O Mundo Segundo Mafalda

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Uma das frases que mais amo sobre a Mafalda não vem dela, ou da sua família ou amigos, nem tampouco de quem a criou, o genial desenhista argentino Quino. Vem de outro argentino, o escritor Julio Cortázar, que completaria 100 anos em 2014 e um dos grandes inovadores da literatura sul-americana. Diz assim:

 

O que eu penso da Mafalda não importa. Importante mesmo é o que a Mafalda pensa de mim.

 

E é bem por aí. Esta baixinha de boca grande não veio ao mundo só para assistir. Por outro escritor, o italiano Umberto Eco, a gente tem uma pista do porquê. “Se para defini-la usamos o adjetivo ‘constestadora’ não foi para seguirmos a qualquer preço a moda do anticonformismo: Mafalda é realmente uma heroína ‘enraivecida’ que recusa o mundo tal como ele é”. Mas para realmente entender o que se passa com esta atrevida menina, só mesmo lendo todas as tiras que puder (no Brasil é a editora Martins Fontes que traduz a obra). Todas as tiras que começaram a ser publicadas em 1964 e que, para comemorar os 50 anos, ganha a bela exposição O Mundo de Mafalda, que já esteve em Buenos Aires e Córdoba, na Argentina, e agora fica até 28 de fevereiro de 2015 no belíssimo Praça das Artes, no centro de São Paulo.

foto site Catraca Livre
foto site Catraca Livre

 

Um dos pontos mais positivos da mostra é justamente a opção por espalhar as tiras pelos 13 módulos que a compõe. É como se pudéssemos passear pelas cinco décadas somente na experiência original: a leitura. Mas, para nosso deleite, há mais detalhes em curiosidades sobre ela e os outros personagens que a acompanham, objetos que contextualizam as tiras, exibição de animações com a turma, originais, possibilidades de intervenções dos visitantes e oficinas de desenho e criação. Há um espaço com uma espécie de biografia de cada personagem, em que uma belíssima construção gráfica exibe informações e tiras. É totalmente possível mergulhar no universo de Mafalda e Quino sem nunca sequer ter lido uma tira sua – e isso é o que mais vem me agradando em certas exposições, permitindo que o acesso aconteça de fato. Afinal, quem é que vai a uma mostra para se sentir excluído?

Há dois módulos em particular que me emocionaram mais. O primeiro foi o “Os gostos e desgostos de Mafalda”, em que tiras e instalações nos lembram o ódio dela por sopas, e o amor incondicional pelos Beatles. O segundo espaço que dá nó na garganta chama-se “Os Mundos”. Os famosos globos terrestres com quem tanto Mafalda interage nas tiras, aparecem ali como personagens extras e revelando aos visitantes que ninguém consegue ler melhor o planeta e seus habitantes do que ela. Nos revela o Mundo Suicida, o Doente, o Esvaziado, o Apagado… Mesmo por visões um tanto confusas como a tentativa de entender o que raios se passa no Vietnã, Mafalda tem uma lucidez única sobre o quanto nosso mundo está doente.

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E nem está falando de desmatamento ou poluição dos mares. Está falando de cada um de nós que luta não só para sobreviver, mas para conviver. Aos olhos de Mafalda, isso não faz o menor sentido. E, então, ela grita, grita bem alto.

 

As sacadas de Quino sobre como educar os filhos também são um primor, no olhar dos personagens diante das tantas trapalhadas comuns que os pais cometem. Como esta que está ampliada na exposição:

 

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Mas Miguelito é para mim incrível. Sua ingenuidade é tão poética que, depois de conhecê-lo, parece impossível viver sem seus pensamentos.

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Em O Mundo Segundo Mafalda fica aquela agradável sensação dos bons personagens: a gente tem certeza que eles existem de verdade. E se é assim, que Mafalda continue falando muito.

 

O MUNDO SEGUNDO MAFALDA 

Onde: Praça das Artes – Avenida São João, 281 – Centro São Paulo (próximo à Estação São Bento  do Metrô)

diariamente das 09:00 às 20:00

até 28 de fevereiro de 2015

Grátis 

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