Muppets 2 – Procurados e Amados

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Há alguns anos, um estudo com crianças no Canadá avaliou que elas conseguem entender ironia a partir dos 4 anos de idade. Ou seja, é possível que, já tão cedo a criança possa perceber algum tipo de sarcasmo ou uma piada escondida nas entrelinhas. As criações do norte-americano Jim HensonMuppets, Vila Sésamo e as obras que ainda são produzidas pela Sesame Workshop, mesmo após a morte dele, em 1990 – usam e abusam desta figura de linguagem. A mais nova grande produção da turma, em parceria com a Disney e que acaba de chegar aos cinemas brasileiros, mostra que a ideia é manter esta características, para a sorte dos novos espectadores e deleite dos antigos fãs. Muppets 2 – Procurados e Amados prova que a gente sempre, sempre pode exigir um pouco mais do poder de perspicácia do espectador.

 

Adoro os Muppets desde criança. Assistia ao Muppet Show feliz da vida, sabia os nomes dos personagens, morria de rir, curtia os musicais. A paixão nunca terminou e assim fui acompanhando os discípulos brasileiros em programas como Bambalalão e Cocoricó. Sabemos que “manipulação de bonecos” depende do artista e de um roteiro interessante. Que isso acontece também em grupos de teatro ou propagandas de televisão. Nada demais. Mas não estou falando do “meio” e sim da maneira de manipular bonecos e da construção de personagens e histórias. Este foi o legado deixado pelo norte-americano Henson, que fez seus primeiros bonecos para um programa de TV em 1955, com Sam and Friends (veja vídeos abaixo!), onde já aparecia Kermit, The Frog, ou, aqui no Brasil, Caco O Sapo, e que foi ao ar até 1961. Em 1969, ele criou a Sesame Street (aqui duas vezes adaptado como Vila Sésamo e um dos maiores sucessos de TV para criança no mundo) e ainda é produzido nos Estados Unidos e outros vários países. O Muppet Show foi estreado em 1976 e saiu do ar em 1981 e os direitos dos personagens estão com a Disney desde 2004.

 

Apostando na capacidade de interpretação da criança, a ordem é tirar um sarro do que for possível. Até mesmo quando a intenção é claramente educativa, sempre vai ter algo a surpreender o espectador, uma pitadinha de sátira. Esta fina ironia está em cada desenho dos enredos, uma simplicidade adorável dos personagens que provocam fácil identificação com a criança (tanto a da faixa etária do público-alvo, quanto aquela que mora dentro da gente, rs!). E é este o mote do mais novo filme dos Muppets. Se no primeiro, em 2011, o tema principal era um fã tentando levantar a autoestima dos artistas comandandos por Kermit, neste eles estão tão, mas tão confiantes que são facilmente enganados por uma dupla de bandidos. Os primeiros minutos do longa já dizem tudo: é uma emenda com as últimas cenas do primeiro filme, que termina epicamente em um típico musical de Hollywood. Só que, uma vez acabada a história, os atores-bonecos se vêem na missão de criar sozinhos um motivo para uma sequência.

 

Vale lembrar que, neste mundo de Vila Sésamo e cia, humanos convivem com bonecos na maior naturalidade. Em busca de decolar mais uma vez a carreira e apresentar seus “talentos” em suas comédias musicais, os Muppets se associam, então  a Dominic Badguy (brincando com o significado “cara malvado”), interpretado por Rick Gervais, que fecha com eles um contrato de empresário e promete uma turnê por grandes teatros da Europa. Só que, o que os ingênuos bonecos não sabem é que o Dominic está concomunado com Constantine, o sapo mais perigoso do mundo. Fisicamente, este sapo é idêntico a Kermit, diferenciando-se apenas por uma verruga preta no rosto. Ele é tão perigoso que está detido em uma prisão de segurança máxima na Sibéria. Lá, ele arma uma fuga e, com a ajuda do comparsa, troca de identidade com Kermit, que vai preso no lugar do bandido.
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Confusão iniciada, os colegas não percebem o impostor entre eles, por mais que ele tenham um sotaque russo e pouquíssimo traquejo no trato com os “artistas”. Somente Walter (que no primeiro filme conhecemos como o fã número 1 dos Muppets) desconfia e assim parte para uma investigação. Até isso acontecer, vimos de tudo: plateias lotadas mas entediadas assistindo a números musicais bizarros, enquanto a dupla de bandidos rouba peças valiosas de museus em Madrid, Paris, Dublin e outras cidades com o objetivo de chegar às joias da coroa britânica. Isso sempre costurado a participações especiais, uma marca do Muppet Show, de Lady Gaga a Celine Dión, passando por Ray Liotta e Tina Fey, que interpreta a diretora da prisão siberiana. Como Jim Henson criou uma espécie de pacto pela “não vergonha”, todas estas participações de atores e atrizes se dão com bastante liberdade, passando a ideia de que ninguém ali está preocupado em se passar por ridículo e, sim, fatalmente todos estão. E as canções ajudam com sua assumida e exagerada cafonice.

Há quem diga que é “fórmula ultrapassada”. Mas como me divirto com isso há 40 anos, ainda dou bastante risada e achei esta sequência mais criativa do que o primeiro filme. E de certa forma mais complexa, pois há muitas mudanças de cenário e ainda a trama policial costurando tudo, exigindo mais atenção dos mais novos. Acredito que os bonecos de Henson existem para isso: para nos ensinar letras, números, noções de perto e longe, cores, desenhar e o que é um animal de estimação (Garibaldo/Big Bird, Elmo, Ênio, Beto); para nos mostrar a diversidade de formas de viver no mundo (Grover); para nos entreter (Caco/Kermit, Miss Piggy, Fozzie, Animal) mas, acima de tudo, para nos mostrar o quanto é importante não nos levarmos tão a sério.

 

Para quem quiser conferir os vídeos, fiz uma seleção aqui para nos divertirmos!

 

Primeiro, dois de Sam and Friends, o começo de tudo:

e


Quem quer lembrar um pouco do Muppet Show?

Aqui vai a entrada:


Uma característica maravilhosa era a diversidade das participações especiais, como Alice Cooper, genial:

 

ou Elton John:

 

Aqui uma reportagem que mostra como o show de talentos dos Muppets era uma confusão sem fim, principalmente quando a porca Piggy morria de ciúmes das convidadas mulheres. E claramente vemos a não preocupação com o politicamente correto. Afinal, a atração era para a família toda!

 

Há também esta entrevista de Caco e Animal

 

E do Vila Sésamo brasileiro dos anos 70 e a dupla de amigos Ênio e Beto:

 

E do Elmo, hoje o mais conhecido personagem da Sesame Street no mundo (e pelo qual minha filha Clarice, de 2 anos, está completamente apaixonada…)


Aqui o trailer do primeiro, de 2011

 

e do que está em cartaz agora:

Não percam!


Muppets 2 – Procurados e Amados (Disney)
direção de James Bobin
2014

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