Livro ilustrado é arte para qualquer parte

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Exposição Linhas de Histórias – O Livro Ilustrado em Sete Autores revela processos de criação de artistas de livros para a infância, coloca em evidência a complexidade destes trabalhos ao mesmo tempo em que questiona: a “inalcançável obra de arte” pode (e deve) estar mais perto do que se imagina

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Ilustrações. Desenhos. Rascunhos. Madeira. Vidro. Histórias. Placas-palavras que nomeiam e guardam ideias, sentimentos, encontros. Livros.

Muitos livros.

Livros dentro de redomas de vidros, feito exposição de arte. Ops! É uma exposição de arte.

De uma arte que é catalogada como “literatura infantojuvenil”. Da que a gente compra em livrarias, empresta na biblioteca, espalha pelos cômodos da casa, lê em sala de aula e presenteia infâncias de todas as idades.

Só que é uma arte-livro. De livro-suporte, objeto, que a gente pega na mão, folheia, cheira. De ler. Ler palavras, ler imagens, ler capa, ler cor, ler traço, ler poesia, ler arte. De conhecer personagens, de entender trama, enredo, voz. Para nos ajudar a ler o mundo. Uma exposição sobre a arte de narrar histórias em livros.

Alguns dos mais incríveis livros ilustrados que temos à nossa disposição estão expostos no Sesc Santo André (SP) até dia 26 de novembro na exposição Linhas de Histórias – O Livro Ilustrado em Sete Autores. Sim, há exemplares numa redoma de vidro, abertos em determinadas e importantes páginas, como uma mediação-arte. Os curadores Odilon Moraes, Fernando Vilela e Stela Barbieri – também grandes mestres artistas com dezenas de livros essenciais às infâncias – nos apresentam como um convite à leitura em tom de investigação, obras de Eva Furnari, Angela Lago, Nelson Cruz, Roger Mello, Renato Moriconi, Andrés Sandoval e Javier Zabala (este último, autor espanhol reconhecidíssimo pelos seus livros, como único estrangeiro da mostra).

Além dos livros e o que eles acham que não podemos deixar de saber em suas páginas, os criadores da exposição oferecem ao visitante um passeio inesquecível pelos processos de criação destes artistas. É mais do que os rascunhos: são caminhos traçados desde as referências (fotografias, pinturas, texturas diversas, poemas) para fazer a obra, até diálogos com clássicos do livro ilustrado no mundo, como Onde Vivem Os Monstros (Maurice Sendak), Fique Longe da Água, Shirley (John Burningham), e A Árvore Generosa (Shel Silverstein). É uma mediação de leitura atrás da outra.

foto de Nosso ABC
foto de Nosso ABC

Entendendo que cada artista tem seu universo bastante particular, os curadores dividiram os homenageados em estações-planetas. Cada um tem sua “cara”, claro. Mas, quando olhamos de longe, vemos a conexão, muito bem costurada pela designer Duda Arruk com construções verticais em madeira, onde é possível ao mesmo tempo ver o particular e o todo de forma impressionante. O visitante entra e sai destes mundos, sempre convidado a espiar o artista vizinho. Nas “pontes”, por exemplo, podemos ter o brasiliense Roger Mello apresentando o mineiro Nelson Cruz:

“É o artista da perspectiva expandida. Nelson reinventa técnicas, sabendo que a narração visual vem antes do simples exercício estilístico. E essa narração precisa ser feita de contradições, para que o leitor seja desafiado plenamente. Nelson entrega ao leitor de todas as idades o melhor de si, sua pesquisa, sua bibliofilia, das entrelinhas ao entretexto”.

Ou saber quem é que mora dentro de cada um deles. A mineira Angela Lago exibe sua relação com o também mineiro Carlos Drummond de Andrade.

“Drummond é dentro de mim”.

Na ponte entre Nelson e ela, vemos referências ao holandês Escher e ao norte-americano Saul Steinberg. Mas, sobre Angela, quem fala é Eva Furnari:

“É uma verdadeira artista. Desbrava versos e imagens. Reinventa tudo sempre. Às vezes, aparece com a delicadeza das minúsculas fadinhas dos bosques. Outras vezes, vem com o punho em riste para falar de injustiças. A alma dela conversa com a minha.”

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O planeta de Angela é um dos mais curiosos para pensarmos na materialidade do objeto: como é uma artista que trabalha com a dobra interna como elemento da narrativa, seus livros estão abertos em 45 graus justamente para que o leitor-visitante-leitor perceba a intenção da autora, que tipo de leitura ela quer nos provocar, característica muitas vezes despercebida em leituras dela de obras como Cenas de Rua e Chiquita Bacana & As Outras Pequetitas. Nunca notou? A exposição é para isso!

Entre Angela e Eva, temos Beatrix Potter e As Aventuras de Pedro Coelho. “Seus coelhos, criados com talento e poesia, espalham imagens de nós mesmos: sentem curiosidade, medo, tensão, buscam aventuras, amor e aconchego”, diz Eva. Já no planeta de Eva, autora italiana que está no Brasil desde muito pequena, painéis com seus personagens lado a lado nos revelam sua capacidade de criar identificações com o leitor a partir do feio, do humor e do nonsense. Não à toa, outro autor da mostra, o paulista Renato Moriconi, define: “Eva Furnari é um dos sinônimos da literatura infantil brasileira”. Do respeito possível e admirável de uma autora com mais de 30 anos de carreira, Eva devolve: “Ele conhece proporções, controla o traço, sabe das cores. Tem um domínio impecável da técnica. Aquarela? Guache? Tinta a óleo? Não conseguimos saber que material usou ou onde está a pincelada. Seus desenhos falam por si, dispensam palavras.”

Os curadores se apropriaram da bela imagem que nos diz que a palavra “planeta” vem do grego “errante”, aquilo que não tem lugar fixo. Como estes artistas e esta exposição, “a característica é a trajetória, não o ponto fixo”, diz Odilon. “Planetas diferentes com atmosfera própria, suas características e suas criaturas, os livros. E que se cruzam: vimos no processo que eles conversavam entre si”, continua.

Para que tudo não perca o sentido principal, no espaço uma biblioteca disponibiliza dos livros vistos nas redomas! Ou seja: obra de arte que podemos folhear! Em outro canto, um vídeo em que podemos ver partes das visitas dos curadores aos ateliês dos artistas!!

Curadores e homenageados todos juntos: Fernando Vilela, Renato Moriconi, Javier Zabala, Odilon Moraes, Andrés Sandoval, Angela Lago, Eva Furnari, Stela Barbieri, Roger Mello e Nelson Cruz (arquivo pessoal Nelson Cruz)
Curadores e homenageados todos juntos: Fernando Vilela, Renato Moriconi, Javier Zabala, Odilon Moraes, Andrés Sandoval, Angela Lago, Eva Furnari, Stela Barbieri, Roger Mello e Nelson Cruz (arquivo pessoal Nelson Cruz)


Tudo que está à mostra nos faz refletir sobre fronteiras e conexões: entre os autores, entre imagens e palavras, entre cidades e países, entre técnicas e invenções, entre o que é e o que não é considerado arte, entre os temas aceitos ou não, entre o que é para criança e o que é para adulto… Estas fronteiras nos dizem o que? E as conexões acontecem por que? Próprio da arte, é “transformação e acontecimento o tempo todo”, como citou Angela na abertura da exposição, em julho passado. Próprio da arte ou próprio da vida. Ou como poderia ser uma e outra: possibilidades de ler o mundo nas suas particularidades e no que temos melhor do coletivo. Nos museus, nas exposições, nos estudos acadêmicos, nas salas de aula, nas estantes de casa. De preferência, sempre em estado de conversa.

EXPOSIÇÃO Linhas de histórias – o livro ilustrado em sete autores

Onde: Sesc Santo André (r. Tamarutaca, 302, Vila Guiomar, Santo André/SP – f: (11) 4469-1200

Quando: até 26/11, terça a sexta, 10h/21h30; sábados, domingos e feriados, 10h/18h30.

Quanto: grátis

 

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