O Paraíso São Os Outros, de Valter Hugo Mãe

2110

Desde criança sempre amei histórias do tipo “como vocês se conheceram?”. De amizade, claro, mas de casais mais ainda. De como começam as histórias de amor. O escritor angolano Valter Hugo Mãe, um dos mestres de nossa língua portuguesa, fez um livro exatamente para esta minha curiosidade. Em O Paraíso São Os Outros, uma menina elabora observações sobre a vida a dois. Só que isso pelos dedos de um bom escritor se torna muito mais do que pensamentos. Lembrando Manoel de Barros: vira “matéria de poesia”.

Os casais são criados por causa do amor. Eu estou sempre à espera de entender melhor o que é. Sei que é algo como gostar tanto que dá vontade de grudar. Ficar agarrado, não fazer nada longe. Os casais são isso: gente muito perto.

Mas o livro puxou mais ainda da minha memória, ao ser fruto de uma narrativa a partir de fotos antigas de casamento, daquelas que eu sempre amei ver no álbum dos meus pais, daquelas em que há dedicatórias a parentes. Como esta aqui:

PARAISORIEstas pedras coloridas compondo as imagens são obra do artista plástico paulistano Nino Cais. Em visita ao amigo, Valter se deparou com as manipulações das fotos, e foi o salto para a menina-pensadeira sair da cabeça criativa do escritor para o papel. Daí o livro ser criado em parceria, com uma sucessão de reflexões sobre vários tipos de casais – de animais, inclusive –, em várias etapas da vida, sempre colocando-nos a pensar como se juntam pessoas. E, como não poderia ser diferente, tudo inserido em um projeto gráfico que casa com o tema nas fontes das letras, molduras nas páginas e textura do papel.

Os adultos apaixonam-se ao acaso, ainda que façam um esforço para escolher muito ou com muita inteligência. Já aprendi. O amor é um sentimento que não obedece sem se garante. Precisa de sorte e, depois, empenho.

Ao mesmo tempo em que reconhecemos uma garota no jeito de expressar as dúvidas, a riqueza dos termos e da dança das palavras se dá na sofisticação esperada para quem já é leitor de Mãe, ou surpreende para quem é iniciante: é o primeiro infantojuvenil dele lançado aqui, feito da editora Cosac Naify (só depois foi lançado em Portugal), que tem outros do autor em seu catálogo. No meio do livro, a inspiração fica clara:

Descubro cada vez mais que o paraíso são os outros. Vi num livro para adultos.

O autor mesmo conta que este livro surge depois de escrever o romance A Desumanização (também aqui pela Cosac), em que reflete sobre a popular expressão do filósofo Jean-Paul Sartre, “o inferno são os outros”. No romance, uma menina vive as dores e as angústias da morte de sua irmã gêmea. O pai, na forma filosófica de conversar que o caracteriza, diz a ela: “o inferno não são os outros. Eles são o paraíso, porque um homem sozinho é apenas um animal. A humanidade começa nos que o rodeiam, e não exatamente em ti. Ser-se pessoa implica a tua mãe, as nossas pessoas, um desconhecido ou a sua expectativa.” (…)

O Paraíso São Os Outros é matéria de poesia para gente pensar todas as relações e que existimos com os outros. Que o amor existe e tudo bem que ele seja buscado, sim. Coisa linda de se falar com criança, jovem, adulto, idoso…

Ps – Dedico o post a Bia Reis, amiga e jornalista, criadora do blog Estante de Letrinhas, e que gentilmente me sugeriu e emprestou este livro. Porque ler com o outro também é presente da vida.

PARAISOSAOOUTROSCAPA

O Paraíso São Os Outros (ed. Cosac Naify)
Texto de Valter Hugo Mãe com obras de Nino Cais
2014

Deixe uma resposta