Cara Carlota Cornelius

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CARACARLOTAILUSTRA

Um mundo e uma vida com desigualdades e injustiças podem sempre nos levar para dois caminhos: o da entrega, em que você desiste de lutar e aceita o “inevitável”; ou o da esperança, em que você aceita sonhar. Quando comecei a folhear o livro Cara Carlota Cornelius (Ed. WMF Martins Fontes), escrito pela holandesa Mathilde Stein e ilustrado pelo também holandês Chuck Groenink, sinceramente, não foi esse o sentimento que me veio de cara. Sem ler a contracapa – um vício terrível que tenho nos livros infantis, rs – embarquei na história da menina que vê um envelope endereçado a ela no chão em frente à porta, ao mesmo tempo em que ouve uma voz impaciente gritando com ela de dentro da casa.

Carlota só escuta pela metade. Com o coração aos pulos, pega o envelope. Quem terá escrito para ela?

A primeira ilustração já é um impacto de beleza. Ocupa as duas páginas, mostra o interior da casa, a menina com frio na barriga de ansiedade, a rua. A rua leve, arborizada, cheia de caminhos. A seguir, os autores nos convidam a uma viagem de possibilidades. A cada dupla de páginas, a menina sonha um contexto diferente e, acompanhada de criativas ilustrações, uma carta sempre personificada à situação, com detalhes curiosos, engraçados, precisos com a brincadeira de imaginar correspondente. A primeira dupla-pensamento da menina contém uma carta de um dono de circo: é a protagonista sonhando que foi convidada a fazer parte de uma maravilhosa trupe.

CARACARLOTRILUSTRAXEQUE

Na segunda, ela imagina uma carta de amor de um xeque que promete deixar seu harém por ela. E por aí, vai, o deleite de criatividade é de vocês! Tem até carta, digamos, do outro mundo! Mas em cada uma delas, sutilezas da “vida real”. É nelas que devemos prestar atenção.

No decorrer, cores, sombras em um delicado desenho em um projeto gráfico casando bem texto e imagem. Mas tão bem que, no final, a grande reviravolta, o leitor está apto a embarcar com a menina na vida que está por vir. E acolhemos a pergunta: será que temos esta força para mudar? Ou, melhor: para desejar mudar?

CARACARLOTACAPA

Cara Carlota Cornelius (Ed. WMF Martins Fontes)
texto de Mathilde Stein

ilustrações de Chuck Groenink

tradução de Patricia Broers Lehmann

2014

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