Gilles Eduar entre números e muitas histórias

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Adoro livros em que o mote principal é ensinar números – geralmente do 1 ao 10. Há dezenas nas livrarias e, por aparentemente apresentarem a mesma coisa, fico fascinada quando a criatividade é levada a sério e resulta em um produto surpreendente.

GILLES-TRALALACAPA

Foi assim com Tralala Train Train. Não conhece? Pois é, infelizmente aqui no Brasil pouca gente sabe deste livro. Isto porque o ilustrador Gilles Eduar lançou-o na França, em 2007. E somente lá, pelo menos por enquanto!

Conheci o livro em um curso com os mestres Fernando Vilela e Odilon Moraes, no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo. Foi paixão à primeira vista. Fiquei dois anos tentando comprá-lo, até que um ficou disponível na Amazon e chegou aqui em casa há alguns meses! Ele nos dá números de 1 a 10, animais diversos e divertidos, uma festa a imaginar e um formato adorável: ele é sanfonado. Mas, calma, não é só isso: é um livro que vai e volta: de um lado o trem vai; do outro, volta. Mas também não é só isso.

Fiz um vídeo para me ajudar a explicar. Gilles abre a história nos mostrando o trem chegando a um casamento. Como maquinista, uma toupeira. Os dois noivos são hipopótamos. O bolo está aos cuidados de cinco porcos. E por aí vai, até chegar ao dez. Quando a última página chega, começamos a leitura novamente, só que de um outro jeito: os animais contados não estão mais juntos – seria uma ressaca?? – e o desafio ao leitor é descobrir se todos estão voltando para casa!

 

Com vocês, um pouco do francês Tralala Train Train:

 

Gilles Eduar em evento de 30 melhores livros infantis revista CrescerMas por que ele está somente na França? Para quem não conhece a história de Gilles, vou contar um pouquinho aqui e, na entrevista a seguir, ele conta melhor. Gilles nasceu em São Paulo, mas seus pais são franceses e então ele viveu na França por muitos anos. Foi justamente lá, vocês verão como abaixo, que ele começou a escrever e ilustrar livros infantis. Ele tem 15 livros publicados lá e traduzidos para outros idiomas. Aqui no Brasil são mais 15 como autor e outros como tantos ilustrador! Bem, antes deste caminho, no entanto, houve uma clarineta, um sax… e um grupo que é minha referência de música e performance nos anos 80 (santa coincidência!): o Luni, que tinha também no grupo outros artistas incríveis como Marisa Orth e Théo Werneck. Ilustrador, escritor e músico, vejam só!

 

 

 

O Tralala Train Train foi a minha desculpa para esta entrevista porém, até ela acontecer, chegou também por aqui o livro E Agora, Papagaio?, lançado pela Jujuba.

 

GILLES-EAGORA-CAPA

E, para a minha alegria, também é um livro 1 a 10, com animais (grande paixão de Gilles) e cores vivas como poucos. Tudo começa com um menino e uma bicicleta. O garoto pergunta: “o que você está vendo, papagaio?”. E o bicho responde: “Vejo 1 chapéu caindo do céu”. E o chapéu vai para a cabeça do menino. “E agora, papagaio?”, ele continua. “Vejo 2 macaquinhos a mil, lavando roupa no rio”. E, vuuupt: empuleiram-se os dois macacos na bicicleta. E assim o menino vai repetindo a pergunta e as respostas interferindo nesta incrível viagem-nonsense! Corram para conferir!

Agora, com vocês, um pouquinho do simpático Gilles Eduar:

ESCONDERIJOS DO TEMPO: Qual é a história por trás de Tralala?

GILLES EDUAR: Quando morava na França (na década de 90) sempre quis fazer um livro com números, mas foi só em 2005, de volta ao Brasil é que tive a ideia de apresentar este projeto, um trem com 10 vagões, um livro que só podia ser sanfonado, óbvio!

ESCONDERIJOS: Um óbvio bom, daqueles que a gente pensa: “mas é claro que teria que existir um livro de trem, sanfonado e com números!”…

GILLES: Sim! Optei por contar uma história e acho que isso é o bacana. Dois hipopótamos num trem vão se casar. Todos os convidados seguem neste mesmo trem. Esta é a história. O mesmo aconteceu com o livro com Espetáculo de Números, que lancei pela Ática, uma  história de pulgas e cães que nos ensinam sobre matemática, leitura de mapas, tabelas, gráficos…

ESCONDERIJOS: Então primeiro veio a ideia de fazer um livro sanfonado, depois de trem…

GILLES: E junto veio a ideia dos números. E, como eu queria contar uma história, pensei no casamento. E para ser ainda mais divertido, pensei que na parte de trás das páginas, mostraria a volta, com todos fora do lugar. O desafio para o leitor seria contar, ver se todo mundo voltou mesmo da festa. Pensei em pais e filhos, juntos, contando, procurando os bichos, conferindo se todos voltaram…

ESCONDERIJOS: E você teve a ideia do livro todo?

GILLES: Sim, mas as editoras francesas têm muita experiência com projeto gráfico, é uma delícia. E foi da editora a ideia do fecho, tudo bem pensado.

ESCONDERIJOS: Quanto tempo levou para fazer?

GILLES: Normalmente da ideia anotada no papel até o livro ser publicado pode levar anos. Mas para desenhar, e pintar o livro no papel, posso levar um mês e meio. Foi mais ou menos assim com este. Foi o primeiro livro com números que consegui publicar, mas meu primeiro projeto deste tema foi o que lancei este ano com a Jujuba.

ESCONDERIJOS: Então o E agora, Papapagaio? é anterior ao Tralala?

GILLES: Sim, a ideia é. Pensei nele uns 10 anos antes. No Brasil é muito difícil lançar livros para crianças muito pequenas que ainda não sabem ler. Mas quando apresentei este projeto para a Daniela (Padilha, editora da Jujuba) e ela gostou bastante. Ele estava praticamente pronto. É bom  conviver com livros desde cedo. Antes de 1 ano de idade eu já lia livros para o meu filho , e considero que esse empenho dos pais é fundamental na formação das crianças.

ESCONDERIJOS: E também as escolas apresentam livros mais cedo…

GILLES: Sim, mas acho que não pode ficar somentea cargo das escolas. O hábito da leitura tem que começar em casa, os pais lendo para seus filhos…

ESCONDERIJOS: Gilles, você nasceu em São Paulo, se formou em arquitetura… quando você foi para a França?

GILLES: Na verdade, fui com um amigo para a Espanha. Eu era do Luni (grupo musical dos anos 1980, contemporâneo de Os Mulheres Negras e Nouvelle Cuisine). Em 1990 vendi um velho sax soprano e fui! (risos). Imagine, vendi, e fui para lá com um amigo. Ele fazia mímica na rua, daquelas de seguir as pessoas e eu fazia a sonoplastia no saxofone! Ficamos lá uns quatro meses e de lá fui para a França onde eu tinha família. Lá consegui um emprego  no museu do Louvre onde vendia gravuras. Isso foi em janeiro de 91 quando começou a Guerra do Golfo, Naquele momento os franceses tinham muito medo que explodisse alguma bomba na cidade, que fossem atacados, e o museu ficava vazio. Assim, eu tinha muito tempo livre e, atrás do balcão, desenhava o dia todo ! Até que eu quis sair para tentar outras coisas durante o dia e me sugeriram que eu continuasse trabalhando à noite. Foi aí que comecei a trabalhar na livraria infantil do museu. Lá descobri o universo dos livros infantis e tudo mudou para mim. Fiquei lá um ano e foi um momento decisivo na minha vida. Vi que eu poderia fazer aquilo!

 

Quer lembrar (ou conhecer) o Luni? Dá uma olhada no que eu achei. Primeiro, uma reunião de cenas de apresentações de uma tour em 2002, quando o grupo se reuniu:

Uma apresentação deles no sensacional Boca Livre, programa de bandas ao vivo na TV Cultura. Gilles está de camisa branca:

ou eles na trilha sonora da novela Que Rei Sou Eu?

 

 

GILLES-DJO-CAPAESCONDERIJOS: E a partir daí começou a tentar publicar por lá?GILLES: Sim, apresentei um projeto para a editora Albin Michel e eles aceitaram, fiquei exultante! Aqui no brasil este livro, Djô, saiu pela Martins Fontes em 2003, dez anos depois….

 

 

 

 

 

 

GILLES-ASASCROCODILOCAPAESCONDERIJOS: Você tem quantos livros na França e algum já foi editado aqui?

GILLES: Tenho 15. Sim, dois pela Martins Fontes. O Djô, meu primeiro livro publicado na França, foi refeito aqui, com outros desenhos. O segundo livro, As Asas do Crocodilo, saiu aqui, tal qual a edição original, em 1999.

 

ESCONDERIJOS: E o Tralala, você já pode oferecer aqui?

GILLES: Sim! Já tem editora interessada. Talvez não seja do mesmo jeito, precise de adaptação, mas acredito que vá dar certo, sim.

 

ESCONDERIJOS: E quantos livros você tem aqui?

GILLES: 15 como autor-ilustrador, e uns 10 como ilustrador

ESCONDERIJOS: Às vezes você trabalha apenas como ilustrador…

GILLES: Sim, e não é tão fácil… Mas acho que estou melhorando nisso, pois, com o tempo, fui percebendo cada vez mais que uma boa ilustração é aquela que amplia a história. E você também tem que se permitir isso com textos de outras pessoas: não  colar demais no texto, senão você acaba reduzindo  o potencial dele.

ESCONDERIJOS: Como é trabalhar nestes três aspectos como artista?

GILLES: Na verdade, hoje só trabalho como autor-ilustrador. A música fica em família. Tenho o prazer de compartilhá-la com meu filho que toca piano. Mas, por coincidência, acabo de ser convidado para alguns ensaios… e quem sabe em breve um show …

ESCONDERIJOS: E como você age com o projeto gráfico?

GILLES: Hoje, a tecnologia fez a gente avançar muito em termos de qualidade de imagem, e isso aumentou o nosso trabalho, você sabe até onde uma imagem pode ser trabalhada no computador para ficar melhor, tanto o desenho quanto o projeto do livro como um todo. As vezes há embates com a editora para saber até onde estamos todos dispostos a trabalhar com relação a qualidade do projeto gráfico.

ESCONDERIJOS: Só que hoje, para ter como você quer, é um vai e volta sem fim…

GILLES: Isso, dá trabalho…Um livro tem que ser bom para podermos olhar para ele sem arrependimentos, sempre… não é fácil (risos).

 

ESCONDERIJOS: E você ainda está só no guache, certo?

GILLES: Sim, faço quase tudo no guache. Mas faço retoques no Photoshop.

 

ESCONDERIJOS: E é assumida sua predileção por desenhar animais?

GILLES: Muito! É mais lúdico do que desenhar humanos.

 

ESCONDERIJOS: E seus animais meio que se repetem…

GILLES: Sim, às vezes, principalmente os macacos!

 

ESCONDERIJOS: Para terminar, Gilles, quero saber o que você guarda no seu Esconderijo do Tempo?

GILLES: Olha, desenhar é algo que sempre, sempre fiz. Mas houve um acontecimento fundamental para mim. Foi uma exposição de pintores expressionistas alemães que vi no Museu de Arte Moderna de Paris, em 1994. As cores me impressionaram muito. O uso das cores. Aprendi que cor é algo que você tem que usar e abusar, mas o abusar não é aleatório. E isso foi um marco. Hoje sei que sou um bom colorista. E é muito importante manter contato com o que se faz, se atualizar. É sua chance de se renovar.

ESCONDERIJOS: E a gente fica com a ideia de que vocês, artistas criativos não param nunca de se renovar….

GILLES: Você vai para uma feira como a de Bologna e dá até desânimo de ver tantos livros publicados. Passado esse “back” você descobre muitos livros bacanas, que te alimentam, que renovam sua vontade de fazer melhor, instigando sua criatividade. A gente sempre tem que olhar esta e outras artes. E a cada novo projeto, saber que quer entregar algo realmente especial.

 

 

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