Birigüi e a aridez-esperança de uma infância

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Na capa, alguém montado em um cavalo olha para algum lugar que não podemos ver: a pessoa está de costas. Abrimos e a guarda-capa nos mantém no universo árido do lápis preto em cima de tons de bege e marrom. Um cacto, um céu que não consigo precisar a cor. Mais uma página e, do lado direito, uma família em uma mesa de jantar. Do outro lado:

– Você vai com a gente amanhã – disse o pai, olhando da cabeceira da mesa. Tomou outra colher de sopa e limpou o bigode com a mão. Estendeu o prato vazio para a mulher.

Ele ainda é muito pequeno – falou a mãe em voz baixa, servindo o marido.

-Passou da hora de ele aprender a caçar, Antônia – insistiu o pai, a voz grave. Esse menino tem de tudo. – Olhou novamente o filho, partiu o pão com as mãos peludas.

-Ele não vai dar conta – caçoou o irmão mais velho, com um risinho.

-Vou sim – disse o pequeno e se encolheu na cadeira.

-Vai deitar, Birigüi, vamos sair cedo – mandou o pai. Tinha os olhos decididos.

O menino se levantou da mesa e, de cabeça baixa, passou o lado do homem.

-Bença.

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Este é o início de Birigüi, história de Maurício Meirelles ilustrada por Odilon Moraes e lançada ano passado pela editora mineira Miguilim. Os textos e imagens em papel kraft parecem um convite à coragem. A coragem de enfrentar algo que sentimos mas não entendemos, à primeira dupla, o que é exatamente. Pensei em Abril Despedaçado, o filme de 2008. Pensei nos livros de Wander Piroli, com suas infâncias de acolhimento mas de muitos desafios.

O progama do dia seguinte era caçar veados. O menino pergunta ao irmão se é atividade perigosa esta. Pode ter onça no caminho. O sono não vem. Ou é sonho? E o menino vai para mais um dia de seu destino. A mãe se despede na varanda.

O pai mostra as espertezas de caçador enquanto o menino deseja ficar na ignorância, só ouvindo latidos. Um dos latidos não tem mais: “Onça é bicho excomungado”. “Que mata sem dó.” Mas aí, Birigüi vê o pai matar um pássaro.

Onça mata por precisão de comer; Pai à toa, por divertimento.

Sem dó.

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A próxima dupla é correria. Em uma fabulosa ilustração-movimento, Odilon nos dá a sensação de estarmos embaixo do cavalo. Somos caça? Caçador? Terra batida? Dá vontade de tocar o livro. E vemos que o tal veado chegou. O destino vai seguindo seus minutos, o menino pula, bate o lombo, pensa, deseja.

O texto continua preciso, claro, forte, de extrema força narrativa que as páginas parecem pesadas: queremos evitar como Birigüi. As ilustrações nos permanece em um misto de infância e sonho, em que destino e esperança se fazem ora contraponto, ora possíveis. Mas é a história que nos espreita, assim como a espingarda.

O destino? Só lendo esta beleza.

“São dois poetas nos alertando claramente para o momento seguinte de uma história que não termina na última página”, diz Nelson Cruz, grande autor mineiro, no posfácio do livro. E ficou sendo.

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Birigüi (Ed. Miguilim)

Textos de Mauricio Meirelles e ilustrações de Odilon Moraes

2016

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