Uma dupla, três livros, muita diversão

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TRILOGIA DO RETRATO, ILAN BRENMAN E RENATO MORICONISou capaz de lembrar muito bem da primeira vez que peguei nas mãos o livro Telefone Sem Fio (Ed. Companhia das Letrinhas, 2010), criado pelos artistas Ilan Brenman e Renato Moriconi.

TELEFONESEMFIO

Qualquer apaixonado por livros infantis adora a possibilidade dos tamanhos variados e pegar um livro, brasileiro, com 27 por 36 cm, é um deleite. Quando abri, a surpresa foi ainda melhor: uma série de personagens conhecidos sucessivamente cochichando algo no ouvido um do outro. Não existe uma única palavra escrita e, sim, uma sequência de retratos, altamente expressivos. A clássica brincadeira, que sempre dá uma bela confusão entre os jogadores, virou uma deliciosa leitura, para todas as idades.

BOCEJODENTROpPouco mais de ano depois, chega Bocejo, mesmo formato, mesma série de retratos. Mas, como o nome mesmo insinua, uma das reações mais naturais de nosso corpo comanda a ligação entre as ilustrações, todas acompanhadas da onomatopéia clássica, o que só ajuda o leitor aaaah, oooohhhhhh…, bocejar junto.

CARAS ANIMALESCASA trilogia se finda com Caras Animalescas (2013) em que a sequência de retratos vem acompanha agora com frases. Mas não são frases à toa: elas dão o tom do humor proposto nas imagens, comparando pessoas a animais em rimas divertidas, daquelas gostosas de decorar. Cochicho, ruídos, palavras: e assim Ilan e Renato nos oferecem uma trilogia de semelhanças e diferenças em que o mais importante é o brincar, um dos prazeres da leitura.

Ilan e Renato também aparecem no livro com seus retratos
Ilan e Renato também aparecem no livro com seus retratos

Conversei com os autores para contar aqui os bastidores deste trabalho que está se tornando um marco da nossa literatura infantil.

ESCONDERIJOS DO TEMPO: Olá, Ilan, Olá, Renato! Vocês poderiam retomar o começo da trilogia e nos contar como ela nasceu? Desde o início a ideia era ter três livros?

Ilan Brenman: O primeiro livro nasceu de um fato ocorrido há alguns anos dentro de um restaurante, estavam amigos e filhos numa grande mesa, bagunça total! Resolvi propor uma brincadeira: Telefone Sem Fio. Sucesso e calma absoluta. Voltei para casa e comecei a rabiscar uma história de um telefone sem fio numa mesa, personagens etc. Eu escrevia em uma semana e apagava na outra, passei assim um bom tempo até que, Eureka!, percebi que Telefone Sem Fio não poderia ter texto, é tudo cochicho. Comecei a pensar em um roteiro para mostrar para um ilustrador, seria uma experiência totalmente nova para mim, um autor que não desenha fazendo um livro de imagens, doido! Comecei a pensar nessa relação de roteiro e filme, diretores e atores, compositores musicais, regentes e músicos. Seria um trabalho de co-autoria, precisava de alguém bem próximo para realizar essa maluquice. O primeiro ilustrador que busquei não topou a brincadeira. Foi aí que liguei para o Renato, já havíamos trabalhado juntos, ele topou na hora. A partir desse momento duas cabeças e quatro mãos começaram a pensar no livro. Quero contar que foi o Renato que mudou minha ideia original da mesa para os retratos, mudança melhor não poderia ter existido.

Renato Moriconi: O Ilan tinha em mente personagens malucos cochichando coisas no ouvido uns dos outros, mas disse que palavras não lhe viam à mente, portanto queria criar um livro de imagem comigo, do zero. Adorei a ideia e o desafio! Um tempo depois dessa conversa, olhando um de meus fascículos da coleção Gênios da Pintura, me deparei com os retratos do casal Sforza, do pintor Piero Della Francesca, um díptico em que os retratados parecem cochichar algo. “Eis o livro!”, pensei. Sendo Piero um artista do século XV, época de reis, rainhas e castelos, quem deveria começar a brincadeira seria o bufão. A partir desse personagem brincalhão, vieram os outros. O formato e a técnica são também inspirados por essa experiência. O livro tem a mesma medida desses fascículos que mencionei acima e a técnica de finalização das imagens – pintura a óleo – foi utilizada por Piero Della Francesca. O primeiro boneco (protótipo do livro) que tínhamos apresentado para a editora era do livro Bocejo. Ele estava com alguns problemas pra viabilizar sua execução na gráfica; tinha pensado pra ele uma folha única, cheia de dobras, simulando um mapa. Mesmo sendo em formato de mapa, toda a ação do livro acontecia no plano do retrato. Não era um livro em que eu precisaria, por exemplo, mostrar as pernas dos personagens. O foco era o rosto. Por volta dessa mesma época, o Ilan me apresentou o texto de Caras Animalescas, que também tem toda a força da imagem no rosto. Então conversamos e decidimos unir os três projetos no mesmo formato do Telefone Sem Fio. Desse processo nasceu a trilogia do retrato.

ESCONDERIJOS: De Telefone Sem Fio para Bocejo e de Bocejo para Caras Animalescas, como foram as transições?

Ilan: Quando o Telefone ficou pronto e a repercussão positiva em relação ao livro começou, decidimos pensar juntos na continuação. Bocejo era um livro que no seu início foi projeto solo, que acabou não acontecendo por questões técnicas de engenharia de papel. Por que, então, não fazer uma trilogia? Pegamos o Bocejo e o Caras Animalescas (que já estava escrito desde o começo do projeto) e transformamos numa trilogia. O que uniria os três livros? Os retratos em pintura, o formato do livro e o caminho da linguagem. Ou seja: do silêncio do Telefone Sem Fio para as onomatopéias do Bocejo, até chegar nas frases do Caras Animalescas. Do silêncio à voz.

ESCONDERIJOS: Vocês estão tristes com o último capítulo de A Trilogia do Retrato? Qual é a sensação com esse ciclo fechado?

Ilan: Estamos muito felizes com o resultado, principalmente porque os leitores de todas as idades estão adorando os livros. O Caras Animalescas está provocando gargalhadas em escolas e livrarias, isso é demais!

ESCONDERIJOS: O que ficou para vocês desta experiência, seja como criadores (cada um em suas habilidades particulares), seja como leitores, seja como pesquisadores da narrativa, seja até mesmo em relação ao retorno dos leitores?

Renato: Uma das grandes alegrias que essa série me proporcionou foi poder expor alguns de meus diálogos com a tradição da pintura, que é uma arte que amo tanto quanto a arte do livro.

Ilan: Acredito que fizemos um trabalho maravilhoso, diferente. Não podemos deixar de falar da editora Companhia das Letras que nos deu todas as condições para fazer de cada livro uma pura obra de arte e fruição.

 

4 COMENTÁRIOS

  1. Cris,
    O site está lindo de viver e a trilogia do Renato / Ilan é uma maravilha!
    Em breve, Passarinho terá um encontro especial com esses livros, que são uma verdadeira obra de arte!
    Um beijo.
    Renato.

  2. O Esconderijos está lindo! E amei a entrevista do Ilan. Só um escritor muito doido de criativo para propor um livro sem texto. E só m ilustrador muito doido de bom para aceitar a proposta. Adorei conhecer essa história de parceria!

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