Cantigamente

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CANTIGAMENTECAPAPara iniciar este post eu preciso começar falando duas coisas. Primeiro, uma das imagens mais belas que a arte nos propõe a pensar: a rede que tece o nosso repertório. Adoro quando consigo identificar que um livro ou um autor; uma música ou uma banda; um filme ou um diretor/ator; me levou a conhecer outra coisa. Aconteceu assim com Cantigamente, de Leo Cunha e ilustrações de Marilda Castanha e Nelson Cruz. Os três artistas mineiros espalham em poesia delícias da infância (de se viver e de se lembrar). E aí segue meu segundo encanto com este mundo: conhecer um livro pela primeira vez. Originalmente lançado pela Ediouro em 1998, e relançado pela Nova Fronteira em 2012, eu não conhecia esta maravilha. Tomei noção de sua existência na entrevista com o ilustrador Renato Moriconi, que disse que a obra o despertou para a arte de fazer livros para crianças.

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Cantigamente é uma brincadeira com o tempo, o tempo nosso, o tempo da poesia, o tempo de ser criança, de ser adulto. Está dividido em duas partes: a primeira, Cantiga, tem a pintura de Marilda Castanha, com seu traço típico com formas surpreendentes de elementos conhecidos e os pequenos riscos, pontos, ou bolas que ora colorem, ora sombreiam, ora formam eles mesmos uma nova figura. Adoro a sensação de “acabei de fazer, olha” ao ver as ilustras de Marilda, graças ao tom e movimento natural que elas me provocam.

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Neste parte, os poemas usam elementos concretos para nos fazer voar a imaginação:

 

Poeta tem mão de fada.

Quando ele escreve, a caneta

voa que nem borboleta,

vira vareta encantada.

Não é mais caneta, não,

é varinha de condão.

 

ou

 

Lá vem a vizinha

caçando abrigo.

Já chega maluca,

atrás de açúcar,

caneca, cumbuca

e aquela peruca.

 

ou curtinhas como:

 

Sinal do Tempo

 

Em dias de chuva forte,

as bruxas voam de rodo.

 

Na segunda parte, Mente, os desenhos são de Nelson Cruz. Ele usa referências surrealistas com formas, cores, e belíssimas sombras de figuras que reconhecemos, claro, mas que também vemos modificadas, transformadas, amalucadas (pronto para mexer com o olhar da criança).

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É, de alguma forma, também o que garante o humor nos poemas, que, desta vez, oferecem uma mudança na temática e caminham para a filosofia: é agora o poeta Leo Cunha nos sugerindo pensar no “tempo que o tempo tem” e reflexões sobre a sociedade.

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Novidade

Vou te contar, enfim,

uma novidade ao contrário.

O tempo existe, sim.

A lenda

é o calendário.

 

ou

 

Velha burocracia

E agora como disse o

esqueleto burocrata:

são ócios do ofício,

isso não é da minha ossada.

 

São, no entanto, três-em-um. Três artistas com suas particularidades tecendo aqui uma mesma poesia. Uma mesma poesia que envolve o amor pela palavra e pelo desenho; o amor pela liberdade de imaginar e criar.

 

Cantigamente (Ed. Nova Fronteira)

textos de Leo Cunha

ilustrações de Marilda Castanha e Nelson Cruz

1998 e 2012

Dias depois, esta resenha teve uma doce repercussão nas redes sociais. Reproduzo aqui a fala de Nelson Cruz, contando sobre os bastidores do livro, pois é riquíssima para entendermos processo criativo e os caminhos do fazer-livro. 

“Quando eu e Marilda conversamos sobre como transformar os poemas do Leo em livro, consideramos que a ilustração era inspiradora para um livro de três autores e deveríamos harmonizar texto e ilustração. Assim foi feito. Os poemas dialogam com o leitor em plena liberdade sob fundo branco. Soltos. As ilustrações tem ideias próprias harmonizando com o texto e, por outro lado, se soltando dele propondo outras reflexões como na ilustração da página 19, de minha autoria, ou no poema “A árvore de natal” onde Marilda sai da cena criada pelo Leo, onde ele diz “a árvore de natal invadia a decoração moderna da minha sala” e ela cria uma praça de um lugar humilde onde um garoto molha um arbusto imaginando dentro do arbusto um pinheiro de natal. Que bom que um livro de três autores incentivou nosso grande Moriconi. Parabéns, Leo pelos nossos 16 anos.”

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