EXPO CASTELO RÁ-TIM-BUM: POR QUE (REALMENTE) IR

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Não aceite a correria que normalmente envolve uma visita à exposição: tente, o máximo que puder, explorar este Castelo com calma para degustar detalhes e entender por que este é um momento histórico

fotos Site TV Cultura/Cmais

 
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Você deve estar se perguntando: um fã do programa Castelo Rá-Tim-Bum lá precisa de mais razões para ir à exposição, que fica no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo, até dia 16 de novembro? (sim, ela foi prorrogada!) Fotos estão pela rede, sejam em sites jornalísticos, de roteiros culturais, ou as milhares de selfies nas redes sociais. Filas todos os dias, dicas de quem já foi ou até mesmo do Museu (veja no final deste post) precisaram ser elaboradas para ajudar. Está em todo o lugar a qualidade, a beleza, o “tudo-igualziiiiinho” ao cenário do programa mais importante para criança da televisão brasileira, que foi ao ar pela TV Cultura de 1994 a 1997.

Mas convido a vocês a visitarem a exposição pela oportunidade incrível de se orgulhar e repensar a programação de TV para crianças – e, de quebra, repensar também tudo que é produzido em nome delas. Cada detalhe das salas, cada curva, cada centímetro deste Castelo merece um olhar de deslumbramento. Deslumbramento pela qualidade do cenário, dos figurinos e, principalmente, das atuações e do fabuloso roteiro que sabiamente colocou em pé de igualdade educação e entretenimento. Tão, mas tão bem casados que o espectador “aprendia enquanto se divertia” e isso não era mero discurso de marketing. Junto a isso, uma preocupação estética, que pulsa em cada detalhe do caráter inovador da série. Era real, genuíno, suado, pensado, planejado. Até porque, sabe-se que cada um da equipe também aprendia e se divertia junto. Sob a maestria do diretor Cao Hamburger, Nino, Biba, Pedro, Zeca, Dr Victor, Morgana, Celeste, Mau, Godofredo, Gato Pintato, Tíbio, Perônio e tantos outros personagens marcaram e marcam infâncias. É O projeto pelo próprio projeto e não com olho em retorno financeiro ou premiações. E que, ainda bem, carrega em sua história o título de ser o programa de maior sucesso veiculado por uma emissora pública brasileira. Quem tem coragem hoje de criar algo para crianças na TV com esta mesma força? Será que vai acontecer de novo?

 

Uma das formas para sentir isso é parar o impulso de seguir simplesmente uma exploração frenética da mostra e ler as placas explicativas que contêm curiosidades e detalhes sobre determinado ambiente ou personagem. Tudo começa, claro, pela inesquecível entrada do Castelo e o Porteiro que, originalmente, está ali para preservar o lugar. Mas, na exposição, pode não ser assim tão difícil ouvir o “KLIFT, KLOFT, STILL: A PORTA SE ABRIU”! Pronto, é o que você precisa para começar a viagem. A primeira sala contém pura história, daquela que poderia seguir com H maiúsculo. Primeiro, fotos com a construção dos cenários, etc; depois, o vídeo de abertura, seguido por um quadro com os programas históricos da TV Cultura que de alguma forma de se ligam à criação do Castelo; subindo alguns degraus, o visitante pode conferir memorandos, cartas, roteiros e curiosidades do programa. Deste lugar já é possível ver um perfeito anfitrião: um Nino olográfico que nos avisa sobre o que pode acontecer adiante, muito bem acompanhado do Relógio (réplica e original).

A produção da exposição tomou o cuidado de em cada espaço manter de alguma forma criativa cenas de episódios em miniTVs, para a lembrança de uns e a contextualização da série, para outros. A primeira sala é a biblioteca.

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Quem guarda aquela imensidão variada de livros e histórias é o Gato Pintado, claro. Ele conversa com os visitantes e não só ele: é possível ouvir dos próprios livros indicações do que ler, uma brincadeira com a réplica do local das leituras do Castelo. Uma curva à esquerda nos leva à colorida e inventiva sala dos cientistas Tíbio e Perônio. É bem pequenina, mas divertida. Logo ao lado, a poderosa Oficina do Dr. Victor, o lugar em que nascem as invenções do feiticeiro de 3 mil anos! Além do figurino original vestido pelo ator Sérgio Mamberti, também os adoráveis Tap Flap, as botas antigas enfeitiçadas. A saída da sala, no entanto, é a parte levemente nojenta do local: o encanamento onde vivem Mau e Godofredo. O espaço bem apertado é perfeito para causar a angústia de se viver em um cano – com direito a efeitos visuais de provocar arrepios!

A seguir, a Sala de Música e a Sala da Lareira. Tudo em tamanho real, a viagem pelo programa é clara e os visitantes vão se apertando para tocar o que podem, sentar no sofá verde, ou pedalar na Pianola, uma das engenhocas do Dr. Victor. A grande expectativa, claro, é conhecer a árvore e Celeste, a cobra “dona” do local. Antes, porém, é hora de entrar em uma miniviagem maluca para conhecer o traje de Etevaldo; depois, conferir as perguntas de Zeca e as respostas de Telekid, o personagem vivido por Marcelo Tas. Assim, é hora de atingir, o digamos, coração do Castelo: do lado direito, a cozinha e o jardim; do esquerdo, o saguão e a árvore centenária com a geniosa Celeste (campeã das fotos com os visitantes). Ali mesmo, o quarto de quadrinhos do Nino, o Ratinho, os figurinos das crianças e da repórter-rosa Penélope, uma linda escada encaminha para o final da exposição. Subindo, é hora de entrar no quarto da bruxa Morgana e conhecer Adelaide, a gralha fiel e zeladora. Falta pouco: é hora do Ninho e o “Passarinho, que som é esse?”, seguido pelo Lustre, um dos locais que mais me impressionou: entrar, andar, sentar, tudo exatamente como eu sempre pensei que pudesse ser. Ou nem imaginava! Tudo se finda com a ambientação para o figurino do Dr Abobrinha, que sempre tentou transformar o Castelo em um prédio de 100 andares!

Mas eu ainda quero falar de um pequeno corredor, bem no meio da viagem, que merece, e muito, a atenção de nós, sim, principalmente os adultos. É uma sala com grandes televisores e fones de ouvido acoplados que nos convidam a depoimentos emocionantes da equipe. Leva tempo, mas vale a pena. É uma pausa neste mundo mágico e ouvi-los dentro do Castelo faz toda a diferença. Eles contam histórias emocionantes, engraçadas curiosas. Uma das frases que mais surpreendeu foi de Mamberti. “Se tem alguma coisa que vai ficar desta minha passagem por aqui é o Dr. Vitor do Castelo Rá-Tim-Bum.” Imagine, esta frase é de um dos mais importantes atores brasileiros. É ali, no Castelo, que ele sabe que deixará um legado. Cássio Scapin, o Nino, conta sobre o desafio de ser um adulto interpretando uma criança. Revela ali que não tinha tanta experiência com criança quando se viu na situação de ter que contracenar com três! “Elas tinham a espontaneidade e eu tinha que inventar um jeito para poder estar no mesmo patamar de espontaneidade e de ingenuidade delas. Parti para o ataque e ali eu era mais criança do que elas”, relembra rindo. Da parte dos bonecos (minha grande paixão), é Fernando Gomes (Gato Pintado e Relógio) e Álvaro Petersen (Godofredo e Celeste) quem revelam os bastidores. Álvaro conta que o Castelo foi um marco para os manipuladores de bonecos. “A partir dali surgiu um produto do boneco brasileiro. Descobrimos qual o nosso jeito de fazer. É uma referência.”

Esta foi a minha segunda visita à exposição e nas duas fui acompanhada das minhas sobrinhas. Mayara, 24 anos, ficou emocionada com os detalhes tão fiéis e nas tantas possibilidade se “sentir” o Castelo, devido às experiências sensoriais. Nesta primeira vez também estava a minha filha Clarice, de 2 anos, que nunca havia visto nada sobre o Castelo, mas que se divertiu, e viveu a exposição como se visitasse a casa de alguém conhecido. Até hoje, se ela vê uma foto nossa lá, repete entusiasmada: “Castelo Ratimbuuum!”. A segunda visita foi só com minha sobrinha Beatriz, 21 anos. Ela ficou felicíssima, claro, e assumiu que os detalhes fogem de suas lembranças, mas a sensação de ser um lugar que ela amava “ir” é forte como nunca. Ilustra bem o que produções podem causar na infância: este conforto de aprendizado, diversão, senso estético, de relações, de história. Do alto da escada, vendo a árvore de cima, um dos ápices da exposição, ela me disse: “isso tudo tinha que ficar para sempre aqui”.

Pois é, este é o por que de visitarmos a exposição. É nosso compromisso com a memória. A nossa memória. Brasileira, inclusive. É assim que vamos continuar exigindo boas produções para crianças, porque já nos foi provado que é possível ter qualidade artística e audiência ao mesmo tempo. Vá como uma homenagem a quem valoriza infâncias. Não haverá motivo melhor.

Veja aqui um vídeo produzido pelo site da TV Cultura no dia da abertura da exposição (que, por coincidência, eu apareço lá com um depoimento, rsrs!)

Agora, relembre aqui o primeiro episódio!

 

Castelo Rá-Tim-Bum – A Exposição


Onde: Museu da Imagem e do Som (MIS) – Av. Europa, 158, Jardim Europa, São Paulo (SP)

Até quando: 16 de novembro de 2014

Terças e sextas, das 12h às 21h30; sábados, das 10h às 22h; domingos e feriados, das 10h às 20h.

Sobre ingressos veja aqui as Dicas do MIS 

 

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