O Caderno da Avó Clara

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Eu não acredito que a gente está na estrada. Não acredito. Eu vou acordar, eu vou acordar, eu vou acordar…

Não acordei. E paramos num posto na estrada. Não vou comer nada, não vou comer, não quero. Não vou comer mais, nunca mais. Minha mãe me olha e eu acho que ela está desesperada. Mas não estava desesperada quando decidiu fazer isso comigo, me abandonar. Viajar para me abandonar. Não é viagem, é um engano, e não existe ninguém para me defender.

“É um engano”. “É um engano”. “É um engano”.

Parece que Mari, a adolescente de O Caderno da Avó Clara nos joga esta sentença o livro inteiro. Primeiro, a angústia de uma viagem que nos é anunciada neste início de livro que eu reproduzi acima. Depois, a narradora-protagonista sugere ao leitor uma comparação a o roteiro de um filme, expostos em cenas, confundindo-nos, colocando-nos no lugar dela, nos sentimentos, na revolta, na raiva. É quando lemos:

Cena 6:

Ela está dando a notícia horrível: “Mari, você vai ter que ficar seis meses com seu pai. Eu não posso levar você. Não tem infra. A bolsa não dá”

A bolsa é de um instituto de pesquisa que a mãe, antropóloga, acaba de conseguir. A viagem é para a Itália. Mari ficará em Brodowski, interior de São Paulo, com um pai desconhecido. Nova escola e novos colegas. Nova cidade. Nova vida.

Como uma típica adolescente, o tempo é só presente. As dificuldades não apontam um fim, muito menos, feliz. Desde o primeiro instante com o pai que ela nunca conviveu, Mari observa detalhes, conclui o que pode e se empenha em uma colcha de retalhos de porquês: a razão dos pais terem um dia se apaixonado, gerado uma filha e viverem separados há tantos anos.

Aos poucos, a menina vai tentando entender quem é aquele homem. Conhecê-lo para conhecer mais a si mesma, como se desvendasse um enigma. Da arrumação do quarto, a menina finca seu lugar naquela casa. Até que…

Opa, tem um caderno aqui atravancando no fundo. Capa dura. Cadê aquele pano? Pronto, agora está limpo. Caderno de Clara. Clara, mãe do meu pai? Deve ser… Está todo escrito à mão. Folheio um pouco até perceber que é um caderno de histórias. Estou mesmo cansada, vou parar e dar uma olhada. Tem uns versos também, logo no começo: Conde Daros. O que será? Vou ler.

Ah, pronto. É aí que você tem certeza que tudo que se revelou “típico” de um livro dito como “infantojuvenil” é só pretexto. O que a escritora Susana Ventura quer mesmo é nos levar a uma viagem no tempo. No tempo em que as histórias nos fascinam, nos faz ler com a alma e o coração. Ora, mas este tempo não seria todo ele, o de sempre? O que importa é que está feito. Está feito o convite à leitura! A outras e outras. Como se Susana nos soprasse aos ouvidos: “vem”.

Assim que Mari encontra o caderno, o projeto gráfico do livro se transforma: temos uma página pautada e, nas linhas, uma letra cursiva. Um poema português segue narrando um conto. Somos, então, dois leitores.

História estranha aquela do Conde Daros. Dei uma olhada na internet e descobri que é bem antiga, foi escrita em Portugal no século XIX. Mas era muito mais velha e aparece também no Nordeste do Brasil. Achei um vídeo de Ariano Suassuna no Youtube contando a história quase do jeito que a Clara colocou no caderno.

É assim que sentimos vontade de não mais largar as mãos de Mari nesta viagem. Com ela, nos envolvemos num tecido de descobertas literárias que costura as revelações da menina sobre sua própria história de vida. O caderno da avó parece encontrar a menina de maneira aleatória: mas sabemos que nenhum tipo de literatura nos chega à toa. Não seria diferente com Mari.

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As belas ilustrações de Carla Irusta aparecem em menor quantidade, condizendo com uma leitura com mais texto-palavra do que texto-imagem. Ela consegue, assim como as costuras com as imagens poéticas do caderno, criar ambientes e referências acolhedoras, assentando o conforto da leitura – ou aventura – vivida.

Como nós, a menina não rejeita origem nem forma literária.

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Tem história indígena, conto popular argentino, poema. Reis, rainhas, princesas, animais, amor, traição, esperança, lealdade. Um espaço com obras de Cândido Portinari compõe um dos cenários da história e nos acolhe em conhecimento e sentidos. Vemos Mari estabelecer com a avó uma relação intensa de vida, mesmo que seja após sua morte. Vemos um pai que vai tomando novos contornos de afeto para a menina. Vemos nós conhecendo tramas e personagens marcantes, nos envolvendo com versões de histórias já conhecidas, degustando as interpretações de Mari. É assistir aos efeitos da boa literatura na vida de alguém. E, quando menos percebemos, somos nós a nos entregar ao poder (destas) das boas histórias.

O Caderno da Avó Clara (Ed. Sesi-SP)

Textos de Susana Ventura

Ilustrações de Carla Irustra

2016

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