O CAMINHÃO e mais uma bela viagem de Lúcia Hiratsuka

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Tem sido difícil encontrar tempo aqui para escrever aqui, por boas razões (muito trabalho com cursos e a pós-graduação O Livro para a Infância, n’ A Casa Tombada!). Mas como o prazer é enorme, algo que me faz parar tudo e sentar e começar a digitar. O Caminhão, recente livro da incrível Lúcia Hiratsuka e lançado pela Cortez Editora, me deu motivos! Primeiro, porque a própria autora estava na expectativa de ele ficar pronto e, com  a doçura que é tão particular de Lúcia, fiquei só à espera. Segundo, que algo me dizia que o tema mexeria comigo: o livro se inspirava em lembranças de infância, o que é um desafio importantíssimo para o autor, um desafio de tornar universal o que lhe é particular.

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Lúcia já nos impacta com a capa: três crianças espiam algo por uma cortina (?) e a vontade é de abrir o livro na mesma hora. O que será que elas estão olhando? A dedicatória, um toque na nossa alma: “Para aqueles que carregam o cheiro da terra e as cores de longe. Para as crianças que esperam”. O folhear só aceita delicadezas, vamos descobrindo devagarinho a história sobre Marina e as irmãs que estão à espera de algo chegar de caminhão. A ansiedade do “mãe, falta muito?” vai entremeando com as hipóteses do que é “ser” um caminhão. Depois, por onde ele passaria; mais adiante, que roupa elas vestiriam quando o caminhão chegasse… puxa, mas o que será que este caminhão tem de tão especial?

Histórias. O caminhão tinha suas histórias, a família de Marina tinha suas histórias, Lúcia tinha suas histórias. Todos temos, falamos, podemos. A beleza deste livro é a tamanha sutileza de uma narrativa que poderia ser de todas as crianças ou de cada um de nós. Para Lúcia contar esta história, somos convidados a estar em várias histórias: das perguntas das crianças, dos costumes e cotidiano da família, e das paisagens, ah, as paisagens por onde passam o esperado caminhão.

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O projeto gráfico (em parceria com Debora Barbieri!) emociona: uma dupla de páginas traz a perspectiva das crianças, a espera; a dupla seguinte é o caminhão seguindo sua jornada. Não sabemos onde ele está indo ou chegando, só vemos um mundo inteiro de cenários, como se estivéssemos diante de um filme, de um encontro, de uma diversidade. Da parte com as crianças, o fundo branco nos concentra nos riscos de lápis do delicado traço de Lúcia.

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Da parte com o caminhão, um amarelo-laranja vai nos formando com o olhar por este trajeto que encontra gentes, animais, construções, ventos e chuvas… Esta sequência alternada cria uma conexão com o livro que é impossível deixá-lo sem chegar ao fim. Feito uma espécie de dança, vamos num ritmo de um lado a outro, num balanço poético entre texto e imagem:

O caminhão subiu morro, desceu serra, passou sol, passou chuva, mata escura e muita lama. 

Chegou valente, carregado de caminhos. 

A gente só quer virar e virar e virar e seguir para a próxima parte, seguindo esta viagem até que todos nós – personagens e leitores – descobrimos juntos o final. O final? Quando cheguei nele, tive um riso nervoso: estávamos no livro, no caminhão. Fazemos todos parte desta lembrança.

O Caminhão (Cortez Editora)

de Lúcia Hiratsuka

2017

 

 

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