexão. Ainda espero reencontrar e dar um exemplar do livro para aquela menina, cujo jeitinho altivo lembrou as minhas meninas.

A sequência de imagens sempre foi desta forma, esse jeito retrato também? 

Desde o início pensei em retratos binários, como fotos 3X4cm ampliadas na proporção. Preto no branco, diria. Ou branco no preto, por outro lado. Porque não poderia haver recados paralelos ou qualquer coisa que desviasse o foco de cada situação. Manter o foco era preciso. E tinham que ser meninos. Fossem meninas, haveria um outro viés adicional. Uma outra discussão, acho. Também evitei esticar demais a brincadeira, para manter a graça, o questionamento e a surpresa. Numa certa altura, esgotadas as expressões mais conhecidas, experimentei associações diferentes. É como a filosofia, quando aborda o assunto por diversos ângulos, muito embora os retratos pareçam ali mais ou menos estáticos. A narrativa nasceu visual, mas só notei no meio do processo criativo. E fiquei feliz demais. Apesar da nossa ampla vivência audiovisual, pelos caminhos mais formais, a palavra ganha status na mesma medida em que a imagem perde. Um livro sem palavras, ao contrário do senso comum, pode suscitar uma infinidade de comentários. E pelo menos nesse livro, meu interesse foi antes escutar os leitores do que obrigá-los a me ouvir.

Como foi encontrar o traço e os tons para esse livro? Tirando o motivo inicial, você tem uma vida dedicada à busca da representatividade africana, afro-brasileira, indígenas, não? E a mistura delas, dos povos que representam… Aí penso que desafio foi encontrar as formas, as situações retratadas, os tons… nós somos muitos tons!

Cris, penso que meu interesse é a infância. Digo, no sentido mais amplo possível. Se lido tão frequentemente com temáticas de raiz é por conta disso. Porque acredito que só é possível aspirar uma realidade melhor, uma sociedade mais justa e saudável, se a gente compreender onde, quando e como deitaram nossas raízes. Carece identificar os laços que nos unem, desde o início. Nossas filiações e linhagens, inclusive com a terra, com a água, com o ar. Eis aí minha motivação e trilha. Os povos antigos, indígenas, tradicionais, caboclos, caiçaras, ribeirinhos, quilombolas ainda estão próximos da infância da humanidade. A gente devia pegar nas mãos deles. Pelo nosso bem comum.

Somos muitos. Plurais na singularidade. Mas o binarismo nos prende, compreende? Preto ou branco. Certo ou errado. Direita ou esquerda. São tempos difíceis. Queremos falar pelos cotovelos, mas ouvimos muito pouco. Para começar somos muitos em um. Tem que investigar a geneologia para começar a se perceber. A gente herda muita coisa, inclusive ambiguidades. Tiramos selfie feito narcisos, mas raros encaram o espelho sem retoque digital. Quem não teme ser tachado? Conservador, eu? Preconceituoso, eu? Jamais! Pois bem, somos tanto uma coisa quanto a outra. Todos nós, na medida da sobrevivência. E é natural! Se passar do ponto, aí sim, o caldo entorna. A discussão começa assim, na honestidade, e sem panfletagem.

Quantos livros você já produziu, Mauricio? Você segue algumas temáticas no seu traço, é um pesquisador… como se deu isso? Por que faz? Como vê a representatividade de “gente” nos nossos livros para crianças e jovens? O que há a se fazer?

Sou um pesquisador espontâneo, digamos assim. Desde pequeno tenho um temperamento curioso e bastante crítico. Aceito remar contra a correnteza se for preciso, compreende? O que me interessa é o que pode dar certo. Mesmo que ainda não tenham chegado lá. Foi assim que ilustrei mais de uma centena e meia de livros, cuidei do projeto gráfico de outros tantos, fiz uma infinidade de capas, organizei coleções, catálogos e antologias, e escrevi um punhado de livros improváveis e até alguns ensaios. Há ainda uma grande desproporção temática e identitária na produção, crítica e fruição literária no Brasil. E também em outras áreas de expressão. Culturalmente nosso cabresto é eurocêntrico, apesar do modernismo, da semana de 22, do tropicalismo, da nossa nova, do samba esquema novo, do mangue beat, no armorial e outras tantas (re)existências de maior ou menor grau. Isso timbra absolutamente tudo. Até mesmo as políticas uniformizantes para a educação, o filtro cultural dominante, a orientação ideológica de nossas gentes, os assuntos de governo, as decisões estratégicas econômicas e sociais. Eu adoraria conhecer um redesenho de país capaz de equilibrar suas forças e riquezas em vez de apenas aclimatar modelos estrangeiros e interesses imediatistas de certos grupos. A sensação atual é de que perdemos o bonde… De todo modo, com muito suor continuo fazendo a minha modestíssima contribuição. Falamos de livros, né? O melhor da ascendência europeia, sem dúvida, mas ainda distante tão distante da moçada…

E do Mauricio “leitor criança”, quem te marcou mais? Que histórias ou que livros? Ou os dois… 

De bate-pronto, puxando pela memória, misturo leituras de infância e adolescência. Na infância com prazer li os clássicos dos irmãos Grimm, Oscar Wilde, Hans Christian Andersen, Lewis Carroll, Maurice Druon, entre outros. E também brasileiros, tais como as vacas da Edy Lima, Lygia Bojunga, Fernanda Lopes de Almeida, José Paulo Paes, Sílvio Romero. Fiquei chapado com o “O boi aruá”, escrito e ilustrado pelo Luís Jardim e lembro bem do impacto que me causou “Quando os rios morrem de sede”, do Wander Piroli. Nunca mais esqueci de “O menino do dedo verde”, do Maurice Druon. Acho que Tistu sou eu. Não tinham tantos livros lindos para criança como hoje. Eu antecipei leituras mais avançadas. Fui advertido uma vez por uma bibliotecária de que a “Piabinha Detetive”, da Lúcia Machado de Almeida, não era adequado a minha idade. Minha mãe, que era professora, foi até a minha escola tirar satisfação. Que absurdo, né? Imagine só. Tenho a coleção completa de Lobato, que herdei do meu avô. Capa dura, ultra conservada.

Lembro das maravilhosas descobertas juvenis e adultas mesmo: Raymond Bradbury, Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, Carl Sagan, Joseph Conrad, Júlio Verne, H. G. Wells, Mark Twain, Edgar Rice Burroughs, Mary Shelley, Agatha Christie, Conan Doyle, Robert Louis Stevenson, Mark Twain, Machado de Assis, entre outros. O primeiro livro português que li na juventude e que marcou foi “A confissão de Lúcio”, do Mário Sá-Carneiro. Entre os brasileiros, Murilo Rubião me cativou. Depois, acho, foi incrível ler Horacio Quiroga nas férias por acaso. E que delírio descobrir os argentinos! Teve um título juvenil relacionado ao universo indígena: “As aventuras de Tibicuera”, do Erico Veríssimo, só não me lembro se curti. Um dia fui tirar xerox na esquina e sob o vidro do balcão li um trecho do famoso discurso do Chefe Seattle (que eu nem sabia na época do que se tratava). E pensar que muitos anos depois lancei, em coautoria com meu amigo e parceiro de projetos Daniel Munduruku, uma versão adaptada e ilustrada daquele pronunciamento socioambiental tão inspirador! A vida dá voltas.

Como é contar ou ler histórias para as suas filhas? O que te preocupa ou que você foca mais na escolha de um livro para mostrar a elas? Quais são os desafios maiores?

Lá em casa temos uma biblioteca bastante razoável. Tem livros para muitos talheres. E tudo está ao alcance. Nas prateleiras mais altas é só pedir que a gente pega. Não há, nem houve, nenhum esforço para fazer as meninas lerem. Os livros estão por toda parte, pessoas mexendo com eles, eles mexendo conosco. São parte do cotidiano, a leitura acontece por osmose. Elas sempre nos flagram com livros nas mãos. E claro, frequentam o meu ateliê e têm o material de arte delas também. Tenho que fazer o contrário, dar uma vigiada pelo manuseio dos livros e paradeiro de pinceis, tintas e afins. De vez em quando, levam livros meus para a escola. E elas já têm também os próprios títulos no quarto e sempre que dá contamos histórias antes de dormir (tem vezes que o narrador pega no sono junto com o público).

Como temos livros bons, em geral, ficamos tranquilos com relação ao que elas estão lendo. Mas é claro que a preocupação maior é com a indústria, com a banalização da cultura de massas. Só que é impossível blindar a casa. As tranqueiras, pôneis, trolls e outros Barbietúricos entram pelas frestas. A TV é uma baita aliada estratégica. Embora apenas a Cultura e alguns programas específicos liberamos aqui. Importante dizer é que ninguém se esquiva de falar o que pensa. O papo lá em casa é reto. Ah, sim! Só regulamos tudo que é digital. Papel é liberado, estimulado e celebrado. Temos diálogo!

AQUI no link, um vídeo produzido pela editora em que Mauricio fala um pouco mais sobre o livro. 

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