CONVIDADO: BRUNO OKADA EM UM DIA DE PLANETA TANGERINA

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BRUNOOKADAFOTO Convivi com o ilustrador Bruno Okada na Editora Globo, por conta da equipe formada para criar o Mundo do Sítio, rede social voltada para crianças inspirada e com o “poder” de divulgar a obra de Monteiro Lobato no mundo virtual.

Ele trabalhou na nova versão dos personagens do Sítio do Picapau Amarelo (que também aparecem nas animações exibidas na TV). Adora trabalhar em projetos voltados para crianças.

 

 

 

Para quem não sabe, olha a cara da turma no traço de Bruno:

MUNDODOSITIOTODOS

Sempre adorei o cuidado dele com o que fazia, a maturidade e a paixão por desenhar profossionalmente mesmo sendo ainda tão jovem. E, claro, a cada elogio que eu emitia sobre seu desenho, um sorrisão tímido vinha com tudo em forma de agradecimento. E foi com esta gentileza e vontade de aprender que Bruno cursou dois dias de workshop com a ilustradora Yara Kono (no Brasil temos A Ilha, Em Cima Daquela Serra, Eu Só Só Eu com desenhos dela). Paulistana mas residente de Portugal, ela faz parte dos estúdios da editora Planeta Tangerina, conhecida pelo seus ousados projetos na produção de criativos livros-álbum (em que ilustração, projeto gráfico e texto dividem o papel de contar uma história) e eleita na Feira do Livro Infantil de Bologna de 2013 a mais importante editora da Europa.

Neste vídeo, dá para ter uma ótima ideia das produções do grupo:

Parabéns, Planeta Tangerina | Congratulations, Planeta Tangerina from Vera Moutinho on Vimeo.

Hoje designer no Cartoon Network, Bruno foi em busca de compreender o poder da simplicidade.

Convidei-o para escrever a experiência deste encontro aqui para a seção Convidados do Esconderijos, para que a gente possa refletir sobre como estes artistas se influenciam e como a paixão por mudar pode ser o start principal da criatividade.

Conheci o trabalho do Planeta Tangerina há algum tempo, mas fui me apaixonar pra valer mesmo no fim de 2013, quando três integrantes do grupo vieram a São Paulo para uma conversa no Sesc Belenzinho.

O que sempre me encantou nos livros deles foi a simplicidade, tanto nas imagens quanto nas histórias que contavam. A impressão que tenho é que existe sempre um espaço, um respiro, e é nesse vão que a gente reflete sobre a história que está sendo contada.

Pude ver naquele encontro essa simplicidade quando eles falam sobre seus trabalhos. Por exemplo, o João (Gomes de Abreu, escritor de A Ilha) falou da preocupação que tem com o papel escolhido para a impressão dos livros, que vai envelhecer com o tempo e que isso transforma o livro como objeto e a história que ele carrega. Eu, que sou bem chato, teria preguiça de uma história dessas se a ouvisse de outra forma. É comum ouvir histórias de quem trabalha com projetos para crianças carregadas de romantismo e conceitos pedagógicos, cheias de certezas do que a criança gosta, de como a criança pensa. Mas todos os relatos que ouvi naquele dia foram simples, foi tudo muito sincero.

 Por isso, não pensei muito pra me inscrever quando soube do workshop da Yara Kono, ilustradora do estúdio, no Instituto Tomie Othake em São Paulo.

 A proposta da oficina da Yara era criar um mini livro-álbum, nos moldes dos livros do Planeta Tangerina, com o tema trajeto. Poderia ser um trajeto mais literal (o caminho casa-trabalho/trabalho-casa) ou algum trajeto mais subjetivo. Poderíamos explorar o formato e brincar com ele, fazer furos nas páginas, mudar as dimensões, experimentar.

Estava apreensivo pelo pouco tempo que teria pra desenvolver a ideia. No primeiro dia de oficina fiquei bem ansioso por ficar pensando que teria que entregar um livro pronto no dia seguinte e que ele seria avaliado por todos ali e não fui muito produtivo. Ao apresentar minha ideia pra Yara, ela acabou me lembrando do que eu mais gosto dos livros deles. Sugeriu simplificar, quanto mais simples mais forte seria a ideia. O meu trajeto seria então a jornada de uma pizza. Um lado do livro mostraria quem pega o telefone e faz o pedido, o outro a pizzaria recebendo a ligação até que os dois lados se encontram na dupla do meio.

Resolvida a ideia, o próximo chefão do jogo pra mim foi trabalhar a mão. Normalmente desenho a lápis e caneta, mas a ideia de apresentar um trabalho finalizado a mão é sair bastante da minha zona de conforto.

Por sugestão da Yara, resolvi trabalhar com colagem. Tentei não pensar muito e ir fazendo, sem me preocupar com o resultado final, senão ia continuar hiperventilando e correndo em círculos e ia acabar não fazendo nada. Funcionou. Não lembro há quanto tempo não parava e trabalhava com calma, mas a sensação de trabalhar desse jeito mais despretensioso era bem familiar. E é até engraçado como as conclusões que cheguei são óbvias: o processo de recortar e colar “de verdade” é o mesmo que no digital, só que muito mais divertido e… real. A única coisa é que na vida real não tem ctrl+z. E tudo bem!

BRUNOOAKADAPROJETOOFICINAp

Nas seis horas que tivemos para desenvolver o livro, finalizei duas páginas, o que pra mim foi uma conquista. A apresentação dos trabalhos foi a melhor parte. Era uma ideia mais legal que a outra, o resultado foi impressionante. Nesse pouco tempo saíram livros que facilmente seriam publicados.

A troca de experiências foi muito enriquecedora, gostei muito de ouvir o processo de cada um. E é muito curioso ver que da mesma proposta saíram histórias tão distintas: desde a transformação de uma pipoca em cocô até uma história de amizade a distância.

 

Saí do segundo dia de oficina mais leve, mais corajoso e muito inspirado. E venho tentando aplicar essa simplicidade no meu cotidiano, sem pensar muito nas consequências e sem ctrl+z na vida real. E tudo bem.

 

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