Segredos, de Ilan Brenman

1991

O escritor Ilan Brenman, um dos mais ativos da nossa literatura infantil, tem uma paixão profunda pelas tantas formas de contar histórias. Para tanto, é um eterno garimpeiro de contos do mundo todo, além de inventar as próprias narrativas a partir de seu cotidiano, principalmente com as duas filhas (vide os geniais Até as Princesas Soltam Pum e Papai Não Fui Eu!, inspirados em situações com as meninas). Hoje eu acho que ele mais do que nunca, pesca elementos de um lado e de outro para criar histórias que façam as crianças amarem ler. Quer propósito melhor?

Vou falar de Segredos, lançado pela Editora Moderna e ilustrado pela espanhola Anuska Allepuz.  Como o próprio nome indica, a história começa com as amigas Joana e Manuela cochichando. De um lado era: “Você promete que não vai contar para ninguém?”. De outro, a cumplicidade: “Prometo por tudo que é mais sagrado”. Manuela se aproxima do ouvido e conta. A partir daí, tudo se transforma na vida de Joana e a gente percebe que não é tanto por causa do conteúdo da conversa: mas mais pelo fato de ter de guardar a “grande” revelação. “Era como se ela tivesse descoberto o segredo das tumbas dos antigos reis egípcios”, brinca Ilan com o leitor.

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Não é difícil a gente mesmo voltar para si e lembrar daquele frio na barriga ao ouvir um segredo. E como parece que tudo a nossa volta de repente é tomado por ele, como se fosse assunto único. Joana começou a sentir aquela cosquinha de segredo querendo sair e, para segurar a ansiedade, foi ao banheiro da escola e gritou para dentro da privada: “A Manuela gosta do Rafael Ruivo!”. Depois apertou a descarga e se sentiu aliviadíssima. O que a menina não contava era que, justamente quando Tarsilinha, outra aluna, fosse ao banheiro, ela apertasse a descarga e voz sairia de dentro dizendo a grande revelação.

É aí que me divirto com Ilan. Claro que a tal Tarsilinha não se importou com o fato de uma voz sair de uma descarga… ela simplesmente ouviu a frase, adorou a fofoca e foi correndo para a sala de aula. Passou um bilhete para todos da classe e todo o mundo quis conferir a informação dada no banheiro. Eu adoro esse nonsense em pleno cotidiano. É como se a história abrisse uma porta mágica para o fantástico. Isto é uma sutileza difícil de conseguir, principalmente quando a história tem tantos elementos fáceis de a criança criar identificação. Ah, claro… sim, o segredo se espalhou e Manuela e Joana tiveram que lidar com uma situação constrangedora, mas surpreendente: típica dos primeiros amores!

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O que eu acho que colabora demais nesta edição é a criativa ilustração e projeto gráfico. O traço de Anuska, prioritariamente feito a lápis, aproxima a criança, sem infantilizá-la. É divertido e de bom gosto e, além disso, recursos gráficos fazem algumas palavras e frases também serem escritas a lápis, marcando ênfase e humor à narrativa e fortalecendo o tom fantasioso.

Sim, por trás da diversão, uma discussão ética, por que não, já revisitada em diversos livros, filmes etc: quanto vale guardar um segredo? Das coisas que a gente começa a ser testado desde criança… e não para mais.

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Segredos (Ed. Moderna)

textos de Ilan Brenman

ilustrações de Anuska Allepuz

2014

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